Rio Nabão

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Rio Nabão
RioNabao.JPG

Rio Nabão e ponte romana em Tomar

Localização
País
Coordenadas
Dimensões
Comprimento
61,47 km
Hidrografia
Tipo
Bacia hidrográfica
Área da bacia
1 053 km²
Maior cidade
Nascente
Altitude da nascente
205 m
Afluente
principal
Caudal médio
11,56 m³/s
Foz
Rio Zêzere (Nabão → ZêzereTejoAtlântico)

O rio Nabão é um rio português afluente do rio Zêzere que passa na cidade de Tomar. Nasce no concelho de Ansião, no lugar dos Olhos de Água, e a ele junta-se, a cerca de 10 km de Tomar, a nascente do Agroal, já no concelho de Ourém. O rio Nabão desagua na margem direita do rio Zêzere, depois de um percurso de 61,47 km.

A bacia hidrográfica do Nabão tem uma densa rede hidrográfica, onde os principais afluentes para o curso central são: a ribeira do Fárrio, a ribeira de Caxarias, a ribeira da Sabacheira e a ribeira da Bezelga, na margem direita, enquanto na margem esquerda encontra-se a ribeira do Tordo, o ribeiro das Quebradas, a ribeira da Milheira e a ribeira da Lousã.[1]

Ao rio Nabão anda associada a lenda de Santa Iria.

Nos últimos anos o rio Nabão tem sido alvo de descargas poluidoras,[2] com origem em indústrias e ETAR's.

Curso[editar | editar código-fonte]

Nascente

39° 55' 08.1" N 8° 25' 33.1" O

O rio Nabão nasce a uma cota de 205 metros em Olhos de Água, na vila e concelho de Ansião, fazendo parte do Sistema Aquífero Sicó-Alvaiázere.[3][4]

Percurso

No percurso de cerca de 61,47 km, o rio Nabão segue na maior parte do seu caminho de Norte para Sul. Com um caudal médio de 11,56 /s, a área da sua bacia é de 1053 km².[4]

Serras

O leito do rio Nabão tem ligações com a Serra do Sicó, Serra da Ameixieira, Serra da Portela, Serra de Alvaiázere, Serra de Santa Catarina, Serra do Castelo, Serra do Mosqueiro, Serra do Mouro, Serra dos Ariques, Serra Pequena e a Serra da Nova.[4]

Povoações

O percurso do rio Nabão envolve no concelho de Ansião as freguesias de Ansião, Chão de Couce, Lagarteira, Santiago da Guarda e Torre de Vale de Todos; no concelho de Alvaiázere as freguesias de Almoster e Pelmá; no concelho de Pombal a freguesia de Abiul; no concelho de Ourém as freguesias de Formigais, Freixianda e Rio de Couros e no concelho de Tomar as freguesias da Sabacheira, Madalena, Pedreira, Tomar, São Pedro de Tomar, Além da Ribeira e Asseiceira.[4]

Bacia hidrográfica do rio Nabão

Canhão fluvio-cársico

O rio Nabão ao atravessar o Maciço Calcário Estremenho num vale profundo e cavado, apresenta a parte do seu percurso mais natural e quase sem marcas da presença humana (com exceção da antiga Fábrica de Papel de Porto de Cavaleiros, abandonada) e cada vez mais procurada para atividades de turismo da natureza como caminhadas, canoagem, espeleologia e escalada.

Os principais pontos singulares desse percurso são:

Marca de inundação de 1909 em fachada na rua da Corredoura
  • Nascente da Fonte Grande de Formigais;
  • Foz da ribeira da Sabacheira;
  • Parque Natureza do Agroal;
  • Passadiço do Agroal;
  • Nascente [5]e praia fluvial do Agroal;
  • Captação água Mendacha (iniciados os estudos em 1936[6], tendo em 2016 sido emitida portaria com a delimitação da área de proteção da captação[7], em 2021 foram concluídas as obras de abastecimento do reservatório da Mendacha[8], com abastecimento em alta desde a albufeira do Castelo de Bode, levando consequentemente à desactivação da captação da Mendacha ;
  • Nascentes e praia da Mendacha;
  • Açude da antiga fábrica de Porto de Cavaleiros;
  • Grutas e praia das Lapas;
  • Cheias Nabão em 1852-11-19: Marca junto a ponte velha e Convento Santa Iria
    Praia fluvial do Sobreirinho;
  • Praia fluvial da Fonte do Caldeirão;
  • Açude de Pedra e Vala da Fábrica de Fiação[9];
  • Cidade de Tomar;
  • Ponte e açude da antiga fábrica da Marianaia;
  • Açude da antiga fábrica da Matrena
Afluentes

O rio Nabão tem como principais afluentes a ribeira da Beselga, a ribeira do Olival e a ribeira de Seiça (também denominada Ribeira da Sabacheira, no seu troço final até à foz, na freguesia com o mesmo nome).[4]

Foz

39° 31' 13.9" N 8° 21' 20.6" O O rio Nabão desagua no rio Zêzere junto à localidade de Foz do Rio (Tomar).[4]

História[editar | editar código-fonte]

O seu nome romano era Nabanus.

