Olhai os lírios do campo

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Campo de lírios.
Ca. 1910. Pelos Tiffany Studios, atualmente no Richard H. Driehaus Gallery of Stained Glass, em Chicago.
Disambig grey.svg Nota: Para outros significados, veja Olhai os Lírios do Campo (desambiguação).

Olhai os lírios no campo (ou Olhai os pássaros no céu) é um discurso proferido por Jesus durante o Sermão da Montanha e relatado nos evangelhos de Mateus e Lucas. Este discurso também teve importância considerável para os antigos gnósticos.

Narração bíblica[editar | editar código-fonte]

Em Mateus:

«Ninguém pode servir a dois senhores; pois ou há de aborrecer a um e amar ao outro, ou há de unir-se a um e desprezar ao outro. Não podeis servir a Deus e às riquezas. Por isso vos digo: Não andeis cuidadosos da vossa vida pelo que haveis de comer ou beber, nem do vosso corpo pelo que haveis de vestir; não é a vida mais que o alimento, e o corpo mais que o vestido? Olhai para as aves do céu, que não semeiam, nem ceifam, nem ajuntam em celeiros, e vosso Pai celestial as alimenta; não valeis vós muito mais do que elas? Qual de vós, por mais ansioso que esteja, pode acrescentar um cúbito à sua estatura? Por que andais ansiosos pelo que haveis de vestir? Considerai como crescem os lírios do campo: eles não trabalham nem fiam, contudo vos digo que nem Salomão em toda a sua glória se vestiu como um deles. Se Deus, pois, assim veste a erva do campo, que hoje existe, e amanhã é lançada no forno, quanto mais a vós, homens de pouca fé? Assim não andeis ansiosos, dizendo: Que havemos de comer? ou: Que havemos de beber? ou: Com que nos havemos de vestir? (Pois os gentios é que procuram todas estas coisas); porque vosso Pai celestial sabe que precisais de todas elas. Mas buscai primeiramente o seu reino e a sua justiça, e todas estas coisas vos serão acrescentadas.» (Mateus 6:24-33)

A versão que está em Lucas é seguinte:

«Mas Deus disse-lhe: Insensato, esta noite te exigirão a tua alma; e as coisas que ajuntaste, para quem serão? Assim é aquele que entesoura para si, e não é rico para com Deus. Jesus disse a seus discípulos: Portanto vos digo: Não andeis cuidadosos da vida pelo que haveis de comer, nem do corpo pelo que haveis de vestir. Pois a vida é mais que o alimento, e o corpo mais que o vestido. Considerai os corvos, que não semeiam nem ceifam, não têm despensa nem celeiro; contudo Deus os alimenta. Quanto mais valeis vós do que as aves! Qual de vós, por mais ansioso que esteja, pode acrescentar um cúbito à sua estatura? Se, pois, não podeis fazer nem as coisas mínimas, por que estais ansiosos pelas outras? Considerai os lírios, como não trabalham nem fiam; contudo vos digo que nem Salomão em toda a sua glória se vestiu como um deles. Pois se Deus assim veste a erva no campo, que hoje existe, e amanhã é lançada no forno, quanto mais a vós, homens de pouca fé! Não procureis o que haveis de comer ou beber, nem andeis solícitos; porque os homens do mundo é que procuram todas estas coisas; mas vosso Pai sabe que precisais delas. Buscai antes o seu reino, e estas coisas vos serão acrescentadas. Não temas, pequeno rebanho; porque é do agrado de vosso Pai dar-vos o reino (Lucas 12:20-32)

Relatos apócrifos[editar | editar código-fonte]

Este mesmo discurso aparece também em alguns apócrifos do Novo Testamento, como o Evangelho de Tomé:

Jesus disse: Não andeis preocupados, da manhã até a noite, e da noite até a manhã, [sobre sua comida - o que irás comer ou sobre suas vestes -] sobre o que haveis de vestir (v. 36). [Você é muito melhor que os lírios, que não trabalham e me fiam. E sobre tu, que não tens vestimentas, o que irás vestir? Quem consegue aumentar a sua estatura? Será justamente ele que irá prover-lhe as vestimentas][1]
 
Evangelho de Tomé, v. 36.

