Batalha de Naísso

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Batalha de Naísso
Guerra Gótica (268-269)
Data 268 ou 269
Local Naísso (moderna Niš, na Sérvia)
Desfecho Vitória decisiva dos romanos
Beligerantes
Império Romano Império Romano 30px Ostgoten fibel transp.png Godos
Comandantes
Império Romano Imperador Galieno (ou Cláudio II) 30px Ostgoten fibel transp.png Canabaldo
   
Naísso está localizado em: Sérvia
Naísso
Localização de Naísso no que é hoje a Sérvia

Batalha de Naísso, travada em 268 ou 269, foi a derrota de uma coalizão gótica pelo exército romano liderado pelo imperador Galieno (ou Cláudio II) perto de Naísso (a moderna Niš, na Sérvia). Os eventos que levaram à invasão e à batalha são uma parte importante da história da chamada "crise do terceiro século".

O resultado foi uma grande vitória romana que, combinada a uma eficiente perseguição aos invasores sobreviventes logo na sequência do combate e aos diligentes esforços do imperador Aureliano, eliminaram quase completamente a ameaça representada pelas tribos germânicas na fronteira balcânica por muitas décadas.

Fontes primárias[editar | editar código-fonte]

Como é geralmente o caso na história do Império Romano durante o turbulento século III, é bastante difícil reconstruir a sequência de eventos que levaram ao confronto em Naísso. Os relatos da época que chegaram aos nossos dias, incluindo a "História Nova" de Zósimo, a "Epítome da História" de Zonaras, a "Seleção da Cronografia" de Jorge Sincelo e a "História Augusta", baseiam-se todas principalmente na perdida "História" do ateniense Déxipo, cujo texto sobreviveu apenas em citações indiretas na "História Augusta", do século IV, e alguns trechos selecionados em compilações bizantinas do século IX[1]. Apesar de sua importância para o período, Déxipo é considerada uma fonte "pobre" pelo historiador moderno David S. Potter[2]. Para piorar a situação, as obras que fazem uso do texto Déxipo (e, provavelmente, algum outro texto desconhecido) interpretam os eventos de forma radicalmente contrária[3]. A propaganda imperial na época da dinastia Constantiniana aumentou ainda mais a confusão ao atribuir todas as calamidades ao reinado de Galieno para evitar manchar a memória de Cláudio II (supostamente um antepassado da dinastia)[4].

Como resultado, ainda há muita controvérsia sobre o número de invasões, a ordem dos eventos e ao reinado de qual imperador um determinado evento deve ser atribuído[5]. Portanto, há disputas sobre quem era o imperador e o comandante do exército na época da batalha, por exemplo. Em 1939, Andreas Alföldi, defensor da teoria da invasão única, sugeriu que Galieno seria o único responsável por derrotar as invasões bárbaras, inclusive a batalha de Naísso[6]. Seu ponto de vista tem sido amplamente aceito desde então, mas estudiosos mais modernos geralmente atribuem a vitória final a Cláudio II[7]. A teoria da invasão única também tem sido rejeitada em prol de outra que defende duas invasões distintas. A narrativa abaixo segue este ponto de vista mais moderno, mas o leitor deve estar ciente de que as evidências são confusas demais para uma reconstrução completamente certa[8].

Contexto[editar | editar código-fonte]

Mapa das invasões góticas de 268-269.

A batalha de Naísso ocorreu como resultado de duas grandes invasões de tribos "citas" (como chamam-nas as fontes[9] de forma anacronística) ao território romano entre 267 e 269. A primeira ocorreu durante o reinado de Galieno, em 267, iniciada quando os hérulos, embarcados em mais de 500 navios[10], arrasaram a costa sul do Mar Negro e atacaram, sem sucesso, Bizâncio (a futura Constantinopla) e Cízico. Eles foram derrotados pela marinha romana, mas conseguiram escapar para o Mar Egeu, onde atacaram as ilhas de Lemnos e Esquiro e saquearam diversas cidades da província da Acaia, no sul da Grécia, inclusive Atenas, Corinto, Argos e Esparta. Em seguida, uma milícia ateniense, liderada pelo historiador Déxipo, expulsou os invasores para o norte, onde eles foram finalmente interceptados pelo exército romano liderado por Galieno[11]. Ele conseguiu uma importante vitória perto de "Nessos" (rio Nestos), na fronteira entre a província da Macedônia e a Trácia, com a ajuda de sua poderosa cavalaria dálmata. Os relatos informam que as baixas entre os bárbaros chegaram a 3 000 homens[12]. Posteriormente, o líder hérulo Naulobato fez um acordo com os romanos[10].

No passado, a batalha de Nessos era identificada como sendo a Batalha de Naísso, mas os estudiosos modernos rejeitam esta posição. Para contrapô-la, há uma teoria que a vitória de Nessos teria sido tão acachapante que os esforços de Cláudio II contra os godos (incluindo a batalha de Naísso) não teriam passado de operações menores de pacificação[13]. Depois da vitória, Galieno deixou Lúcio Aurélio Marciano em seu lugar e voltou rapidamente para a Itália para esmagar a revolta de seu oficial de cavalaria Aureolo[14]. Depois que Galieno foi assassinado próximo de Mediolano (moderna Milão) no verão de 268 num complô arquitetado pelo alto escalão de seu exército, Cláudio foi proclamado imperador e seguiu para Roma para consolidar-se no poder. A preocupação mais imediata do novo imperador era com os alamanos, que haviam invadido a Récia e a Itália. Depois de derrotá-los na batalha do lago Benaco, ele finalmente pôde cuidar da invasão das províncias balcânicas[15].

