O Evangelho segundo Jesus Cristo

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O Evangelho Segundo Jesus Cristo
Autor (es) José Saramago
Idioma português
País  Portugal
Género romance
Editora Editorial Caminho
Lançamento 1991
Páginas 445
ISBN 972-21-0524-8
Edição portuguesa
Edição brasileira
Editora Companhia das Letras
Páginas 448
ISBN 8571642095
Cronologia
Último
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História do Cerco de Lisboa
Ensaio sobre a Cegueira
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O Evangelho Segundo Jesus Cristo (1991) é um romance de José Saramago que conta a história da vida de Jesus de uma maneira moderna e crítica da religião.

Enredo[editar | editar código-fonte]

O livro conta uma história humanizada da vida de Jesus e alude a uma sua eventual relação com Maria Madalena (no livro, foi com ela que Jesus "conheceu o amor da carne e nele se reconheceu homem").[1] Ao adoptar essa perspectiva, de humanização de Cristo, distante da representação tradicional do Evangelho e evidenciando o seu caráter frágil e vulnerável, Saramago coloca que a propagada histórica da crucificação de Jesus, "um revulsivo forte, qualquer coisa capaz de chocar as sensibilidades e arrebatar os sentimentos",[2] resultou na imposição de "uma história interminável de ferro e de sangue, de fogo e de cinzas, um mar infinito de sofrimento e de lágrimas",[3] de acordo com a sua visão de mundo, segundo a qual “por causa e em nome de Deus é que se tem permitido e justificado tudo, principalmente o mais horrendo e cruel",[4] e que, "no fundo, o problema não é um Deus que não existe, mas a religião que o proclama. Denuncio as religiões, todas as religiões, por nocivas à Humanidade. São palavras duras, mas há que dizê-las".[5] Isso levou a que o livro fosse considerado ofensivo por diversos sectores da comunidade católica, a que ele sofresse perseguição religiosa em seu próprio país,[6] e a que o governo português, pressionado pela Igreja Católica[7] e por meio do então Subsecretário de Estado da Cultura de Portugal, Sousa Lara, vetasse este livro de uma lista de romances portugueses candidatos a um prémio literário europeu por "atentar contra a moral cristã".[8]

Em reacção a este acto do Subsecretário de Estado, que considerou censório, Saramago abandonou Portugal, passando a residir na ilha de Lanzarote, Ilhas Canárias[9] , onde permaneceu até a sua morte.

Trechos[editar | editar código-fonte]

  • "Já que muitos empreenderam compor uma narração dos factos que entre nós se consumaram, como no-los transmitiram os que desde o princípio foram testemunhas oculares e se tornaram servidores da Palavra, resolvi eu também, depois de tudo ter investigado cuidadosamente desde a origem, expor-tos por escrito e pela sua ordem, ilustre Teófilo, a fim de que reconheças a solidez da doutrina em que foste instruído." Lucas, 1, 1-4 (contra-capa)
  • “O filho de José e Maria nasceu como todos os filhos dos homens, sujo do sangue de sua mãe, viscoso das suas mucosidades e sofrendo em silêncio. Chorou porque o fizeram chorar, e chorará por esse mesmo e único motivo.”
  • “Dizer um anjo que não é anjo de perdões, ou nada significa, ou significa demasiado, vamos por hipótese, que é anjo das condenações, é como se exclamasse, Perdoar, eu, que ideia estúpida, eu não perdoo, castigo. Mas os anjos, por definição, tirando aqueles querubins de espada flamejante que foram postos pelo Senhor a guardar o caminho da árvore da vida para que não voltassem pelos frutos dela os nossos primeiros pais, ou os seus descendentes, que somos nós, os anjos, íamos dizendo, não são polícias, não se encarregam das sujas mas socialmente necessárias tarefas de repressão, os anjos existem para tornar-nos a vida mais fácil, amparam-nos quando vamos a cair ao poço, guiam-nos no perigoso passo da ponte sobre o precipício, puxam-nos pelo braço quando estamos quase a ser atropelados por uma quadriga sem freio ou por um automóvel sem travões. Um anjo realmente merecedor de Jesus (...)”
  • “Daqui a quatro anos Jesus encontrará Deus. Ao fazer esta inesperada revelação, quiçá prematura à luz das regras do bem narrar antes mencionadas, o que se pretende é tão-só bem dispor o leitor deste evangelho a deixar-se entreter com alguns vulgares episódios de vida pastoril, embora estes, adianta-se desde já para que tenha desculpa quem for tentado a passar à frente, nada de substancioso venham trazer ao principal da matéria.”
  • "Este mísero despojo só pode ser o Mau Ladrão, rectíssimo homem afinal, a quem sobrou consciência para não fingir acreditar, a coberto de leis divinas e humanas, que um minuto de arrependimento basta para resgatar uma vida inteira de maldade ou uma simples hora de fraqueza."

Reações ao romance O Evangelho Segundo Jesus Cristo[editar | editar código-fonte]

A principal crítica feita contra a obra é a da livre interpretação dos textos sagrados, desvirtuando de forma abusiva os Evangelhos canônicos. Porém, tal crítica só faz sentido do ponto de vista do catolicismo, pois, mesmo dentre os cristãos, o protestantismo, por exemplo, tem como um de seus principais princípios a interpretação privada ou juízo privado dos textos bíblicos.[10] E, do ponto de vista dos direitos fundamentais de liberdade religiosa e do de liberdade de expressão, como formulado no caso Handyside contra Reino Unido,[11] tais críticas fazem ainda menos sentido.

