Estrada da Birmânia

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Estrada da Birmânia, em 1944.
Mulheres e crianças usando as mãos para construir a Estrada da Birmânia.

A Estrada da Birmânia é como passou à história a ligação rodoviária, erguida entre os anos de 1939 a 1941, que unia a China à Índia e à Birmânia (atual Mianmar), com o objetivo de levar suprimentos dos Aliados da Segunda Guerra Mundial para a resistência chinesa à ocupação japonesa.[1]

Com uma extensão de 1,154 km [nota 1] , cruzando a parte montanhosa dos países que corta, a estrada foi importante objeto de disputa entre os ingleses e os japoneses, antes da sua entrada no conflito mundial. Ligava Lashio (norte birmanês) a Kunming (na China), e foi construída por trabalhadores chineses,[3] com grande custo de vidas sobretudo em razão da malária, cortando florestas e montanhas.[2]

Tornou-se a mais famosa estrada do mundo na época, por onde passavam constantemente dezenas de veículos abastecidos de armamentos e munições para a China,[4] - o que a transformou no principal objetivo estratégico japonês na ocupação da Birmânia.[3]

Passado o conflito a histórica estrada perdeu sua importância e foi abandonada, e atualmente se presta ao tráfico de produtos como teca, ouro e ópio.[2]

Contexto histórico[editar | editar código-fonte]

O Japão havia optado pela via bélica a fim de construir, na terminologia da época, uma "esfera da co-prosperidade asiática". Já havia, em 1910, se ocupado da Coreia e, após a I Guerra Mundial afasta-se da Sociedade das Nações. Aproveitando-se do Incidente da Manchúria de 1931 promove em seguida a ocupação da rica província chinesa, levando ao descrédito a organização internacional que então se tentava criar para evitar novos conflitos.[5]

Em 1937 os japoneses levam o conflito ao restante da China, ocupando os portos e procurando interromper todas as vias externas que pudessem suprir de material bélico as tropas de Chang Kai-chek, como ocorreu com a derrota de França em 1940, interrompendo a ligação entre Tonquim e o Iunão. No ano seguinte a tentativa de conquista da China passa a integrar o novo conflito mundial, com a imensa empresa militar japonesa ocupando diversos países asiáticos.[5]

Conquista da Birmânia e disputa pela rodovia[editar | editar código-fonte]

Com o objetivo de destruir a estrada os japoneses criaram na Birmânia, com uso de jovens nacionalistas como Aung San, a organização militar Minami Kikan, sob o comando do coronel Suzuki Keiji.[1]

Fotografia militar aérea da sinuosa Estrada da Birmânia e da Estrada de Ledo.

Para os aliados era importante manter o exército nipônico ocupado com a resistência chinesa; embora as forças de Chang Kai-chek fossem muito inferiores no campo de batalha, mantinham ocupada metade do efetivo japonês. Para isto, era mister manter a China na luta a qualquer preço, o que realçava a importância da estrada como via de acesso aos suprimentos bélicos. Para interrompê-lo os ingleses lançaram um contra-ataque durante a estação seca de 1942-1943, a partir de Arakan, mas foram obrigados a recuar até a fronteira indiana.[3]

Roosevelt, amparado pela Lei de Empréstimo e Arrendamento de 1941 (quando os Estados Unidos ainda não estava em guerra contra o Japão), entrou em negociação com Chang Kai-chek, que tencionava transformar num líder regional.[6]

Com o ingresso dos EUA na guerra, fez Kai-chek três exigências aos Aliados, ao que o presidente Roosevelt respondeu com limitadas promessas de uma ofensiva aérea a partir da Índia e com sérios esforços por levar suprimentos pelo ar, mas não prometeu o envio de tropas por via terrestre - uma opção que era defendida pelo general Stilwell - pois somente a união das tropas sino-estadunidenses poderia vencer as resistências da divisão japonesa que ocupava o norte birmanês, e dar acesso às estradas de Ledo e da Birmânia.[6]

A Guerra da Birmânia prosseguiu, no começo de 1943, com uma nova ofensiva sob o comando do general inglês Orde Wingate, que planejava um ataque a partir da selva, contando com apoio aéreo, mas sem resultados claros, naquilo que ficou chamado de primeira expedição Chindit[nota 2] .[3]

Foi somente após a conferência em Quebec com Roosevelt, Churchill e os Chefes do Estado Maior que foi aprovada, em agosto de 1943, uma ofensiva ao norte birmanês.[6]

Isto se deu quando Mountbatten foi nomeado comandante supremo das forças no Sudeste Asiático, e o general Slim do 14º Exército encontrou o apoio necessário para uma nova ofensiva - que efetivamente ocorreu a partir de Arakan, na estação seca de 1943-1944, com melhores resultados que os ataques anteriores.[3]