Na Idade Média este rio era conhecido também como Tomar ou Thomar e na parte superior era denominado Tomarel. Documentos do século XII atribuídos ao Bispo de Lisboa, D. Gilberto, referem-se a um "Portus de Thomar", na definição dos limites territoriais do Castelo de Cera. Do contexto compreende-se que esta referência corresponde a uma travessia (Portus) de um curso de água, situada provavelmente entre Formigais e Rio de Couros. Em 1542 o "Tombo dos Bens e Direitos da Mesa Mestral", com data de 6 de Maio, por Pedro Álvares, é perfeitamente claro relativamente a esta designação de rio Tomar, ainda em uso na época.

O Commons possui uma categoria com imagens e outros ficheiros sobre Rio Nabão

Amorim Rosa fala de registos históricos de grandes cheias em 1550, na segunda metade do século XVII, no final do século XVIII, em 1852 e em 1909.

Captação de água potável[editar | editar código-fonte]

Manifestação contra o desvio do rio nabão (1962)

Ao longo do curso do rio foram instalados equipamentos de captação e tratamento de água, tendo em vista o abastecimento do concelho de Tomar:

Fonte Quente

Mendacha

Projeto (cancelado) de adução de água a Fátima

A 29 de outubro de 1962 realizou-se em Tomar a maior manifestação de sempre. Estava em causa o desvio do rio Nabão, na nascente do Agroal, para Ourém com o objetivo de abastecer de água Fátima.

O povo de Tomar juntou-se e saiu à rua para dar conta do seu descontentamento em relação a esse projeto do governo. A manifestação, à qual se juntaram autarcas e dirigentes, encheu a Praça da República, Corredoura e outras ruas nas proximidades. Perante tantos protestos, o governo não teve outro remédio senão deixar cair o projeto.[10]

Cheias[editar | editar código-fonte]

Registos de cheias históricas:

Ao longo dos séculos o Nabão registou algumas cheias violentas que causaram grandes estragos nas suas margens, principalmente na cidade.

O estudo hidrológico e hidráulico do rio Nabão realizado no âmbito do Programa Polis da cidade de Tomar faz referência a cheias ocorridas em Tomar, com destaque para três grandes cheias:

  • 19 de Novembro de 1852 (cota 51,60), mais ou menos 1,75– 1,80m acima do actual passeio.
  • 22 de Dezembro de 1909 (cota 51,45), na cantaria da farmácia Torres Pinheiro está uma placa que assinala a altura de água atingida: cerca de 95 cm acima do nível do calcetamento do passeio.
  • 20 de Janeiro de 1941 (a mais pequena das três), na cidade atingiu 1 m de altura.

Outras ocorrências, obtidas nos arquivos históricos e de comunicação social:[11]

  • 1550: grande cheia causadora de grande destruição, fazendo ruir dezenas de casas e provocando grandes estragos na Ponte Velha.[12]
  • 29 de Janeiro de 1941: A cheia de 20 de Janeiro de 1941 nos dias que antecederam tinha caído neve logo depois começou a chover cantaros. Na véspera desse dia o rio corria o normal para a época, mas em poucas horas, ganhou tempera e começou levantar com força até que nivelou ao Açude dos Frades, na Ponte Velha, cresceu mais saltou fora do leito meteu-se cidade dentro No restaurante Bela Vista a água atingiu 1 metro de altura. Chegou em Além da Ponte, até à rua do Arco de Santa Iria Foi Corredoura abaixo até à rua dos Moinhos.

A rua de Tras, a Levada, a rua dos Estaus, a avenida Marqués de Tomar, eram agora tudo o mesmo rio Nabão.

As travessas (parte da rua dos Moinhos, da rua Pedro Dias, da rua. Nova de S. João. Oleiros, etc., etc. cobertas de água. Inundados por completo o Jardim da Várzea Pequena, o Mouchão, a Horta Torres Pinheiro (hoje Estádio) e a Horta d'El-Rei (hoje Mercado) A ponte de madeira que ligava a Horta d'El-Rei à margem direita do Nabão, apesar de reforçada, partiu-se e foi corrente abaixo Os acessos a Tomar, afectados. Toda a estrada do Entroncamento era rio até à ladeira da Guerreira. O vale do rio, imenso lago. A vida de Tomar quebrava a sua normalidade...

