Artemisia Gentileschi

Origem: Wikipédia, a enciclopédia livre.
Ir para: navegação, pesquisa
Artemisia Gentileschi
Autorretrato tocando violão, 1615 e 1617. Óleo sobre tela, 77,5 × 71,8 cm
Nome completo Artemisia Gentileschi-Lomi
Nascimento 8 de julho de 1593
Roma, Itália
Morte 1656 (63 anos)
Nápoles, Itália
Nacionalidade Itália Italiana
Área Pintura
Movimento(s) Barroco

Artemisia Gentileschi (Roma, 8 de julho de 1593 - Nápoles, 1656) foi uma pintora barroca italiana, considerada hoje uma das mais bem-sucedidas pintoras de sua época, junto de Caravaggio.[1] Em uma época em que mulheres não eram facilmente aceitas na comunidade artística ou por patronos, ela foi a primeira a se tornar membro da Academia de Belas Artes de Florença.[2]

Muitos de seus quadros são de mulheres fortes e sofredoras que aparecem em diversas histórias da Bíblia.[3] Um de seus quadros mais conhecidos é Judite Decapitando Holofernes. Sua arte progressista e hoje considerada feminista foi ofuscada pelo estupro que sofreu, no século XVII e por ter participado ativamente do julgamento do estuprador.[3]

Biografia[editar | editar código-fonte]

Vida pessoal e começo[editar | editar código-fonte]

Nascida Artemisia Gentileschi-Lomi, em 8 de julho de 1593, em Roma, seu certificado de batismo no Archivio di Stato indicada que ela teria nascido em 1590, filha mais velha do pintor toscano Orazio Gentileschi e de Prudentia Montone.[4] Artemisia foi introduzida à pintura no estúdio de seu pai, mostrando ter muito mais talento que seus irmãos, que trabalhavam junto dela. Ela logo aprendeu a desenhar, a misturar as cores e em seguida a pintar, inspirada pelo estilo do pai, bastante centrado no de Caravaggio. No entanto, a forma como Artemisia trabalhava os temas era diferente de seu pai. Seus quadros eram extremamente naturais, enquanto seu pai idealizava o que retratava. Ao mesmo tempo, Artemisia resistia se submeter, tanto em atitude quanto psicologicamente ao estilo idealizador da pintura. Foi assim que seus trabalhos passaram a ganhar admiradores e reconhecimento.[4]

Susana e os Anciões, seu primeiro trabalho, em 1610 – Coleção Schönborn, Pommersfelden

Com apenas 17 anos, produziu Susana e os Anciões. Devido ao preconceito da época, muitos acreditaram que ela tiver ajuda do pai para conceber a obra, que demonstra como Artemisia absorveu o realismo de Caravaggio, sem descartar a linguagem da escola de Bolonha, que teve Annibale Carracci entre seus proeminentes artistas. É uma das poucas pinturas sobre o tema de Susana mostrando a abordagem sexual dos dois anciãos como um evento traumático.[5]

Em 1611, seu pai trabalhava com Agostino Tassi para decorar os cofres do Casino delle Muse, dentro do Palazzo Pallavicini-Rospigliosi, em Roma. Tassi o contratou para ensinar Artemisia em particular e enquanto lhe dava aulas, a violentou,[5][6][7] com Cosimo Quorli como cúmplice.[8] Artemisia precisou continuar a ter um relacionamento com Tassi, na esperança de que um casamento com ele viesse a restaurar sua reputação diante da sociedade, mas ele voltou atrás com a promessa de se casar com ela. Nove meses após o estupro, quando soube que Tassi não se casaria com Artemisia, Orazio prestou queixa contra ele.[5] Orazio também alegou que Tassi roubou o quadro Judite decapitando Holofernes de sua propriedade. O principal assunto no julgamento estava relacionado com a virgindade de Artemisia. Se ela não fosse virgem antes do estupro, sua família não tinha direito a prestar queixa.[5][7] Durante os sete meses de julgamento, descobriu-se que Tassi pretendia assassinar sua esposa, que tinha um envolvimento extraconjugal com a cunhada e planejava roubar alguns dos quadros de Orazio. Artemisia ainda teve que passar por um exame ginecológico e por tortura, durante o julgamento, para atestar a veracidade de seu testemunho. No fim, Tassi foi condenado à prisão durante um ano, mas nunca cumpriu a pena. O que passou no julgamento acabou inspirando a visão feminista de Artemisia, que influenciou sua arte.[2][5]

