Ana Vieira

Origem: Wikipédia, a enciclopédia livre.
Saltar para a navegação Saltar para a pesquisa
Ana Vieira
Nascimento 2 de agosto de 1940
Coimbra
Morte 29 de fevereiro de 2016 (75 anos)
Lisboa
Nacionalidade Portugal portuguesa
Área Artes Plásticas
Página oficial
www.anavieira.com/

Ana Vieira (Coimbra, 2 de agosto de 1940[1]Lisboa, 29 de fevereiro de 2016) foi uma artista plástica portuguesa.[2]

Afirmando-se a partir do final da década de 1960, "destacou-se no cruzamento das diversas disciplinas artísticas, criando um corpo de trabalho original e inspirador no conjunto da arte portuguesa contemporânea".[3]

Biografia / Obra[editar | editar código-fonte]

Sala de Jantar (Ambiente), 1971, metal, rede de nylon, tinta acrílica, mesa, instalação sonora, etc., 250 x 300 x 300 cm

Nasceu em Coimbra em 1940, passando a infância na ilha de S. Miguel, Açores. Frequentou a Escola Superior de Belas Artes de Lisboa, terminando o curso de Pintura em 1965. Foi casada com o pintor Eduardo Nery, mãe de Paula Nery e do arquiteto Miguel Nery. Ana Vieira viveu e trabalhou em Lisboa.[3]

Expõe desde 1965, mas a sua primeira mostra individual acontece em 1968. "Intitulada Imagens Ausentes, esta mostra deixa claro o interesse de Ana Vieira em superar a dimensão estritamente pictórica do trabalho criativo, investindo em suportes desviantes em relação ao modelo do quadro pintado". Sintonizado com as tendências concetuais emergentes, o seu trabalho manifesta-se, desde esse primeiro momento, "pela revelação de uma proposta pós-pictural aberta à linguagem dos objetos comuns, tomando como modo preferencial a instalação", para o que irá utilizar uma grande diversidade de materiais e dispositivos como biombos e elementos em madeira, peças de mobiliário, tecido, vidro espelhado...[4]

Sala de Jantar, 1971, pertencente à coleção do CAMJAP, insere-se nesse quadro de transgressão das categorias tradicionais (pintura e escultura); é composta primeiramente por faixas suspensas de tecido semitransparente onde se inscrevem silhuetas azuis de objetos de mobiliário. Essas paredes de tecido circunscrevem um espaço onde se dispõem objetos comuns (neste caso uma mesa posta), a que Ana Vieira associou uma gravação áudio com as sonoridades próprias de uma refeição, do diálogo entre comensais ao ruído de talheres e pratos entrechocando-se. Esta obra "vem reiterar a sensibilidade da artista para a criação de simulacros através dos quais analisa as redes de sociabilidade, afeto e memória, que se estabelecem no espaço doméstico".[5]

A grande simplicidade das suas obras pode lembrar as sombras de Lourdes Castro ou os espelhos de Michelangelo Pistoletto, mas a sua visão distingue-se claramente de ambos; "a perceção visual dos espaços é [...] condicionada por um jogo de transparências, véus, telas, redes e tramas que os envolvem – o observador acaba na posição de voyeur, tentando, por frinchas e buracos, perceber o interior dos ambientes. A maior parte das suas obras não se veem, espreitam-se".[6]

As referências à casa – das paredes que a encerram às portas e janelas –, são recorrentes na sua obra. "Ela cria ambientes: constrói lugares habitados ou desabitados, hospitaleiros ou hostis, ocultos ou desvelados, silenciosos ou plenos de sons que exigem descodificação. Propõe, impertinentemente, corredores mutantes que atravessamos, espaços inquietos e inquietantes que nos expulsam, portas entreabertas que a um tempo mostram e velam, objetos reais ao lado de outros simulados. Levanta paredes que questionam: a segurança e as certezas do abrigo, a distância e a proximidade, a diferença entre o espaço público e o privado, o interior e o exterior".[7]

Ana Vieira realiza outras experiências, diversificadas, na área da cenografia, "como a produção de cenários e figurinos para o teatro (peças de Adolfo Gutkin, Bertolt Brecht e Jean-Paul Sartre), projetos de reconfiguração de lugares, casas e paisagens, ou pensados numa relação específica com o espaço do museu. Certo é que a modalidade artística da instalação e a manipulação de objetos tridimensionais continua hoje a ser cultivada na sua obra, com reivindicações poéticas pouco distantes das que primeiro motivaram o seu trabalho em meados nos anos 60".[8]

Em 1977 Ana Vieira foi uma das participantes na exposição Alternativa Zero; em 1991 recebeu o prémio da AICA/SEC; o Museu de Serralves, Porto, dedicou-lhe a sua primeira exposição antológica em 1998; em 2010-2011 o Centro de Arte Moderna José de Azeredo Perdigão, Fundação Calouste Gulbenkian, Lisboa, em colaboração com o Museu Carlos Machado, Ponta Delgada, apresentou a maior retrospetiva na carreira da artista.

