Diego Gelmires

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Ilustração de Diego Gelmires numa miniatura do Tombo de Toxosoutos, Galiza.

Diego Gelmires foi um antigo escriba do conde D. Raimundo de Borgonha, senhor da Galiza, que em 1102 foi eleito para arcebispo de Santiago de Compostela.

Foi um dos maiores prelados compostelanos: reformou o cabido, concluiu a catedral iniciada em 1077 pelo seu antecessor, engrandeceu a diocese com bens e privilégios e conseguiu que esta ficasse isenta de Braga e fosse elevada a metrópole pela transferência das dioceses sufragâneas de Mérida para ela (então Mérida ainda era muçulmana).

Sua data e lugar de nascimento não se conhecem, mas parece que nasceu em Santiago entre 1068 e 1070,1 embora a tradição situe seu lugar de nascimento em Catoira, possivelmente porque seu pai, Gelmírio, era o custódio das torres do Oeste. Educou-se na Escola Catedralicia de Compostela e depois na corte de Afonso VI. De volta a Compostela trabalhou na chancelaria do bispo Diego Páez. Em 1092, o conde Raimundo de Borgonha nomeou-o seu notário e secretário e, em 1093, administrador de honra da sé compostelana, cargo que exerceu com acerto até que foi eleito bispo Dalmácio em 1094. À morte deste, em 1095, o clero solicitou ao rei que Gelmires voltasse ao posto de administrador, coisa que fez enquanto a sé esteve vacante. Em 1099 o novo papa Pascoal II autorizou a eleição de um novo bispo. Deste jeito, no tempo em que Gelmires estava em peregrinação para Roma e foi ordenado diácono pelo próprio papa, foi também eleito bispo a 1 de Julho de 1100. A consagração teve lugar em 21 de Abril de 1101.

Roma e Santiago[editar | editar código-fonte]

Superados os receios da auto-proclamação de Santiago como Sé Apostólica na época de Crescônio, Gelmires alcança um fecundo entendimento com Roma. Para isso desprega um trabalho diplomático sem precedentes que inclui sua viagem pessoal ao centro da cristandade ocidental.

Deste jeito, e em que pese à oposição dos bispos de Braga (restaurada por Garcia da Galiza) e Toledo, consegue a categoria de sé metropolitana do Papa Calisto II. Assim, Gelmires passa a obter a dignidade de arcebispo em 1101, ficando sob sua dependência os bispados de Guarda, Lamego e Idanha, nas terras portuguesas e de Salamanca e Zamora no Reino de Leão.

Ao mesmo tempo, o Papa nomeia-o Legado Pontifício para os Reinos de Leão e Galiza (incluídas as terras portuguesas), em virtude do qual convoca sínodos e concílios de enorme repercussão política e religiosa.

A rivalidade com Braga, pela supremacia do espaço eclesiástico galaico-português, levou-o a cometer o latrocínio de importantes relíquias entesouradas na Sede de Braga, de acordo com o relato da História Compostelana. Nomeadamente, organizou o roubo das relíquias dos santos mais venerados em Braga, possivelmente com o fim de eliminar esta cidade como centro de peregrinação que o bispo Pedro aí pretendera criar, e transferir para Compostela a supremacia eclesiástica sobre a antiga província da Galécia.

Gelmires convocou e presidiu em 1124 uma reunião dos bispos dos territórios cristãos peninsulares para tratar de superar as dificuldades que atravessava o reino através da predicação da paz e a aplicação da trégua de Deus, e estabelecendo uma paridade nos benefícios que obteria um morto na luta contra os "violadores da paz" (mouros), a remissão dos pecados, a imagem dos mortos na viagem a Jerusalém, as Cruzadas. Este jeito de entender a separação com os "infiéis ismaelitas" e comum em toda Europa e estabelece uma fronteira religiosa entre os reinos cristãos, dos quais vários formam o Reino da Espanha (seguindo a História Compostelana) e os mais reinos europeus.

Defesa de Afonso VII[editar | editar código-fonte]

Após o encarceramento do rei Garcia da Galiza, Afonso VI de Leão cedeu o Reino da Galiza ao conde Raimundo de Borgonha, casado com a sua filha Urraca. Filho de ambos era Afonso Raimúndez a quem o testamento do rei garantia os direitos sobre Galiza caso de que Urraca, já viúva, voltara a casar. Não deve esquecer-se que Afonso Raimúndez era sobrinho do Papa Calisto II.

