Paleta de Narmer

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A Paleta de Narmer refere-se a uma placa cerimonial egípcia (ou, segundo outros autores, uma base para maquilhagem) com inscrições e relevos representando o acontecimento histórico da unificação do Alto e Baixo Egipto sob o rei Narmer (possivelmente outro nome para Menes ou um antecessor seu) e que data de, aproximadamente, 3100 - 3200 a.C. contendo alguns dos mais antigos hieróglifos actualmente conhecidos.

Encontrando-se entre alguns achados arqueológicos de 1898 descobertos pelo britânico James E. Quibell, aquando da sua escavação em Hieracômpolis (a antiga capital pré-dinastica do Alto Egipto), a peça sobreviveu até aos nossos dias em óptimas condições. O facto de nela se encontrar registado uma figura histórica que pela primeira vez é identificada pelo nome torna-a numa importante peça não só do legado do antigo Egipto como da história universal.

A paleta encontra-se actualmente no Museu do Cairo, Egipto.

Descrição[editar | editar código-fonte]

Face frontal de reprodução exposta no Royal Ontario Museum, Canadá.

O estudo da paleta não está isento de problemas e existem mesmo diferentes abordagens sobre qual seria a sua função. Mas a grande linha temporal que separa a criação da paleta da arte final do antigo Egipto permite, no entanto, observar como muitas das características e elementos se repetem ao longo da sua história possibilitando uma melhor interpretação.

A placa, decorada em baixo-relevo de ambos os lados, é composta por uma única peça de ardósia polida de 64 cm de altura e apresenta uma forma aproximada à de um escudo.

Face anterior[editar | editar código-fonte]

A face anterior encontra-se dividida em quatro níveis. O nível superior, o nível intermédio superior, o nível intermédio inferior e o nível inferior.

A zona superior, que termina numa forma recortada, é similar em ambos os lados e apresenta o nome do rei ( serekh, o antecessor do cartucho que possui o nome do faraó) inscrito entre duas cabeças de bovino (interpretações: vaca - como referência à deusa Hator ou boi – como referência à força do rei). Aqui podem-se já observar diferenças do estilo de representação que tanto caracteriza a arte egípcia das “grandes” dinastias; aqui assume-se ainda a representação frontal do objeto.

A zona intermédia superior apresenta do lado esquerdo Narmer usando a coroa vermelha (deshert) do Baixo Egito e como a figura de maiores dimensões da composição. À esquerda do rei surge o seu portador das sandálias régias sob um símbolo retangular não identificado (o fato de Narmer se encontrar descalço reforça a ideia de que o acontecimento toma lugar num espaço sagrado ou da importante relação com a terra) e à sua direita uma figura (possivelmente um sacerdote) precedendo os porta-estandartes com símbolos da casa real ou das regiões do reino. Do lado direito deste nível encontra-se o destino desta procissão: uma fileira de dez cadáveres decapitados, possivelmente os derrotados da região conquistada. É importante referir que estas figuras são representadas como sendo vistas de cima, o que denota uma preocupação em escolher a vista que melhor se aplica a determinada situação. Os símbolos sobre esta representação poderão significar o nome da nova província fundada.

A zona intermédia inferior apresenta dois animais fantásticos cujos pescoços se entrelaçam formando um círculo no centro da representação. Estes animais são domados por duas figuras totalmente representadas de lado (vista utilizada para figuras de menor importância) e crê-se simbolizarem a união entre o Alto e o Baixo Egito (contradizendo esta teoria estão outras representações idênticas na Mesopotâmia).

A zona inferior reforça uma vez mais a força do rei vencedor pela ilustração de um touro que domina uma figura a seus pés (bastante contorcida relativamente aos cânones egípcios de representação posteriores) e uma muralha na zona superior.

Face posterior[editar | editar código-fonte]

A face posterior encontra-se dividida em 3 níveis. O nível superior, o nível intermédio e o nível inferior.

A zona superior é idêntica à da face anterior.

Face posterior de reprodução exposta no Royal Ontario Museum, Canadá.

A zona intermédia é a de maior destaque desta face e simboliza o poder e a vitória do rei unificador, Narmer, que uma vez mais é representado como a figura de maiores dimensões e que usa, nesta cena, a coroa branca (hedjet) do Alto Egipto e a cauda taurina, peça usada em acontecimentos solenes. Ajoelhado aos seus pés do lado direito está uma figura agarrada pelos cabelos simbolizando o inimigo, a derrota das regiões conquistadas. Ao lado esquerdo do rei, numa posição mais recolhida, está novamente o portador de sandálias. Do lado direito, sobre a cabeça da vítima, surge uma imagem compósita de significado ambíguo (o Deus-falcão Hórus segura uma corda ligada a uma cabeça na base de um conjunto de papiros onde pousa) onde se pode estabelecer a relação entre o faraó e o Deus como diferentes representações da mesma entidade.

A zona inferior apresenta duas figuras contorcidas, muito possivelmente representações do inimigo derrotado.

Convenções[editar | editar código-fonte]

Esta peça tem sem dúvida muitas particularidades próprias do estágio artístico em que se encontra, mas possui também muitos dos elementos que permanecerão imutáveis ao longo de 3500 anos, as convenções de representação.

De um modo geral pode-se dizer que a paleta apresenta já o estilo claro, racional e sintético que tanto caracteriza a arte egípcia posterior, a divisão do espaço em níveis horizontais bem demarcados, a descrição imóvel e solene de um acontecimento importante descrito de modo simbólico (desproporções dimensionais entre figuras de acordo com a sua importância, p. ex.) e legendado por hieróglifos.

Também a representação humana se resume aqui a três possíveis pontos de observação destituídos de volume ou tridimensionalidade: de cima (no caso da fileira de cadáveres), de lado (no caso dos porta-estandartes) e de frente (no caso dos bovinos da zona superior). Na figura do faraó pode-se ver já a representação simultânea de dois pontos de vista diferentes, estilo que permanecerá ao longo da arte egípcia, a Lei da Frontalidade: cabeça e pernas vistas de lado, olhos e ombros vistos de frente.

Ver também[editar | editar código-fonte]

Fontes[editar | editar código-fonte]

Bibliografia[editar | editar código-fonte]

  • HINDLEY, Geoffrey, O Grande Livro da Arte - Tesouros artísticos dos Mundo, Verbo, Lisboa/São Paulo, 1982
  • JANSON, H. W., História da Arte, Fundação Calouste Gulbenkian, Lisboa, 1992, ISBN 972-31-0498-9

Ligações externas[editar | editar código-fonte]