Quando saiu a público, em novembro de 1991, o Evangelho Segundo Jesus Cristo suscitou reações polémicas de parte dos católicos. Entre elas, a do arcebispo de Braga, D. Eurico Dias Nogueira, proferida em maio de 1992: Um escritor português, ateu confesso e comunista impenitente, como ele mesmo se apresenta, resolveu elaborar uma delirante vida de Cristo, na perspectiva da sua ideologia político-religiosa e distorcida por aqueles parâmetros. D. Eurico continua: A apregoada beleza literária, a existir nesta obra, longe de atenuante e muito menos dirimente, constitui circunstância agravante da culpabilidade do réu, seu autor.

Vital Capelo, no jornal O Arrais de Peso da Régua, afirma acerca de Saramago e do romance: Sendo o autor um descrente, não deveria ter a ousadia de imiscuir-se em assuntos de natureza religiosa (...) sob pena de ser aplicado o velho «Quem te mandou, sapateiro, tocar rabecão?!». E enfatiza: A juventude de Jesus é puramente fantasista e fruto da imaginação do autor (...); completando: Na parte respeitante ao adulto, Jesus é completamente deformado, já que se faz dele um milagreiro andante, cuja História é bem conhecida, sendo apresentado como um vulgar aventureiro, despido de todo o esplendor de que foi cercado.

  • Carlos H. da C. Silva, na revista Humanística e Teológica, expõe o modo como interpreta o romance: (...) toda a tradição ocidental cristã não se baseia em algo «verdadeiro» mas num vazio, numa fraude colossal. Seria esta a verdade dialetizada (...), conservadorista e ideal, a denunciar o que pareciam as formas alienatórias e impeditivas. (...) Nesse sentido, é como se se advogasse um eco de puro incómodo psicológico de Saramago em relação aos Evangelhos e a tudo quanto de «doentio» neles, ou melhor, numa hermenêutica e moralização longamente estabelecida, se veio a decantar. (...).
  • Regina Sardoeira, professora de Filosofia e escritora: "Se repararmos bem, o livro O Evangelho Segundo Jesus Cristo de Saramago não destoa (no que concerne ao conteúdo) de obras como A Última Tentação de Cristo de Nikos Kazantzakis, ou dos best sellers de Dan Brown (O Código da Vinci, etc.) com a ressalva de que o primeiro e o segundo são obras-primas, enquanto os livros de Dan Brown estão longe de o ser. Sendo Jesus Cristo uma personagem histórica e não havendo fontes para saber (historicamente falando) as circunstâncias humanas do seu nascimento e da sua formação enquanto homem (os evangelhos canónicos - quer dizer, aqueles que a igreja católica considera dogmas - relatam o nascimento de Cristo, um ou dois factos relativos à sua infância e adolescência e fazem-no surgir, de repente, aos trinta anos, para cumprir uma missão divina que o levará à mais ignominiosa das mortes.) a marca que ele deixou no mundo dos homens é tão intensa e, em simultâneo, tão enigmática que dá azo a múltiplas especulações.
  • A escritora e crítica literária Salma Ferraz, professora associada de Língua Portuguesa da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) de Florianópolis, é uma grande estudiosa de Saramago na amplitude de suas obras. Seu livro “O Quinto Evangelista” (UNB, 1998) é resultado da dissertação de mestrado e; “As faces de Deus na obra de um ateu: José Saramago” (Editora da UFRJ e Edifurb, 2003), resultado de seu doutorado. Salma partiu para a escritura do “Dicionário de Personagens da obra de José Saramago” (Edifurb, 2012), fruto de 15 anos de estudos, concretizados em 354 personagens. Extraídos das criações “saramágicas”, Salma referenda a característica de o escritor português centrar sua obra quase que tiranicamente em sua pessoa, mantendo o império do autor, contrariando todas as teorias decretadas por Barthes.

Referências

  1. O evangelho segundo Jesus Cristo. São Paulo: Companhia das Letras, 2005, p. 242.
  2. O evangelho segundo Jesus Cristo. São Paulo: Companhia das Letras, 2005, p. 314.
  3. O evangelho segundo Jesus Cristo. São Paulo: Companhia das Letras, 2005, p. 319.
  4. José Saramago. O factor Deus (em português). Página visitada em 19 de Junho de 2010.
  5. O Globo (17 de Outubro de 2009). José Saramago: 'Penso que não merecemos a vida' (em português). Página visitada em 19 de Junho de 2010.
  6. O Globo (19 de Junho de 2010). Morre o escritor português José Saramago (em português). Página visitada em 19 de Junho de 2010.
  7. The New York Times (18 de Junho de 2010). José Saramago, Nobel Prize-Winning Portuguese Writer, Dies at 87 (em inglês). Página visitada em 19 de Junho de 2010.
  8. TSF Rádio Notícias (15 de Abril de 2010). Sousa Lara voltaria a vetar livro de Saramago (em português). Página visitada em 19 de Junho de 2010.
  9. Instituto Camões - H O L A N D A O mundo é infinitamente cruel e sem engagement (9 /10/1998). Página visitada em 16/01/2009.
  10. Christ Church (Reformed Presbyterian Church of North America). Private Interpretation (em inglês). Página visitada em 16 de outubro de 2009.
  11. Organização dos Estados Americanos - OEA. Relatoria para a Liberdade de Expressão (em português). Página visitada em 25 de janeiro de 2010.

FERRAZ, Salma. Dicionário de personagens da obra de José Saramago. Blumenau: Edifurb, 2012.

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