Escorbuto

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Escorbuto
Gengivas inflamadas características do escorbuto, com inflamação no espaço triangular entre os dentes
Sinónimos Doença de Moeller, doença de Cheadle, doença de Barlow[1]
Especialidade Endocrinologia
Sintomas Fraqueza, cansaço, alterações no cabelo, pernas e braços doridos, inflamação das gengivas, hemorragias[1][2]
Causas Falta de vitamina C[1]
Fatores de risco Perturbações mentais, hábitos alimentares invulgares, alcoolismo, idosos que vivem sozinhos, má-absorção intestinal, diálise[2]
Método de diagnóstico Baseado nos sintomas[2]
Tratamento Suplementos de vitamina C[1]
Frequência Rara[2]
Classificação e recursos externos
CID-10 E54
CID-9 267
OMIM 240400
DiseasesDB 13930
MedlinePlus 000355
eMedicine med/2086 derm/521 ped/2073 radio/628
MeSH D012614, D012614
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Escorbuto é uma doença causada pela falta de vitamina C (ácido ascórbico).[1] Os sintomas iniciais mais comuns são fraqueza, cansaço e pernas e braços doridos.[1][2] Se a doença não for tratada na fase inicial, podem-se começar a manifestar sintomas como diminuição do número de glóbulos vermelhos, inflamação das gengivas, alterações no cabelo e hemorragias na pele.[1][3] À medida que a doença avança, podem ocorrer dificuldades de cicatrização das feridas, alterações na personalidade da pessoa e, por fim, morte causada por infeção ou hemorragia.[2]

O escorbuto é geralmente causado por insuficiência de vitamina C na dieta.[1] Até que se manifestem os primeiros sintomas é necessário que pelo menos durante um mês não seja ingerida ou seja ingerida muito pouca quantidade de vitamina C.[1][2] Na época contemporânea, a doença é mais comum entre pessoas com perturbações mentais, hábitos alimentares invulgares, alcoolismo e pessoas idosas que vivem sozinhas.[2] Entre outros fatores de risco estão a má-absorção intestinal e diálise.[2] Os seres humanos, entre outros animais, necessitam de vitamina C na dieta para produzir colagénio.[2] O diagnóstico geralmente baseia-se nos sinais físicos, radiografias e na resposta ao tratamento.[2]

O tratamento é feito com a administração de suplementos de vitamina C por via oral.[1] Após alguns dias os sintomas começam a melhorar e a doença geralmente resolve-se em poucas semanas.[2] Entre as principais fontes de vitamina C estão os citrinos e diversos legumes, como os tomates e as batatas.[2] Cozinhar os alimentos geralmente faz diminuir o seu teor de vitamina C.[2]

Na época contemporânea o escorbuto é uma doença rara.[2] É mais comum em países em vias de desenvolvimento e está associado à desnutrição.[2] Entre refugiados estima-se que a frequência da doença seja de 5 a 45%.[4] O escorbuto tem sido descrito desde pelo menos o Antigo Egito.[2] A doença foi um factor limitativo nas grandes navegações marítimas, nas quais era frequente causar um grande número de vítimas mortais.[5] Entre os séculos XVI e XIX, assumia-se que em cada viagem cerca de metade dos marinheiros morreria de escorbuto.[6] A descoberta de que o escorbuto pode ser tratado com a ingestão de citrinos é geralmente atribuída ao cirurgião escocês da Marinha Real Britânica James Lind, em 1753.[7] No entanto, só em 1795 é que os reformistas de saúde pública como Gilbert Blane convenceram a marinha a disponibilizar rotineiramente sumo de limão aos seus marinheiros.[6][7]

História[editar | editar código-fonte]

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A palavra chegou ao português do espanhol e este a tirou do francês: "scorbut", que existe desde meados do século XVI, advinda do latim medieval: “ scorbutus ", latinização do alemão " scharbock ", corruptela de “scharfpocke” (pústula acentuada). O alemão a tomou do russo (dialeto arcangelquiano) “скробот” (skrobot: "leite ou manteiga rançosa"), sendo a doença então dita própria dos povos do norte.[8] Os russos tomaram "skrobot" dos viquingues, que usavam a expressão islandesa "skyrbjugr" por pensarem que os marinheiros tinham a gengivas inchadas (bjurgr) por tomar leite coalhado e rançoso (Skyr).[9]

Existem registos sobre o escorbuto desde cerca de 1500 a.C., no Antigo Egito; mais tarde, Hipócrates descreveu também a doença. Na Idade Média o escorbuto desempenhou um papel importante em alguns conflitos: o exército de Luís IX de França foi severamente afetado pelo escorbuto nos finais da Sétima Cruzada, evitando a conquista do Egito. Era uma doença conhecida das zonas nórdicas, especialmente durante os invernos pobres em alimentos frescos.

