O Crédito

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Terceira peça do escritor brasileiro José de Alencar
Terceira peça do escritor brasieliro José de Alencar

O Crédito é uma peça de José de Alencar escrita em 1857 e lançada logo após O Demônio Familiar. A terceira peça do autor é uma comédia em cinco atos que não obteve sucesso de púbico, tendo sido encenada apenas poucas vezes após sua estreia.

A peça estreou em 28 de outubro de 1857 e foi encenada apenas outras duas vezes, logo após a semana de lançamento, ainda em outubro. Após o fracasso ante o público, foi retirada de cartaz. O fracasso repentino de O Crédito sucedeu o sucesso de O Demônio Familiar e fez com que José de Alencar encerrasse sua carreira como dramaturgo com apenas três peças escritas.

Ambientação[editar | editar código-fonte]

A peça é ambientada no Rio de Janeiro do século XIX. Lugares como a Rua do Ouvidor são citados para compor diálogos e fazer referências ao estilo da época à qual as personagens pertencem.

O primeiro ato, o segundo, o terceiro e o quinto passam-se na casa de Pacheco. Apenas o quarto acontece fora desse núcleo, situando-se na casa de Borges.

Tema Principal[editar | editar código-fonte]

Seu tema central são as relações comerciais e sociais estabelecidas entre um rico comerciante, cujos filhos herdariam duzentos contos cada um, e indivíduos que desenvolvem artimanhas para se apoderar de parte da fortuna[1].

Sinopse[editar | editar código-fonte]

O Crédito é uma comédia que analisa a vida social da burguesia carioca em meados do século XIX a partir do núcleo familiar. O tema da peça gira em torno das tentativas de várias pessoas em se apoderarem de parte da fortuna de um comerciante rico.

A peça discute, a partir da perspectiva da moral, a questão da supervalorização do dinheiro entre as relações pessoais na época. O casamento motivado por interesses financeiros também é um tema trabalhado por José de Alencar na peça. O autor aborda essa temática a partir das personagens Julieta e Cristina com seus respectivos pares românticos, Oliveira e Hipólito.

"Pois é o crédito social que funciona. O sentimento aí é apenas o meio de manter relações que são habilmente exploradas. O homem gasto que vai casar com uma moça rica, tem a esperança de um dote e saca sobre essa esperança como sobre um depósito. A menina que muitas vezes por ordem de sua mãe dá a sociedade o espetáculo de um namoro ridículo com um moço rico, faz supor um casamento que deve ser para seus pais uma caução de dívidas já contraídas". (ALENCAR, 1977, p. 119).

As relações de interesses são impulsionadas tanto por personagens de modo individual, quanto de todo o núcleo familiar. O crédito, forma de transação econômica em voga no século XIX, foi utilizado por José de Alencar para criar paralelos com as transações amorosas e sociais.

Personagens[editar | editar código-fonte]

A peça conta com 14 personagens, dos quais 10 são principais e 4 são coadjuvantes

José de Alencar
José de Alencar

Personagens Principais[editar | editar código-fonte]

Personagens Função / Papel Idade
RODRIGO Engenheiro 27 anos
MACEDO Agiota 45 anos
PACHECO Capitalista 59 anos
HIPÓLITO Estudante de Medicina 23 anos
OLIVEIRA Negociante 26 anos
BORGES Empregado público 38 anos
GUIMARÃES Moço desempregado 30 anos
JULIETA Filha de Pacheco 18 anos
CRISTINA Filha de Borges 16 anos
D. OLÍMPIA Mulheres de Borges 32 anos
D. ANTÔNIA Mulher de Pacheco 40 anos

Personagens Coadjuvantes[editar | editar código-fonte]

Personagens Função / Papel
Homem adulto Escravo de Pacheco
Homem jovem Escravo de Borges
Mulher Participação coadjuvante no ato I
Menina cega Participação coadjuvante no ato I

Crítica[editar | editar código-fonte]

No final de 1857, Alencar toma como tarefa pessoal contribuir para a criação de uma dramaturgia nacional. Em poucos meses, o autor estreou três comédias suas. A primeira delas, Rio de Janeiro: verso e reverso foi impulsionada pela propaganda boca a boca, alcançando sucesso de público. Em seguida, O Demônio Familiar seguiu pelo mesmo caminho e foi um verdadeiro sucesso não só com o público, mas também com a crítica.

Após a boa aceitação desses dois primeiros trabalhos, seguiu-se o lançamento de O crédito. Essa peça teve papel fundamental na carreira de Alencar como dramaturgo que, após seu fracasso, abandonou a empreitada.

"Em 1858, encaminha ao Conservatório Dramático, órgão oficial responsável pela aprovação ou censura dos espetáculos, os originais daquele que o escritor nomeava como sua última peça teatral, acompanhada de uma justificativa na qual anunciava o fim de sua carreira como dramaturgo e os motivos que acreditava serem suficientes para tal decisão".[2] (REIS, 2013)

Influências[editar | editar código-fonte]

Rua do Ouvidor - século XIX
Rua do Ouvidor - século XIX

Alencar considerava o teatro francês como um exemplo a ser seguido pelo teatro no Brasil. Influenciado pelo estilo europeu, que aproximava a dramaturgia do palco ao cotidiano, com naturalidade tanto na encenação quanto nos diálogos, José de Alencar deixa essas características transparecerem em suas peças.

Fortemente influenciado por Dumas Filho, a escrita teatral de Alencar estabelece relações estreitas com as peças do escritor francês, como, por exemplo, em La question d’argent e em O crédito.

"Para Alencar, a influência do teatro realista francês era primordial para que o teatro brasileiro alcançasse sucesso e se aproximasse do cotidiano da vida brasileira. Como consequência, a naturalidade, na encenação e nos diálogos, era de suma importância para que a peça fluísse sem exageros".[3] (SOUSA, 2013)

Por conta dessa influência, muitas críticas foram direcionadas a Alencar. O escritor, no entanto, respondia as críticas de forma incisiva, e as evidenciou não apenas no teatro como também em seus romances. Para ele, não havia meios de separar tais aspectos da sociedade da época de sua narrativa.

A questão da influência francesa na cultura da sociedade fluminense era evidente e era representada nos costumes da época, enraizando-se ainda mais na burguesia da então capital brasileira.

Referências

  1. Santos, Vivaldo Andrade dos (23 de dezembro de 2013). «As encenações do capital no romantismo brasileiro». Teresa. 0 (12-13): 192–204. ISSN 2447-8997 
  2. Reis, Douglas Ricardo Hermínio (4 de setembro de 2012). «José de Alencar e o teatro: um romântico realista - doi: 10.4025/actascilangcult.v35i1.10475». Acta Scientiarum. Language and Culture. 35 (1): 63–73. ISSN 1983-4683. doi:10.4025/actascilangcult.v35i1.10475 
  3. Sousa, Izaura Vieira Mariano de (13 de agosto de 2013). «A influência do teatro de José de Alencar na dramaturgia brasileira». Revista e-scrita: Revista do Curso de Letras da UNIABEU. 4 (3): 17–32. ISSN 2177-6288. Consultado em 28 de setembro de 2016. Arquivado do original em 2 de outubro de 2016 

Bibliografia[editar | editar código-fonte]