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Rio Carioca

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Rio Carioca
Rio Carioca
Vista do Rio Carioca junto ao Largo do Boticário: um dos poucos lugares em que suas águas correm a céu aberto
Comprimento 4,3 km
Nascente Floresta da Tijuca
Foz Baía de Guanabara

O Rio Carioca é um rio localizado no município do Rio de Janeiro, no Brasil. Nasce na Floresta da Tijuca, percorre os bairros de Cosme Velho, Laranjeiras, Catete e Flamengo e deságua na Baía de Guanabara, na altura da Praia do Flamengo. A maior parte de seu curso é, atualmente, subterrâneo: em apenas três trechos, suas águas correm a céu aberto. O primeiro, na sua nascente, na Floresta da Tijuca; o segundo, junto ao Largo do Boticário, no Cosme Velho e o terceiro, na sua foz na Praia do Flamengo, junto à estação de tratamento de efluentes.[1]

Etimologia

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O termo "carioca" é de origem tupi[2] e foi adotado como gentílico a partir do nome do Rio Carioca, principal fonte de água potável da cidade por um longo tempo.[3][4][5] No entanto, a história da etimologia palavra contou com diferentes interpretações.

Historicamente, a tese mais difundida foi a que a palavra significaria "casa de homem branco": kara'iwa (homem branco) + oka (casa)[6], como referência a uma suposta casa de pedra construída próxima à foz do Rio Carioca por Gonçalo Coelho, na segunda expedição portuguesa à Baía de Guanabara, em 1503-1504. Essa tese foi formulada nos anos 1850s pelo historiador Francisco Adolfo de Varnhagen[7], e segue até hoje bastante citada em livros contemporâneos[6][8].

Contudo, ainda que a tese siga aparecendo em dicionários gerais e obras de referência, hoje é consenso entre linguistas que essa tese é errada, tanto do ponto de vista historiográfico quanto linguístico.[3][9][4][10][11][12][13][5] Em vez disso, a tese que se apresenta é que o nome vem de kariîó + oka, "casa do indígena carijó" – nome da principal aldeia tupinambá na margem esquerda da Baía, ocupando um território na foz do Rio Carioca, correspondente aos atuais bairros da Glória, Catete e Flamengo. De fato, dois documentos históricos fundamentais apoiam essa explicação: o escritor francês Jean de Léry, que fez parte da expedição francesa que implantou a França Antártica, lista em seu Viagem à Terra do Brasil (1574), as aldeias tupinambá visitadas por ele entre 1557 e 1558, e descrever assim o nome da Aldeia Karióka (tradução de Rafael Freitas da Silva)[3][14]:

Nessa aldeia, assim chamada, que é o nome de um ribeiro, da qual a aldeia toma o nome, por estar situada perto. Verte-se por casa dos kariós; composto desta palavra kariós [carijós] e de ók [oca], que significa casa. Tirando os 'os' e acrescentando ók, teremos kariók.

Além disso, o padre José de Anchieta, em seu Auto de São Lourenço, lista todas as aldeias tupinambá derrotadas pelos portugueses ao redor da Baía, e cita tal aldeia diretamente como "Carijo oca"[15][16][3][9]:

Yaupa Moçupiroka, Yequej, guatapitiba, […] Carijo oca, Pacucaya, Araçatiba.

Ao contrário do que afirma Léry, contudo, o nome do Rio Carioca vem muito provavelmente do nome da Aldeia e não o contrário, uma vez que nomes de águas em tupi sempre terminam com o sufixo -y.[17] Além disso, seria muito improvável que os tupinambás usassem uma referência a homens brancos para nomear tanto a sua aldeia quanto um riacho, que ao que tudo indica existem desde muito antes da chegada dos europeus.[3]

História

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O rio Carioca está intimamente vinculado ao desenvolvimento urbano da cidade, tendo sido usado como fonte de água doce desde os inícios da época colonial.