Tendo perdido a mãe com apenas 12 anos, Artemisia vivia cercada pela presença masculina dos pais e dos irmãos. Aos 17 anos, Orazio alugou o apartamento em cima de sua casa para uma mulher chamada Tuzia, de quem Artemisia logo ficou amiga. Porém Tuzia permitiu que Agostino Tassi e Cosimo Quorlis acompanhasse Artemisia em diversas ocasiões. Quando o estupro aconteceu, Artemisia gritou a Tuzia por socorro, que ignorou os gritos e depois fingiu que nada aconteceu.[5] O quadro Mãe e a criança, hoje na Galeria Spada, em Roma, é dessa época.[9]

Um mês após o julgamento, Orazio arranjou um casamento para a filha com Pierantonio Stiattesi, um artista pouco conhecido de Florença e pouco após sua mudança para a cidade, ela recebeu uma encomenda da Casa Buonarroti. Artemisia se tornou uma pintora conhecida na corte, com patronos como a Casa dos Médici e Carlos I de Inglaterra. Em Florença, Artemisia e Pierantonio tiveram uma filha, Prudentia, em 1618.[4] Acredita-se que Prudentia tenha seguido os passos da mãe, mas nenhum trabalho seu é conhecido.[10]

Período florentino (1614–20)[editar | editar código-fonte]

Artemisia experimentou um momento de grande sucesso enquanto morava em Florença. Foi a primeira mulher aceita na Academia de Belas Artes de Florença. Tinha bom relacionamento com os grandes artistas da época, como Cristofano Allori, ganhando o respeito e favores de muita gente influente da sociedade, como Cosme II de Médici, grão-duque da Toscana e a grã-duquesa Cristina de Lorena. Artemisia também tinha contato com Galileo Galilei, como sugere uma carta para o cientista em 1635.[4][5] Era também muito admirada pelo sobrinho de Michelangelo, pois ele a convidou para contribuir com a pintura do teto da Casa Buonarroti, cujo trabalho era grande e extenso.[2][5]

Em 2011 foram descobertas 36 cartas, datando de 1616 a 1620, que dá uma nova perspectiva sobre a vida pessoal e financeira de Artemisia em Florença. Uma das surpresas foi a revelação de seu caso com um nobre chamado Francesco Maria Maringhi e o fato de que seu marido não tinha problemas com o relacionamento extraconjugal.[11] Seu marido provavelmente tolerava o relacionamento por saber que o apoio de Francesco era necessário para o sustento da família. No entanto, em 1620, rumores do caso amoroso começaram a se espalhar pela corte e, aliado aos problemas financeiros e legais da família, Artemisia foi obrigada a retornar a Roma, em 1621, sem o marido.[11]

Período napolitano e inglês (1630–1654)[editar | editar código-fonte]

Em 1630, Artemisia se mudou para Nápoles, cidade conhecida pelos admiradores da arte por suas oficinas, na tentativa de encontrar oportunidades de trabalho mais lucrativas. Vários artistas como Caravaggio, Annibale Carracci e Simon Vouet viveram na cidade por algum momento. Na época, Jusepe de Ribera, Massimo Stanzione e Domenichino trabalhavam em Nápoles, e depois Giovanni Lanfranco e muitos outros começaram a chegar. A estreia de Artemisia na comunidade napolitana de arte se deu com seu quadro Anunciação. Ela permaneceu em Nápoles até o fim da carreira, com exceção de algumas viagens à Inglaterra.[3][4]

Nápoles se tornaria sua segunda casa e foi lá que sua filha se casou. Em um sábado, 18 de março de 1634, um viajante chamado Bullen Reymes registrou em seu diário uma visita à Artemisia e sua filha com um grupo de amigos ingleses.[12] Artemisia recebeu cartas de diversos nobres e patronos pela Europa, tendo bons relacionamentos com vários artistas de renome.[2]

Autorretrato como Alegoria da Pintura, entre 1638 e 1639. Óleo sobre tela, 98,6 × 75,2 cm. Royal Collection