Urraca casou com Afonso I de Aragão e Navarra, que se fez dono de Castela e Leão. Ante esta situação, o líder da nobreza galega Pedro Froilaz de Trava apoiou os direitos do filho de Urraca, Afonso, e Gelmires num primeiro momento aliou-se com o inimigo dos Trava, Airas Pérez aliado de Urraca, mas no transcurso de 1110 Gelmires achegou-se a Pedro Froilaz. Em 17 de Setembro de 1111, Gelmires na presença de Pedro Froilaz coroou o menino Afonso Reimundez como rei da Galiza, com o fim de garantir seus direitos sucessórios e manter independente a Galiza do domínio navarro-aragonês.

O conflito degenerou em guerra aberta onde os exércitos de Gelmires e o conde de Trava pugnaram por manter a Galiza fora da órbita de Afonso o Batalhador. As desavenças de Urraca com o seu novo homem acabaram levando a rainha leonesa a congraçar-se com Gelmires e respeitar os direitos do seu filho Afonso, que acabaria sendo Afonso VII de Leão e Castela.

Após sua coroação, Afonso VII nomeou Gelmires capelão e chanceler reais, e continuou solicitando o apóio econômico e político do arcebispo compostelano para seu projeto imperial.

Reorganização do Senhorio das Terras de Santiago[editar | editar código-fonte]

Arco do Paço de Gelmires, em que pese a serem posteriores a ele, possivelmente de tempos de Xoán Arias, e que unem várias estâncias do mesmo permitindo o passo por baixo deles.

O Senhorio de Santiago abrangia as terras entre os montes do Bocelo e as costas Atlânticas, um espaço de poder autônomo sob a soberania prelados de Compostela.

As disputas entre seu antecessor Diego Páez e Afonso VI, geraram um vazio de poder que Gelmires acometeu com acerto.

Favoreceu as peregrinações com o apóio pleno de Roma e a Ordem de Cluny. Reativou o comércio por meio de cunhar moeda própria tal como fizera Diego Páez. Assim mesmo, deu um empurrão à expansão urbana (Rua Nova) e aplicou justiça com energia.

Construiu e organizou uma frota galega para a defesa das costas dos ataques normandos o que manteve na linha às invasões vikings que desapareceram para sempre das costas galegas.

Tentou fazer de Santiago centro da monarquia com o Panteão Real da Catedral de Santiago de Compostela onde se enterraram o pai e a esposa do rei Afonso VII.

Introduziu a reforma gregoriana. A escola da catedral alcançou renome no âmbito continental. Estabeleceu estudos de retórica e dialética, junto aos de gramática. Como se de um monarca se tratara, mandou escrever suas próprias crônicas: a História Compostelana, fonte fundamental para entender as vicissitudes da Espanha medieval.

Mandou erguer igrejas novas como a de Santa Maria de Sar e se construiu um grande paço episcopal (antes erguera outro assediado e destruído pela povoação de Santiago) onde se fez rodear de uma importante Corte ao seu serviço.

Impôs com mão de ferro sua autoridade contra os levantadiços burgueses compostelanos. Estes, num dos seus violentos levantamentos, chegaram a ultrajar na praça pública a rainha Urraca,[desambiguação necessária] e sitiaram o arcebispo e a rainha no seu paço, fugindo ambos no último instante após que os rebeldes acenderam fogo ao paço (não o conhecido em nossos dias se não um anterior situado na atual Praça das Pratarias), feitos estes ocorridos nos anos 1116 e 1117. Só a ajuda das tropas do conde Pedro Froilaz de Trava, permitiu a recuperação do poder sobre a cidade, apesar de que em 1136 já velho e enfermo sofreu um novo ataque ao seu paço.

Referências e Notas

  1. p. 43 do livro de BIGGS, Gordon. Diego Gelmires

Bibliografia[editar | editar código-fonte]

BIGGS, Gordon (1983), Diego Gelmires


Precedido por
Dalmácio
Arcebispo de Compostela - Iria
1100 - 1136
Sucedido por
Pedro Elías