Bigorna

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A bigorna e suas partes: furo de ponteira (redondo), furo quadrado, face, borda arredondada, mesa e o chifre (ou ponta)

A bigorna é um utensílio feito de aço, ferro forjado[1], ferro forjado ou outro metal semelhante[2], de corpo central quadrangular e, normalmente, com extremidades com forma de cônica ou piramidal[3][4], sobre o qual eram apoiados metais a serem malhados e moldados, a quente ou a frio[4].

Etimologia[editar | editar código-fonte]

O termo "bigorna" é derivado do latim, porém há quem defenda sua origem na palavra Incus, que significaria "bigorna", forma derivada de Incudere, "golpear, malhar, forjar"[5], e há quem afirme que tem origem no termo bicornis, que significaria “com duas pontas” (resultante da conjugação de bi-, “dois”, e cornis, “chifre, ponta, extremidade aguçada”)[6].

Constituição[editar | editar código-fonte]

O formato da bigorna, porém, mudou pouco em milhares de anos, devido a sua funcionalidade e resistência[2], consistindo, de forma geral, em um bloco maciço de metal (frequentemente, com dois furos na parte superior), um chifre (ou ponta) e um calcanhar[2].

O bloco maciço tem parte superior temperada chamada "face"[7], extremamente dura e resistente, de modo a preservar a forma e a integridade da superfície com o uso. Esta parte é geralmente plana, mas existem bigornas com topo curvo utilizadas em aplicações específicas[2]. A parte não endurecida, chamada "mesa", é utilizada para trabalhos com o cinzel[8].

A maioria das bigornas possui dois furos: um quadrado, para o encaixe de instrumentos de corte e moldagem, e outro redondo, chamado "furo de ponteira", utilizado para se fazer furos no metal[7].

Modelos[editar | editar código-fonte]

Bigorna tradicional americana, vendo-se a remoção de ferrugem pelo uso de areia

O modelo londrino/americano[1] possui apenas um chifre arredondado e ligeiramente curvo para cima, tendo o outro lado reto.[carece de fontes?] O modelo europeu não possui mesa e tem dois chifres[1], um arredondado (cônico) e outro plano (piramidal).[carece de fontes?] O tronco normalmente é alto[carece de fontes?], com uma base que se alarga (geralmente em quatro extremidades[carece de fontes?]) para dar estabilidade e facilitar a fixação, frequentemente um grande bloco ou tronco de madeira maciça[8]. Bigornas primitivas (medievais) e japonesas[carece de fontes?], por outro lado, possuem bem menos detalhes, assemelhando-se a grandes blocos de ferro[8] com algumas superfícies curvas.[carece de fontes?]

Bigorna tradicional européia

Em tempos recentes, em que os trabalhos em bigorna são mais leves, a maioria delas vem sendo fabricada em ferro fundido nodular[1], muito mais flexível e elástico que o ferro fundido comum (que não serve para a fabricação de bigornas)[9]. Esses modelos também são mais baixos e possuem a base menos larga – em geral têm apenas quatro pés formando arcos, ou seja, com certo espaço vazio na parte inferior. Não são adequados, portanto, a trabalhos tradicionais ou pesados.[carece de fontes?]

Existem modelos de bigornas que são empregados especificamente na produção de jóias, bem menores que aquelas utilizadas na siderurgia e em diversos tipos de acabamento. Esta variedade é justificada pelos cuidados especiais exigidos na modelagem de metais macios, facilmente danificados durante o processo de usinagem[2].

As bigornas de ferradores são pequenas e portáteis[2], e se diferenciam por terem um chifre mais largo e um segundo furo de ponteira, bem como pela existência de uma pequena protusão achatada[8] ou cônica[7], utilizada para formar o guarda-casco da ferradura[8].

Não havendo possibilidade de aquisição comercial de uma bigorna, um substituto viável seria um trilho ferroviário de aproximadamente quarenta centímetros de comprimento, firmemente afixado em um robusto bloco de madeira[10].

