Caridade

Origem: Wikipédia, a enciclopédia livre.
Ir para: navegação, pesquisa
Trabalho de caridade de artista venezuelano Arturo Michelena

Caridade é um sentimento ou uma ação altruísta de ajuda a alguém sem busca de qualquer recompensa. A prática da caridade é notável indicador de elevação moral e uma das práticas que mais caracterizam a essência boa do ser humano, sendo, em alguns casos, chamada de ajuda humanitária. Termos afins: amor ao próximo; bondade; benevolência; indulgência; perdão; compaixão.

Caridade nas tradições religiosas[editar | editar código-fonte]

Segundo o catolicismo[editar | editar código-fonte]

A doutrina católica classifica a caridade como uma das virtudes teologais e uma das sete virtudes. Tem o mesmo significado que o Ágape. É um sentimento que pode ter dois sentidos, o sentimento para si mesmo, e ao próximo.

O cristianismo afirma que a caridade é o "amar ao próximo como a si mesmo". E afirma que se uma pessoa não se amar adulterando e mentindo a si mesma sobre as coisas que a rodeia, defendendo somente o seu ponto de vista sem pensar no ponto de vista divino, pode estar "amando" o seu próximo, mas da sua maneira, pois quanto mais buscar o esclarecimento divino sobre como amar a si mesma, maior poderá ser o amor desta pessoa pelo seu próximo.

E afirma que nos dias atuais muitos estão buscando a Cristo, mas da sua "maneira", não procurando arrepender de suas acções, pois em si mesmos não acham culpa alguma, pois defendem os seus próprios pontos de vista. Esquecem-se que o salário de pecado é a morte, e quem não se ama (caridade) peca, pois quem exerce a caridade, não peca, pois acaba amando à Deus mais do que a si mesma, ouvindo assim a sua voz e colocando em prática a Verdade que recebe. Dizendo, que quem ama a Cristo, confirma também o Senhorio de Cristo sobre a si mesma, abandonando tudo por Ele, pois um Servo abandona tudo pelo seu Senhor, vivendo somente para ele.

Aliás, Jesus Cristo ordenou: "Amar a Deus sobre todas as coisas", isto para os cristãos constitui a parte fundamental da caridade.

Quem tem o amor, prova, não somente com palavras mas sim com ações. Abrindo mão dos costumes dos gentios por amar a Deus sobre todas as coisas, seguindo a sua voz e os seus mandamentos.

Resumindo e usando as palavras do Compêndio do Catecismo da Igreja Católica, "a caridade é a virtude teologal pela qual amamos a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a nós mesmos por amor de Deus. Jesus faz dela o mandamento novo, a plenitude da lei. A caridade é «o vínculo da perfeição» (Col 3,14) e o fundamento das outras virtudes, que ela anima, inspira e ordena: sem ela «não sou nada» e «nada me aproveita» (1 Cor 13,1-3)".[1]

São Paulo disse que, de todas as virtudes, "o maior destas é o amor" (ou caridade).[2] O Amor é também visto como uma "dádiva de si mesmo" e "o oposto de usar".[3]

Segundo o Espiritismo[editar | editar código-fonte]

A Doutrina Espírita entende a caridade como um dever moral de todo homem e que não se resume apenas ao auxílio material. No Livro dos Espíritos, item 886, Allan Kardec pergunta aos espíritos superiores:

"886. Qual o verdadeiro sentido da palavra caridade, como a entendia Jesus?
Benevolência para com todos, indulgência para com as imperfeições dos outros, perdão das ofensas." [4]

A caridade, portanto, reflete o princípio cristão fundamental de amor mútuo entre todos, independentemente da situação em que se encontrem, tendo aplicação no âmbito moral e material.

