Canato de Cocande

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Canato de Cocande

Canato de Kokand • Canato de Koqand • خانات خوقندXânâte Xuqand

War flag of Khanate of Bukhara.svg
17091876 
Flag of the Russian Empire (black-yellow-white).svg
Bandeira
Bandeira
Kokand1850.png
O Canato de Cocande (verde), c. 1850
Continente Ásia
Região Ásia Central
Capital Cocande
Países atuais Uzbequistão

Quirguistão

Cazaquistão

Tajiquistão


Língua oficial persa [1]
Religião islão sunita

Forma de governo monarquia
• 1709-1721  Xaruque Begue
• 1875-1876  Nasrudim Cã

Período histórico Idade Contemporânea
• 1709  Fundação
• 1876  Dissolução

O Canato de Cocande[2][3] ou Cocanda (Kokand ou Koqand; em persa: خانات خوقند; romaniz.: Xânâte Xuqand; em usbeque: Qo'qon Xonligi) foi um estado independente uzbeque da Ásia Central centrado no vale de Fergana que existiu entre 1709[nt 1] e 1876. Foi fundado pelo emir manguita da tribo Mingue (ou Miñ)[nt 2] Xaruque (Shahrukh), que se declarou independente do Canato de Bucara, estabelecendo um canato na parte oriental do vale de Fergana, no que é hoje a parte oriental do Usbequistão. Xaruque construiu uma cidadela para ser a sua capital na pequena localidade de Cocande, aí se iniciando o canato com o mesmo nome.

Abrangia territórios que atualmente fazem parte do Usbequistão oriental, Tajiquistão oriental, sudeste do Cazaquistão e grande do Quirguistão. No início do século XIX, Cocande anexou a cidade de Tasquente. Sentindo-se ameaçado por um ataque do Emirado de Bucara, que se preparava para anexar Tasquente, o general russo Mikhail Cherniaev aproveitou a ocasião para dirigir uma ofensiva contra o Canato de Cocande. Depois dos encarniçados combates de 1876 o Império Russo anexou Cocande propiciando desta forma que se abrisse a rota para o resto da Ásia Central.

Origem da dinastia reinante[editar | editar código-fonte]

Segundo a genealogia oficial da dinastia de Cocande, que provavelmente tem pouco ou nada de verdadeira , o seu fundador, Xaruque, era descendente de Babur, membro da dinastia timúrida, trineto de Tamerlão, descendente de Gêngis Cã e fundador do Império Mogol.[4]

Após ter sido derrotado pelos xaibânidas, Babur foi para o Afeganistão, mas antes disso passou pelo vale de Fergana, de onde era natural e onde era o seu reino original. Nessa altura, uma das suas esposas tinha acabado de dar à luz um filho e como a viagem para o Afeganistão era perigosa por estarem a ser perseguidos, deixaram o recém-nascido num berço ricamente decorado, juntamente com muitas joias, numa área onde havia quatro aldeias onde quirques (kyrks), quipechaques, mingues [nt 2] (manguitas) e quirguizes viviam pacificamente lado a lado. Os locais encontraram o bebé, a que chamaram Altum-Bixique ("berço de ouro"), que criaram numa das aldeias. Quando Altum-Bixique cresceu, cada uma das aldeias deu-lhe uma esposa e a mais velha dela deu à luz Cudaiar (Khudayar ou Ilique-Sultão [Ilik-Sultan]), que é considerado o fundador da dinastia de Cocande. Altum-Bixique morreu em 1545 e o seu filho Tangriar tornou-se o governante de Fergana, embora não tivesse tomado o título de , mas sim de bei, o qual também foi usado pelos seus descendentes até ao século XIX.[4]

