Retirada do Cabo de São Roque

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Retirada do Cabo de São Roque
Autor Henrique Bernardelli
Data 1927
Gênero pintura histórica
Técnica tinta a óleo, tela
Dimensões 285 centímetros x 180,5 centímetros
Encomendador Afonso d'Escragnolle Taunay
Localização Museu Paulista
Sound-icon.svg Descrição audível da obra no Wikimedia Commons

Retirada do Cabo de São Roque é uma pintura de Henrique Bernardelli. A data de criação é 1927. A obra é do gênero pintura histórica. Está localizada em Museu Paulista. O foco da representação é uma bandeira de expulsão de holandeses no Brasil.[1] A pintura foi uma encomenda de Afonso d'Escragnolle Taunay, então diretor do Museu Paulista, em 1921.[2]

Descrição[editar | editar código-fonte]

A obra foi produzida com tinta a óleo. Suas medidas são: 285 centímetros de altura e 180,5 centímetros de largura. Faz parte da Coleção Fundo Museu Paulista, com o número de inventário é 1-19539-0000-0000. Faz parte da galeria em frente ao Salão de Honra do museu,[1] tendo relevância para expor a formação da nação brasileira e o suposto papel de liderança dos paulistas nessa formação da nação.[3]

O motivo histórico da representação é a retomada de Pernambuco, em 1640. Participaram dessa disputa bandeirantes famosos como Antônio Raposo Tavares. A retomada fracassou, mas ficou conhecida na historiografia situações de suposta bravura de combatentes paulistas. O objetivo da obra era, originalmente, expor uma dessas situações,[3] de acordo com instruções oferecidas ao pintor por Taunay.[2]

Destaca-se na técnica de Bernardelli neste quadro a representação cuidadosa dos indígenas, com a tentativa de tornar precisa a observação étnica.[4]

Contexto[editar | editar código-fonte]

Retirada do Cabo de São Roque faz parte de um conjunto de representações sobre bandeirantes no acervo do Museu Paulista, incluindo Ciclo do ouro, de Rodolfo Amoedo, e Ciclo da caça ao índio, do próprio Bernardelli.[1] O pintor, aliás, dedicou quatro décadas de sua carreira à representação de bandeirantes.[5]

O quadro foi apresentado num contexto de controvérsia entre Bernardelli e Taunay, que havia encomendado a obra. Na visão de Taunay, o bandeirante deveria ser retratado como um herói, a quem estava dado o controle da desbravamento territorial e formação nacional no período colonial; Bernardelli apresentou o bandeirante como em conflito com a natureza, não como dominante.[5] Taunay pediu ao pintor que representasse o bandeirante como um soldado, pondo-lhe trajes militares; Bernardelli discorda, alegando que se deveria expor o cansaço na retirada, num ambiente inóspito.[3] Em resposta, Taunay reforça o pedido e inclui apreciação de Washington Luís, a quem finalmente caberia o pagamento pela obra:[2]

O Presidente conversou comigo acerca do seu esboceto, mostrando um ponto de vista inteiramente diverso da concepção do quadro. Ele acha que a composição assim como está não pode de todo servir ao Museu, porque dá ideia de uma retirada em que a soldadesca está inteiramente desanimada senão desmoralizada. Entende ele que a se fazer o painel só pode ser numa cena animada de escaramuça por exemplo com os holandeses para mostrar que o batalhão paulista mantinha integra a sua força de emulo durante toda a retirada. Entendo que toda razão me assiste e realmente dada a feição educativa dos museus é mais natural que o quadro exalte as qualidades de resistência da nossa tropa do que de uma impressão de desânimo e abatimento. Não acha também melhor? Não seria difícil fazer a modificação neste sentido.

Nesse contexto, Bernardelli atende às exigências do diretor do Museu Paulista, mas para Taunay a composição segue "tristonha" e não expressa plenamente o caráter militar da retomada de Pernambuco.[2] A intervenção de Washington Luís revela a interferência estatal na produção do acervo do Museu Paulista e a construção de uma história de preponderância paulista na formação nacional brasileira.[6]

Análise[editar | editar código-fonte]

Apesar da pressão de Taunay para que a retomada de Pernambuco fosse representada com caráter militar triunfal, a pintura de Bernardelli foi interpretada como sendo uma cena sem heroísmo, em que as personagens, enfileiradas, aparecem cansadas e, a não ser o líder bandeirante e uma indígena, prestes a desistir.[2][7] Há, em coerência com o programa pictórico de Bernardelli, a representação dos indígenas como superando os europeus na natureza inóspita.[2]

Ver também[editar | editar código-fonte]

Referências

  1. a b c Makino, Miyoko (2003). «Ornamentação do Museu Paulista para o Primeiro Centenário: construção de identidade nacional na década de 1920». Anais do Museu Paulista: História e Cultura Material. 10-11 (1): 167–195. ISSN 0101-4714. doi:10.1590/S0101-47142003000100010 
  2. a b c d e f «Caiana Revista academica de investigacion en Arte y cultura visual». caiana.caia.org.ar (em espanhol). Consultado em 13 de maio de 2018 
  3. a b c Brefe, Ana Claudia Fonseca (1 de janeiro de 2005). O museu paulista: Affonso de Taunay e a memória nacional, 1917-1945. [S.l.]: SciELO - Editora UNESP. ISBN 9788539303281 
  4. Martins, Neide Marcondes; Bellotto, Manoel Lelo (2004). Turbulência cultural em cenários de transição: o século XIX ibero-americano. [S.l.]: EdUSP. ISBN 9788531408007 
  5. a b Junior, Rafael Alves Pinto (17 de dezembro de 2014). «Um Memento mori de Henrique Bernadelli?». Revista Interdisciplinar Internacional de Artes Visuais - Art&Sensorium. 1 (02): 112–123. ISSN 2358-0437 
  6. Anhezini, Karina (2003). «Museu Paulista (Paulista Museum) and intelectual exchanges in the wrintings of Afonso de Taunay's history». Anais do Museu Paulista: História e Cultura Material. 10-11 (1): 37–60. ISSN 0101-4714. doi:10.1590/S0101-47142003000100004 
  7. Christo, Maraliz de Castro Vieira (31 de maio de 2002). «Bandeirantes ao chão». Revista Estudos Históricos. 2 (30): 33–55. ISSN 2178-1494