No livro O Evangelho Segundo o Espiritismo, que faz um estudo dos ensinos de Jesus, a comunicação do espírito identificado como Paulo, o apóstolo, dá um bom panorama de como a caridade deve ser encarada:

"Meus filhos, na máxima: Fora da caridade não há salvação, estão encerrados os destinos dos homens, na Terra e no céu; na Terra, porque à sombra desse estandarte eles viverão em paz; no céu, porque os que a houverem praticado acharão graças diante do Senhor. Essa divisa é o facho celeste, a luminosa coluna que guia o homem no deserto da vida, encaminhando-o para a Terra da Promissão. Ela brilha no céu, como auréola santa, na fronte dos eleitos, e, na Terra, se acha gravada no coração daqueles a quem Jesus dirá: Passai à direita, benditos de meu Pai. Reconhecê-los-eis pelo perfume de caridade que espalham em torno de si. Nada exprime com mais exatidão o pensamento de Jesus, nada resume tão bem os deveres do homem, como essa máxima de ordem divina. Não poderia o Espiritismo provar melhor a sua origem, do que apresentando-a como regra, por isso que é um reflexo do mais puro Cristianismo. Levando-a por guia, nunca o homem se transviará. Dedicai-vos, assim, meus amigos, a perscrutar-lhe o sentido profundo e as conseqüências, a descobrir-lhe, por vós mesmos, todas as aplicações. Submetei todas as vossas ações ao governo da caridade e a consciência vos responderá. Não só ela evitará que pratiqueis o mal, como também fará que pratiqueis o bem, porquanto uma virtude negativa não basta: é necessária uma virtude ativa. Para fazer-se o bem, mister sempre se torna a ação da vontade; para se não praticar o mal, basta as mais das vezes a inércia e a despreocupação.
Meus amigos, agradecei a Deus o haver permitido que pudésseis gozar a luz do Espiritismo. Não é que somente os que a possuem hajam de ser salvos; é que, ajudando-vos a compreender os ensinos do Cristo, ela vos faz melhores cristãos. Esforçai-vos, pois, para que os vossos irmãos, observando-vos, sejam induzidos a reconhecer que verdadeiro espírita e verdadeiro cristão são uma só e a mesma coisa, dado que todos quantos praticam a caridade são discípulos de Jesus, sem embargo da seita a que pertençam. – Paulo, o apóstolo. (Paris, 1860.)" [5]

O Espiritismo tenta, pela demonstração ao homem de sua condição de espírito imortal, impulsioná-lo à doação de si próprio ao bem daqueles que dele podem obter auxílio. Quando o homem enxerga a vida como algo que se definha, efêmera, ao passar do tempo, o seu instinto natural de conservação lhe impulsiona ao egoísmo. De modo contrário, para o que vislumbra a imortalidade, o tempo deixa de ser algo a temer e o foco da vida passa a ser o presente. A caridade, neste caso, é como um mero trabalho que um trabalhador executa, sabendo que é necessário ao fim pretendido pelo seu senhor, que lhe dará o seu salário. Para este, considera Allan Kardec:

"A importância da vida presente, tão triste, tão curta, tão efêmera, se apaga, para ele, ante o esplendor do futuro infinito que se lhe desdobra às vistas. A conseqüência natural e lógica dessa certeza é sacrificar o homem um presente fugidio a um porvir duradouro, ao passo que antes ele tudo sacrificava ao presente."[6]

O diferencial proposto pelo Espiritismo é conceber a caridade como um dever natural decorrente da própria natureza e da ordem das coisas ao invés de mais um ensino moral. Entendendo o espírito que já passou e passará pelas mais diversas situações em diferentes encarnações no caminho da evolução, qualquer prejuízo que gere a outrem será um prejuízo causado contra si; de forma contrária, qualquer auxílio prestado a outrem será também um auxílio prestado a si. Todos estes exemplos mostram que a caridade forma um ciclo virtuoso de progresso geral e traz para o campo científico-filosófico o que era apenas matéria religiosa.

Segundo o Protestantismo[editar | editar código-fonte]

A caridade, também traduzida corretamente como amor, tem sua origem na palavra grega "agapé". Em nosso idioma a palavra amor assume diversas interpretações possíveis como amor sensual. No original grego, assume um significado especifico, que tem mais sentido como um comportamento uma escolha do que propriamente com sentimentos, tendo como possíveis significados: afeição ou benevolência, amor caridoso e querido. Aparece em inúmeros textos bíblicos e assume alguns significados de acordo com o contexto, podendo significar:

  • o amor de Deus ou de Cristo como em Rm 5:5; Ef 2:4;
  • amor fraterno como em 1Co 4:21;
  • metaforicamente, o efeito ou a prova do amor, benevolência, benefício concedido.[7]

Quanto a visão cristã da caridade percebe-se que esta relaciona-se com a doutrina da salvação, porém não como meio para salvação, mas como consequência natural desta.

