Sebastião Martins Mestre

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Sebastião Martins Mestre
Sebastião Martins Mestre, segundo gravura impressa de autor desconhecido
Nascimento 1762-4
Arenilha ; Portugal
Morte 1834
Vila Real de Santo António; Portugal
Nacionalidade Portugal Portugal
Ocupação militar
autarca
governador
Cargo - Governador dos Fortes de São João da Barra de Tavira e Cacela (1810-19)

- Vereador (1819-23)
- Presidente da Câmara Muncipal de Tavira (1822-3)
- Governador Militar de Vila Real de Santo António(1824-34)

Serviço militar
Patente - capitão (1802-08)
- tenente-coronel (1808-19)
- coronel (1819-34)
Condecorações - Cavaleiro da Ordem de Santiago (1801)

- Comendador da Ordem de Cristo (1811)

Sebastião Martins Mestre[1] ComSE [2], ComC [3] [4][5] (Santo António de Arenilha,?1762-4? - Vila Real de Santo António,1834) foi um militar português que liderou e se distinguiu na reacção à presença do exército da 1ª Invasão Francesa[6] no Algarve com sucesso. A nível político, foi o primeiro presidente eleito da Câmara Municipal de Tavira durante a curta vigência da Constituição de 1822 , da qual foi apoiante inicial. Passou pouco tempo depois a suportar os opositores miguelistas, quando foi nomeado Governador de Vila Real de Santo António, onde reprimiu duramente os partidários do liberalismo, tendo, após terminada a guerra civil, preso e assassinado enquanto era enviado para Lisboa para ser julgado.

Origens e carreira militar[editar | editar código-fonte]

Não se conhece o ano exacto do seu nascimento, mas dos documentos paroquiais do casamento da sua filha Catarina Filipes[7], sabemos que nasceu no lugar de Arenilha, anos antes da edificação no dito local de Vila Real de Santo António (1774) e que o seu pai se chamava Miguel Fernandes Mestre, natural de Almodôvar e a sua mãe Águeda Madeira, natural de Monte Gordo . Existe um assento de casamento dos pais em Castro Marim ocorrido em 1752[8] (e que residiriam na praia do antigo lugar de Arenilha). Presume-se que a data do nascimento terá sido no intervalo entre 1762 e 64[9], já que é conhecido que assentou praça em Tavira em 1782.[4] Terá então feito parte da guarnição de alguma das baterias ou fortes costeiros da região. Ao mesmo tempo, manteria algum negócio com os ingleses, pois é sabido que passava tempos em Gibraltar. Não temos conhecimento que feitos militares teria cometido, mas em 1801, já enverga a patente de capitão de ordenanças e habilita-se às insígnias de Comendador da Ordem de Santiago[2], na qual requer ao príncipe regente D. João, futuro João VI, a "dispensa das provas e habilitações", nas quais se provasse a sua limpeza de sangue, justificando a ausência de não-cristãos na sua ascendência, a qual não chega a efectuar, por razões que Martins Mestre justifica, por ter de partir imediatamente para Gibraltar [1][4].

Reacção no Algarve contra a presença francesa[editar | editar código-fonte]

