Heart of Darkness (livro)

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Heart of Darkness
O Coração das Trevas
Heart of Darkness
Heart of Darkness foi originalmente publicado como uma história de série de três partes pela revista Blackwood
Autor (es) Joseph Conrad
Idioma Inglês
País  Reino Unido
Género Roman à clef, ficção, novela
Editora Blackwood's Magazine
Formato Impresso (série)
Lançamento Fevereiro de 1899
Cronologia
Último
Último
Lord Jim
Próximo
Próximo

Heart of Darkness (O Coração das Trevas) é um romance escrito por Joseph Conrad. Antes da sua publicação em 1902, apareceu como uma série em três partes (1899) na Blackwood's Magazine. É amplamente considerada como uma obra importante da literatura inglesa e parte do cânone Ocidental. O romance fala de Charles Marlow, um inglês que obteve trabalho junto de uma companhia de comércio belga como capitão de um barco a vapor num rio africano. Embora Conrad não identifique o rio, no Estado Livre do Congo, a localização do grande e importante rio Congo era à época uma colônia propriedade privada do rei Leopoldo II da Bélgica. Marlow é contratado para transportar marfim rio abaixo. No entanto, a sua tarefa mais urgente é devolver Kurtz, um famoso comerciante de marfim, à civilização.

Conrad construiu uma narrativa simbólica com uma história dentro da própria história (narrativa moldura): Marlow conta a um grupo de amigos a bordo de um navio ancorado no estuário do Tamisa, desde o anoitecer até de madrugada, a sua aventura congolesa. A passagem do tempo e o céu escurecendo-se com o pôr-do-sol sobre Londres, enquadram a atmosfera densa e pesada da história dentro da história.

O livro tem um caráter crítico e psicológico e, apesar de seu tamanho pequeno e fácil leitura em relação ao vocabulário, exige uma alta concentração do leitor por constituir uma narrativa simbólica e de rápidas conexões.

O livro inspirou o filme Apocalypse Now de Francis Ford Coppola. Enquanto o livro se passa em tempos mais remotos, o filme se situa na guerra do Vietnã, colocando o Sr. Kurtz como um coronel americano que se refugia na selva. Apesar de ser diferente do livro, o filme consegue manter as críticas do livro, transportando elas à guerra, e consegue manter a história original apesar das adaptações de roteiro.

Contexto[editar | editar código-fonte]

O livro possuiu similaridades com a vida de Conrad. Oito anos e meio antes de escreve-lo, Conrad foi designado por uma companhia de comércio belga para trabalhar como capitão de um navio no Rio Congo. Na chegada a estação no Congo, ele descobriu que o navio que iria comandar sofreu danos e necessitava de reparo. No dia seguinte ele subiu o rio em um navio diferente, chefiado por outra pessoa. Durante a jornada o capitão adoeceu e Conrad assumiu o comando. Eles buscaram o agente da estação mais longínquada companhia, Georges-Antonie Klein, que morreu na viagem de volta. O próprio Conrad ficou muito doente e retornou para a Europa antes de completar os três anos de contrato que havia assinado com a companhia.

Enredo[editar | editar código-fonte]

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No início do livro, o leitor se vê perante uma narração em primeira pessoa de um dos tribulantes de uma embarcação no Tamisa. Ele fala sobre Marlow, um velho tripulante a bordo do navio, o único que ainda "seguia o mar." Sem nada o que fazer já que a maré não era favorável à navegação, Marlow passa a contar a história que o levou a conhecer um lendário chefe de posto, o Sr. Kurtz. Marlow inicia a narrativa dizendo como conseguiu o posto na companhia marítima, através da ajuda e influência da tia, que conhecia a esposa de um alto dirigente da Administração. Ele se torna então comandante de um vapor, e é-lhe incubida a missão de resgatar um chefe de posto conhecido por Sr. Kurtz. Ao narrar sua aventura até encontrar o vapor, Joseph Conrad faz uma crítica em relação a falta de conectividade entre as regiões, à escravidão, ao aspecto burocrático e alheio dos comandantes e a falta de informação por parte destes. Nesse processo, Marlow passa a ouvir muitos elogios ao Sr. Kurtz, como um ótimo chefe de posto, muito inteligente e brilhante. Marlow afirma em um ponto da narrativa que, ao pensar em Kurtz, via apenas um nome e era incapaz de enxergar a pessoa por trás da lenda. Para o infortúnio de Marlow, ele descobre que um comandante improvisado havia recebido ordens dois dias antes de sua chegada para subir o rio com o vapor, e, ao fazer isso, o vapor chocou-se contra pedras do fundo do rio e naufragou. Então, sem saber o que fazer, ele decide tentar consertar o barco, e gasta alguns meses fazendo-o. Após finalmente ter consertado o vapor, ele parte rio acima à procura de Kurtz, lidando com as dificuldades de navegação do rio e as dificuldades de operação do frágil vapor, já velho, deteriorado e com o motor defeituoso. É dessa forma que Marlow vai avançando lentamente em direção ao seu objetivo, encontrar o lendário, brilhante, mas agora louco Sr. Kurtz. Finalmente Marlow o encontra, após ter adentrado o coração das trevas.

