Filippo Artico

Origem: Wikipédia, a enciclopédia livre.
Saltar para a navegação Saltar para a pesquisa
Filippo Artico
Bispo da Igreja Católica

Título

Bispo de Asti
Hierarquia
Papa Francisco
Ordenação e nomeação
Ordenação episcopal 27 de dezembro de 1840
Lema episcopal Respice stellam voca Mariam
Brasão episcopal
Brasão episcopal de Filippo Artico, bispo e príncipe de Asti.jpg
Dados pessoais
Bispos
Categoria:Hierarquia católica
Projeto Catolicismo

Filippo Artico (Ceneda, 16 de fevereiro de 1798 — Roma, 21 de dezembro de 1859) foi um nobre, intelectual e prelado católico italiano, bispo e príncipe de Asti.

Nasceu em uma antiga e nobre família italiana[1][2] atestada em Ceneda desde o século XIV,[3] onde produziram uma série de notários[4] e personalidades como Hieronimo, embaixador em Veneza,[5] Pietro, biógrafo do cardeal Savo Mellini,[6] Federico, co-fundador de um mosteiro feminino e presidente da sociedade Monte di Pietà, Michele, fundador de uma grande serraria que hoje é o Grupo Pianca, Valentino, franciscano admirado pelo seu zelo e virtudes, e o venerável Angelo, também franciscano, custódio do Capítulo de Feltre, místico a quem se atribuem milagres.[7][8]

Órfão de pai muito cedo, foi protegido pelo bispo de Ceneda Giambenedetto Falier, que providenciou sua educação. Estudou os Clássicos e Humanidades e ingressou nas fileiras da Igreja Católica, ordenando-se padre.[9] Tornou-se doutor em Teologia, inspetor pró-teologal do Capítulo da Catedral, a partir de 1821 deu aulas de Grego, Retórica, Filologia Latina e Humanidades no Seminário Episcopal. Personalidade brilhante, logo se destacou e acumulou títulos e funções de prestígio e influência. Ainda jovem foi nomeado cônego da Catedral de Ceneda, prelado doméstico e conselheiro de Gregório XVI, ordenado cavaleiro de São Maurício e São Lázaro, e homenageado pela cidade de Bassano del Grappa com um retrato.[10][11] Ordenou a construção do Tempietto di San Rocco, um elegante edifício neoclássico, e anexou-lhe um orfanato.[12][13]

Foi louvado como ilustrado classicista e poeta de valor. Fundou uma Academia Literária no Seminário de Ceneda. Segundo Claudio Bermond, era "homem de grande cultura e dotado de grandes capacidades de oratória". Pregou em Viena e nas principais cidades italianas.[14] Seus sermões causaram forte impacto em Milão, sendo homenageado com uma coletânea de poemas de vários autores reunidos pelo professor Arcangelo Martinelli. No prefácio, Cesare Cesana, preposto paroquial de San Giorgio al Palazzo, enalteceu-lhe a "retórica triunfante" que atraía massas de devotos todos os dias, incluindo a flor da sociedade local, comovendo-os às lágrimas.[15] Em 3 de junho de 1835 foi admitido na prestigiada Accademia dell'Arcadia de Roma, que reunia a elite literária e intelectual italiana. Um artigo no Nuovo Osservatore Veneziano dá uma medida de sua reputação:

"Também entre os Árcades fez luminosa aparição o claríssimo professor dom Filippo Artico de Ceneda, cônego teologal daquela Catedral e doutor na Sagrada Teologia. Convidado pela Arcadia para abrir com um Discurso acadêmico a assembleia geral realizada na Sala do Observatório em 7 de maio passado, e também para encerrá-la com um Ensaio poético, [suas apresentações] confirmaram a fama universal que merece esta Arca de San Lorenzo em Damaso, que com seu agudo e versátil engenho se distingue ao mesmo tempo como Orador e Poeta. Bem digno de um Literato Eclesiástico e de uma Academia Romana foi o argumento do seu Discurso, celebrando as riquezas acrescentadas pela Religião Católica à Literatura Italiana. Desenvolveu maravilhosamente o grande argumento com uma erudição vasta, animou-o com rara habilidade, e o coloriu com pinceladas de mestre. A flor da Literatura Romana acorreu para ouvi-lo, e o salão foi pequeno para conter o público extraordinário, ilustrado pela presença dos eminentíssimos senhores Cardeal Pedicini e Cardeal Grimaldi. Os aplausos solenes e repetidos que coroaram as fatigas do Cônego Artico deram fé pública do entusiasmo com que foi acolhido, e da ansiedade que todos expressaram por ver seus discursos publicados. Também louvabilíssimo foi o sentimento com que falou da sua Ceneda e do seu Seminário, e nos congratulamos com sua Pátria pelos multiplicados lauréis que lhes acrescentou aquele Pregador, Acadêmico e Poeta, ilustre vosso concidadão, o qual acrescenta agora a glória e o desejo de que nesta Capital ele fixe morada, onde por ele clamamos, de novo e sempre, nós, os Templos e as Academias".[16]
Brasão de Filippo como bispo e príncipe de Asti.
Brasão da família Artico de Ceneda.

