Roberto Ortiz
Roberto Marcelino Ortiz Lizardi | |
|---|---|
| 22.º Presidente da Argentina | |
| Período | 20 de fevereiro de 1938 a 27 de junho de 1942 |
| Vice-presidente | Ramón S. Castillo |
| Antecessor(a) | Agustín Pedro Justo |
| Sucessor(a) | Ramón S. Castillo |
| Ministro da Fazenda da Argentina | |
| Período | 4 de janeiro de 1936 a 21 de junho de 1937 |
| Presidente | Agustín Pedro Justo |
| Antecessor(a) | Frederico Pinedo |
| Sucessor(a) | Carlos Alberto Acevedo |
| Ministro de Obras Públicos da Argentina | |
| Período | 13 de janeiro de 1923 até 12 de outubro de 1928 |
| Presidente | Marcelo Torcuato de Alvear |
| Antecessor(a) | Eufrasio Loza |
| Sucessor(a) | José Benjamín Ábalos |
| Deputado da Argentina pela Capital Federal | |
| Período | 1920-1924 |
| Dados pessoais | |
| Nascimento | 24 de setembro de 1886 Buenos Aires, Argentina |
| Morte | 15 de julho de 1942 (55 anos) Buenos Aires, Argentina |
| Nacionalidade | Argentino |
| Primeira-dama | María Luisa Iribarne Daubert |
| Partido | Radical Antipersonalista Concordancia |
| Profissão | advogado e político |
Jaime Gerardo Roberto Marcelino María Ortiz (Buenos Aires, 24 de setembro de 1886–15 de julho de 1942) foi um advogado e político argentino, deputado nacional pela então Capital Federal entre 1920 e 1924, ministro de Obras Públicas entre 1925 e 1928, ministro da Fazenda durante 1936 e 1937 e presidente da Nação Argentina entre 20 de fevereiro de 1938 até sua renúncia em 27 de junho de 1942.[1]
Ortiz pertenceu à União Cívica Radical (UCR) primeiro, e depois à União Cívica Radical Antipersonalista (UCRA), que por sua vez foi o principal partido da coalizão conhecida como a Concordância, que tomou o poder de maneira ilegítima em 1932, como continuação do golpe de Estado e da ditadura que derrubou o governo constitucional de Hipólito Yrigoyen. Ortiz sucedeu na presidência o general Agustín P. Justo, de seu mesmo partido, em uma eleição fraudulenta. Durante seu governo tentou impulsionar, sem resultado, reformas que permitissem restabelecer um regime menos fraudulento durante a denominada «Década Infame».[1] Com esse objetivo decretou a intervenção da província de Buenos Aires, governada pelo então caudilho democrata (conservador) Manuel Fresco, que integrava também a coalizão governante.[1]
Dois anos depois de ter assumido como presidente, Ortiz adoeceu gravemente de diabetes, pelo que teve de solicitar licença ante o Poder Executivo em 3 de julho de 1940, sendo substituído interinamente pelo então vice-presidente Ramón S. Castillo.[1] Finalmente, após ficar completamente cego, em 27 de junho de 1942 apresentou sua renúncia definitiva, assumindo Castillo a presidência.[1] Dezoito dias depois de sua renúncia, faleceu aos 55 anos.[1]
Biografia
[editar | editar código]Roberto Marcelino Ortiz nasceu em 24 de setembro de 1886 em Buenos Aires no seio de uma família de imigrantes bascos, seu pai Fermín Manuel Ortiz nascido em Zalla, Biscaia e sua mãe Josefa Lizardi oriunda de Yanci, Navarra. Seus pais haviam emigrado para a Argentina em 1870. [2] Tiveram quatro filhos, Pedro Alberto, Dolores Marcelina, Roberto Marcelino e Josefa Iñiga María Cristina.[2] Seu pai estabeleceu a estância El Comercio sobre terras que foram da antiga estância San Juan.