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Recepção[editar | editar código-fonte]

Crítica literária[editar | editar código-fonte]

O crítico literário Harold Bloom escreveu que Heart of Darkness foi analisado mais do que qualquer outra obra de literatura que é estudada em universidades e colégios, que atribuiu a "propensão exclusiva à ambiguidade" de Conrad. No entanto, não foi um grande sucesso durante a vida do autor.[1] [2] Quando foi publicado como volume único em 1902, com mais duas novelas, "Youth" e "The End of the Tether", recebeu comentários mínimos de críticos.[2] F. R. Leavis, referiu-se a Heart of Darkness como uma "obra menor" e criticou a "insistência adjetiva sobre o mistério inefável e incompreensível".[3] O próprio Conrad não considerou ser particularmente notável.[2] Na década de 1960, porém, foi a atribuição padrão em muitas universidades e escolas secundárias em cursos de inglês.

Em King Leopold's Ghost (1998), Adam Hochschild escreveu que os estudiosos literários têm feito muito dos aspectos psicológicos de Heart of Darkness, enquanto prestando pouca atenção na recontagem precisa de Conrad do horror decorrente dos métodos e efeitos do colonialismo no Estado Livre do Congo. "Heart of Darkness é uma experiência ... empurrando um pouco (e apenas muito pouco) além dos fatos reais do caso."[4] Outras críticas incluem Achebe on Conrad: Racism and Greatness in Heart of Darkness (1997) de Hugh Curtler.[5]

Estudos pós-coloniais[editar | editar código-fonte]

A palestra de Chinua Achebe sobre o livro em 1975 provocou décadas de debate.

Heart of Darkness é criticado em estudos pós-coloniais, particularmente pelo romancista nigeriano Chinua Achebe, que é considerado um "patriarca da novela africana".[6] Em sua palestra pública "An Image of Africa: Racism in Conrad's Heart of Darkness" de 1975, descreveu a novela de Conrad como "um livro ofensivo e deplorável" que desumanizou os africanos.[7] Argumentou que Conrad, a "cega ... com a xenofobia", incorretamente representado a África como a antítese da Europa e da civilização, ignorando as realizações artísticas do povo fang que viviam na bacia do rio Congo, no momento da publicação do livro. Desde que a obra promoveu e continua a promover uma imagem preconceituosa da África que "despersonaliza uma parte da raça humana", concluiu que não deve ser considerada uma grande obra de arte.[8]

Professor Dr. zimbabuano Rino Zhuwarara amplamente concordou com Achebe, porém considerou importante ser "sensibilizada à forma como os povos de outras nações compreendem a África."[9] Em 2003, o professor Dr. bechuano Peter Mwikisa concluiu que o livro era "a grande oportunidade perdida para descrever o diálogo entre África e Europa."[10] Em 1983, o professor britânico Cedric Watts publicou um ensaio expressando indignação com sua implicação percepção da crítica de Achebe: de que apenas os negros podem analisar com precisão e avaliar a novela. Stan Galloway escreve, numa comparação de Heart of Darkness com Jungle Tales of Tarzan", os habitantes [de ambas as obras], se antagonistas ou compatriotas, foram claramente imaginários e a intenção de representar uma cifra fictícia particular e não um povo africano em particular."[11] O romancista Caryl Phillips concluiu depois de uma entrevista em 2003 que "Achebe está certo; para o leitor africano o preço da denúncia eloquente de Conrad da colonização é a reciclagem de noções racistas do continente 'negro' e seu povo. Aqueles dentre nós que não são da África podem estar dispostos a pagar esse preço, mas esse preço é demasiadamente elevado para Achebe."[12]

Adaptações e influência[editar | editar código-fonte]

Orson Welles adaptou e estrelou Heart of Darkness, em uma transmissão da CBS Radio em 6 de novembro de 1938, como parte de sua série, The Mercury Theatre on the Air. Em 1939, adaptou a história ao seu primeiro filme para a RKO Pictures, escrevendo um roteiro com John Houseman. O projeto nunca foi realizado. Welles esperava ainda produzir o filme quando ele apresentou outra adaptação de rádio da história como seu primeiro programa como produtor-estrela da série de rádio da CBS This Is My Best. Seu estudioso Bret Wood chamou a transmissão de 13 de março de 1945, de "a representação mais próxima do filme que Welles poderia ter feito, aleijada, é claro, pela ausência de elementos visuais da história (que foram tão meticulosamente projetados) e a duração de meia hora da transmissão."[13]

