Therezinha Zerbini

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Therezinha de Godoy Zerbini ORB[1] (São Paulo, 16 de abril de 1928[2] ) é uma assistente social, advogada e ativista de direitos humanos brasileira, fundadora e líder do Movimento Feminino pela Anistia.

Biografia[editar | editar código-fonte]

Therezinha Zerbini é viúva do general Euryale de Jesus Zerbini (irmão do cardiologista Euryclides de Jesus Zerbini, pioneiro em cirurgia cardíaca), vinte anos mais velho que ela. Eles se conheceram em 1951, quando ele comandava a Força Pública Therezinha trabalhava como assistente social do Hospital Mandaqui, no atendimento a crianças tuberculosas. Ela própria havia tido a doença, alguns anos antes.

O general Euryale comandava a unidade de Caçapava à época do golpe militar de 1964 e foi um dos quatro generais (o único com comando de tropa) a assumir uma posição legalista, contrária aos golpistas. Por isso acabou por ter seus direitos políticos cassados e foi reformado.

Por ter ajudado Frei Tito a conseguir o sítio (pertencente a um amigo da família Zerbini), em Ibiúna), onde seria realizado o congresso da UNE - organização proscrita pelo regime - Therezinha respondeu a um inquérito policial militar. Foi indiciada em dezembro de 1969 e afinal enquadrada na Lei de Segurança Nacional.[3] Foi presa em sua casa, no dia 11 de fevereiro de 1970 e ficou na prisão por oito meses.[4] - seis dos quais no presídio Tiradentes, em São Paulo Na prisão, conviveu com a então gerrilheira Dilma Roussef.[5] [6] [7]

Em 1975, declarado pela ONU Ano Internacional da Mulher,[8] cria o Movimento Feminino pela Anistia (MFPA), unido à luta pela redemocratização do Brasil. No mesmo ano, ocorre a morte do jornalista Vladimir Herzog na prisão, seguindo-se, na Catedral da Sé, a primeira grande manifestação popular de protesto, desde o AI-5.[9] Ainda em 1975, o Movimento lança seu manifesto em favor da anistia ampla e geral, conseguindo colher 16.000 assinaturas de apoio, e empenhou-se nas denúncias sobre a existência de presos, torturados e perseguidos políticos no Brasil - fato que por muito tempo fora sistematicamente negado pelo governo militar. Daí por diante foram sendo formados Comitês Femininos pela Anistia nas principais cidades do país. [10] . "Comecei pelo Rio Grande do Sul. Coloquei os manifestos numa caixa e mandei pelo correio para a Dilma, que foi muito habilidosa," conta.[5]

O movimento pela anistia[editar | editar código-fonte]

O Movimento Feminino pela Anistia (MFPA), como movimento de oposição, surge num momento em que a luta armada refluía, e a "democracia passa a ser valorizada como um objetivo em si e, com ela, a organização da sociedade e a participação no jogo eleitoral, mesmo sob limitações." [3] [11] O movimento é o marco da virada: a atividade política volta ao espaço público, agregando e mobilizando vários setores - o MDB, o PCB e outros partidos políticos ainda clandestinos, a esquerda católica, acadêmicos, associações de classe, além dos exilados, presos políticos e suas famílias. Fazia oposição às claras: era um movimento legalizado, com ata de fundação e estatuto registrado em 1976,[12] constituído basicamente por mulheres católicas, como a própria Therezinha, e de classe média[13] - a mesma classe que, dez anos antes, marchara contra o governo João Goulart e apoiara a instauração do regime militar que agora exilava, prendia, torturava e matava seus filhos e netos.[14] [3] Nesse sentido, fazia oposição "por dentro" do regime, jogando contra ele a sua própria justificativa inicial - preservar a democracia ameaçada pelo totalitarismo.

Em fevereiro de 1978, o movimento pela anistia seria ampliado com a criação do Comitê Brasileiro pela Anistia (CBA) no Rio de Janeiro Formado inicialmente por advogados de presos políticos e com apoio da Ordem dos Advogados do Brasil, o Comitê pedia a anistia ampla, geral e irrestrita.