Após saber da invasão de Portugal por Junot em fins de Novembro de 1807 e aproveitando a reacção em Espanha contra a presença francesa, Martins Mestre regressa de Gibraltar apoderando-se do forte de São João da Barra a 13 de Junho de 1808, que defendia a entrada no porto de Tavira, na altura sede do Governo Militar do Reino do Algarve. A partir daí, vai-se manter com em contacto com a marinha real britânica em suporte de uma eventual insurgência contra o invasor francês. Tal vem a acontecer em Olhão a 16 de Junho sob o comando de José Lopes de Sousa, ao qual Martins Mestre se junta quando aquele se dirige a Tavira para procurar apoio. Martins Mestre, ao saber que a marinha real britânica não lhe vai dar o apoio prometido, cruza o Guadiana e vai obter 130 espingardas em Ayamonte. Na posse de novo armamento regressa a Olhão por via marítima acompanhado de populares no dia 18 e encontra embarcações tripuladas por soldados franceses à entrada da barra de Olhão em trânsito de Tavira para Faro, com a missão de reforçar a presença francesa em Faro, aonde também se tinha entretanto espalhado também a Revolta. Sob o seu comando é lançado o ataque tomando posse das embarcações dos franceses, fazendo 81 prisioneiros, em conjunto com equipamento militar e correspondência proveniente do comando francês em Tavira onde dava ordens expressas para aniquilar o povo de Olhão. Os prisioneiros são enviados para Ayamonte . Depois de desembarcar em Olhão, Martins Mestre vai deslocar-se para a Ponte de Quelfes de forma a cortar caminho a outro grupo de 185 franceses que se dirigiam por terra para Faro com o mesmo propósito. Os comandados por Martins Mestre, sobretudo paisanos sem treino militar, e em número inferior ao contingente francês, consegue no entanto enfrentá-los vitoriosamente com algumas baixas. O próprio Martins Mestre é ferido no peito. No dia seguinte, junta-se ao coronel Lopes de Sousa no Sítio da Meia-Légua, a meia distância entre Olhão e Faro, onde aquele havia estacionado as suas tropas com o mesmo objectivo de impedir a passagem dos invasores.[10][11][12][13]. Com Faro a juntar-se a Olhão e mais tarde ao resto do Algarve na revolta, o exército francês parte em fuga para se juntar ao grosso do exército de Junot no Alentejo. Reinstituído no poder como Governador Militar do Reino do Algarve, o conde de Castro Marim Francisco de Melo da Cunha de Mendonça e Meneses ,vai-se fazer acompanhar de Martins Mestre e Lopes de Sousa à frente do exército português que se reúne no Algarve para dar perseguição às forças franceses em retirada. Atingem Beja a 19 de Agosto, a caminho para Lisboa.

Ponte romana de Quelfes, onde Martins Mestre confrontou os franceses auxiliado por um grupo de populares


Pelo meio do caminho, atingem Aguiar, no concelho de Viana do Alentejo, onde Martins Mestre profere um discurso às tropas no sentido da sua moralização:

Vós, meus Soldados, não me negareis que debaixo das ordens do nosso Marechal de campo José Lopes de Sousa, eu, com um punhado de pescadores, fizemos abater o orgulho da Legião do Meio-dia, no lugar de Olhão, tanto na abordagem que lhe demos no mar no dia 17 [sic] de Junho, como na tarde do mesmo dia na ponte de Quelfes; para cada um destes pescadores o inimigo tinha dez vencedores do Marengo, Jena e Friedland, contudo o que não foi morto foi posto em fuga ou [feito] prisioneiro. Vós sois igualmente Algarvios, sois Soldados Generosos que sem mais auxílio do que o vosso valor fizestes afugentar do Algarve o inimigo, e com o mesmo valor e inexplicável generosidade vos oferecestes voluntários para defender a província do Alentejo, e a mesma capital de Lisboa. Pois companheiros, amigos e Irmãos, estes que vamos combater e vencer são os mesmos cobardes que nos fugiram do Algarve. É verdade que os vereis vestidos de Tigres, mas é porque estão salpicados com o sangue dos inocentes e impossibilitados moradores de Beja e Évora, de cuja maldade, se não tomarmos vingança, aquelas mesmas vítimas inocentes, se as não vingais no sepulcro, os seus ossos rechaçarão os nossos com desprezos, estas honradas palavras não vo-las digo como vosso chefe, se não como um Soldado, como um vosso companheiro que aspira a conduzir-vos à glória: ver-me-eis entrar por entre os inimigos desprezando as suas baionetas, e comendo a morte aos bocados.[11]

Chegam a Palmela a 30 de Agosto, quando é assinada a Convenção de Sintra, em que Junot concorda em se retirar de Portugal perante a vitória da intervenção inglesa chefiada por Arthur Wellesley na Batalha de Vimeiro a 21 de Agosto. O governador Francisco de Meneses expressa a sua discórdia com tal acordo feito à margem do seu conhecimento, em face da viagem desde o Algarve e das forças que reunira e que estava pronto para rechaçar os franceses de Lisboa. Pelos seus serviços, Martins Mestre é promovido a tenente-coronel.

Martins Mestre regressa a Tavira e assume o posto de governador dos fortes costeiros de São João (que havia conquistado) e de Cacela até cerca de 1819.

Habilita-se à ordem de Cristo em 1811, ganhando o título de comendador da Ordem com direito a uma tença de 40 mil réis[3]. Em 1819 passa à reforma com a patente de coronel. Vai a partir de então dedicar-se à política, enquanto vereador do Município de Tavira.

