Pío Baroja

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Pío Baroja
Pío Baroja
Nome completo Pío Baroja y Nessi
Nascimento 28 de dezembro de 1872
Flag of Spain (1785–1873, 1875–1931).svg São Sebastião
Morte 30 de outubro de 1956
Flag of Spain (1945–1977).svg Madrid
Movimento literário Geração de 98
Magnum opus A vida dum conspirador

Pío Baroja y Nessi (São Sebastião, 28 de dezembro de 1872Madrid, 30 de outubro de 1956) foi um escritor espanhol da chamada Geração de 98. Foi irmão do pintor e escritor Ricardo Baroja e tio do antropólogo Julio Caro Baroja e do diretor de cine e guionista Pío Caro Baroja.

Biografia[editar | editar código-fonte]

Pío Baroja pertenceu a famílias conhecidas em São Sebastião relacionadas ao jornalismo e aos negócios de imprensa. O seu bisavô paterno, Rafael, foi em Oiartzun impressor de jornal durante a guerra contra Napoleão. O seu avô do mesmo nome, Pío Baroja, editou em São Sebastião o jornal El Liberal Guipuzcoano (18201823) durante o Triênio Liberal e imprimiu a Historia de la Revolución francesa de Thiers em doze tomos, com tradução de Sebastián de Miñano y Bedoya.

O seu primeiro sobrenome é de origem basca, embora de etimologia incerta. Nas suas Memórias[1] o próprio Dom Pío aventura uma fantástica etimologia, segundo a qual "Baroja" seria um apócope de (i)bar (h)otza, que em basco significa 'vale frio' ou 'rio frio'. Também poderia proceder de "Bar" + "oitz", rio vermelho.

Pío foi o terceiro de três irmãos: Darío, que faleceu ainda novo em 1894; Ricardo, que seria no futuro também escritor e um importante pintor, conhecido sobretudo pelas suas água-fortes, e Pío, o irmão menor, que deixaria a profissão de médico pela de romancista cerca de 1896. Já muito depois, nasceu Carmen. O pai dos Baroja, Serafín, era, bem como homem inquieto e jornalista de ideias liberais, um engenheiro de minas do Estado, o qual levou a família a constantes mudanças de residência por toda Espanha. Aos sete anos marchou com a sua família para Madrid, onde o pai obteve um posto no Instituto Geográfico e Estadístico; porém, voltaram a Pamplona e outra vez novamente a Madrid. Baroja foi afeiçoado à literatura enquanto era novo. Livrou-se do serviço militar, que rejeitava. Em 1891 terminou a carreira de medicina em Valência e doutorou-se em 1894 em Madrid com uma tese sobre A dor, estudo psicofísico.

Formação acadêmica[editar | editar código-fonte]

Como estudante não se destacou, mais por falta de interesse do que de talento; nenhuma profissão lhe atraía, apenas gostava de escrever. Decidiu-se a publicar no final do século XIX, quando regia uma padaria propriedade de um tio seu. Naquele então leu filosofia alemã (Immanuel Kant e Arthur Schopenhauer), inclinando-se pelo pessimismo do autor germano; o seu amigo suíço Paul Schmitz introduzi-lo-ia mais tarde na filosofia de Nietzsche. Era um homem de pensamento e não de ação.

Após defender a sua tese, marchou nesse mesmo ano de 1894 para Zestoa, em Guipúscoa, para um posto de médico. Essa vida parecia-lhe monótona, dura e não muito bem remunerada; preferia voltar a Madrid e intentá-lo como escritor; teve alguma diferença de critério com o médico velho, com o prefeito, com o pároco e com o setor católico da povoação, que o acusava de trabalhar os domingos no seu jardim e de não ir a missa; nunca simpatizou com a Igreja desde a sua mesma infância, como conta numa das suas autobiografias, Juventud, egolatria. Após passar um ano ali voltou para São Sebastião, disposto a provar sorte no mundo literário, e encontrou a sua oportunidade em Madrid, onde o seu irmão Ricardo dirigia uma padaria que uma tia materna lhes legara; Ricardo tinha-lhe escrito que estava cheio disso e queria deixá-lo, e Pío decidiu encarregar-se ele próprio da padaria. Instalado em Madrid, começou a colaborar em jornais e revistas, simpatizando com as doutrinas sociais anarquistas, mas sem militar abertamente em nenhuma. Assim como o seu contemporâneo Miguel de Unamuno, abominou do nacionalismo basco, contra o qual escreveu a sátira Momentum catastrophicum.