Roberto cursou seus estudos primários no Colégio Rollin e os secundários no Instituto Livre de Segundo Ensino, ambas instituições laicas. Finalizado seu bacharelado, ingressou no ano de 1903 na Faculdade de Medicina da Universidade de Buenos Aires, carreira pela qual sentia grande inclinação, mas, como consequência da insistência de seus correligionários radicais, decidiu mudar para direito.
Ortiz uniu-se à União Cívica Radical por volta do final de 1904 com apenas 19 anos quando recém começava sua carreira universitária em medicina. Em 4 de fevereiro de 1905 tomou ativa participação na fracassada Revolução de 1905, liderada por Hipólito Yrigoyen, a quem acompanhou proximamente durante aqueles dias, e que fora preso por isso. Nessa precoce experiência política e universitária conheceu José Tamborini, Mario Guido, Miguel Mario Campero e outros jovens radicais.
Depois decidiu estudar Direito ante a insistência de seus correligionários, graduando-se como advogado aos 22 anos no ano de 1909. Assim que se formou conseguiu trabalho nas ferrovias –primeiro, na Pacífico, e depois na Oeste–, além de atender os negócios no escritório de seu pai Fermín Ortiz & Cia. Seus clientes eram em sua maioria bascos do interior da Província de Buenos Aires.
No mesmo ano de 1909, Ortiz assina um manifesto, junto a outros importantes homens como Leopoldo Melo, onde se questionava a estratégia abstencionista e intransigente de Yrigoyen em relação à política nacional. Durante aqueles anos foi tecendo relações nos círculos políticos da juventude radical e soube construir uma sólida amizade com Tomás Le Bretón durante a primeira campanha presidencial de Yrigoyen em 1916.
No ano de 1912 contrai matrimônio com María Luisa Iribarne (1887-1940), filha do basco-francês Francisco Iribarne e Benigna Catalina Daubert, e com quem teve seus três filhos: María Angélica, Roberto Fermín e Jorge Luis.
Começos na política
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Durante 1918 acedeu a seu primeiro cargo eletivo como vereador na Capital Federal onde souberam conviver radicais, socialistas e comunistas. Esses anos iniciais foram centrais para a formação de um político "neto" chegando inclusive a ocupar a presidência do comitê seccional em Recoleta, em 1919, um cargo eminentemente partidário do qual esteve orgulhoso durante toda sua vida.
Sua trajetória foi ascendente e ordeira. Em março de 1920 foi eleito deputado nacional pela Capital Federal, cadeira que ocupou até 1924, desempenhando também durante aqueles anos um cargo honorário na Comissão Nacional de Casas Populares. Em seu mandato como deputado, Ortiz apresentou trinta e quatro projetos de lei que em sua maioria foram sancionados e se especializou gradualmente em finanças e economia. Esta primeira experiência legislativa o vinculou com alguns radicais que se opunham crescentemente à política de Yrigoyen e foram chamados "principistas" ou "grupo azul" orientados à anulação da hegemonia que queria imprimir o Poder Executivo.
Em 1924 o presidente Marcelo T. de Alvear o designou administrador de Impostos Internos, em momentos em que Ortiz também integrava o conselho diretivo do jornal La Acción, principal jornal do radicalismo opositor a Yrigoyen. Durante esta gestão se consolidou sua pertença ao "grupo azul" ou antipersonalista e se identificou politicamente com Vicente Gallo, Fernando Saguier, Arturo Goyeneche, José Tamborini e Leopoldo Melo. Nesse mesmo ano Ortiz faz parte da fundação da UCR Antipersonalista.