Esta história não é mencionada por Babur, que escreveu ele próprio sobre a história da sua família, nem por qualquer dos seus biógrafos seus contemporâneos, pelo que o mais provável é que tenha sido inventada pelos governantes de Cocande para ligar a sua ascendência a Gêngis Cã e assim consolidar e legitimar o seu poder.[4] Por outro lado, alguns historiadores não dão como certo que Xaruque, o fundador do estado independente de Cocande, fosse manguita e referem que ele e o seu clã imigraram da região do rio Volga para o vale de Fergana alguns anos antes de 1709.[6]

Fundação[editar | editar código-fonte]

Apesar de nominalmente o vale de Fergana ser um território do Canato de Bucara, tanto quanto se sabe, o poder efetivo no vale de Fergana no início do século XVIII estava muito fragmentado e na mão de clãs de saídes (seyids) ou cojas (khojas ou khwājas) Aparentemente, os líderes destes clãs foram nomeados governadores de várias cidades e adquiriram cada um deles um estatuto de independência.[6]

Foi neste contexto que surgiu Xaruque Begue (Shahrukh Bek ou Shahrukh Bi), que, apesar de ser da nobreza, não era de família real, que se tinha instalado há uns anos no vale de Fergana vindo da região do rio Volga. Xaruque, que segundo algumas fontes era de facto descendente de Gêngis Cã, casou com uma filha de Iadigar Coja, o governador da cidade de Currão Serai (Khurram Serai), e foi viver para Curcã, a um par de dezenas de quilómetros a oeste de onde agora se situa Cocande. Curcã é provavelmente a Cuacanda (Khuakend) mencionada pelo geógrafo e cronista do século X ibne Haucal.[6]

Há pelo menos duas versões sobre a ascensão ao poder de Xaruque no vale Fergana. Segundo uma delas, relatada em 1880 por Henry Hoyle Howorth, conseguiu o poder assassinando o seu sogro e alargando posteriormente os territórios que eram dele.[6] Alguns historiadores modernos só mencionam outra versão, segundo a qual Xaruque se tornou governante no vale de Fergana na sequência duma revolta dos cojas contra o governo do Emirado de Bucara.[7] Os eventos ocorridos em 1709 são descritos por Mulá Alim Maquedum-Haji na sua obra “Tarixi Turkestoni” (História do Turquestão). Nela se relata que uma assembleia de anciãos e nobres de Jancate, Pilancã, Tufantipe, Partaque, Tepa-Curgã, Jainar e outras cidades elegeram o inteligente e generoso Xaruque Cã. Mal foi eleito, este pediu-lhes para encontrarem um local conveniente para construir um castelo. Os notáveis escolheram um local entre dois rios, onde foi construída uma cidadela, onde entronaram Xaruque.[4]

História[editar | editar código-fonte]

Embora Xaruque e os seus primeiros sucessores não tivessem reclamado para si o título de cã, o estado então fundado era de facto independente, não se limitando à autonomia tutelada por Bucara que os cojas já tinham conseguido antes. Inicialmente, o território de Xaruque abrangia, além da capital Cocande, as cidades de Konibodom, Namangã, Marguilã, Isfara e as áreas vizinhas.[7] [nt 3] Xaruque morreu em 1721, quando tinha 40 anos e foi sucedido pelo seu filho mais velho, Abdul Raim, que conquistou Cujanda, Andijã Samarcanda, Katta-kurgan e Jizaque. Raim reinou durante doze anos, morrendo c. 1733, quando tinha 33 anos, deixando um filho (Irdana; ou Erdeni) e três filhas. O trono foi ocupado pelo seu irmão, Abdul Carim Bei.[7]

No seu “Ansāb al-salātin was tawārikh al-khawāqin”, Mulā Mirzā Alim (Raim Tascandi, Rahim Tāshkandi) relata que Abdul Carim reorganizou a cavalaria do canato. Ainda durante o seu reinado, os calmucos ou zungares tomaram Osh, Andijã e Marguilã e aproximaram-se de Cocande, cujos habitantes se organizaram para defenderem a cidade. Os invasores foram repelidos com o apoio de Fazi Begue (Fāzil Bi), governante de Ura-tepe, que acorreu rapidamente em socorro da cidade com um exército. Abdul Carim também construiu uma nova cidadela na capital, que se juntou à que Xaruque tinha construído. Abdul Carim morreu em 1746, quando tinha 40 anos, tendo sido sucedido pelo seu filho.[7]