Escritor[editar | editar código-fonte]

Em 1900 publicou o seu primeiro livro, uma recopilação de contos intitulada Vidas sombrias, a maioria compostos em Zestoa sobre gentes dessa região e as suas próprias experiências como médico. Nesta obra encontra-se o gérmen das obsessões que refletiu nos seus romances posteriores. O livro foi comentado por prestigiosos escritores como Miguel de Unamuno, por Azorín e por Benito Pérez Galdós. Baroja foi assim acercando-se cada vez mais ao mundo literário e abandonando o negócio de padaria até o deixar por completo. Estreitou uma especial amizade com o anarquista José Martínez Ruiz, mais conhecido como Azorín, e fez, impulsionado por ele, alguma tentativa de entrar na política, apresentando-se de vereador em Madrid e de deputado por Fraga, mas fracassou. Ao acercar-se Azorín ao partido de Antonio Maura, rompeu a sua antiga amizade. Também cultivou a amizade de Maeztu. Com ele e Azorín formaram durante um breve período o grupo dos Três.

Em princípios do século XX (1903) esteve em Tânger como jornalista. Viajou depois por toda Europa (residiu várias vezes em Paris, esteve algum tempo em Londres, e passou pela Itália, Bélgica, Suíça —onde teve um grande amigo, o filo-nazi nietzschiano Paul Schmitz—, a Alemanha, Noruega, Holanda e Dinamarca) e acumulou uma impressionante biblioteca especializada em ocultismo, bruxaria e história do século XIX, que instalou num velho casario do século XVII que comprou em Vera de Bidasoa e restaurou, onde passava os verões com a sua família.

Elegeu Navarra para veranear. Isto salvou-lhe a vida em 1936 permitindo-lhe fugir para França após o golpe de estado de 18 de Julho. Passou uma noite detido por carlistas, por ser agnóstico.

Em 1921 foi operado de próstata. Sempre negou a existência da "Geração de 98" por considerar que careciam os seus pretendidos componentes das necessárias afinidades e similaridades.

A sua principal contribuição para a literatura, como ele próprio confessava em Desde a última volta do Caminho (as suas memórias compendiadas, Ed. Tusquets, 2006), é a observação e valoração objetiva, documental e psicológica da realidade que o rodeou. É um mito a sua misoginia, tendo descrito numerosas personagens femininas encantadoras ou sem denigração alguma para estas,.

Nos seus romances refletiu uma filosofia realista, produto da observação psicológica e objetiva, impregnada talvez com o profundo pessimismo de Arthur Schopenhauer, mas que pregava em alguma forma uma espécie de redenção pela ação, na linha de Friedrich Nietzsche: daí as personagens aventureiras e vitalistas que inundam a maior parte dos seus romances, mas também os mais escassos abúlicos e desenganados, como o Andrés Hurtado de O árvore da ciência ou o Fernando Ossorio de Caminho de perfeição (paixão mística). Ideologicamente, terminou por se identificar com as doutrinas liberais e por abominar do Comunismo, embora, sem abandonar em nenhum momento as suas ideias anticlericais, foi -somente de nome- cofundador em 11 de fevereiro de 1933 da Associação de Amigos da União Soviética, criada em uns tempos em que a direita condenava os relatos sobre as conquistas e os problemas do socialismo na URSS. Em 1935 foi admitido na Real Academia Espanhola; foi acaso a única honra oficial que lhe foi dispensada.

Guerra Civil[editar | editar código-fonte]

Quando estourou a Guerra Civil veraneava na sua casa de Vera de Navarra, ao pé da fronteira com França. Foi detido pela coluna carlista que desde Pamplona se dirigia a Guipúscoa. Após passar um dia em prisão, foi liberto por intervenção do militar Carlos Martínez Campos, duque da Torre (anos mais tarde preceitor do príncipe da Espanha, Juan Carlos). Trasladou-se imediatamente para França num automóvel, estabelecendo-se em Paris, no Colégio da Espanha da Cidade Universitária, graças à hospitalidade que lhe ofereceu o diretor desse colégio.