Em 1638, ela se juntou ao pai na corte do rei Carlos I, em Londres, onde Orazio tornara-se pintor oficial e recebeu um importante trabalho de decoração do teto da Casa da Rainha, Henriqueta Maria de França, em Greenwich. Pai e filha, então, trabalharam juntos mais uma vez, mas o convite de seu pai não era o único motivo para Artemisia estar em Londres. O rei a convidou para sua corte e esse não era um pedido a se recusar. Carlo I era um grande e aficionado colecionador de arte, dilapidando os cofres do reino para aumentar sua coleção. A fama de Artemisia, provavelmente, o intrigou e um de seus principais quadros era um autorretrato de Artemisia chamado Autorretrato como Alegoria da Pintura.

Orazio morreu subitamente em 1639. Sabe-se que Artemisia tinha deixado a Inglaterra em 1642, quando a guerra civil inglesa começou. Pouco se sabe sobre sua vida neste período. Sabe-se que em 1649 ela estava de volta a Nápoles, correspondendo-se com Don Antonio Ruffo, da Sicília, que se tornaria seu mentor durante o segundo período napolitano. Seu trabalho, conforme envelhecia, foi ficando tomado por mulheres fortes, retiradas de várias lendas bíblicas.[10]

Morte[editar | editar código-fonte]

Acreditava-se que Artemisia teria morrido entre 1652 e 1653,[3] mas evidências recentes mostram que ela ainda aceitava encomendas em 1654, porém muito dependente da ajuda de seu assistente, Onofrio Palumbo.[13] Especula-se que ela tenha morrido na devastadora praga que varreu Nápoles em 1656 e que por consequência aniquilou toda uma geração de grandes artistas.[3][10]

Galeria[editar | editar código-fonte]

Ver também[editar | editar código-fonte]

Referências

  1. Publifolha (1911). Grandes pinturas. [S.l.]: Dorling Kidersley. 255 páginas. p.96-97 
  2. a b c d Gunnell, Barbara (4 de julho de 1993), «The rape of Artemisia», The Independent, consultado em 28 de dezembro de 2014, arquivado do original em 28 de dezembro de 2014 
  3. a b c d e Lubbock, Tom (30 de setembro de 2005), «Great Works:Judith and her Maidservant», The Independent, London, p. 30, Review section, arquivado do original em 2 de maio de 2015 
  4. a b c d e Bissell, R. Ward (1999), Artemisia Gentileschi and the Authority of Art: Critical Reading and Catalogue Raisonné, ISBN 0-271-02120-9, The Pennsylvania University Press 
  5. a b c d e f g h Cohen, Elizabeth (2000), «The Trials of Artemisia Gentileschi: A Rape as History», The Sixteenth Century Journal, 31 (1): 47–75 
  6. «Artemisia Gentileschi - Biography & Art - The Art History Archive». www.arthistoryarchive.com. Consultado em 12 de janeiro de 2017 
  7. a b Irene Hernández Velasco (ed.). «A história de Artemisia Gentileschi, a pintora violentada que se vingou fazendo arte feminista no século 17». BBC Brasil. Consultado em 28 de julho de 2014 
  8. «Artemisia, The Rape and the Trial». www.webwinds.com. Consultado em 28 de julho de 2014 
  9. «An Artemisia Conundrum». Art Monte Carlo. 22 de outubro de 2016. Consultado em 28 de julho de 2017 
  10. a b c Garrard, Mary D. (1989), Artemisia Gentileschi: The Image of the Female Hero in Italian Baroque Art, ISBN 978-0-691-04050-9, Princeton University Press 
  11. a b Solinas, Francesco (2011). Lettere di Artemisia: Edizione critica e annotata con quarantatre documenti inediti. Rome: De Luca. ISBN 9788865570524 
  12. Chaney, Edward (2000), The Evolution of the Grand Tour: Anglo-Italian Cultural Relations since the Renaissance, Routledge 
  13. De Vito, Giuseppe (2005). «A note on Artemisia Gentileschi and Her Collaborator Onofrio Palumbo». Burlington Magazine. 1232 (137). 749 páginas 
O Commons possui uma categoria contendo imagens e outros ficheiros sobre Artemisia Gentileschi