A fim de emprestar apoio às tropas chinesas que atacavam pelo norte foi organizada uma nova expedição Chindit sob comando do general estadunidense Stilwell, abrindo caminho a partir de Ledo (no estado hindu de Assam) até a estrada da Birmânia e passando pela capital do estado birmanês de Kachin, Myitkyina.[3]

Os japoneses lançaram sua última ofensiva em 1944 para deter o suprimento aos chineses, que foi detida pelo 14º Exército, formado por tropas anglo-indianas, na Batalha de Imphal-Kohima. A despeito da chegada das monções, as tropas continuaram avançando até finalmente capturarem Rangum a 3 de maio de 1945.[3]

Impacto cultural[editar | editar código-fonte]

Já em 1942 uma produção de Hollywood colocava a estrada no cinema, com o filme A Yank on the Burma Road, tendo como pano de fundo os dramas do conflito naquela região para a trama de um triângulo amoroso vivido pela loira Joe Tracey, interpretada pela atriz Laraine Day, e com Barry Nelson no papel de um motorista de taxi.[7]

Tendo narração pelo então ator Ronald Reagan, o United States Office of War Information (Escritório de Informação de Guerra, em livre tradução) produziu um filme de propaganda em 1945, intitulado The Stilwell Road, que retrata a construção da Estrada de Ledo até a Estrada da Birmânia.[8]

De 1962 o filme Burma Road (बर्मा रोड), produção de Bollywood falada em hindi, foi estrelado pelo ator Ashok Kumar.[9]

A estrada é referida na obra Herança (Inheritance, no original) de Lan Samantha Chang, publicada em 2005, onde a autora relata as dificuldades que os chineses enfrentavam para atravessá-la: "Tentavam descrever-lhe o pesadelo que era a ineficiência das linhas de suprimento que vinham da Birmânia. A estrada da Birmânia acabara de ser inaugurada, e já era um atoleiro de atrasos: gerentes de subestações tendo de ser subornados; papéis a serem preenchidos; equipamento avariado; a necessidade de confirmação de detalhes despropositados."[10]

A "Estrada da Birmânia", em Israel, é como ficou conhecido o caminho que foi construído durante a Guerra da Independência e contornou as forças árabes que cercavam Jerusalém.[11]

Ver também[editar | editar código-fonte]

Notas

  1. Considerando-se a ligação com a Estrada Ledo, ligando até a Índia, essa extensão chega a 1,730 km.[2]
  2. Chindit era o nome dado às tropas mistas com soldados ingleses e hindus.

Referências

  1. a b Louis Frederic; Álvaro David Hwang. O Japão: Dicionário e Civilização (em português). [S.l.]: Globo Livros. p. 782. ISBN 8525046167 Página visitada em dezembro de 2011.
  2. a b c Donovan Webster (NOVEMBRO 2003). Sangue e Suor: A velha estrada da Birmânia National Geographic - Portugal, pág. 30. Página visitada em dezembro de 2011.
  3. a b c d e f g Richard Holmes. Un Mundo en Guerra: Historia Geral de la Segunda Guerra Mundial (em espanhol). [S.l.]: Editorial Critica, 2004. 752 pp. p. 435-436. ISBN 8484325911 Página visitada em dezembro de 2011.
  4. Diversos. Obras completas, Volume 9. [S.l.]: Livraria Sá da Costa, 1950. p. 201. Página visitada em dezembro de 2011.
  5. a b René Rémond. O Século XX - de 1914 aos dias atuais: introdução à história de nosso tempo. 11ª ed. São Paulo: Pensamento - Cultrix, 2010. p. 177 - 178. ISBN 8531603498 Página visitada em dezembro de 2011.
  6. a b c Williamson Murray, Allan R. Millett. La Guerra que Había que Ganar (em espanhol). 5ª ed. Madri: Editorial Ariel, 2010. Capítulo: La guerra en Asia y el Pacífico. , 736 pp. p. 262-264. ISBN 849892104X Página visitada em dezembro de 2011.
  7. T. S. (29 de janeiro de 1942). MOVIE REVIEW - A Yank on the Burma Road (1942), At Loew's Criterion The New York Times. Página visitada em dezembro de 2011.
  8. The Stilwell Road. Página visitada em dezembro de 2011.
  9. Bowker. Bowker's Complete Video Directory 2002: Entertainment : titles A-S., Livro 1. [S.l.: s.n.], 2002. p. 217. ISBN 0835244784 Página visitada em dezembro de 2011.
  10. Lan Samantha Chang (tradução Ana Luiza Dantas Borges). Herança (em português). [S.l.]: Objetiva, 2005. 312 pp. p. 117. ISBN 8573026626 Página visitada em dezembro de 2011.
  11. Shlomo Shamir. בכל מחיר – לירושלים (em hebraico). Tel Aviv: Ma'arachot, 1994. p. 417–418.