Pouco tempo depois, em janeiro de 1925, e no marco de uma reorganização ministerial, o presidente Alvear o promoveu a ministro de Obras Públicas em um momento em que os setores "gallistas" (vinculados a Vicente Gallo) conquistaram posições e depois que José Tamborini se encarregou do ministério do Interior. Durante sua gestão se remeteram ao Congresso diversos projetos de lei, entre outros, de vialidade, das Ferrovias do Estado; se estabeleceram os planos anuais de Obras Públicas e se estudou o problema caminhoneiro; além de se levarem a cabo importantes projetos de infraestrutura. Como ministro desenvolveu uma gestão exitosa e ordenada e talvez um de seus maiores logros tenha sido a redução das tarifas ferroviárias, especialmente a setores de produção agropecuária e orientada às empresas que manejavam o capital britânico. Mas também a passagem pela administração pública o vinculou com empresários e dirigentes sindicais.
Algumas obras que se podem destacar durante sua gestão à frente do ministério foram: portos de Buenos Aires –em especial em Puerto Nuevo– e em Mar del Plata, Quequén, Deseado, La Plata, Comodoro Rivadavia e Bahía Blanca; se estabeleceram também embarcadouros flutuantes e os pequenos portos do Paraná e Uruguai, como assim o de águas profundas de Diamante; obras sanitárias da Capital Federal foram ampliadas; se deu término ao edifício central de Correios e Telégrafos, e a outras obras, tais como os diques San Carlos e Potrero de los Funes, e barragem La Ciénaga; as do dique do Neuquén e as de barragem do rio Tercero foram adiantadas. Se terminaram 67 pontes e 562 caminhos, e quanto a obras ferroviárias, se adjudicaram os trabalhos correspondentes às linhas de Metán a Barranqueras, de Formosa a Embarcación, de Córdoba a La Puerta e de San Juan a Jachal.
A volta de Yrigoyen à presidência em 1928 o retraiu à vida privada. Apesar de seu legalismo, Ortiz apoiou o golpe de Estado militar que derrubou Yrigoyen em 6 de setembro de 1930, mas repudiou a tentativa de José Félix Uriburu por fazer um governo "corporativista" (inspirado no fascismo de Mussolini na Itália), argumentando que esse modelo não estava funcionando na Europa.
Em 1931, Ortiz reapareceu na cena pública. Nesse ano sua militância se reativou a favor da reorganização do radicalismo e foi um dos dirigentes mais entusiastas em alentar o regresso de Alvear, embora sempre se distanciando do governo deposto. Em maio foi signatário do manifesto do Hotel City que unia dirigentes de todos os setores do partido embora depois criticara dita organização ao estimar que "só se perseguia a salvação dos elementos do regime deposto, sem nenhum propósito de arrependimento nem de renovação".
No entanto, quando chegou o decreto do governo de Uriburu que proibia as candidaturas de Marcelo T. de Alvear e Adolfo Güemes, esteve junto a Gallo em prol de favorecer sua assunção como presidente do partido e demonstrou ambições próprias para ser o candidato a governador do radicalismo na província de Buenos Aires. Se viu ali um Ortiz "gallista" muito ativo no deslocamento dos setores personalistas, buscando inclusive ocupar vagas que o radicalismo personalista havia deixado, e difundindo artigos em La Nación contra Güemes.
Quando assumiu a presidência Agustín P. Justo, em fevereiro de 1932, foi proposto para o ministério do Interior e o de Obras Públicas, embora rejeitou ambas as pastas e retornou à atividade profissional devido à pressão de sua família e à necessidade de reconstruir seu patrimônio pessoal.
Reapareceu dois anos depois, para inícios de 1934, integrando-se na Concordância e participando da reorganização partidária do antipersonalismo bonaerense embora rapidamente se afastou da política do distrito. No ano seguinte, no final de 1935, foi convocado para ocupar o ministério da Fazenda em substituição de Federico Pinedo. Sua passagem pela Fazenda também foi ordenada dando mostras de manejo ordeiro: ali equilibrou o orçamento, promoveu a modificação da lei de imposto sobre a renda; reorganizou a dívida externa por meio de um novo empréstimo e se recuperou de forma notável o saldo da balança comercial.
