A Insustentável Leveza do Ser

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A Insustentável Leveza do Ser (em checo Nesnesitelná lehkost bytí) é um livro publicado em 1984 por Milan Kundera. O romance se passa na cidade de Praga em 1968. Foi adaptado para o cinema pelo diretor Philip Kaufman sob o nome de The Unbearable Lightness of Being.

Enredo[editar | editar código-fonte]

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A história acontece em Praga e em Zurique, em 1968, e atravessa algumas décadas. Narra os amores e os desamores de quatro pessoas: Tomás, Teresa, Sabina e Franz. É permeada pela invasão russa à Tchecoslováquia e pelo clima de tensão política que pairava em Praga naqueles dias.

Personagens[editar | editar código-fonte]

Tomas[editar | editar código-fonte]

Tomas é um homem jovem, bonito e atraente, do tipo que não encontra dificuldade para aventurar-se amorosamente. Sendo um médico reformado, possui um conforto financeiro que lhe permite dedicar seu tempo para a simples fruição da própria vida. É o que faz com Sabina, por exemplo, estabelecendo com ela uma relação amorosa absolutamente informal, ainda que dotada de uma certa segurança. Encontram-se ocasionalmente para fazer amor, continuando com suas rotinas cotidianas logo em seguida.

Tomas conduz sua vida dessa maneira até conhecer Teresa.

Quando Tomas conhece Tereza, não faz amor com ela no primeiro momento, mas acaba deixando seu endereço para ela, caso ela deseje procurá-lo posteriormente. O que ele não suspeita é que ela acaba fazendo-o, de fato. E o faz da maneira mais inesperada para um homem como Tomas: ao chegar em Praga, Teresa simplesmente deixa sua bagagem no armário da estação de trem e dirige-se para a casa de Tomas, depositando sua vida na possibilidade de encontrá-lo. Tomas, depois de deixá-la entrar pela primeira vez em sua vida, nunca mais consegue livrar-se do "bebe encontrado em um cesto à beira de um rio", como ele costuma referir-se metaforicamente a ela. Muito provavelmente Tomas não desejou fazê-lo. De qualquer maneira, a entrada de Teresa na vida de Tomas representou, de fato, o fim do estilo de vida livre que Tomas possuía até então.

Tereza[editar | editar código-fonte]

Tereza é uma jovem mulher educada em um ambiente bizarro e repulsivo. Sua mãe, uma mulher amorosamente frustrada, fazia questão de esfregar na cara de Teresa a naturalidade da miséria humana, através da nudez, da feiúra, de sua própria flatulência e sujeira. Teresa, dotada de um espírito sensível, acabou tornando-se uma dessas pessoas que exalta a vida do espírito e da alma, em detrimento da vida carnal, que nessa perspectiva assume ares sujos e repulsivos.

Trabalhando num bar cheio de bêbados e homens de mau caráter, Teresa surpreendeu-se ao ver Tomas em uma das mesas, com um livro aberto. O livro, naquele instante, os irmanava de uma maneira sublime, pois era um sinal de refinamento e espírito em meio ao lodo no qual ela vivia.

Depois de conhecê-lo, não tardou a procurá-lo em Praga, uma vez que sua própria vida não possuía nenhum sentido genuíno. Quando encontra Tomas, literal e metaforicamente deposita a responsabilidade por sua vida e por sua felicidade em suas mãos. Para tanto, lida mesmo com as infidelidades de Tomas de maneira quase heroica.

Sabina[editar | editar código-fonte]

Sabina é uma espécie de versão feminina de Tomas na medida em que, como este, personifica o conceito de leveza. Capaz de trair seus vínculos de forma franca e sistemática, Sabina construiu para si uma existência solitária, longe dos vínculos emocionais que constituem o entorno da vida normal da maioria das pessoas. Devotada à arte e extremamente sensível, Sabina manifesta seus desprezo e profunda insatisfação à "feiura" que, de um modo planetário, se alastra pelo mundo da cultura e pela sociedade, feiura para a qual a maioria das pessoas parece absolutamente cega. Sua atração por Tomas se justifica na medida em que este personifica precisamente o arquétipo do anti-herói: como ela, ele não se permite vínculos afetivos (até conhecer Tereza) e, mesmo assim, sustenta relações com diversas amantes. No mundo do kitsch (do clichê e do mau-gosto), Tomas seria um vilão. Essa excentricidade faz com que Sabina seja a melhor amiga que Tomas tem. Depois do desaparecimento de Tomas e de Tereza, Sabina experimenta uma solidão e uma liberdade absolutas. Nas palavras de Kundera, Sabina experimenta a própria "insustentável leveza do ser", sem perceber que era precisamente essa leveza insustentável que ela perseguia.

Sabina personifica também um dos temas mais recorrentes da obra de Kundera, a saber, a ideia de que perseguimos um objetivo existencial ao mesmo tempo em que somos absolutamente cegos a este. No contexto do próprio romance, o objetivo existencial de Sabina é a experiência da "insustentável leveza", horizonte incontornável a todo aquele que procura cultivar uma existência livre dos padrões de vínculos comuns a todas as pessoas - afetivos, territoriais, culturais, sociais, etc.

Problemática filosófica[editar | editar código-fonte]

A presença de conteúdos essencialmente filosóficos no texto de Kundera faz-se notar de modo explícito, por força do estilo narrativo de Kundera. Sua constante "saída" do texto e os capítulos em forma de comentário funcionam à maneira de notas de rodapé, esclarecendo o leitor sobre o terreno filosófico e psicológico em que a história se desenrola. A referência a autores da tradição filosófica como Nietzsche e Parmênides situam o enredo do romance dentro de uma perspectiva existencial, submete as situações a uma análise filosófica, a uma reflexão especulativa. Segue-se, abaixo, um sucinto sumário de temas presentes na obra.