No período 1936–1939 regressou à Espanha ("zona nacional") várias vezes, e uma delas foi a Salamanca (janeiro de 1938) para jurar como membro do recém criado Instituto da Espanha e para gerir a publicação de artigos jornalísticos muito críticos com a República em geral e com os políticos republicanos.

Pós-guerra[editar | editar código-fonte]

De algum jeito, a sua melhor literatura termina com a Guerra, salvo a composição das suas memórias Desde a última volta do caminho, um dos melhores exemplos de autobiografia em língua castelhana.

Terminada a Guerra Civil, residiu ainda uma curta época na França e estabeleceu-se mais tarde definitivamente entre Madrid e Vera de Bidasoa. Seguiu escrevendo e publicando romances, as suas Memórias (que atingiram grande sucesso) e uma edição das suas Obras completas. Sofreu alguns problemas com a censura, que não permitiu publicar o seu romance sobre a Guerra Civil, Misérias da guerra, nem a sua continuação, Os caprichos da sorte. A primeira foi publicada pelos seus sucessores em 2006. Susteve no seu domicílio de Madrid uma tertúlia, na qual participavam diversas personalidades, entre elas romancistas como Camilo José Cela, Juan Benet e outros.

A sua irmã Carmen faleceu em 1949 e o seu irmão Ricardo em 1953. Afetado pela arteriosclerose, faleceu em 1956 e foi enterrado no Cemitério Civil de Madrid (junto à Almudena) como ateu, com grande escândalo da Espanha oficial, apesar das pressões que recebeu o seu sobrinho, o antropólogo Julio Caro Baroja, para que renunciasse à vontade do seu tio. Contudo, o então ministro de Educação Nacional, Jesús Rubio García-Mina, assistiu na sua qualidade de tal ao enterro. O seu ataúde foi levado a ombros entre outros por dois dos seus admiradores, Ernest Hemingway e Camilo José Cela. Também o escritor norte-americano John Dos Passos declarou a sua admiração e a sua dívida com o escritor.

Obra[editar | editar código-fonte]

Baroja cultivou preferentemente o gênero narrativo, mas acercou-se também com frequência ao ensaio e ocasionalmente ao teatro, a lírica (Canciones del suburbio) e a biografia.

O próprio autor agrupou os seus romances, um pouco arbitrariamente, em nove trilogias e uma tetralogia, embora seja difícil distinguir que elementos podem ter em comum: Terra vasca, A luta pela vida, O passado, O mar, A raça, As cidades, Agonias do nosso tempo, A selva obscura, A juventude perdida e A vida fantástica. Entre 1913 e 1935 apareceram os 22 volumes de um longo romance histórico, Memórias de um homem de ação, baseada na vida de um antepassado seu, o conspirador e aventureiro liberal e mação Eugenio de Aviraneta (1792–1872), através do qual reflete os acontecimentos mais importantes da história espanhola do século XIX, desde a Guerra da Independência até a regência de Maria Cristina, passando pelo turbulento reinado de Fernando VII.

Baroja apareceu publicado em 1938 na editorial Reconquista: Comunistas, judíos y demás ralea, livro formado por fragmentos de obras e artigos de Baroja anteriores a 1936 e do tempo da própria guerra.

Baroja publicou também contos, como os que recolheu em Vidas sombrias (1900) e Idílios vascos (1902); livros autobiográficos e de memórias (Juventud, egolatria e os oito volumes Desde a última volta do caminho. Para além disso, redigiu biografias como Juan van Halen ou Aviraneta ou a vida de um conspirador (1931); ensaios, como O travado de Arlequim (1904), A caverna do humorismo (1919), Momentum catastrophicum, etc., e algumas obras dramáticas.