Princípio de utilização[editar | editar código-fonte]

A bigorna é desenhada para suportar pancadas fortes e constantes de vários tipo de martelos a fim de moldar o ferro forjado previamente aquecido até atingir o nível de calor denominado rubro, no qual o metal fica bastante elástico.[11]

A bigorna serve para diminuir o esforço feito pelo ferreiro no forjamento do produto metálico, pois ela devolve parte da energia da martelada por ser mais resistente que o material a ser trabalhado[12].

História[editar | editar código-fonte]

As primeiras bigornas, feitas de pedra, datam da Pré-história[12], mas pedaços de meteoritos (compostos de ferro e um pouco de níquel e outros elementos) também teriam sido usados com bigorna no passado[8]. Os modelos feitos em metal somente apareceram no Antigo Egito[12]. Bigornas de bronze encontradas datam do período entre 1.200-800 a.C., enquanto que bigornas de ferro foram encontradas em ruínas romanas[8]. Ainda assim, há evidências de que os primeiros ferreiros Viking usavam pedras planas como bigornas[1].

As bigornas de ferro forjado eram feitas a partir de blocos feito com pilhas de sucata de ferro soldada por forjamento. Ao bloco resultante era dada a forma de bigorna por meio de um martinete.  Após o processo de fabricação de aço foi descoberto, as macias bigornas de ferro forjado então usadas foram reforçadas com uma placa de aço endurecido em sua face. O acabamento era foi feito à mão, usando marretas, assentadores, amoladores e outras ferramentas. Aproximadamente sete homens eram necessários para posicionar e martelar uma única bigorna.[1]

Por volta de 1.600 d.C., o ferro fundido passou a ser empregado na fabricação de bigornas por ser muito mais mais barato do que o aço. Contudo, devido ao ferro fundido ser quebradiço, essas bigornas não podiam ser usadas em trabalhos pesados. Assim, alguns fabricantes passaram a vender bigorna de ferro fundido reforçadas com placas de aço em sua face para melhorar seu desempenho.[1]

As bigornas foram consagradas como utensilio essencial das forjas durante a Idade Média[12], especialmente na confecção de armas e armaduras. Os alemães eram conhecidos pela qualidade de seu aço e de suas armaduras, razão pela qual também fabricavam bigornas de qualidade superior[1]. Porém, no final do século XIX, o desenvolvimento dos processos industriais de produção de objetos de metal provocou o declínio do uso da bigorna, hoje reservada a ferreiros artesaniais, artistas e escultores, em trabalhos específicos[13].

Na cultura[editar | editar código-fonte]

Publicidade de bigorna ACME

Cinema e Televisão[editar | editar código-fonte]

Uma bigorna aparece em Blacksmith scene, um curta-metragem de William Kennedy-Laurie Dickson, realizado em 1983, o primeiro filme que a empresa de Thomas Edison distribuiu comercialmente[14].

O surgimento do passatempo do disparo de bigornas resultou na sua absorvição cultural pelos desenhos animados[12], notadamente pela bigorna produzida pela empresa fictícia ACME, dos desenhos animados da produtora estadunidense Warner Bros.

Durante o 15º episódio da 8ª temporada da série de TV estadunidense The Simpsons, uma antiga usina siderúrgica é transformada em uma boate gay chamada "A Bigorna"[15].

Cultura popular[editar | editar código-fonte]

O abandono de bigornas nos Estados Unidos fez surgir o inusitado passatempo de disparo de bigorna, que consiste em lançar bigornas no ar com a ajuda de explosivos[12].

No Canadá, no dia 28 de maio, desde de 1859, comemora-se o Victoria Day, em homenagem à Rainha Vitória do Reino Unido, cuja cerimônia conta com "21 tiros" saudação à Rainha, que consistem em 21 disparos de bigornas[16].

Annie Edson Taylor, a "Heroína das Cataratas do Niágara", usou uma bigorna para equilibrar o barril de salmora que projetou e utilizou para descer as Cataratas do Niágara.

Dança[editar | editar código-fonte]

Na dança flamenca, há um tipo de cante chamado Martinete, um tipo de Tonás (cante sem acompanhamento de guitarra), que pode levar o acompanhamento por bigorna e martelo[17].