Neste ínterim, uma segunda invasão naval, muito maior, começou. Uma enorme coalização de "citas" - na verdade eram godos (grutungos e tervíngios), gépidas e peucinos, liderada novamente pelos hérulos - se reuniu na foz do rio Tiras[16]. A História Augusta e Zósimo relatam entre 2 000 e 6 000 navios e mais de 325 000 homens[17]. Estes números são provavelmente um grande exagero, mas são bons indicativos de que se tratou de uma grande invasão. Depois de não conseguirem tomar algumas cidades nas costas ocidentais do Mar Negro e do Danúbio (Tomi e Marcianópolis), os invasores atacaram Bizâncio e Crisópolis[18]. Parte da frota acabou naufragando, seja pela inexperiência dos marinheiros godos nas violentas correntes do Propôntida (o Mar de Mármara)[19] ou por que ela foi derrotada pela marinha romana. Os invasores então partiram para o Mar Egeu e um destacamento arrasou as ilhas chegando até Creta e Rodes. A força principal construiu armas de cerco e estava perto de conquistar Tessalônica e Cassandreia, quando foi forçada a recuar para o interior dos Bálcãs quando chegaram notícias que o imperador avançava à frente de um grande exército. No caminho, eles saquearam Dobero (Peônia?) e Pelagônia.

A batalha[editar | editar código-fonte]

Os godos finalmente foram alcançados perto de Naísso por um exército romano que vinha do norte. A batalha provavelmente deu-se em 269 e foi bastante disputada. Pesadas baixas acometeram os dois lados mas, na hora mais crítica, os romanos finalmente conseguiram atrair os godos para uma emboscada ao fingirem que estavam fugindo em debandada. Alega-se que mais de 50 000 teriam sido mortos ou aprisionados[12]. É provável que Aureliano, encarregado de toda a cavalaria romana durante o reinado de Cláudio, tenha liderado o ataque decisivo.

Consequências[editar | editar código-fonte]

Um grande número de godos conseguiu escapar para a província da Macedônia, defendendo-se num primeiro momento atrás de seu forte de carros. Logo, muitos deles mais os animais de carga, não suportamento mais os intensos ataques da cavalaria romana e a falta de provisão, morreram de fome. O exército romano metodicamente perseguiu e acabou cercando os sobreviventes nos montes Hemo (a cordilheira dos Balcãs) quando uma epidemia enfraqueceu os godos[20]. Depois de uma sangrenta e inconclusiva batalha, eles escaparam novamente, mas foram novamente perseguidos até que finalmente se renderam. Os prisioneiros foram alistados no exército ou receberam terras para cultivar, tornando-se colonos. Os membros da frota pirata, depois de atacarem sem sucesso Creta e Rodes, recuaram e muitos deles tiveram o mesmo fim[21]. Porém, a epidemia também atacou os romanos e levou o imperador Cláudio em 270[22].

O impacto psicológico desta vitória foi tão forte que Cláudio entrou para a história como "Cláudio II Gótico" ("conquistador dos godos"). Porém, por mais devastadora que tenha sido a derrota, a batalha não eliminou completamente o poderio militar das tribos góticas[23]. Além disso, os problemas com a rainha Zenóbia no oriente e o dissidente Império das Gálias no ocidente eram tão urgentes que a vitória em Naísso só serviu como um alívio temporário. Em 271, depois que Aureliano repeliu ainda outra invasão gótica, ele finalmente abandonou a província da Dácia ao norte do Danúbio para diminuir o tamanho e racionalizar a fronteira romana na região[24]. A Dácia jamais seria conquistada novamente pelos romanos (inclusive os seus sucessores bizantinos).

Referências

  1. David S. Potter, p.232–233
  2. David S. Potter, p.232–234
  3. John Bray, p.283, David S. Potter, p.641–642, n.4.
  4. David S. Potter, p.266
  5. John Bray, p.279. Também David S. Potter, p.263
  6. The Cambridge Ancient History, vol 12, chapter 6, p.165–231, Cambridge University Press, 1939
  7. John Bray, p.284–285, Pat Southern, p.109. Ver também Alaric Watson, p.215, David S. Potter, p.266, H. Wolfram, p.54
  8. John Bray, p.286–288, Alaric Watson, p.216
  9. Zósimo, ver também Sincelo, p.716
  10. a b J. Sincelo, p.717
  11. Scriptores Historiae Augustae, Vita Gallienii, 13.8
  12. a b Zósimo, 1.43
  13. T. Forgiarini, A propos de Claude II: Les invasion gothiques de 269–270 et le role de l' empereur, in Les empereurs illyriens, Frezouls et Jouffroy, p.81–86. (citado em D. Potter, p.642). Este ponto de vista é similar ao de A. Alfoldi
  14. Zósimo, 1.40
  15. John Bray, p.290
  16. A Historia Augusta menciona citas, grutungos, tervíngios, gépidas, peucinos, celtas e hérulos. Zósimo cita citas, hérulos, peucinos e godos.
  17. Scriptores Historiae Augustae, Vita Divi Claudii, 6.4
  18. Que ainda era uma cidade separada, mas que se tornaria depois o distrito de Uskudar de Constantinopla
  19. Zósimo, 1.42
  20. Zósimo, 1.45
  21. John Bray, p.282. Veja Zósimo, 1.46
  22. J. Sincelo, p.720
  23. Alaric Watson, p.216
  24. David S. Potter, p.270

Bibliografia[editar | editar código-fonte]

Fontes primárias[editar | editar código-fonte]

Fontes secundárias[editar | editar código-fonte]