Disparada
"Disparada"
| |
|---|---|
| Single de Jair Rodrigues | |
| Lançamento | 1966 |
| Gênero(s) | MPB, Moda de viola |
| Gravadora(s) | Philips |
| Composição | Geraldo Vandré e Théo de Barros |
"Disparada" é uma canção composta por Geraldo Vandré e Théo de Barros, lançada em 1966. A letra é de Vandré e a melodia é de Théo de Barros. Tornou-se um marco na história da Música Popular Brasileira ao vencer o II Festival de Música Popular Brasileira (TV Record), empatada com "A Banda", de Chico Buarque.[1]
A interpretação original de Jair Rodrigues, acompanhado pelo Trio Marayá e pelo Trio Novo, foi decisiva para o sucesso da obra. A canção inovou ao introduzir elementos da música sertaneja e da moda de viola no cenário dos festivais de MPB, que até então eram dominados pela bossa nova e pelo samba. A letra utiliza metáforas rurais para abordar temas sociais e políticos da época.[2]
É uma das principais composições da época dos festivais de música popular brasileira. Foi a vencedora do Festival de Música Popular Brasileira 1966, dividindo o primeiro lugar com "A Banda" de Chico Buarque, quando houve verdadeira "disputa com apostas" em todo o país entre os adeptos de uma e outra composição.[3] A canção foi gravada em língua francesa pela cantora Frida Boccara, sob o título de "Taureau".[4]
O compositor Geraldo Vandré, nascido na Paraíba mas educado no Rio de Janeiro, vivenciou todo o período do Golpe de 1964 ainda muito moço e ligado aos meios estudantis do Rio de Janeiro; era época de nacionalismo exacerbado quando os jovens com um pouco de cultura e sensibilidade não se conformavam com as injustiças sociais imperantes no Brasil; os meios musicais e literários, lideranças intelectuais do país, não estavam imunes aos movimentos sociais visando melhorias para as camadas mais pobres da população.
Geraldo Vandré também contribuiu significativamente com outra composição: Pra não Dizer que não Falei das Flores , que se junta a "Disparada" no campo das canções de protesto que marcaram época. Em "Disparada", Vandré faz uma comparação entre a exploração das classes sociais pobres pelas mais ricas e a exploração das boiadas pelos boiadeiros, entre a maneira de se lidar com gado e se lidar com gente.[5]
O Festival de 1966 e o empate histórico
[editar | editar código]A finalíssima do II Festival de Música Popular Brasileira ocorreu na noite de 10 de outubro de 1966, no Teatro Record, em São Paulo. O evento é considerado um dos momentos mais tensos e emblemáticos da "Era dos Festivais", marcado pela polarização do público e do júri entre duas propostas estéticas distintas: o lirismo nostálgico de "A Banda" (de Chico Buarque) e a contundência social e regionalista de "Disparada".[6]
A escolha do intérprete
[editar | editar código]A escolha de Jair Rodrigues para defender a canção não foi consensual inicialmente. Geraldo Vandré via com desconfiança a indicação de Jair, pois o cantor era conhecido por seu sorriso largo e sua performance exuberante ligada ao samba. Vandré temia que essa "alegria" descaracterizasse a densidade dramática que a música exigia. Porém, Vandré teve que se render diante da acolhida de Disparada pelo público.[7]
A performance
[editar | editar código]A apresentação de "Disparada" foi construída para causar impacto. Jair Rodrigues, então conhecido apenas como sambista, surpreendeu a plateia ao interpretar uma moda de viola com uma performance teatral e vigorosa. O arranjo de Théo de Barros e Heraldo do Monte iniciava de forma lenta e melancólica, crescendo para um clímax apoteótico, impulsionado pela percussão (incluindo o uso de uma queixada de burro) e pelos vocais do Trio Marayá e Trio Novo. A performance foi recebida com euforia, transformando a canção em um hino imediato contra a ditadura militar, embora sua letra usasse metáforas rurais sobre gado e boiadeiros.
O resultado
[editar | editar código]Nos bastidores, a disputa era acirrada. O júri estava dividido. Segundo relatos históricos confirmados por Zuza Homem de Mello, Chico Buarque, ao saber que "A Banda" venceria sozinha, ameaçou entregar o prêmio caso "Disparada" não fosse também consagrada, reconhecendo a qualidade da obra concorrente. Diante do impasse e da pressão popular (o auditório estava dividido aos gritos), a organização anunciou um resultado inédito: o empate no primeiro lugar.
Ambas as canções dividiram o prêmio máximo de Cr$ 10 milhões (dez milhões de cruzeiros) e receberam o troféu "Viola de Ouro".
Memória
[editar | editar código]Mais de cinco décadas após o evento, Chico Buarque reavaliou o impacto daquele empate. Na série documental Noites de Festival (2020), produzida pelo Canal Brasil, Chico Buarque revelou que sua composição era intencionalmente alienada da situação política do Brasil na época e que havia rivalidade, mas não hostilidade nos bastidores.[8]
Caetano Veloso, em depoimento para a mesma produção, analisou a importância da obra de Vandré e Théo de Barros, destacando sua superioridade poética diante da concorrente:
"...Disparada me parecia uma canção de certa força poética. É uma canção maior do que A Banda."
— Caetano Veloso, sobre o impacto da canção em 1966.[8]
| Ano | Artista | Álbum / Contexto | Notas |
|---|---|---|---|
| 1966 | Jair Rodrigues | O Sorriso do Jair | Versão original de estúdio. |
| 1967 | Wilson Simonal | Alegria, Alegria !!! | — |
| 1967 | Conjunto Ponta Porã | — | Versão instrumental e adaptação em espanhol pelo maestro Herminio Giménez. |
| 1968 | Frida Boccara | Expression | Versão em francês intitulada "Taureau".[9] |
| 1995 | Amigos | Amigos (Especial de TV) | Interpretada em conjunto por Zezé Di Camargo & Luciano, Leandro & Leonardo e Chitãozinho & Xororó. |
| 1998 | Zé Ramalho | Eu Sou Todos Nós | — |
| 2009 | Daniel | O Menino da Porteira | Trilha sonora do filme homônimo. |
Referências
- ↑ «Geraldo Vandré - Dados Artísticos». Dicionário Cravo Albin da Música Popular Brasileira. Consultado em 21 de novembro de 2025
- ↑ Marcondes, Alexandre Gomes. «CORPO E COMUNICAÇÃO: AS PERFORMANCES DE JAIR RODRIGUES EM DIFERENTES MÍDIAS» (PDF)
- ↑ Disparada - Música brasileira
- ↑ «Festivais da Record – Memorias da Ditadura». Consultado em 1 de dezembro de 2025
- ↑ Nolla, Lívia (6 de fevereiro de 2025). «História da música "Disparada", no aniversário de Jair Rodrigues». Novabrasil. Consultado em 26 de novembro de 2025
- ↑ Homem de Mello, Zuza (2003). A Era dos Festivais: Uma parábola. [S.l.]: Editora 34. ISBN 9788573262728
- ↑ «O sorriso calado de Jair Rodrigues». Rolling Stone Brasil. 8 de maio de 2014. Consultado em 25 de novembro de 2025
- ↑ a b Mauro Ferreira (22 de outubro de 2020). «Chico Buarque e Jair Rodrigues detalham 'polaridade apaixonada' em 'Noites de Festival'». G1. Consultado em 21 de novembro de 2025
- ↑ «Frida Boccara - Taureau». Last.fm. Consultado em 25 de novembro de 2025