Sola scriptura

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Sola Scriptura (ablativo absoluto latino, cujo significado é "somente a Escritura") trata-se de um dogma protestante que reivindica ser a Bíblia a única regra de fé e conduta para o cristão. Princípio formal da fé protestante, tal princípio se contrapõe ao catolicismo romano, por rejeitar a autoridade normativa da Sagrada Tradição.

Histórico[editar | editar código-fonte]

A Sola Scriptura é um princípio doutrinal fundamental da Reforma Protestante e é um dos Cinco ensinamentos sobre os quais o Protestantismo foi edificado. Este princípio sustenta que as Sagradas Escrituras não necessitam de elementos interpretativos alheios[1] , o que necessariamente contraria os ensinamentos da Igreja Ortodoxa, das Igrejas Orientais, da Igreja Copta, da Igreja Católica e do Anglo-Catolicismo, as quais pregam que as Divinas Letras só podem ser fielmente interpretadas por meio da Tradição Apostólica.

Sobre isso, Martinho Lutero, fundador do Protestantismo, era enfático:

Um simples leigo armado com as Escrituras é maior que o mais corajoso Papa sem elas.
 
Disputa teológica com João Maier, em 14 de julho de 1519.

A intenção dos reformadores era a de corrigir aquilo que julgava equivocado no Catolicismo por meio da unicidade da autoridade da Bíblia, de modo a tentar abolir todos os dogmas proclamados pela Santa Sé depois dos primeiros cinco Concílios ecumênicos da Igreja. Para isso, os pensadores do Protestantismo se baseavam na afirmação paulina de que:

Toda a Escritura é divinamente inspirada, e proveitosa para ensinar, para redargüir, para corrigir, para instruir em justiça.
 
Segunda Epístola a Timóteo, capítulo III, versículo 16.

Nos movimentos de inspiração protestante considerados historicamente como fundamentalistas, como os anabatistas e puritanos, e outros surgidos durante o século XIX, esse princípio foi severamente condensado como Nuda Scriptura[2] , de modo que a Bíblia deveria ser entendida ao pé da letra, adotando-se a ideia de que a "A Escritura interpreta a própria Escritura", e, como tal, seria "suficiente como única fonte de doutrina e prática cristãs" em todos aspectos. O dogma da Sola Scriptura não descarta por completo aspectos relevantes da Tradição Apostólica; no entanto, quando há divergências entre esta e a Escritura, a última deve ter a primazia.

A doutrina da Sola Scriptura é um dos cinco pilares fundamentais do pensamento da Reforma Protestante, conhecidos como Quinque Solae.

Críticas à Sola Scriptura[editar | editar código-fonte]

A Igreja Católica, que fundamenta sua doutrina sobre o tripé: Tradição Apostólica, Bíblia e Magistério, vem refutando sistemática e oficialmente este ensinamento protestante desde o Concílio de Trento[3] . Os padres conciliares, contrários à inovação de Lutero, mantiveram-se firmes contra a interpretação particular das Sagradas Escrituras, como comprova o seguinte parágrafo do documento conciliar final.

Ademais, para refrear as mentalidades petulantes, decreta que ninguém, fundado na perspicácia própria, em coisas de fé e costumes necessárias à estrutura da doutrina cristã, torcendo a seu talante a Sagrada Escritura, ouse interpretar a mesma Sagrada Escritura contra aquele sentido, que [sempre] manteve e mantém a Santa Madre Igreja, a quem compete julgar sobre o verdadeiro sentido e interpretação das Sagradas Escrituras, ou também [ouse interpretá-la] contra o unânime consenso dos Padres, ainda que as interpretações em tempo algum venham a ser publicadas.
 
XIX Concílio Ecumênico, parágrafo 786.

Além disso, para os católicos, a doutrina do Somente a Escritura paradoxalmente não constaria nas Escrituras, ao passo que existem preceitos neotestamentários, formulados por São Paulo, que ordenam aos cristãos a obediência à Tradição Apostólica, como no versículo que segue:

Por isso, irmãos, fiquem firmes e mantenham as tradições que lhes ensinamos de viva voz ou por meio da nossa carta.
 