Faleceu a 29 de fevereiro de 2016, aos 75 anos de idade, num hospital de Lisboa, vítima de cancro.[9]

Exposições Individuais[editar | editar código-fonte]

  • 1968 – Galeria Quadrante, Lisboa.
  • 1971 – Galeria Quadrante, Lisboa.
  • 1972 – Galeria Dois, Porto; Galeria Ogiva, Óbidos; Galeria A Teia, Ponta Delgada, Açores; Galeria Maestro Francisco Lacerda, Vila das Velas, Ilha de São Jorge, Açores; Galeria Degrau, Angra do Heroímo, Ilha Terceira, Açores; Galeria Gávea, Vila do Porto, Ilha de Santa Maria, Açores.
  • 1973 – Ambiente, A.R.C.O – Centro de Arte e Comunicação, Lisboa.
  • 1974 – Galeria Judite Dacruz, Lisboa.
  • 1977 – Janelas, Diaporama apresentado no Pequeno Auditória da Fundação Calouste Gulbenkian, Lisboa.
  • 1978 – Projecto Ocultação – Desocultação, Galeria Quadrum, Lisboa.
  • 1981 – Galeria CAPC e Galeria Espaço Branco, Circulo de Artes Plásticas de Coimbra, Coimbra.
  • 1982 – Corredor, Galeria Quadrum, Lisboa; Estendal – Textural, Ciclo e Percurso, Museu Nacional do traje, Lisboa.
  • 1986 – Transbordagem, Museu Nacional do Traje, Lisboa.
  • 1991 – Diário de Cinco Dias, Centro Nacional de Cultura, Lisboa.
  • 1995 – Constelação Peixes, instalação no Vulcão dos Capelinhos, integrada no Simpósio Internacional Multimédia, Faial, Horta, Açores; Sala de Jantar, Museu José Malhoa, Caldas da Rainha, Portugal.
  • 1997 – Ensaio para uma Paisagem, Sala do Veado, Museu Nacional de História Natural, Lisboa.
  • 1998 – A Dança, Teatro São João, Porto; Exposição Antológica, Fundação Serralves, Porto.
  • 2001 – Pronomes, Galeria Quadro Azul, Porto; Pronomes, Galeria Franco Steggink – Cultura Contemporânea, Ilha de São Miguel, Açores.
  • 2002 – Antecâmara, Galeria Giefarte, Lisboa.
  • 2004 – Casa Desabitada, Rua N. Senhora de Fátima, Porto; Close Up, galeria Graça Brandão, Porto; Close Up, Galeria Promontário, Lisboa.
  • 2006 – Serralves em Coimbra, Fundação de Serralves, Coimbra.
  • 2011 - Muros de Abrigo, Fundação Calouste Gulbenkian, CAM, Lisboa.

Ligações externas[editar | editar código-fonte]

Referências

  1. «Direção Regional da Cultura expressa pesar pela morte da artista Ana Vieira». Governo dos Açores. Consultado em 5 de abril de 2016. Arquivado do original em 18 de abril de 2016 
  2. Centro de Arte Moderna José de Azeredo Perdigão, Fundação Calouste Gulbenkian, Lisboa – Ana Vieira
  3. a b Luísa Soares de Oliveira. «Morreu a artista plástica Ana Vieira». Jornal Público. Consultado em 29 de fevereiro de 2016 
  4. Candeias, Ana Filipa – Ana Vieira. In: A.A.V.V. – Centro de Arte Moderna José de Azeredo Perdigão: Roteiro da Coleção. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, 2004, p. 222.
  5. Candeias, Ana Filipa – Ana Vieira. In: A.A.V.V. – Centro de Arte Moderna José de Azeredo Perdigão: Roteiro da Coleção. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, 2004, p. 222.
  6. Centro de Arte Moderna, Fundação Calouste Gulbenkian – Ana Vieira
  7. Centro de Arte Moderna, Fundação Calouste Gulbenkian – Ana Vieira
  8. Centro de Arte Moderna, Fundação Calouste Gulbenkian – Ana Vieira
  9. Morreu a artista plástica Ana Vieira - JN, 29.2.2016