Ensaio sobre a Cegueira

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ENSAIO SOBRE A CEGUEIRA


Lisboa Portugal
1995
Autor José Saramago
Editora Caminho



Gênero Romance
Idioma Português
ISBN 9722110217

Nota: Se procura o filme, consulte Blindness

Ensaio sobre a cegueira é um romance do escritor português José Saramago, publicado em 1995 e traduzido para diversas línguas. A obra se tornou uma das mais famosas de seu autor, juntamente com Todos os nomes, Memorial do Convento e O Evangelho segundo Jesus Cristo.

Info Aviso: Este artigo ou seção contém revelações sobre o enredo (spoilers).

Índice

[editar] Versão teatral

Em 26 de Fevereiro de 2008 estreou nos palcos da Casa de Cultura Laura Alvim a versão teatral de Ensaio sobre a Cegueira. A direção é de Patrícia Zampiroli, conhecida pelas montagens de Roda Viva e Os Sete Gatinhos.

No Elenco estão doze atores - três da Andantes Cia. Teatral e nove escolhidos por teste[1] - que se revezam na interpretação dos personagens, até mesmo os principais, utilizando adereços característicos para identificação. O cenário é predominantemente branco: uma opção de manter a idéia monocromática da cegueira que acomete os personagens. A adaptação consumiu três meses de trabalho e resultou em um espetáculo dividido em três etapas, assim como a narração do livro. Um outro componente importante é a trilha sonora de Dida Mello.[2]

Além do Teatro Laura Alvim, a peça passou também pelo Teatro da UNIRIO, pelo Teatro Municipal de Macaé e também pelo Teatro da UFF, em Niterói.

[editar] Aos olhos de Saramago (autor)

"Este é um livro francamente terrível com o qual eu quero que o leitor sofra tanto como eu sofri ao escrevê-lo. Nele se descreve uma longa tortura. É um livro brutal e violento e é simultaneamente uma das experiências mais dolorosas da minha vida. São 300 páginas de constante aflição. Através da escrita, tentei dizer que não somos bons e que é preciso que tenhamos coragem para reconhecer isso."

[editar] Resumo/contexto da obra literária

Primeiro que tudo esta obra, de José Saramago, faz uma intensa crítica aos valores da sociedade, e ao que acontece quando um dos sentidos vitais falta à população.

A cegueira começa num único homem, durante a sua rotina habitual. Quando está sentado no semáforo, este homem tem um ataque de cegueira, e é aí, com as pessoas que correm em seu socorro que uma cadeia sucessiva de cegueira se forma… Uma cegueira, branca, como uma mar de leite e jamais conhecida, alastra-se rapidamente em forma de epidemia. O governo decide agir, e as pessoas infectadas são colocadas de quarentena com recursos limitados e que irá desvendar aos poucos as características primitivas do ser humano. A força da epidemia não diminui com as atitudes tomadas pelo governo, e depressa o mundo se torna cego, onde apenas uma mulher, misteriosa e secretamente manterá a sua visão, enfrentando todos os horrores que serão causados, e presenciando visualmente todos os sentimentos que se desenrolam na obra: poder, obediencia, ganância, carinho, desejo, vergonha; dominadores, dominados, subjugadores e subjulgados. Nesta quarentena podes esses sentimentos se irão desenvolver sob diversas formas: lutas entre grupos pela pouco comida disponibilizada, compaixão pelos doentes e os mais necessitados, como idosos ou crianças, embaraço por atitudes que antes nunca seriam cometidas, actos de violência e abuso sexual, mortes,…

Ao conseguir finalmente sair (devido a um fogo posto na camarata de uma gripo dominante, que instalara ainda mais o desespero, controlando a comida a troco de todos os bens dos restantes e serviços sexuais) do antigo hospício onde o governo os pusera em quarentena, a mulher que vê depara-se com a ausência de guarda: “a cidade estava toda infectada”; cadáveres, lixo, detritos, todo o tipo de sujidade e imundice se instalava pela cidade. Os cegos passaram a seguir os seus instintos animais, e sobreviviam como nómadas, instalando-se em lojas ou casas desconhecidas.

Saramago mostra, através desta obra intensiva e sofrida, as reacções do ser humano às necessidades, à incapacidade e à impotência, ao desprezo e ao abandono. Leva-nos também a reflectir sobre a moral, costumes, ética e preconceito através dos olhos da personagem principal, a mulher do médico, que se depara ao longo da narrativa com situações inadmissíveis; mata para se preversar e aos demais, depara-se com a morte de maneiras bizarras, como cadáveres espalhados pelas ruas e incêndios; após a saída do hospício, ao entrar numa igreja, presencia um cenário em que todos os santos se encontram vendados: “se os céus não vêem, que ninguém veja”…

A obra acaba quando subitamente, exactamente pela ordem de contágio, o mundo cego dá lugar ao mundo imundo e bárbaro. No entanto, as memórias e rastos não se desvanecem.

[editar] Personagens

José Saramago não faz a distinção de personagens pelos seus nomes, mas sim pelas suas características e particularidades. Entre as personagens principais, temos o primeiro cego, a mulher do primeiro cego/mulher que vê e a mulher do primeiro cego, a rapariga dos óculos escuros, o velho com a venda no olho e o rapazinho estrábico. Vão aparecendo ao longo do livro outras personagens secundárias, como o cego da pistola, o cego que escree em braile, o ladrão, os soldados, a velha do segundo andar,…

A rapariga dos oculos escuros – “Mãezinha, paizinho…Não está ninguém, disse a rapariga dos óculos escuros, e desatou-se a chorar encostada à porta…, não tivéssemos nós aprendido o suficiente do complicado que é o espírito humano, e estranharíamos que queira tanto a seus pais, ao ponto destas demonstrações de dor, uma rapariga de costumes tão livres,…”

[editar] Tipo de escrita

Podemos concluir que a obra é de difícil leitura devido a dois importantes factores:

  • o contexto filosófico de Saramago
  • o estilo de escrita – poucos paragrafos, poucos pontos finais, falas entre vírgulas,… - o que exige uma verdadeira concentração na leitura

[editar] Excertos

“Por que foi que cegámos, Não sei, talvez um dia se chegue a conhecer a razão, Queres que te diga o que penso, Diz, Penso que não cegámos, penso que estamos cegos, Cegos que vêem, Cegos que, vendo, não vêem”

“O medo cega, disse a rapariga dos óculos escuros, São palavras certas, já éramos cegos no momento em que cegámos, o medo nos cegou, o medo nos fará continuar cegos, Quem está a falar, perguntou o médico, Um cego, respondeu a voz, só um cego, é o que temos aqui.”

“Lutar foi sempre, mais ou menos, uma forma de cegueira, Isto é diferente, Farás o que melhor te parecer, mas não te esqueças daquilo que nós somos aqui, cegos, simplesmente cegos, cegos sem retóricas nem comiserações, o mundo caridoso e pitoresco dos ceguinhos acabou, agora é o reino duro, cruel e implacável dos cegos, Se tu pudesses ver o que eu sou obrigada a ver, quererias estar cego, Acredito, mas não preciso, cego já estou, Perdoa-me, meu querido, se tu soubesses, Sei, sei, levei a minha vida a olhar para dentro dos olhos das pessoas, é o único lugar do corpo onde talvez ainda exista uma alma, e se eles se perderam”

[editar] Ligações externas

[editar] Referências

  1. Jornal do Brasil, Caderno B: Cegueira no palco e no cinema. 30 de Janeiro de 2008.
  2. Jornal do Commercio. Saramago e o mundo invisível. 15 de Fevereiro de 2008.
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