Literatura[editar | editar código-fonte]

Uma anedota creditada ora a Jâmblico[18], ora a Boécio[19] sugere que Pitágoras teria descoberto os intervalos musicais ao ouvir ferreiros trabalhando em suas bigornas com diferentes tipos de martelo[18], e assim também teria se antecipado na descoberta das leis que regem as vibrações dos sinos formulada por Galileu Galilei[19].

Em algumas versões da histórias do Ciclo Arturiano, a espada Excalibur estaria cravada em uma bigorna antes de que o Rei Arthur a retirasse de lá como prova miraculosa de seu direito ao trono[20].

No universo ficcional da Terra Média dos livro de J. R. R. Tolkien, o emblema do anão Durín, nas Portas de Durín, apresentam um martelo e uma bigorna.[21]

Heráldica[editar | editar código-fonte]

No Brasil, bigornas são representadas no brasão de armas do Estado da Bahia (à esquerda, por trás de um homem semi-nu com uma marreta e uma roda dentada), no brasão de armas de Volta Redonda (sobre a qual encontram-se dois ciclopes carregando malhos), no brasão de Estrela (na parte direita, ao fundo, junto a um malho e uma roda dentada), no Brasão de Timóteo (no centro, abaixo da pira olímpica e em frente à roda dentada) e o brasão de Orlândia (no campo de baixo, com uma pira sobre si)

Música[editar | editar código-fonte]

A bigorna também serve como efeito sonoro em composições clássicas, tais como "O ouro do Reno" (1876), de Richard Wagner, "O coro das bigornas" em "Il trovatore" (1853), de Giuseppe Verdi, "Preise Ye the god of iron" em "Belshazzar's Feast" (1930), de William Walton, "Hyperprysm" (1923) e "Ionisation" (1932), de Edgar Varèse[22].

Na cena III do ato I da ópera "Siegfried", de Richard Wagner, Siegfried reforja a espada Notung e demonstra o poder de sua lâmina ao partir uma bigorna ao meio[23].

Em apresentações musicais, as bigornas são tocadas com baquetas pesadas ou martelos. Contudo, diante da falta de praticidade decorrente do peso de seu peso, as bigornas podem ser substituídas por seções de trilhos ferroviários ou "postes de andaime", que fornecem o mesmo clangor[22].

Uma das versões da letra do hino nacional da Espanha, "Marcha Real", cita bigornas (em espanhol, yunques) em seu 10º verso[24].

Na canção "Maxwell's Silver Hammer" da banda inglesa The Beatles, o baterista Ringo Starr toca uma bigorna para simular o som identificado como o martelo de prata referido no título da canção[25].

O cantor brasileiro Lenine ganhou o prêmio Grammy Latino na categoria melhor canção brasileira com a música "Martelo Bigorna"[26].

Religião[editar | editar código-fonte]

Diversas religiões contam com deuses ferreiros que são simbolizados pela bigorna, tais como Ogum, Hefesto e Volund[27].

Na obra Teogonia, Hesíodo afirma que uma bigorna de bronze teria que cair do céu durante nove dias até atingir a terra, e que teria que continuar por outros nove dias até atingir o Tártaro[28]. Certa vez, Zeus pendurou Hera das nuvens com as mãos acorrentadas e uma bigorna presa a seus pés, como forma de punição por ela ter conspirado contra ele[29].

Na mitologia nórdica, a espada Gram partiu ao meio a bigorna em que foi reforjada.

A bigorna é citada no Livro de Isaías 41:7[30], no contexto da queda da Babilônia e libertação por Ciro II.

Santo Adriano é normalmente representado com uma bigorna em suas mãos ou nos pés, em alusão à bigorna sobre a qual seus braços e pernas foram quebrados com martelo, antes de ter sua cabeça decapitada. Por vezes, Santo Elígio também é representado com uma bigorna, sendo que na talha dourada no teto da Igreja de Santo Elígio dos Ferreiros em Roma observa-se uma bigorna e um martelo.