Quando pregou em Turim chamou a atenção de Carlos Alberto de Savoia, rei da Sardenha, que o indicou para a Diocese de Asti.[14] Foi aclamado em Roma em 14 de dezembro de 1840, e ao ser sagrado bispo, em 27 de dezembro de 1840, também foi investido do título secular de Príncipe da Igreja de Asti, que desde o século XVIII era concedido aos bispos locais pelos reis da Sardenha como compensação pelo confisco dos antigos feudos episcopais. Sua entrada em Asti no início de 1841 foi triunfal, sendo festejado por uma multidão,[9] e recebeu novos louvores arrebatados em três coletâneas que reuniram dezenas de poemas de vários autores assinalando suas distintas qualidades pessoais e a antiguidade e nobreza de sua família — Nel solenne ingresso di S.E.R. Monsignore Filippo Artico da Ceneda vescovo d'Asti, in espressione della pubblica rispettosa esultanza la civica amministrazione' (Garbiglia, 1841), A sua eccellenza reverendissima monsignor Filippo Artico, vescovo d'Asti nel suo solenne ingresso, i chierici esterni in tributo di filiale reverenza ed esultanza questi carmi offeriscono (Fontana, 1841), e Carme al Novello Pontefice, Oratore Eloquente, Instancabile Ministro Evangelico, Sua Eccellenza Monsignore D. Filippo Artico da Ceneda... ecc (Mussano, 1841).[17][2][1]

Bermond acrescenta que era “intransigente do ponto de vista teológico e conservador moderado no âmbito político".[14] Manteve fértil correspondência com figuras políticas e intelectuais proeminentes de sua época, como Cesare Balbo, Silvio Pellico, Vincenzo Gioberti e Angelo Mai. Aberto aos problemas sociais, promoveu a fundação da Caixa de Poupança de Asti para proteção das economias dos pobres e de escolas populares noturnas em todas as paróquias da Diocese. Também incentivou um bom preparo dos sacerdotes, criando um seminário episcopal instalado no Castelo de Camerano, que comprara da família Balbo. Em 1843, visitando Ceneda, fundou um asilo para padres pobres junto ao seu orfanato, e manteve constante atividade filantrópica na cidade natal.[14][9]

Foi louvado constantemente pelas suas profícuas atividades pastorais, sociais e culturais, até que suas posições políticas e o protesto que manteve contra a expropriação de bens eclesiásticos instituída pelas leis Siccardi despertaram a oposição de liberais radicais, que passaram a organizar uma intensa campanha de calúnias, injúrias e difamação contra ele. Foi acusado de vários crimes morais e sexuais e de sacrilégio, e caiu em completa desgraça junto à opinião pública. A população de Asti organizou motins, seu palácio foi apedrejado, e o brasão episcopal instalado na praça do mercado foi picado, embora ainda contasse com o apoio do rei, do papa e mesmo do síndico de Asti. Foi julgado pelo Senado e absolvido, mas a pressão continuou e Filippo passou a viver praticamente recluso no Castelo de Camerano, o que deu margem para novos protestos da população. Diante de uma situação cada vez mais insustentável, em 7 de fevereiro de 1858 o bispo renunciou. Refugiou-se em Roma, onde passou os últimos anos de vida no convento camaldulense da Igreja de San Gregorio Magno al Celio.[14][9] Hoje percebe-se que as acusações foram injustas e tiveram motivação política.[18][19][20] Segundo Loredana Imperio, presidente do Circolo Vittoriese di Ricerche Storiche, "benemérito por vários motivos na sua Ceneda e tão maltratado no Piemonte, [sua vida] ilustra um momento histórico do século XIX, quando os poderes laico e religioso entraram em vivos combates, nos quais muitas vezes os personagens mais meritórios foram vítimas".[18]

Deixou uma obra variada. Editou e mandou publicar às suas custas um comentário sobre a Eneida de Virgilio do humanista Pietro Leoni, do qual também foi biógrafo.[21][22] Publicou uma versão em italiano da fábula de Orfeu e Eurídice retirada da Geórgicas de Virgílio, muito elogiada em uma resenha do Giornale sulle Scienze e Lettere delle Provincie Venete;[23] editou a ode L’amor filiale de Jacopo Monico, um volume de comentários de famosos latinistas; um volume de salmos e hinos latinos para as festas do calendário religioso acompanhados de uma tradução para o italiano em versos de mesma rima e métrica, precedidos de comentários sobre aspectos históricos, teológicos, litúrgicos, linguísticos, literários e musicais,[24] além de uma série de sermões, discursos e cartas pastorais. Defendeu o vernáculo recomendando seu temperamento com elementos antigos e modernos, e enfatizava a utilidade do conhecimento do latim para um bom uso da língua italiana.[23]