Defensor de um romance aberto, pois considera esta como um fluir em sucessão ("O romance em geral é como a corrente da história: não tem princípio nem fim; começa e acaba onde se quiser."), compõe as suas obras através de uma série de episódios dispersos, unidos, muitas vezes, pela presença de uma personagem central.

A maior parte das personagens barojianas são seres inadaptados, que se opõem ao ambiente e a sociedade na que vivem, embora impotentes, incapazes de demonstrar energia suficiente para levar longe a sua luta, acabam frustrados, vencidos e destruídos, ocasionalmente fisicamente, em muitas outras moralmente, e, em consequência, condenados a submeter-se ao sistema que recusaram.

O cepticismo barojiano, a sua ideia de um mundo que carece de sentido, a sua falta de fé no ser humano levam-no a recusar qualquer possível solução vital, quer religiosa, quer política ou filosófica e, por outro lado, conduzem-no a um individualismo pessimista.

Baroja tinha forma de escrever de tendência antirretórica, e recusava os longos e labirínticos períodos dos prolixos narradores do Realismo, assim como o afã de criar o que denominava uma "retórica de tom menor", caracterizada por:

  • Emprego do período curto.
  • simplicidade e economia expressiva.
  • Impressionismo descritivo: seleção de traços significativos mais que reprodução fotográfica ao pormenor característica dos minuciosos e documentados narradores do Realismo.
  • Tom azedo, seleção de um léxico que degrada a realidade a tom com a atitude pessimista do autor.
  • Breves ensaios e intensos intermédios líricos.
  • Tempo narrativo rápido, crono-topo dilatado.
  • Diálogos respeitosos com a oralidade e a naturalidade.
  • Desejo de exatidão e precisão, traços estilísticos que conferem a amenidade, o dinamismo e a sensação de naturalidade e vida que o escritor visava para os seus romances.

Cabe destacar-se também a sua colaboração com o cine nas duas adaptações do seu romance Zalacaín o aventureiro.

Bibliografia[editar | editar código-fonte]

  • ALARCOS LLORACH, E. Anatomía de «La lucha por la vida». Oviedo: 1973.
  • ARREGUI ZAMORANO, M. T. Estructuras y técnicas narrativas en el cuento literario de la generación del 98: Unamuno, Azorín y Baroja. Pamplona: 1998.
  • Baeza, F. (ed.). Baroja y su mundo, 3 vols. Madrid: 1961.
  • CARO BAROJA, J. Los Baroja. Madrid: 1973.
  • CARO BAROJA, P. Guía de Pío Baroja. El mundo barojiano. Madrid: 1987.
  • Cipliajauskaite, B. Baroja, un estilo, Madrid: Ínsula, 1972.
  • CUETO PÉREZ, Magdalena. Aspectos sistemáticos en la narrativa de Pío Baroja: El árbol de la Ciencia. Oviedo: Universidad de Oviedo, 1985.
  • DEL MORAL, C. La sociedad madrileña fin de siglo y Baroja. Madrid: 1974.
  • ELIZALDE, I. Personajes y temas barojianos. Bilbao: 1975.
  • GONZÁLEZ LÓPEZ, E. El arte narrativo de Pío Baroja en las trilogías. Nueva York: 1972.
  • IGLESIAS, C. El pensamiento de Pío Baroja. México: 1963.
  • NAVARRO, K. Pío Barojaren Donostia. Irún: Alberdania: 2006.
  • SÁNCHEZ-OSTIZ, Miguel. Pío Baroja, a escena Madrid: Espasa-Calpe, 2006.
  • SÁNCHEZ-OSTIZ, Miguel. Tiempos de tormenta. Pío Baroja 1936–1941. Pamplona: Pamiela, 2007.
  • SÁNCHEZ-OSTIZ, Miguel. Derrotero de Pío Baroja. Irún: Alberdania, 2000.

Referências

  1. Desde la última vuelta del camino. Tomo IV (Galería de tipos de la época). Biblioteca Nueva, Madrid 1947, pp. 342 e 343.
  • Este artigo foi inicialmente traduzido do artigo da Wikipédia em castelhano, cujo título é «Pío Baroja».

Ver também[editar | editar código-fonte]

Ligações externas[editar | editar código-fonte]