Compare também «Ninguém pode servir a dois senhores; pois ou há de aborrecer a um e amar ao outro» (Mateus 6:24) às primeiras duas linhas do verso 47 do Evangelho de Tomé:

Disse Jesus: O homem não pode montar em dois cavalos, nem pode retesar dois arcos. O servo não pode servir a dois senhores, pois ele honra um e ofende o outro.[2]
 
Evangelho de Tomé, v. 47.

Exegese bíblica[editar | editar código-fonte]

A Edição Pastoral da Bíblia comenta essa mensagem por meio de uma nota de rodapé à:

A aquisição de bens necessários para viver se torna ansiedade contínua e pesada, se não for precedida pela busca da justiça do Reino, isto é, a promoção de relações de partilha e fraternidade. O necessário para a vida virá junto com essa justiça, como fruto natural de árvore boa.
No caminho da vida, o homem depara com o problema das riquezas. Jesus mostra que é idiotice acumular bens para assegurar a própria vida. Só Deus pode dar ao homem a riqueza que é a própria vida.

A Bíblia de Jerusalém:

  1. divide Mateus 6:24-34, em duas seções: "Deus e o Dinheiro" (Mateus 6:24) e "Abandonar-se à Providência" (Mateus 6:25-34) e destaca os seguintes paralelismos, trechos correlatos:
2.: divide Lucas 12:13-32, em duas seções: "Não entesourar" (Lucas 12:13-21) e "Abandonar-se à Providência" (Lucas 12:22-32) e destaca os seguintes paralelismos, trechos correlatos:

A Bíblia do Peregrino:

  • Mateus 6:19-34, que observa que esses versículos contém quatro recomendações sobre a posse de bens, que servem para melhor compreender o "espírito de pobreza" mencionado no início das bem-aventuranças;
  • Mateus 6:19-21, que observa que esses versículos tem como foco dos "tesouros no céus", e que:
  1. os livros proféticos e sapienciais já condenavam a busca de riquezas materiais como ponto de apoio para a existência (cf. Salmos 62:11);
  2. um modo concreto de negar a busca pela acumulação de de riquezas materiais é dar esmolas (cf. Provérbios 19:17 e Eclesiástico 29:8-13);
  3. (em vez de acumular riquezas) é importante assistir aos pais na velhice, (cf. Eclesiástico 3:12-16);
  4. existe um precedente de traças que roem tesouros em: Salmos 39:12 e um precedente ao "ladrão que arromba" em Êxodo 22:1;
  1. para os hebreus, o termo "olho" além de designar o órgão responsável pela visão, também designa a capacidade de avaliar (cf. Deuteronômio 15:9, Provérbios 22:9, Eclesiástico 14:3-15, Eclesiástico 31:13, Eclesiástico 31:23-24, Eclesiástico 37:11 e Mateus 20:15);
  2. na literatura rabínica: "ophthalmós ponerós" não significa "olho doente" e "haplous" significa "generoso" (cf. II Coríntios 8:2 e II Tiago 1:5);
  3. o olho bom/generoso ilumina a alma o olho mau/mesquinho/invejoso a escurece;
  4. para uma maior reflexão mesquinhez/generosidade, cabe a leitura de Eclesiástico 14:3-16;
  1. Mamon, o "Deus do Dinheiro", é um rival inconciliável do Deus verdadeiro, que é generoso (cf. Salmos 21:3-7, Salmos 37:4-6 e Salmos 136:25);
  2. a cobiça é idolatria (cf. Colossenses 3:5);
  3. o cobiçoso não possui, mas na verdade é possuído por seus bens e suas ânsias;
  • Mateus 6:24-34, que observa que esses versículos tem como foco a dualidade bens terrenos/confiança em Deus, e que:
  1. condenam a busca excessiva por segurança por meio de bens terrenos e a falta de confiança em Deus, típicos de uma mentalidade pagã;
  2. Ben Sirac já denunciava essa preocupação excessiva em: Eclesiástico 31:1-2;
  3. a previsão econômica razoável não é afastada;
  4. a busca pelo reinado de Deus e sua justiça é também uma busca por uma ordem justa entre os homens;
  5. as imagens tiradas da natureza revelam parte da sensibilidade contemplativa de Jesus, em sintonia com um estilo já adotado no Antigo Testamento (cf. Salmos 36:7 e Salmos 104:27-28);
  6. a referência à Salomão pode ser melhor compreendida pela leitura de I Reis 10:;
  7. os texto não ensina a se despreocupar, mas a mudar o objeto da preocupação.
  1. o fato de "alguém da multidão" se pronunciar, esclarece que naquele contexto Jesus falava a muitos ouvintes;
  2. a reclamação do homem estava em conformidade com Gênesis 21:10, Juízes 11:2 e Eclesiástico 32:20-24;
  3. Jesus não veio para dirimir litígios sobre interesses pecuniários, ele ensinar a dar mais do que a pedir, é contrário à submissão da vida à busca pelas posses, que vicia as relações humanas (cf. Salmos 49:);
  1. a parábola é uma crítica à confiança nas riquezas (cf. Salmos 49:7, Salmos 49:18-19, Salmos 52:9, Provérbios 11:28 e Eclesiástico 11:18-28);
  2. o ideal de vida do personagem é comer, beber e desfrutar (cf. Jeremias 22:13-19, Eclesiastes 2:24-26, Eclesiastes 3:13, Eclesiastes 8:15 e Sabedoria 2:1-20), que é insensato ()cf. Sabedoria 2:21-22);
  3. a vida é algo que Deus empresta aos homens, e mesmo os ricos terão que restituir, rico para Deus é aquele que ajuda ao próximo (cf. Provérbios 19:17 e Eclesiástico 29:8-13);
  1. trata-se de palavras que Jesus dirige aos seus discípulos, portanto é um ensinamento dirigido àqueles que iriam pregar o Evangelho;
  2. a ansiedade é prejudicial àqueles dedicados à pregação do Evangelho;
  3. a busca do Reinado de Deus é o caminho (cf. Lucas 12:31);
  4. dar esmolas (cf. Lucas 12:33) e confiar em Deus (cf. Lucas 12:30 e Lucas 12:32) em Deus é parte da solução;
  5. a argumentação progride em duas fases: em um primeiro momento se afirma que a vida é mais importante que os meios para conservá-la e protegê-la (comida e roupa) (cf. Lucas 12:22-23); pois, se Deus cuida de vossa vida, cuidará dos meios para conservá-la, em um segundo momento se utiliza do argumento a minore ad maius, pois se Deus cuida das aves e das flores, cuidará também dos seus filhos;
  6. os pagãos se dedicariam à conservação da vida, até o ponto de desviver para continuar vivendo, por outro lado, aqueles que buscam o Reino devem ter outra perspectiva (Lucas 12:32-34);
  7. a utilização da imagem de animais e vegetais dão maior serenidade e confiança aos ouvintes, e demonstram a sensibilidade de Jesus diante da natureza;
  1. o coração é visto em textos bíblicos como o centro da vida consciente e livre;
  2. o tesouro é aquilo que polariza seu interesse e alimenta a sua atividade, portanto devemos por nosso tesouro em um lugar que que transcende o limite desta vida.

A Tradução Ecumênica da Bíblia:

divide Mateus 6:24-34, em duas seções: "Ou Deus ou o dinheiro" (Mateus 6:24) e "As preocupações" (Mateus 6:25-34) e, nesses trechos:
observa por meio de Notas de Rodapé a:
Mateus 6:24, que na versão original em grego-koiné se utiliza o termo Mamon para se referir ao dinheiro, que personifica o dinheiro como uma potência que escraviza o mundo, cf. Lucas 16:9;
Mateus 6:25, que Jesus não faz um apelo à negligência, mas à confiança que se expressa na oração (cf. Mateus 6:11, Mateus 7:7-11 e Filipenses 4:6) dirigida à Deus-Pai, que liberta o homem das preocupações (cf. Mateus 16:5-12 e I Pedro 5:7);
Mateus 6:27, que a expressão "prolongar, por pouco que seja, a sua existência" foi uma adaptação da tradução literal: "pode acrescentar um só côvado ao cumprimento de tua vida";
Mateus 6:28, que ao se referir aos "lírios", Jesus também se referia às outras flores do campo (cf. Oséias 14:6);
Mateus 6:30, que o tema da pouca , também é tratado em Lucas 6:28, Mateus 8:26, Mateus 14:31, Mateus 16:8 e Mateus 17:20.
faz indicações de paralelismo/correlação entre:
Mateus 6:25-34 e Lucas 12:22-31;
Mateus 6:24 e Lucas 16:13;
Mateus 6:25-34 e Lucas 12:22-31;
Mateus 6:26 e Mateus 10:31, Lucas 12:7 e Lucas 12:24;
Mateus 6:29 e I Reis 10: e II Crônicas 9:;
Mateus 6:32 e Mateus 6:8 e Lucas 12:30;
Mateus 6:33 e Salmos 37:4;
Mateus 6:34 e Êxodo 16:4;
denomina o trecho inscrito em Lucas 12:22-32 como: "Viver da graça de Deus" e, nesse trecho:
observa por meio de Notas de Rodapé a:
Lucas 12:26, que esse versículo é apresentado apenas no Evangelho segundo Lucas e deve ser interpretado em conjunto com: Lucas 16:10-11 e Lucas 19:17;
Lucas 12:27, que a expressão "Observai os lírios: eles não fiam e nem tecem" é uma adaptação da tradução literal que seria: "Observai os lírios como eles crescem; eles não se afligem e nem fiam";
Lucas 12:32, que:
a expressão "pequeno rebanho" é uma imagem pastoril, utilizada:
no Antigo Testamento para representar o Povo de Deus (cf. Gênesis 48:15, Oséias 4:16, Oséias 13:4-6, Miquéias 2:12-13, Miquéias 4:6-7, Miquéias 7:14, Sofonias 3:19-20, Jeremias 3:15, Jeremias 10:21, Jeremias 23:1-4, Jeremias 29:10-14, Jeremias 31:8-10, Jeremias 50:6-8, Jeremias 50:19, Ezequiel 34:, Ezequiel 37:24, Isaías 40:11, Isaías 49:9-10, Salmos 23:1, Salmos 28:9, Salmos 74:1, Salmos 80:2, Salmos 95:7 e Salmos 100:3;
por Jesus para se referir:
  1. à Israel: Mateus 9:36, Marcos 6:34
  2. aos judeus pecadores: Mateus 10:6, Mateus 15:24, Lucas 15:4-6, Lucas 19:10;
  3. ao grupo de discípulos: Mateus 26:31, Marcos 14:27, João 10:1-16, João 21:15-17, João 10:27, Atos 20:28-29 e I Pedro 5:2-3;
trata-se de conclusão somente apresentada na versão narrada por Lucas;
faz indicações de paralelismo/correlação entre:
Lucas 12:22-32 e Mateus 6:25-33;
Lucas 12:32 e Daniel 7:18.

Cultura[editar | editar código-fonte]

A obra Olhai os Lírios do Campo, de Érico Veríssimo, foi batizada com base neste trecho bíblico[5] .

Ver também[editar | editar código-fonte]

Referências

  1. Evangelho de Tomé (em português) Saindo da Matrix.
  2. Evangelho de Tomé (em português) Saindo da Matrix.
  3. Capítulo 6 do EVANGELHO SEGUNDO SÃO MATEUS, acesso em 27 de abril de 2014.
  4. Capítulo 12 do EVANGELHO SEGUNDO SÃO LUCAS, acesso em 27 de abril de 2014.
  5. DANIELA BORJA BESSA. O DISCURSO RELIGIOSO EM "OLHAI OS LÍRIOS DO CAMPO" (em português) Biblioteca Digital da UFMG. Visitado em 06/02/2012.