Ver também[editar | editar código-fonte]

Referências

  1. a b c d e f g h «Anvils and Anvil Types». www.blackiron.us (em inglês). The American Blacksmith. Consultado em 23 de junho de 2017 
  2. a b c d e f «O que é uma bigorna, leia em Manutenção & Suprimentos». www.manutencaoesuprimentos.com.br. Consultado em 1 de outubro de 2016 
  3. «Bigorna». Dicionário Online Caldas Aulete. Consultado em 1 de outubro de 2016 
  4. a b «Bigorna». Michaelis On-Line. Consultado em 1 de outubro de 2016 
  5. Simões, Ricardo Santos; et al. (2014). Etimologia de termos Morfológicos (PDF). São Paulo: [s.n.] Consultado em 23 de junho de 2017 
  6. «origem da palavra bigorna | Origem Da Palavra». origemdapalavra.com.br. Consultado em 23 de junho de 2017 
  7. a b c «Uso das bigornas | Mecânica Industrial». www.mecanicaindustrial.com.br. Consultado em 18 de junho de 2017 
  8. a b c d e f g Moore, Sam (Outubro de 2003). «A History of Anvils». Farm Collector (em inglês): pág. 01-03. Consultado em 23 de junho de 2017 
  9. «Bigorna - Fórum Português de Ferro Forjado». www.ferroforjado.org. Consultado em 1 de outubro de 2016 
  10. Souza, Julio Seabra Inglez; Peixoto, Aristeu Mendes; Toledo, Francisco Ferraz de (1995). Enciclopédia agrícola brasileira: A-B. [S.l.]: EdUSP. ISBN 9788531401299 
  11. «Na bigorna». www.elbemcesar.com. Consultado em 1 de outubro de 2016 
  12. a b c d e f Para que serve uma bigorna? Revista da Abril, Mundo Estranho - acessado em 12 de dezembro de 2015
  13. «Significado de Bigorna». Significados.com.br. Consultado em 1 de outubro de 2016 
  14. Blacksmith Scene (1893), consultado em 24 de junho de 2017 
  15. «[4F11] Homer Phobia». www.simpsonsarchive.com. Consultado em 24 de junho de 2017 
  16. McManus, Theresa (18 de maio de 2016). «Anvil salute is a (loud) Victoria Day tradition in New West». New West Record. Consultado em 24 de junho de 2017 
  17. «: : : Cuadra Flamenca : : :». www.cuadraflamenca.art.br. Consultado em 24 de junho de 2017 
  18. a b COSTA E SILVA, PAULO DA (29 de janeiro de 2016). «[questões musicais] Pitágoras, os números e a música cósmica». Revista Piauí 
  19. a b «A porção física de Pitágoras | Superinteressante». Superinteressante. 30 de novembro de 1990 
  20. «Excalibur and the Sword in the Stone | Robbins Library Digital Projects» (em inglês) 
  21. «Doors of Durin». The One Wiki to Rule Them All (em inglês) 
  22. a b JENKINS, LUCIEN. Manual Ilustrado Dos Instrumentos Musicais. [S.l.]: Irmãos Vitale. ISBN 9788574072524 
  23. «Wagner em Português». Libretos Originais de Richard Wagner, com Tradução em Português. 16 de dezembro de 2012. Consultado em 24 de junho de 2017 
  24. «Marcha Real de España (José María Pemán) - Wikisource». es.wikisource.org (em espanhol). Consultado em 24 de junho de 2017 
  25. «Maxwell's Silver Hammer - The Beatles | Song Info | AllMusic». AllMusic. Consultado em 24 de junho de 2017 
  26. Pena, Lídia (10 de junho de 2014). «Lenine – Chão quente do Nordeste». www.revistamusicabrasileira.com.br. Revista Música Brasileira. Consultado em 24 de junho de 2017 
  27. Faur, Mirella (1 de janeiro de 2014). Mistérios Nórdicos. [S.l.]: Editora Pensamento. ISBN 9788531517105 
  28. Hesíodo; Torrano, Jaa (2003). Teogonia a origem dos Deuses. [S.l.]: Editora Iluminuras Ltda. ISBN 9788585219314 
  29. «HERA - Greek Goddess of Marriage, Queen of the Gods». Theoi Greek Mythology (em inglês) 
  30. «Isaías capitulo 41 versículo 7 - Comentado por versículo». Biblia Comentada. 7 de julho de 2016 
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