Uma antologia de televisão da Playhouse 90 pela CBS foi ao ar com uma adaptação livre de 90 minutos em 1958. Esta versão, escrita por Stewart Stern, usa o encontro entre Marlow (Roddy McDowall) e Kurtz (Boris Karloff) como seu ato final, e adiciona uma história de fundo em que Marlow é o filho adotivo de Kurtz. O elenco inclui Inga Swenson e Eartha Kitt. A adaptação mais famosa do livro é a cinematografia de Francis Ford Coppola Apocalypse Now de 1979, que move a história do Congo para o Vietnã e no Camboja durante a Guerra do Vietnã. No filme, Martin Sheen interpreta o Capitão Benjamin L. Willard, um capitão do Exército dos Estados Unidos com a missão de "encerrar" o comando do coronel Walter E. Kurtz (Marlon Brando). No filme, Brando atua em um de seus papéis mais famosos.[14] Um documentário de produção do filme, intitulado Hearts of Darkness: A Filmmaker's Apocalypse, expôs algumas das principais dificuldades que o diretor enfrentou ao produzir o filme até a sua conclusão. As dificuldades que Coppola e sua equipe enfrentaram espelhou alguns dos temas do livro.[15] Em 1991, o autor e dramaturgo australiano Larry Buttrose escreveu e encenou uma produção teatral de Kurtz (baseado em Heart of Darkness), com a Crossroads Theatre Company, de Sydney.[16] A história foi anunciada a ser transmitida como uma peça de rádio ao público australiano, em agosto de 2011 pela Vision Australia Radio, e também pela RPH – Radio Print Handicapped Network em toda a Austrália. Em 13 de março de 1993, foi ao ar pela TNT uma nova versão da história dirigida por Nicolas Roeg, estrelada por Tim Roth como Marlow e John Malkovich como Kurtz.[17]

Em 2011, uma adaptação em ópera do compositor Tarik O'Regan e o libretista Tom Phillips foi estreada no Linbury Theatre da Royal Opera House, em Londres. Uma suite para orquestra e narrador foi posteriormente extrapolada a partir deste concerto.[18]

Referências

  1. Bloom 2009, p. 17
  2. a b c Moore 2004, p. 4
  3. Moore 2004, p. 5
  4. Hochschild 1999, p. 143
  5. Curtler, Hugh. (Março de 1997). "Achebe on Conrad: Racism and Greatness in Heart of Darkness" (em inglês). Conradiana 29 (1): 30–40.
  6. Chinua Achebe Biography (em inglês) Biography.com. Visitado em 30 de novembro de 2014.
  7. Watts, Cedric. (1983). "'A Bloody Racist': About Achebe's View of Conrad". The Yearbook of English Studies 13.
  8. Achebe, Chinua. (1978). "An Image of Africa". Research in African Literatures 9 (1).
  9. Moore 2004, p. 6
  10. Mwikisa, Peter. "Conrad's Image of Africa: Recovering African Voices in Heart of Darkness. Mots Pluriels 13 (Abril de 2000): 20-28.
  11. Galloway, Stan. The Teenage Tarzan: A Literary Analysis of Edgar Rice Burroughs' Jungle Tales of Tarzan. Jefferson, NC: McFarland, 2010. p. 112.
  12. Phillips, Caryl (22 de fevereiro de 2003). Out of Africa The Guardian. Visitado em 30 de novembro de 2014.
  13. Wood 1990, pp. 95, 153–156,136–137
  14. Ivakhiv 2013, pp. 162
  15. Aitken 2013, pp. 355
  16. The Playwrights Database: Larry Buttrose
  17. Tucker, Ken (11 de março de 1994). "Heart of Darkness" (em inglês) Entertainment Weekly. Visitado em 18 de dezembro de 2014.
  18. Suite from Heart of Darkness first London performance (em inglês) Cadogan Hall (23 de abril de 2013). Visitado em 13 de dezembro de 2014.

Bibliografia[editar | editar código-fonte]

  • Aitken, Ian. The Concise Routledge Encyclopedia of the Documentary Film (em inglês). Londres: Routledge, 2013. ISBN 1136512063.
  • In: Bloom, Harold. Joseph Conrad's Heart of Darkness (em inglês). Nova Iorque: Infobase Publishing, 2009. ISBN 1438117108.
  • Ivakhiv, Adrian J. Ecologies of the Moving Image: Cinema, Affect, Nature (em inglês). Waterloo, Ontário: Wilfrid Laurier Univ. Press, 2013. ISBN 1554589061.
  • Hochschild, Adam. King Leopold's Ghost (em inglês). Boston, MA: Mariner Books, 1999. Capítulo 9: Meeting Mr. Kurtz. ISBN 0-618-00190-5.
  • Moore, Gene M.. Joseph Conrad's Heart of Darkness: A Casebook (em inglês). Oxford: Oxford University Press, 2004. ISBN 0195159969.
  • Wood, Bret. Orson Welles: A Bio-Bibliography (em inglês). Westport, Connecticut: Greenwood Press, 1990. ISBN 0-313-26538-0.