A Leveza e o Peso[editar | editar código-fonte]

A problemática da leveza e do peso possui amparo na filosofia de Parmênides.

Parmênides (cerca de 530 a.C. - 460 a.C.), filósofo pré-socrático, situou sua problemática em torno das dualidades ontológicas do Ser. A dualidade, porém, por força de sua perspectiva unitária de Ser, surgem da presença e da ausência de uma entidade. Neste sentido, o frio é apenas a ausência de calor, o não-calor. As trevas são a ausência de luz, a não-luz. Para Parmênides, entretanto, ao contrário do que o pensamento lógico-formal com o qual estamos habituados nos faria supor, a problemática da dualidade leveza/peso revela o peso como ausência, como não-leveza.

Kundera desloca a dualidade do peso e da leveza para uma perspectiva existencial, mesclando-a ao problema da liberdade humana em uma perspectiva próxima à problemática do existencialismo. Para Kundera, a leveza decorre de uma vida levada sob o teto da liberdade descompromissada. A leveza segue-se de um não-engajamento, um não-comprometimento com situações quaisquer, aproximando-se, nesse sentido, das ideias de Jean-Paul Sartre sobre a condição humana. O personagem Tomas é a metáfora através da qual Kundera ilustra as consequências existenciais do comprometimento da liberdade para com uma situação qualquer - no caso, o vínculo afetivo com Teresa. A partir de então Tomas experimenta o peso do comprometimento, peso opressivo de um engajamento qualquer, uma situação qualquer.

A leveza, porém, despe a vida de seu sentido. O peso do comprometimento é uma âncora que finca a vida a uma razão de ser, qualquer, que se constrói - sob uma perspectiva existencialista, evidentemente.

Sob a perspectiva da filosofia nietzscheana, porém, Tomas levava uma vida autêntica, construindo os próprios valores sob os quais conduzia sua vida. Teresa ilustra a problemática da moralidade de escravos: incapaz de realizar um empreendimento como o de Tomas, amarra-o pela força de sua impotência, chegando ao final à admissão do fato de ter "destruído sua vida", no final do livro. Tomas, encarnando metaforicamente a noção nietzscheana de amor fati, revela que não se arrepende de nada, remetendo à doutrina do Eterno Retorno, mencionada no início do livro.

O Eterno Retorno[editar | editar código-fonte]

Kundera entrevê na noção de Eterno Retorno da filosofia nietzscheana a escapatória para o arrependimento que pode decorrer da escolha entre a leveza e o peso, o comprometimento e a liberdade pura.

Kundera explica a ideia de Eterno Retorno no início do livro, no primeiro capítulo da primeira parte. Em linhas gerais, a ideia diz respeito à possibilidade das situações existenciais repetirem-se indefinidamente no tempo, por força de uma finitude das possibilidades frente a infinitude do tempo. O que parece um fundamento cosmológico vazio ganha implicações éticas imensas na perspectiva de Kundera: uma vida que desaparece não tem o menor sentido. A própria história humana só é tratada com descaso pela própria humanidade por força de sua linearidade. Uma mentalidade educada sob a perspectiva de uma história cíclica, repetindo indefinidamente, dificilmente deixaria escoar no vazio a própria vida. O argumento do Eterno Retorno assume então uma face de "convite à vida", com suas alegrias e mazelas. De modo rasteiro, a ideia do Eterno Retorno convida o homem a fazer a vida valer a pena de ser vivida, e viver cada momento como se fosse o último, pois quando este chegar e o retorno acontecer, nada de ruim será vivenciado novamente pelo indivíduo.

A compaixão[editar | editar código-fonte]

Um capítulo inteiro é dedicado à questão da atitude humana de compaixão. Sob uma perspectiva filológica, Kundera compara o sentido da expressão nas línguas latinas e nas línguas germânicas, e as implicações dessa nuance de sentido na vida psicológica e sentimental dos indivíduos.

Kundera afirma que as derivações latinas da palavra compaixão significam simplesmente piedade, um sentimento que se impõe quando um indivíduo está em posição de superioridade frente a um outro que sofre. Assim, a compaixão torna-se uma relação de poder dominadora, na qual um indivíduo se sobrepõe sobre outro, podendo oferecer-lhe sua compaixão como um presente, sem porém compartilhar do sentimento que leva o próximo a sofrer.

Nas línguas germânicas, porém, compaixão assume um sentido de "co-sentimento": o indivíduo que sente compaixão sofre junto com o seu próximo, o mesmo sentimento. Para Kundera, a compaixão é muito mais terrível do que a piedade porque a incapacidade humana de transpor os limites da subjetividade faz com que o sentimento careça de um certo esforço imaginativo que quase sempre multiplica a dor do próximo, fazendo-a mesmo maior do que a do próximo.

A metáfora utilizada para ilustrar o problema da compaixão é, mais uma vez, Tomas em sua relação com Teresa. É através da compaixão que ele sente por ela que ela consegue prender-se a ele em definitivo desde o primeiro momento.

Para melhor compreensão do livro de Milan Kundera, é interessante abordar temas como a "Primavera de Praga". O livro aborda alguns relatos históricos, inserindo a narração num contexto real. Isto torna o livro ainda mais interessante, pois pode ser visto parte como realidade, parte como romance. No livro, o Amor se torna presente em quase todos os momentos, o que não quer dizer que consista em um "mar de rosas". Muito do que se aborda no livro são conflitos do amor-ideal e "amor-real". Detalhes do cotidiano da época e costumes do povo Tchecoeslovaco (na época, República Theca e Eslováquia eram unidas em um só país) são muito bem descritos. Uma forma de leitura onde o lado psicológico predomina sobre o momento real.

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