A doença é mais bem descrita, falada, e popularizada nas viagens marítimas do século XVI. Cerca de quatro quintos da tripulação de Fernão de Magalhães foi mortalmente vitimada pelo escorbuto. Vasco da Gama também perdeu grande parte da sua tripulação, cerca de dois terços, na viagem de descoberta da via marítima para a Índia.

O explorador francês Jacques Cartier quase falhou a sua missão de exploração do rio São Lourenço quando a sua comitiva adoeceu, tendo esta sido salva pelos ensinamentos médicos dos povos ameríndios; estes usavam uma infusão de cedro, rica em vitamina C, para curar o escorbuto. Foi estimado que cerca de um milhão de marinheiros sucumbiram ao escorbuto nos séculos XVII e XVIII.

Em 1747, o cirurgião escocês James Lind conduziu uma experiência, considerada como o primeiro ensaio clínico registado na história da Medicina. A bordo do navio HMS Salisbury, Lind dividiu um grupo de doze marinheiros afectados pelo escorbuto em diferentes grupos, que receberam diferentes formas de terapia. O grupo com acesso a laranjas e limões recuperou da doença. Lind publicou os seus resultados em 1753, mas a introdução de sumo de limão ou lima na dieta dos marinheiros britânicos só surgiu cerca de quatro décadas mais tarde, por decisão do almirantado britânico em 1795.

O escorbuto existe ainda na atualidade, não só entre populações sem acesso a uma alimentação equilibrada, mas também nos países desenvolvidos entre a população com baixos níveis de consumo de fruta e legumes frescos.[10] O tratamento baseia-se na ingestão de frutas, legumes e vegetais frescos e administração de vitamina C.

O escorbuto era conhecido na época das navegações portuguesas (séculos XV e XVI) como "mal de Angola" pois era nas proximidades deste país que os sintomas da doença começavam a afetar as tripulações dos navios Lusos que buscavam cruzar o Cabo da Boa Esperança em direção à Índia. Como naquela época não se conhecia por completo a doença, achava-se que os tripulantes fossem infectados no país.

Na idade moderna essa doença era comum entre os marinheiros, pois sua alimentação no mar era pobre em frutas e legumes.

Referências

  1. a b c d e f g h i j «Scurvy». GARD. 1 de setembro de 2016. Consultado em 26 de setembro de 2016. Cópia arquivada em 26 de janeiro de 2017 
  2. a b c d e f g h i j k l m n o p q Agarwal, A; Shaharyar, A; Kumar, A; Bhat, MS; Mishra, M (junho de 2015). «Scurvy in pediatric age group - A disease often forgotten?». Journal of Clinical Orthopaedics and Trauma. 6 (2): 101–7. PMC 4411344Acessível livremente. PMID 25983516. doi:10.1016/j.jcot.2014.12.003 
  3. «Vitamin C». Office of Dietary Supplements (em inglês). 11 de fevereiro de 2016. Consultado em 18 de julho de 2017. Cópia arquivada em 30 de julho de 2017 
  4. Renzaho, Andre M. N. (2016). Globalisation, Migration and Health: Challenges and Opportunities (em inglês). [S.l.]: World Scientific. p. 94. ISBN 978-1-78326-889-4. Cópia arquivada em 8 de setembro de 2017 
  5. Toler, Pamela D. (2012). Mankind: The Story of All of Us (em inglês). [S.l.]: Running Press. p. 296. ISBN 978-0762447176. Cópia arquivada em 8 de setembro de 2017 
  6. a b Price, Catherine (2017). «The Age of Scurvy». Distillations. 3 (2). pp. 12–23. Consultado em 17 de abril de 2018 
  7. a b Hemilä, Harri (29 de maio de 2012). «A Brief History of Vitamin C and its Deficiency, Scurvy». Consultado em 25 de maio de 2014. Cópia arquivada em 9 de julho de 2014 
  8. https://books.google.com.br/books?id=DMYEAAAAYAAJ&pg=PA213&lpg=PA213&dq=sharbock+etymology&source=bl&ots=4OZE14QmWJ&sig=NbiXC9fNAGjigkHW2yvIw6b9tgU&hl=pt-BR&sa=X&ved=0ahUKEwjLlb7ct77LAhWGFJAKHc5nAXMQ6AEILjAC#v=onepage&q=sharbock%20etymology&f=false  Em falta ou vazio |título= (ajuda)
  9. «Escorbuto». etimologias.dechile.net 
  10. David L. Nelson, Michael M. Cox , "Lehninger Principles of Biochemistry", 4ª edição, W. H. Freeman, 2005, ISBN 978-0-7167-4339-2


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