As águas do rio foram canalizadas e desviadas já nos séculos XVII e XVIII, durante a construção do Aqueduto da Carioca. Terminado em 1750, o aqueduto alimentava várias fontes e chafarizes do Rio de Janeiro colonial. Uma das principais dessas fontes localizava-se num largo no centro da cidade, o que deu origem à denominação do Largo da Carioca. O rio foi, durante toda a época colonial, a principal fonte de água doce para a população. Na altura do atual Largo do Machado, formava a lagoa do Suruí (termo proveniente do tupi siri 'y , que significa "rio dos siris"[18]), da Carioca ou de Sacopiranha.[19]

Da lagoa da Carioca, uma parte das águas seguia até a foz do rio na Praia do Flamengo e outra parte se desviava para a esquerda, formando o rio Catete, que desaguava na Praia do Russell, que é atualmente a Rua do Russell, no bairro da Glória. Posteriormente, tanto a Lagoa da Carioca quanto o rio Catete foram aterrados.[20] Desde 1905, após obras do prefeito Pereira Passos, o rio corre subterraneamente na maior parte de seu curso, visando a prevenir inundações.[20] Em 2003, começou a entrar em operação uma estação de tratamento de efluentes na foz do rio, na Praia do Flamengo. O tratamento da água é necessário devido aos esgotos clandestinos jogados no rio ao longo de seu curso, através da rede pluvial.[21]

Referências

  1. «O rio do Rio». Folha de S.Paulo. 15 de janeiro de 2019. Consultado em 7 de outubro de 2020 
  2. «Carioca». Michaelis On-Line. Consultado em 5 de outubro de 2025 
  3. a b c d e «O RIO ANTES DO RIO - Rafael Freitas da Silva - Livro». Travessa.com.br. Consultado em 9 de agosto de 2016 
  4. a b Erro de citação: Etiqueta <ref> inválida; não foi fornecido texto para as "refs" nomeadas :1
  5. a b comunik16@gmail.com, Comunik16, https://comunik16 dev. «Rio Memórias». Rio Memórias. Consultado em 5 de outubro de 2025 
  6. a b FERREIRA, A. B. H. Novo dicionário da língua portuguesa. Segunda edição. Rio de Janeiro. Nova Fronteira. 1986. p. 353
  7. Varnhagen, Francisco Adolfo de (1854). História Geral do Brasil, V. I. Madri: Imprensa da V. de Dominguez. p. 415 
  8. BUENO, E. Capitães do Brasil: a saga dos primeiros colonizadores. Rio de Janeiro. Objetiva. 1999. p. 46,47.
  9. a b Navarro, Eduardo De Almeida; Trevisan, Rodrigo Godinho; Fonseca, Renato Da Silva (28 de abril de 2012). «Recensão crítica do livro "O português e o tupi no Brasil"». Língua e Literatura (30). 359 páginas. ISSN 2594-5963. doi:10.11606/issn.2594-5963.lilit.2012.97584. Consultado em 5 de outubro de 2025 
  10. Santana, Andreza Bispo (org). O Povo Brasileiro I: Matriz Tupi (PDF). Universidade de São Paulo.: [s.n.] p. 25 
  11. NAVARRO, E. A. Método moderno de tupi antigo: a língua do Brasil dos primeiros séculos. Terceira edição. São Paulo: Global, 2005. p. 187
  12. Domene, Marina Gialluca. «O Diabo em Anchieta: a representação do diabólico no Brasil dos Quinhentos». Consultado em 5 de outubro de 2025 
  13. Carlos, Jose. «Dicionário Tupi-Guarani / Português Dicionário Tupi -Guarani / Português». Consultado em 5 de outubro de 2025 
  14. Léry, Jean de (1941). Viagem à Terra do Brasil. São Paulo: Livraria Martins. p. 255 
  15. Anchieta, José (2010). O Auto de São Lourenço. São Paulo: Valer. p. 22 
  16. Anchieta, José (1933). Cartas, informações, fragmentos históricos e sermões. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira 
  17. Edelweiss, Frederico (1963). Quirimurê – Atribulações de um Topônimo. Salvador: Arquivos da Universidade da Bahia, v. VII 
  18. NAVARRO, E. A. Método moderno de tupi antigo: a língua do Brasil dos primeiros séculos. 3ª edição. São Paulo. Global, 2005. 463 p.
  19. Rio & Cultura. Disponível em http://www.rioecultura.com.br/instituicao/instituicao.asp?local_cod=399. Acesso em 7 de março de 2013.
  20. a b Alexandre Pessoa Dias & Thereza Christina de Almeida Rosso. O rio Carioca da cidade do Rio de Janeiro, Brasil: da sua história o que preservar?. GoogleDocs
  21. NASCIMENTO, E. Alfredo Sirkis. Disponível em http://www2.sirkis.com.br/noticia.kmf?noticia=5533555&canal=257&total=76&indice=50. Acesso em 7 de março de 2013.
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