E tal como o Trincão de 1909, em  1941 havia um homem refugiado no cimo dum telhado da Borda da Estrada- conhecido por o Policia. Está figura sempre que existisse uma cheia maior ou menor, teimava ficar em casa e via subir a água, entrar-lhe porta dentro e ala para o telhado. E là surgiam montes de trabalhos, para ir pescar o policia...

  • 10 de Fevereiro de 1979 (Estação hidrométrica Fábrica da Matrena Q=473,6m3/s);
  • 7 de Dezembro de 2000 (Estação hidrométrica Fábrica da Matrena Q= 544,5 m3 /s), atingiu a cota 50,60 a montante do Açude dos Frades;
  • 25 de Novembro de 2006 (Estação hidrométrica de Agroal Q=113,93m3/s; Fábrica da Matrena Q = 328,94 m3/s).
  • 12 de Fevereiro de 2014[13]: Estrada de Marmelais cortada ao transito entre a centro de formação profissional e o cemitério de Marmelais; 2 casas habitadas isoladas em carvalhos de Figueiredo, com os seus habitantes monitorizados e em contacto com os serviços de proteção civil e bombeiros;Foz da Beselga, no Moinho Novo, totalmente inundada, estendendo-se até ao inicio da Quinta do Falcão.

A monitorização no Agroal como mecanismo de alerta

Na margem direita do rio, na localidade do Agroal existe uma estação de monitorização da Agência Portuguesa do Ambiente e integrada no SNIRH:[14] Sistema Nacional de Informação de Recursos Hídricos. No entanto, esta estação está fora de serviço desde 2011 o que obriga a que os bombeiros de Tomar e Ourém se tenham que deslocar hora a hora para fazer avaliação visual.[15]

No Outono de 2011, foi intervencionado o Rio a jusante do açude insuflável do Flecheiro, o que aumentou a capacidade de carga do Rio, pelo que o nível crítico de cheia (nível de alerta) deve estar hoje acima dos 3,30 metros no Agroal.[16]

Segundo os serviços de Protecção Civil de Tomar, o registo de nível máximo histórico no Agroal (a 4 horas de distância de água da cidade de Tomar) ocorreu a 31 de Março de 2013 - 5,20m[17][18] .

Poluição[editar | editar código-fonte]

  • Em 14 de fevereiro de 1974, a RTP emite no programa “Só há uma Terra”, apresentado por Luís Filipe Costa[19], uma reportagem sobre um gravíssimo incidente de poluição, ocorrido dois meses antes no rio Nabão, a 14 de dezembro de 73. Segundo estimativas da época, terá sido envenenada cerca de 60% da fauna piscícola do rio, sobretudo barbos. A origem do envenenamento era claramente de natureza industrial, apontando-se responsabilidades a uma fábrica de papel entretanto desaparecida, implantada a montante da cidade.

Entrevista a um habitante de Tomar sobre o que viu no dia 14 de Dezembro de 1973, em que houve uma mortandade de peixes no Rio Nabão, causada por águas contaminadas, proveniente de uma fábrica de papel e onde este senhor consegui salvar alguns peixes levando-os para um tanque de água limpa. Pessoas numa ponte sobre o Rio Nabão, a ver o rio cheio de peixes mortos.

Entrevista a Fernando Ferreira, químico, farmacêutico, membro da comissão do rio e organizador dos concursos internacionais de pesca, sobre o que se passou no Rio Nabão, no dia 14 de Dezembro de 1973. Fernando Ferreira conclui, que houve três possibilidades desta mortandade de peixes ser proveniente da fábrica de fiação de Tomar, da fábrica de papel e da fábrica de Porto de Cavaleiros.

Entrevista a Levi da Costa, responsável pelo sector industrial de Porto de Cavaleiros, sobre esta unidade industrial que possui dispositivos anti poluição.

Declarações de Manuel Bento, Presidente da Comissão Municipal de Turismo, sobre a poluição do Rio Nabão, e as medidas a tomar em relação aos esgotos e do lixo de Tomar;

  • Em 18 de dezembro de 2019 o assunto foi exposto pelo partido GUE/NGL no Parlamento Europeu, tendo em 2020/02/24 a Comissão Europeia respondido que "(...) cabe às autoridades portuguesas fiscalizar situações específicas de possível incumprimento e, tendo essas situações fundamento, resolver o problema. A Comissão manterá um registo das aglomerações referidas (..) a Comissão dá prioridade a questões que indiciem, entre outros aspetos, uma falha sistemática no que toca ao cumprimento do direito da UE num Estado-Membro. No momento presente, a Comissão não dispõe de elementos que apontem para tal incumprimento. Caso surjam informações que indiciem uma violação da legislação da UE, a Comissão tomará as medidas que sejam mais adequadas à luz dos critérios estabelecidos na referida comunicação."