Segunda Epístola aos Tessalonicenses, capítulo II, versículo 15.

Os opositores da Sola Scriptura defendem ainda que tal doutrina não poderia, pela lógica, receber crédito, uma vez que todos os cristãos dos primeiros três séculos do Cristianismo morreram sem conhecer uma Bíblia, cujo cânone só foi concluído em 393, pelo Concílio de Hipona. Eles alegam que, se fosse realmente a intenção de Cristo que seus seguidores obedecessem somente às Escrituras em detrimento da Tradição e do Magistério, Ele teria o teria dito, ou lhes deixaria uma Bíblia.

Sobre o termo[editar | editar código-fonte]

Para os reformadores, somente a Escritura Sagrada tem a palavra final em matéria de fé e prática. É o que ficou consubstanciado nas Confissões de Fé de origem reformada. A Confissão de Fé de Westminster, que adotamos, afirma:Sob o nome de Escritura Sagrada, ou Palavra de Deus escrita, incluem-se agora todos os livros do Velho e do Novo Testamento, ... todos dados por inspiração de Deus para serem a regra de fé e de prática...   A autoridade da Escritura Sagrada, razão pela qual deve ser crida e obedecida, não depende do testemunho de qualquer homem ou igreja, mas depende somente de Deus (a mesma verdade) que é o seu autor; tem, portanto, de ser recebida, porque é a palavra de Deus... O Velho Testamento em Hebraico... e o Novo Testamento em Grego..., sendo inspirados imediatamente por Deus e pelo seu singular cuidado e providência conservados puros em todos os séculos, são por isso autênticos e assim em todas as controvérsias religiosas a Igreja deve apelar para eles como para um supremo tribunal... O Juiz Supremo, pelo qual todas as controvérsias religiosas têm de ser determinadas e por quem serão examinados todos os decretos de concílios, todas as opiniões dos antigos escritores, todas as doutrinas de homens e opiniões particulares, o Juiz Supremo em cuja sentença nos devemos firmar não pode ser outro senão o Espírito Santo falando na Escritura. (I, 2,4,8,10). [4]

A Igreja Católica Romana também aceita as Escrituras como Palavra de Deus, mas não só as Escrituras. Ela acredita que as decisões da Igreja através dos seus concílios e do Papa, quando fala oficialmente (ex cathedra) em matéria de fé e de moral, são igualmente a palavra de Deus, infalível. É o que se chama de Tradição da Igreja. Sobre a autoridade da Igreja e do Papa, assim diz um autor católico: "Cristo deu à Igreja a tarefa de proclamar sua Boa-Nova (Evangelho segundo São Mateus capítulo 28: 19-20). Prometeu-nos também seu Espírito, que nos guia "para a verdade" (Evangelho segundo São João 16:13). Este mandato e esta promessa garantem que nós, a Igreja, jamais apostataremos do ensinamento de Cristo. Esta incapacidade da Igreja em seu conjunto de extraviar-se no erro com relação aos temas básicos da doutrina de Cristo chama-se infalibilidade... A infalibilidade sacramental da Igreja é preservada pelo seu principal instrumento de infalibilidade, o Papa. A infalibilidade que toda a Igreja possui, pertence ao Papa dum modo especial. O Espírito de verdade garante que quando o Papa declara que ele está ensinando infalivelmente como representante de Cristo e cabeça visível da Igreja sobre assuntos fundamentais de fé ou de moral, ele não pode induzir a Igreja a erro. Esse dom do Espírito se chama infalibilidade papal. Falando da infalibilidade da igreja, do Papa e dos Bispos, o Concílio Vaticano II diz: "Esta infalibilidade, da qual quis o Divino Redentor estivesse sua Igreja dotada... é a infalibilidade de que goza o Romano Pontífice, o Chefe do Colégio dos Bispos, em virtude de seu cargo... A infalibilidade prometida à Igreja reside também no Corpo Episcopal, quando, como o Sucessor de Pedro, exerce o supremo magistério" (Lúmen Gentium, nº 25).[5]

Referências