Referências

  1. a b Nel solenne ingresso di S.E.R. Monsignore Filippo Artico da Ceneda vescovo d'Asti ... in espressione della pubblica rispettosa esultanza la civica amministrazione. Garbiglia, 1841
  2. a b Carme al Novello Pontefice, Oratore Eloquente, Instancabile Ministro Evangelico, Sua Eccellenza Monsignore D. Filippo Artico da Ceneda... ecc. Mussano, 1841
  3. Scarabel, Giovanna. Documenti, scritture e notai di Ceneda, Serravalle e Conegliano nella busta 158 dell'Archivio Diocesano di Vittorio Veneto. Università Ca’ Foscari di Venezia, 2016
  4. Ministero per i Beni e le Attività Culturali di Stato di Treviso. Inventario della Sezione Notarile: rubrica alfabetica, 20/11/2004
  5. Miscellanea di storia veneta, Volume 9. Deputazione di storia patria per le Venezie, 1887
  6. Giornale araldico, genealogico, diplomatico italiano, 1878
  7. Cagnani, Domenico (ed). La civica aula Cenedese con li suoi dipinti gli storici monumenti e la serie illustrata de'vescovi. Cagnani, 1845
  8. Venezia, Pietro-Antonio di. Historia serafica, overo cronica della provincia di S. Antonio, detta anco di Venezia, de Min. Oss. Riformati. Valuasense, 1688
  9. a b c d Sonego, Alberto. "Una controversa figura del clero cenedese: mons. Filippo Artico (1798-1859)". In: Convegno Nazionale Ceneda e il suo territorio nei secoli. Biblioteca Civica di Vittorio Veneto, 22/05/2004
  10. Almanacco della Regia Città e Provincia di Treviso, Volume 5. Andreola, 1827
  11. Almanacco della Regia Città e Provincia di Treviso, Volume 12. Andreola, 1836
  12. Battaglini, Alessandro. Da Serravalle a Ceneda tra i sentirei del Monte Altare: valorizzazione delle terme di Vitorio Veneto. Università IUAV di Venezia, 2010-2011
  13. Romano, Gaetano Moroni. Dizionario di erudizione storico-ecclesiastica da S. Pietro sino ai nostri giorni, vol. XI. Tipografia Emiliana, 1841
  14. a b c d e Bermond, Claudio. “Le casse di risparmio subalpine dalle origini alla riforma Amato, 1827-1990”. In: Zuccaro, Cristina (ed.). L'Archivio storico della Cassa di Risparmio di Asti e fondi aggregati (1730-1988). Fondazione Giovanni Goria, 2015
  15. Martinelli, Arcangelo. Sonetti del ch. sig. professore d. Arcangelo Martinelli dedicati dal rev. sig. proposto d. Cesare Cesana a monsignore Filippo Artico. Visaj, 1836
  16. "Estratto dal Nuovo Osservatore Veneziano del 9 giugno 1835". In: Martinelli, Arcangelo. Sonetti del ch. sig. professore d. Arcangelo Martinelli dedicati dal rev. sig. proposto d. Cesare Cesana a monsignore Filippo Artico. Visaj, 1836
  17. A sua eccellenza reverendissima monsignor Filippo Artico, vescovo d'Asti nel suo solenne ingresso, i chierici esterni in tributo di filiale reverenza ed esultanza questi carmi offeriscono. Fontana, 1841
  18. a b Imperio, Loredana. "Presentazione". In: Convegno Nazionale Ceneda e il suo territorio nei secoli. Biblioteca Civica di Vittorio Veneto, 22/05/2004
  19. Pirri, Pietro. La questione romana: 1856-1864. Parte prima, Volume 1. Gregorian Biblical BookShop, 1951
  20. Carpenè, Camillo. “Varietà, Rassegne e Discussioni: uma lettera inedita di Silvio Pellico”. In: Rassegna Storica del Risorgimento, 1942
  21. Leoni, Pietro [(Fillipo Artico (ed.)]. Cynthii Cenetensis in Virgilium Arneidem Commentarium e Codice Ambrosianae Bibliothecae adiectis variorum notis. Ronchetti e Ferreri, 1845
  22. “Cynthius Cenetensis”. In: Giornale arcadico di scienze, lettere ed arti, 1845; 104 (CIV):238-240
  23. a b "Versione della Favola d’Orfeo e d’Euridice cavata dal Lib. IV delle Georgiche di Virgilio. Treviso, Francesco Andreola tip. ed. 1826". In: Giornale sulle Scienze e Lettere delle Provincie Venete, 1826, X: 40-41
  24. Artico, Filippo. Salmi ed inni pei vesperi delle domeniche e feste di tutto l'anno colla traduzione letterale in versi rimati e collo stesso metro del testo latino posto a lato. Aureli, 1859