Primeiro presidente da Câmara Municipal de Tavira[editar | editar código-fonte]

Placa de rua em Tavira

Antes da proclamação da Constituição de 1822 em Setembro desse ano, Martins Mestre foi eleito para presidente da Câmara por maioria através de eleição efectuada entre os vereadores, tomando posse no dia de proclamação da Constituição. No entanto, devido à reacção dos realistas, liderados pelo Infante D. Miguel, nomeadamente com as revoltas conhecidas mais tarde por "Abrilada" e "Vilafrancada" e o rei João VI ter suspendido a Constituição, é destituído pouco menos de um ano depois, sendo substituído pelo juíz de fora. [14] [15]

Governador de Vila Real de Santo António[editar | editar código-fonte]

Destituído do lugar de presidente, Sebastião Martins Mestre volta a assumir funções militares quando é nomeado para Governador Militar da Praça de Vila Real de Santo António a 6 de Fevereiro de 1824[4]. É neste momento que muda de orientação política, passando a figurar entre os apoiantes de D. Miguel ao trono. Na sequência da revolta gorada do Regimento de Infantaria 14 em Tavira e dos Caçadores 4 de Mértola que suportavam a ascensão de D. Miguel é afastado do lugar e exila-se, para escapar a ter de cumprir uma sentença do Juíz de Ordenações de Vila Real.[1][4]

Quando D. Miguel sobe ao trono em 1828 Martins Mestre regressa ao cargo e vai iniciar a repressão de todos os partidários do liberalismo no concelho, confiscando-lhes os bens ou condenando-os ao degredo, como aconteceu com o padre José de Encarnação Almeida, figura querida entre os vila-realenses, que o governador desterrou para a prisão do Limoeiro. [16][17]

Após o desembarque dos liberais no Algarve em Julho de 1833 numa praia da freguesia de Cacela, Sebastião Martins Mestre vai resistir às tentativas dos liberais de tomarem a vila raiana, impedindo também com efeito a qualquer tentativa de incursão fluvial dos liberais pelo Guadiana .

Contudo, quando a guerra civil termina, com a Convenção de Évoramonte, a 26 de Maio de 1834, Martins Mestre é destituído e preso.

Morte[editar | editar código-fonte]

De acordo com o relato de Ataíde de Oliveira na sua Monografia de Vila Real de Santo António[17], escrito cerca de 70 anos após os acontecimentos referidos, Martins Mestre é preso e mantido por 3 dias e 3 noites à espera que seja reunida uma força de escolta do preso para o seu julgamento em Lisboa. Quando se processava à transferência do prisioneiro Martins Mestre para a diligência com a escolta, este é assassinado na rua por um desconhecido que mais tarde vai ser identificado como José da Cruz Azevedo, cunhado do padre Almeida que falecera pouco tempo depois após ter sido libertado da prisão. De acordo com Ataíde de Oliveira, foi um acto de vingança que moveu a execução a sangue frio do antigo herói militar tornado vilão. A terminar o seu relato, Ataíde de Oliveira refere que o corpo de Martins Mestre sem vida foi arrastado como troféu pela população pelas ruas da vila e abandonado junto do muro do cemitério local.

Família e propriedades[editar | editar código-fonte]

Casou[18] a 6 de Agosto de 1796 em Gibraltar, com a filha de um casal espanhol natural de Estepona, Maria Felippes, de quem teve um filho, Gabriel (que terá falecido em tenra idade) e uma filha, Catarina Filipes Martins, nascida em 1800, e que casou em 1824[7] com José Agostinho Estácio da Veiga, major de ordenanças de Tavira, de quem teve um filho, Sebastião Filipes Martins Estácio da Veiga, o pioneiro da arqueologia em Portugal. O neto herdou as propriedades do avô Martins Mestre situadas na freguesia da Conceição de Tavira, a Arrancada e outra, sem nome conhecido, cujos terrenos actualmente se encontram na zona edificada de Cabanas de Tavira (apesar de subsistir uma porção da antiga casa).