Em março de 1978, durante a visita do então presidente norte-americano Jimmy Carter a Brasília,[15] Zerbini conseguiu driblar a segurança e entregar uma carta à primeira-dama, Rosalynn Carter, em nome das mulheres brasileiras do movimento pela anistia. A carta, sem fazer referências diretas ao regime, dizia, na abertura: "Nós, que lutamos por justiça e paz..."[5] [3]

Embora considerada comunista, pelos órgãos de segurança, e como feminista, pela imprensa, Therezinha Zerbini declara nunca ter aderido a nenhuma dessas correntes.

Militância política após a anistia[editar | editar código-fonte]

Após a revogação do AI-5 (1978), esteve ao lado de Leonel Brizola no processo de refundação do PTB, em São Paulo, e depois, na criação do PDT, em 1979, quando Brizola perdeu a sigla para Ivete Vargas.

Mais recentemente, em setembro de 2010, pouco antes das eleições presidenciais de novembro, Therezinha Zerbini foi a quinta pessoa a assinar o "Manifesto pela Defesa da Democracia",[16] lançado por intelectuais e políticos contrários ao Partido dos Trabalhadores. Na prática, o manifesto deveria reforçar a posição do candidato do PSDB José Serra, que, entretanto, acabou por perder as eleições.

Segundo ela "criar a Comissão da Verdade é bom. Não espero coisas novas, porque já vi tudo por dentro. Mas é preciso dar a oportunidade para os outros sentirem e verem. Como diz Santo Agostinho, o coração é a sede da memória."

Referências

  1. Diário Oficial de 30 de abril de 2014, edição extra
  2. Museu da Pessoa. Depoimento de Eugenia Cristina Godoy de Jesus Zerbini
  3. a b c d CARBONI, Maria Cecília Conte "Maria Quitéria: o movimento feminino pela anistia e sua imprensa 1975 - 1979. São Paulo: PUC-SP, 2008.
  4. A filha do general. Por Luiza Villaméa. Brasileiros, n° 74, 18 de setembro de 2013].
  5. a b c Minha história - Therezinha Zerbini: A 'burguesona' que foi à luta. Por Eleonora de Lucena. Folha de S.Paulo, 1° de julho de 2012.
  6. A torre das donzelas. Por Luiza Villaméa e Claudio Dantas Sequeira. ISTOÉ n° 2120, 25 de junho de 2010.
  7. Dilma chora no Senado ao encontrar amiga com quem ficou presa durante a ditadura. Por Priscilla Mazenotti. Agência Brasil, 11 de março de 2008
  8. ONUBR - Nações Unidas no Brasil.A ONU e as mulheres
  9. Mataram o Vlado, por Celso Miranda. Aventuras na História, 25 de outubro de 2012.
  10. Mulheres e política
  11. A anistia recíproca no Brasil ou a arte de reconstruir a História, por Daniel Aarão Reis Filho. In TELES, Janaína. Mortos e desaparecidos políticos: reparação ou impunidade? 2ª ed. São Paulo: Humanitas/ FFLCH-USP, 2001.
  12. DUARTE, Ana Rita Fonteles. Memórias em disputa e jogos de gênero: O Movimento Feminino Pela Anistia no Ceará (1976-1979). Anexo VI Florianópolis: Universidade Federal de Santa Catarina, 2009.
  13. Movidas pelo afeto: três mulheres na resistência à ditadura no Brasil, Paraguai e Bolívia (1954-1989). Por Cristina Scheibe Wolff e Tamy Amorim da Silva.
  14. Duarte (2009) assinala que o modelo de estatuto escolhido pelo MFPA foi o do estatuto das "marchadeiras", grupo de mulheres paulistas que organizou a Marcha da Família com Deus pela Liberdade, em março de 1964.
  15. Carter: "Juntos pelo Estado de Direito." Publicado na Folha de S.Paulo, 30 de março de 1978
  16. Personalidades lançam manifesto em defesa da democracia. Estadão, 21 de setembro de 2010.

Ver também[editar | editar código-fonte]

Ligações externas[editar | editar código-fonte]