O filho de Abdul Carim só reinou durante seis meses, pois o seu tio Irdana tomou o poder e relegou-o para governador de Marguilã. Por sua vez, Irdana foi derrubado por Baba Begue (Bobobek) pouco depois. Passado um ano, Baba foi morto quando ia a caminho de Bexarique, onde foi morto. Irdana voltou então ao trono em 1751 e reinou até 1770. Durante o seu segundo reinado sofreu duas invasões. Depois da destruição do Império Zungar pelos chineses em 1758, os chineses avançaram até Fergana e exigiram que Irdana Begue se tornasse vassalo do imperador Qing Qianlong.[7] Em 1763 foi a vez de Amade Xá, fundador do Império Durrani afegão, invadir o território entre Tasquente e Cocande, mas retirou passado pouco tempo.[5]

Após a morte de Irdana em Irdana em 1770, Solimão Begue foi proclamado cã, mas foi morto durante uma conspiração três meses depois. Os conspiradores, liderados por Abdulá Cus Begue (Cus-Begui, Qush-Begi) e o hākim (governador) de Gurunsarai,[nt 4] Utau Bacaul (Bacal, Baqqāl) juntaram-se à nobreza de Cocande e proclamaram cã Narbuta Bei. Desde o início do seu reinado (1774–1798) que Narbuta tentou impor a sua autoridade aos governantes de Chust e Namangã, mas sem grande sucesso. Em contrapartida, conseguiu-o em Cujanda. Os chineses reconheceram-no como cã e aliaram-se a ele no conflito contra Bucara. O canato prosperou durante o seu reinado.[5]

Após a morte de Narbuta em 1798, subiu ao trono o seu filho mais velho, Alim Begue, que criou um exército de mercenários tajiques das montanhas e subjugou o vale de Angren, Shymkent, Sairã, Turquestão[nt 5] (Iasi) e toda a região de Tasquente, onde se situavam os pontos mais importantes das rotas de caravanas para a Rússia. Alim tomou o título de cã em 1805, pelo que em rigor só a partir desta data se pode falar corretamente em Canato de Cocande. Em 1810, quando Alim estava em Tasquente, correu o rumor de que tinha morrido e o seu irmão Omar Begue tomou o poder. Quando soube da usurpação, Alim marchou para Cocande, mas foi morto perto de Alti-Cus entre 1810 e 1813.[5]

Omar Begue conquistou Ura-tepe e reconquistou Turquestão e várias pequenas cidades a norte de Tasquente. A vida no canato melhorou significativamente durante o seu reinado (1810–1822) graças à ordem que foi posta nos negócios do estado e ao desenvolvimento da agricultura, artesanato e comércio. Foi também fundada a cidade de Xaricã (Shahrikhan), a oeste de Andijã, e construído um grande canal, o Nar i Cã Sai (Nahr-i Khan Say), entre o rio Cara Dária e essa nova cidade.[5] O reinado ficou igualmente marcado pelo desenvolvimento da literatura, outras artes e a educação.[8]