Fontes documentais[editar | editar código-fonte]

Distinções militares[editar | editar código-fonte]

  • Habilitação a Cavaleiro da Ordem de Santiago (1801)[2]
  • Habilitação a Comendador da Ordem de Cristo (1811)[3]

Outras fontes documentais[editar | editar código-fonte]

  • Ofício de Sebastião Martins Mestre para o marquês de Tancos [19]
  • Ofícios de Sebastião Martins Mestre para o conde de Subserra [20]
  • Outros ofícios patentes no Arquivo Histórico Militar[16]
  • Continuação da narração dos acontecimentos que occorrerão na vanguarda do exercito do Algarve commandada pelo Tenente Coronel Sebastião Martins Mestre[21]

Referências[editar | editar código-fonte]

  1. a b c Chagas, Ofir (2010). Algarve e os Algarvios. Tavira: autor 
  2. a b c «Diligência de habilitação para a Ordem de Santiago de Sebastião Martins Mestre - Arquivo Nacional da Torre do Tombo - DigitArq». digitarq.arquivos.pt. Consultado em 18 de dezembro de 2018 
  3. a b c «Diligência de habilitação para a Ordem de Cristo de Sebastião Martins Mestre - Arquivo Nacional da Torre do Tombo - DigitArq». digitarq.arquivos.pt. Consultado em 18 de dezembro de 2018 
  4. a b c d e Pereira da Silva, Nuno (2010). «o Algarve e as Invasoes Francesas». Scribd. Consultado em 17 de dezembro de 2018 
  5. Vaz, Adérito (1986). «Quem foi Sebastião Martins Mestre na História do Sotavento Algarvio». A Voz de Olhão 
  6. Relação histórica da revolução do Algarve contra os Francezes ... Seguida de todos os documentos authenticos, que justificão a parte, que nella teve Sebastiaõ Drago de Brito Cabreira, etc. [S.l.: s.n.] 1809 
  7. a b «Registo de Casamento de Catarina Filipes». digitarq.arquivos.pt. 1824. Consultado em 25 de dezembro de 2018 
  8. «Registo do Casamento de Miguel Fernandes Mestre e Águeda Madeira, pais de Sebastião Martins Mestre, em Fevereiro de 1752 em Castro Marim». digitarq.arquivos.pt. 1752. Consultado em 25 de dezembro de 2018 
  9. Não foi possível encontrar a sua certidão de baptismo nos cadernos paroquiais de Castro Marim da época.
  10. «InvasaoJunot». calameo.com. Consultado em 19 de dezembro de 2018 
  11. a b Iria, Alberto. «Continuação da narração dos acontecimentos que ocorreram na vanguarda do Exército do Algarve comandada pelo Tenente Coronel Sebastião Martins Mestre [Discurso de Sebastião Martins Mestre às tropas algarvias do Exército do Sul]». olhaocubista.pt. Consultado em 18 de dezembro de 2018 
  12. Iria, Alberto. «Declaração dos feitos de Sebastião Martins Mestre pelo Conde de Castro Marim». olhaocubista.pt. Consultado em 18 de dezembro de 2018 
  13. Iria, Alberto. «A invasão de Junot no Algarve (excerto da compilação documental)». olhaocubista.pt. Consultado em 18 de dezembro de 2018 
  14. Chagas, Ofir (2004). Tavira, memórias de uma cidade. Tavira: edição do autor 
  15. Anica, Arnaldo Casimiro (1993). Tavira e o seu termo. Tavira: Câmara Municipal de Tavira 
  16. a b Martins Mestre, Sebastião (1824–34). «Ofícios de Sebastião Martins Mestre enquanto Governador Militar de Vila Real de Santo António». Archivo Histórico Militar. Consultado em 18 de Dezembro de 2018 
  17. a b Oliveira, Ataíde (1908). Monografia do concelho de Villa Real de Santo Antonio. [S.l.]: Porto : Livraria Figueirinhas 
  18. «Registo de Casamento de Martins Mestre com Maria Filippes em 1796 em Gibraltar» 
  19. Martins Mestre, Sebastião (1828). «Ofício de Sebastião Martins Mestre para o marquês de Tancos remetendo manifestação do major e outros oficiais do Regimento de Infantaria 14 emigrados na vila de Milmarcos, senhorio de Molina de Aragão, de fidelidade e vassalagem a D. Miguel I.». Arquivo Histórico Militar 
  20. Martins Mestre, Sebastião (1824). «Ofícios de Sebastião Martins Mestre para o conde de Subserra sobre a tentativa de chegada a Huelva e Ayamonte dos rebeldes de Gibraltar, comandados por Lopes Banhos.». Arquivo Histórico Militar 
  21. «Continuação da narração dos acontecimentos que occorrerão na vanguarda do exercito do Algarve commandada pelo Tenente Coronel Sebastião Martins Mestre - Libro - 1808». bdh.bne.es. Consultado em 29 de dezembro de 2018