Referências

  1. APRH COngresso da Água 2021 [1]
  2. «Poluição do rio Nabão: as provas do crime». Tomar na Rede. 7 de março de 2021. Consultado em 3 de abril de 2021 
  3. C. Almeida, J. J. L. Mendonça, M. R. Jesus, A. J. Gomes (Dezembro de 2000). «Sistemas Aquíferos de Portugal Continental : Sistema Aquífero Sicó-Alvaiázere» (pdf). Sistema Nacional de Informação de Recursos Hídricos. p. 273. Consultado em 21 de abril de 2016 
  4. a b c d e f «Rios de Portugal Continental : Hidromorfologia dos rios : Rio Nabão». SNIRH-JÚNIOR do Sistema Nacional de Informação de Recursos Hídricos. Consultado em 20 de abril de 2016 
  5. «Agroal». “Das termas aos "spas": reconfigurações de uma prática terapêutica” Projecto POCTI/ ANT/47274/2002 - Centro de Estudos de Antropologia Social e Instituto de Ciências Sociais  line feed character character in |website= at position 68 (ajuda)
  6. Ministério das Obras Públicas e Comunicações - Direcção Geral dos Serviços Hidráulicos e Eléctricos - Repartição de Estudos Hidráulicos. «Decreto-Lei n.º 27203» 
  7. «Portaria n.º 40/2016 - Aprova a delimitação dos perímetros de proteção de várias captações de água subterrânea localizadas nos concelhos de Tomar, Alvaiázere, Castanheira de Pêra e Entroncamento» 
  8. «Arranca Empreitada de Abastecimento à Mendacha a partir da EPAL (Choromela)» 
  9. «O rio Nabão mostra a sua beleza e potencial turístico após limpeza mandada fazer pela Câmara de Tomar». https://www.mundoportugues.pt/ 
  10. «Manifestação contra o desvio do rio Nabão foi há 60 anos». Tomar na Rede. 31 de outubro de 2022 
  11. Corrêa, Mariana Matias Ribeiro (2013). «Contribuição para avaliação e gestão de riscos de inundações. Caso de estudo: bacia hidrográfica do rio Nabão». Faculdade de Ciências e Tecnologia 
  12. «Cheias no Nabão» 
  13. https://web.archive.org/web/20221218013106/https://www.facebook.com/permalink.php?story_fbid=pfbid0Wz8W5dUp1sURtXNskJeHfeTLcadSUrz2jMtPcfnPT8tDQyx3hFLs9bZUndAyFycZl&id=277018075653892  Em falta ou vazio |título= (ajuda)
  14. «Estação SNIRH "Agroal"». SNIRH 
  15. «QUATRO ANOS E MEIO DEPOIS DE INCIADOS OS CONTACTOS, MONITORIZAÇÃO DA BACIA DO NABÃO AVANÇA». Proteção civil em Tomar. 6 de maio de 2016 
  16. «CHEIA EMINENTE NA CIDADE DE TOMAR». 31 de março de 2013 
  17. «Agroal, às 20H00 do Domingo de Páscoa (31 de Março), com 5,15 metros na escala hidrométrica aí instalada.». TOMAR + Proteção Civil. 2 de Abril de 2013 
  18. «TOMAR + Proteção Civil»  |nome1= sem |sobrenome1= em Authors list (ajuda)
  19. Filipe Costa, Luís (14 de fevereiro de 1974). «Poluição do Rio Nabão». RTP Arquivos 


Ligações externas[editar | editar código-fonte]

  1. As Fábricas do Vale do Nabão: estudo comparativo dos sistemas construtivos e sua relação com a água
  2. A fonte milagrosa de Agroal, Arquivo RTP
  3. Zilhão, João. "New Evidence from Galeria da Cisterna (Almonda) and Gruta do Caldeirão on the Phasing of Central Portugal’s Early Neolithic" Open Archaeology, vol. 7, no. 1, 2021, pp. 747-764.
  4. As Águas Subterrâneas e o Abastecimento de Água a Lisboa - As Captações da EPAL, 2018
  5. Almeida, Carlos & Lopo, Mendonça & Jesus, Maria & Gomes, António. (2000). Sistemas Aquíferos de Portugal Continental, vol. II. 10.13140/RG.2.1.5182.3440.
  6. Contribuição para avaliação e gestão de riscos de inundações. Caso de estudo: bacia hidrográfica do rio Nabão
  7. Construção de dique no Nabão é projecto para ficar na gaveta, Jornal O Mirante,2008
  8. Reportagem fotográfica das cheias de Março 2013, no Agroal
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