Omar morreu no outono de 1822, de doença, e foi sucedido pelo seu filho Maomé Ali (conhecido como Madali, Modali ou Modari), que continuou a expandir o território do canato. Numa carta enviada pelo qush-begi (literalmente: "chefe dos pássaros" ou comandante dos falcoeiros) de Tasquente para a Rússia, este conta que Madali tinha subjugado as cidades de Ura-tepe, Karategin (vale de Raste, atualmente no centro do Tajiquistão), Kulab, Darqwaz [nt 6] e muitas outras cidades e povos. Entre 1826 e 1831 foram organizadas várias expedições militares ao território de Casgar (em Sinquião), graças às quais Madali tomou o título de gazi ("combatente pela fé"). O imperador chinês concedeu-lhe o direito de cobrar impostos em Akhsi (no vale de Fergana), Osh, Turpã, Casgar, Yangi Shahr (atualmente no extremo norte do Tajiquistão central), Iarcanda e Cotã. As relações entre Cocande e Bucara deterioraram-se profundamente durante o reinado de Madali.[8]

Entre as grandes construções erigidas durante o reinado de Madali estão uma grande madraça em Cocande, a Madraça Beglarbegui em Tasquente e o canal Khan Harik na região de Tasquente.[8]

Em 1840, Madali Cã, até aí um guerreiro destemido e vigoroso, tinha-se tornado um líder fraco e libertino, devido, diz-se, aos remorsos por ter mandado executar Haque Culi (Hak Kuli), que lhe tinha dado muitos conselhos valiosos.[9] O seu governo autoritário também o tornou impopular e, segundo algumas fontes, devido a isso abdicou em 1841 a favor do seu irmão Sultan Mahmud[nt 7] mas a situação política não melhorou[8] e conduziu a uma conspiração contra ele, liderada pelo Kushbegi Leshker[nt 8] de Tasquente, o cazi (kazi, cádi) Caliã, o comandante do exército Issa Coja (Isa Khoja) e outros. Os conspiradores decidiram derrubar Madali e colocar no trono um dos sobrinho do cã Narbuta Bei, Xir Ali (Sher Ali ou Sheralixon), ou Murade Begue, filho de Alim Cã.[9]

Notas

  1. Na realidade, os governantes do estado fundado em 1709 só reclamaram o título de em 1805, pelo que antes disso, em rigor, não é completamente correto falar em canato.[4][5]
  2. a b Os mingues (ming, miñ ou minglar) eram um ramo da tribo dos manguitas (manghud ou manghit), a que também pertencia a dinastia reinante em Bucara a partir de meados do século XVIII, quando tomaram o poder no Canato de Bucara e fundaram o Emirado de Bucara. Não têm qualquer relação com a Dinastia Ming da China.
  3. Segundo algumas fontes,[quais?] Namangã, Marguilã e Isfara só foram conquistadas do Xaruque depois de se ter declarado independente.[carece de fontes?]
  4. Gurunsaray é uma cidade próxima de Namangã.
  5. Não confundir esta Turquestão, atualmente uma cidade do Usbequistão, antigamente chamada Iasi, com a região histórica homónima da qual faz parte.
  6. Não é claro onde se situa ou qual é o nome atual de Darqwaz. Possivelmente seria em Darvaz (ou Darvoz, Darwaz ou Darwoz), uma região no sul do Turquemenistão e norte do Afeganistão onde existiu um emirado com esse nome no século XIX.
  7. Howorth refere-se a este irmão de Madali com o nome de Maomé Amim (Muhammed Amin), mas não refere a abdicação de Madali.[10]
  8. A designação the Kushbegi Leshker é a usada por Howorth.[9] Kushbegi ou qush-begi significa literalmente "chefe dos pássaros" ou comandante dos falcoeiros e leshker é uma transliteração alternativa a lashkar e amir lashkar (ou mingbashi), que era o título dado ao comandante superior do exército no exército.[8]

Referências

Bibliografia[editar | editar código-fonte]

  • Alves, Manuel (1942), Brasil e as nações do mundo: história, grandeza e população comparadas com o Brasil, Rio de Janeiro 
  • Vasconcellos-Abreu, Guilherme de (1892), Passos dos Lusíadas estudados à luz da mitologia e do orientalismo: memória apresentada á X Sessão do Congresso internacional dos orientalistas, Lisboa: Imprensa Nacional 
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