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Aspecto gramatical

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ASPECTO (TEORIA GERATIVA)

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A categoria de tempo (tense) diz respeito à relação temporal entre o evento e um ponto de referência no tempo. Já aspecto (aspect) está relacionado à percepção temporal do evento. Embora sejam categorias distintas, tempo e aspecto frequentemente se sobrepõem. Ao olharmos para os verboscorreu” e “corria”, vemos que ambos situam-se no tempo passado, dessa forma, não divergem quanto ao tempo, mas sim quanto ao aspecto.

Seguindo a Teoria Gerativa, o linguista Bernard Comrie argumenta que aspecto diz respeito à possibilidade de visualização da constituição temporal interna de uma situação e divide-se em aspecto semântico e aspecto gramatical.

ASPECTO SEMÂNTICO

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O aspecto semântico é transmitido através da constelação verbal, isto é, através da semântica do verbo, seus argumentos e seus adjuntos. Diversos linguistas propuseram classificações de tipo de verbo ao longo dos anos. A linguista Smith propôs uma classificação verbal em 5 tipos considerando 3 traços: estatividade (menos dinâmicos), duratividade (menos pontuais) e telicidade (contém ponto final inerente/semanticamente determinado), como demonstrado a seguir:

  • Os verbos de estado são os estativos e também são durativos:

"João amou Luiza."

  • Já os verbos de atividade são durativos, mas não são estativos ou télicos:

"João correu na praia."

  • Os verbos de accomplishment não são estativos, mas são durativos e télicos, isto é, no exemplo, ao final de uma maçã o evento teve fim:

"João comeu uma maçã."

  • Os verbos de achievement são télicos, mas não são estativos ou durativos:

"João ganhou uma corrida."

  • Por último, os verbos semelfactivos não são estativos, durativos ou télicos:

"João bateu à porta."

ASPECTO GRAMATICAL

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O aspecto gramatical pode ser transmitido através da morfologia verbal e divide-se entre perfectivo e imperfectivo.

ASPECTO GRAMATICAL PERFECTIVO

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O aspecto gramatical perfectivo permite a visualização de uma situação como um bloco fechado, ou seja, sem distinção da(s) fase(s) internas da situação, como no exemplo abaixo do português do Brasil:

(a) Pedro pintou um quadro.

No exemplo (a) acima, vê-se a situação de pintar um quadro por inteiro, isto é, como um “todo”, sem distinguir, por exemplo, se o evento de pintar está no início, meio ou fim.

ASPECTO GRAMATICAL IMPERFECTIVO
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Já o aspecto gramatical imperfectivo permite a visualização de uma ou mais fases internas da situação e pode ser definido como imperfectivo habitual ou contínuo.

Imperfectivo habitual
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O imperfectivo do subtipo habitual refere-se a uma situação homogênea que se estende por um período de tempo, podendo ser eventos iterativos, isto é, que se repetem. Quando relacionado ao tempo presente, tal aspecto pode ser expresso por várias construções verbais e, no português do Brasil, algumas dessas possibilidades são por meio do presente do indicativo, ou presente simples, e por meio da locução verbal formada pelo auxiliar “costumar” seguido do verbo no infinitivo, como nos exemplos a seguir, respectivamente:

(b) Maria pratica esportes.

      (c) Maria costuma praticar esportes.

Esse aspecto também pode associar-se a outros tempos verbais como o passado “Minha avó costumava assar bolos”.

Imperfectivo contínuo
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O imperfectivo do subtipo contínuo refere-se a uma situação em andamento durante um determinado período de tempo e pode ser expresso por meio de uma morfologia progressiva, como no exemplo (d), ou por uma morfologia não progressiva, como no exemplo (e):

           (d) João está jogando bola.

           (e) João joga bola (agora).

Nos exemplos acima, o valor aspectual está associado ao tempo presente, mas há também a possibilidade de associação nos tempo passado (“João estava jogando bola”) e no tempo futuro (“João estará jogando bola”).

Variação na expressão de “habitual e contínuo” nas línguas
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Quando relacionado ao tempo presente, a forma verbal de presente do indicativo, ou presente simples, pode ser usada para expressar ambos aspectos imperfectivo habitual, como em (b) Maria pratica esportes, e imperfectivo contínuo, como em (e) João joga bola (agora).

No entanto, testes linguísticos com falantes nativos do Brasil e da França, apontam uma diferença no uso dessa forma verbal na expressão desses aspectos. Embora seja possível em ambas as línguas a veiculação do habitual e do contínuo pela forma verbal de presente do indicativo, o valor aspectual não marcado e mais frequente é diferente a depender da língua.

No português do Brasil, sentenças com uma oração no presente do indicativo são interpretadas majoritariamente como hábitos, ou seja, sentenças como “Eu estudo português” são majoritariamente interpretadas como equivalentes da construção “Eu costumo estudar português”.

Ao passo que no francês da França, a mesma sentença no presente do indicativo “J'étudie le portugais” é interpretada como veiculadora do aspecto imperfectivo contínuo, ou seja, situação em andamento.

Há algumas suposições sobre essa diferença. Em primeiro lugar, no português do Brasil é muito usual a forma progressiva para expressar o aspecto imperfectivo contínuo, isto é, é mais frequente o uso de construções formadas pelo verbo auxiliar seguido do verbo no gerúndio como “Eu estou estudando português” para exprimir situação em andamento que “Eu estudo português”. Já no Francês, como a forma progressiva, ou gerúndio, não é muito usual pelos falantes, em sentenças sem advérbio, o valor aspectual mais associado ao presente do indicativo é o imperfectivo contínuo e, quando usada para expressar habitualidade, a forma verbal é geralmente seguida por um advérbio ou expressão adverbial com esse valor, como “habituellement, généralement, d'habitude, normalement ou souvent” (“J’étudie habituellement le portugais”) ou então usada a construção iniciada pelo verbo “s’habituer à” seguido por outro verbo no infinitivo (“J'ai l'habitude d'étudier le portugais.”)

Cabe acrescentar também que sentenças como “Eu estou estudando português” no português do Brasil podem expressar ambos os aspectos habitual e contínuo concomitantemente, a depender do contexto.

Ver também

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Referências

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