"Sabendo que o homem não é justificado pelas obras da lei, mas pela fé em Jesus Cristo, temos também crido em Jesus Cristo, para sermos justificados pela fé de Cristo e não pelas obras da lei, porquanto pelas obras da lei nenhuma carne será justificada."[8]

"Porque todos pecaram e destituídos estão da glória de Deus, sendo justificados gratuitamente pela graça, pela redenção que já em Cristo Jesus, ao qual Deus propôs para propiciação pela fé no seu sangue, para demonstrar a sua justiça pela remissão dos pecados dantes cometidos, sob a paciência de Deus; para demonstração de sua justiça neste tempo presente, para que ele seja justo e justificador daquele que tem fé em Jesus. Onde está, logo, a jactância? É excluida. Por qual lei? Das obras? Não! Mas pela lei da fé. Concluímos, pois que o homem é justificado pela fé, sem as obras da lei".[9]

Em relação a isso a crença no perdão dos pecados e na salvação pela boas obras se mostram alternativas contrárias e não complementares, pois se Deus perdoa os pecados não há necessidade de se pagar a dívida, e igualmente se pagamos uma dívida pelos pecados, não há de se falar em perdão do que foi pago. A compreensão de que estas idéias são excludentes fundamenta a crença na salvação pela graça/fé através do sacrifício de Jesus Cristo na cruz.

Essa ideia também pode ser demonstrada através de um argumento lógico:

1. Ou a salvação é pelas boas obras ou pela graça (perdão).

2. Se a salvação é pelas boas obras não existe perdão.

3. Existe perdão.

4. Logo, a salvação não é pelas boas obras.

5. Logo, a salvação é pela graça (perdão).

Apesar da caridade não ser considerada o cerne da salvação (mas sim o sacrifício de Jesus Cristo), esta é colocada como uma resposta natural e esperada como demonstração da gratidão e experiência do cristão com Deus.

Segundo o Budismo[editar | editar código-fonte]

A caridade não é um conceito chave no Budismo. Um conceito importante e próximo é o da generosidade. A generosidade é o primeiro e mais básico paramita, ou seja, uma das maneiras de atravesar de samsara para a iluminação. Há três tipos de generosidade: material, de conhecimento e a de tirar os seres de um estado de medo.

Dois conceitos fundamentais que devem ser citados são: O amor, que é a motivação de querer que os outros seres sejam felizes e a compaixão, que é a motivação de querer que os outros seres não sofram.

Mas é preciso destacar alguns movimentos Budistas que são engajados em dar suporte a seres humanos carentes, como a BLIA - Associação Internacional Luz de Buda e a Dhammakaya Foundation.


Ver também[editar | editar código-fonte]

Referências

  1. Compêndio do Catecismo da Igreja Católica, n. 388
  2. 1 Coríntios 13:13
  3. GEORGE WEIGEL, A Verdade do Catolicismo; cap. 6, pág. 101
  4. KARDEC, Allan (Coord.). O livro dos espíritos: princípios da doutrina espírita sobre a imortalidade da alma, a natureza dos espíritos e suas relações com os homens, as leis morais, a vida presente, a vida futura e o porvir da humanidade. Tradução de Guillon Ribeiro. 91. ed. Rio de Janeiro: Federação Espírita Brasileira, 2008. p. 457.
  5. KARDEC, Allan. O evangelho segundo o espiritismo: com explicações das máximas morais do cristo em concordância com o espiritismo e suas aplicações às diversas circunstâncias da vida. Tradução de Guillon Ribeiro. 120. ed. Rio de Janeiro: Federação Espírita Brasileira, 2002. p. 315-317.
  6. KARDEC, Allan. Obras póstumas de Allan Kardec. Rio de Janeiro: Federação Espírita Brasileira, [200?]. p. 281.
  7. Bíblia de Estudos de Palavras Chave Hebraico e Grego. Rio de Janeiro: CPAD, 2012. p. 26-27.
  8. Gálatas 2:16. Bíblia Sagrada.
  9. Romanos 3: 23-28. Bíblia Sagrada

Ligações externas[editar | editar código-fonte]

Wikiquote
O Wikiquote possui citações de ou sobre: Caridade