Eleições presidenciais de 1937
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Um mês antes da reunião da Concordância, já se havia descartado toda dúvida de que Ortiz seria candidato, tal como o confirmou o senador Juan Ramón Vidal em uma entrevista ao jornal santafesino El Orden em 13 de abril de 1937. A candidatura de Ortiz, no entanto, continuou sendo polêmica nos círculos conservadores. Suas considerações sobre a necessidade de restaurar, de maneira progressiva, a pureza eleitoral nos comícios nacionais, desatou críticas da parte do setor mais duro da Concordância. O talentoso advogado apaziguou as tensões na convenção da Concordância escolhendo como companheiro de fórmula o legislador ultraconservador Ramón Castillo. Se bem que este gesto pretendia ser simbólico, o certo é que mais adiante influiria muito, posto que Ortiz padecia de diabetes tipo 2 avançada, e seu plano de governo favorável à democracia cairia ao assumir Castillo a presidência após sua morte.
Durante o discurso radiofônico emitido pela Rádio do Estado, Ortiz esteve acompanhado de sua esposa María Luisa, que também falou pelo rádio (algo inédito na história argentina). Nas eleições presidenciais de 1937 foram ganhas pela fórmula oficialista através da fraude, como foi publicamente reconhecido por próprios e estranhos, sendo a principal prejudicada a fórmula presidencial da União Cívica Radical-Comitê Nacional, integrada por Marcelo Torcuato de Alvear e Enrique Mosca.
Presidência
[editar | editar código]Roberto Marcelino Ortiz assumiu sua presidência em 20 de fevereiro de 1938. Se bem que o programa de governo de Ortiz previa a realização de obras públicas, assistência social e temas de legislação trabalhista, entre outros, sua obra governamental se viu interrompida por dois motivos: a prioridade que teve a normalização institucional em sua agenda institucional, e sua doença e posterior falecimento.
O presidente ratifica no ato de assunção o que havia repetido em várias oportunidades durante sua campanha: defesa e aperfeiçoamento da democracia. Diz durante seu discurso:
"Entendo que a linha de conduta traçada pelos homens chamados a desempenhar um alto destino político deve ser uma. A profissão de ideias, com anterioridade aos comícios, é franqueza devida ao povo, para evitar-lhe surpresas ou decepções. Depois, desde a presidência da República, corresponde ser fiel ao prometido desde a tribuna (...). Como candidato afirmei, como presidente ratifico minha fé na democracia. Isso implica uma promessa solene de respeito pela liberdade e as garantias que a Constituição consigna para o cidadão".
As intervenções federais
[editar | editar código]O presidente Ortiz viu nas intervenções federais um instrumento eficaz para levar a cabo o objetivo central de sua agenda de governo: combater a fraude eleitoral. Entre as províncias em que se aplicou se encontram San Juan, Santiago del Estero, Catamarca e Buenos Aires.
É também interessante observar que aquelas eleições que não apresentam irregularidades, casualmente outorgam o triunfo à UCR, e não merecem a intervenção do presidente, como se observa no caso de Tucumán (outubro de 1938 e março de 1939) e Córdoba (março de 1940).
O escândalo da venda de terras de El Palomar
[editar | editar código]Em abril de 1940 morreu María Luisa Iribarne, esposa de Ortiz, o que foi um golpe duro para o estado de ânimo do presidente, repercutindo em sua saúde. Passou seu luto recluso na residência presidencial da Rua Suipacha n.º 1032, da cidade de Buenos Aires, durante várias semanas. Ao mesmo tempo, o estado de saúde do presidente Ortiz, como consequência de sua diabetes, começou a se agravar no início daquele ano, obrigando-o a solicitar licença no exercício do poder em 3 de julho de 1940.
Durante o período de sua licença médica à frente do Poder Executivo estourou o escândalo pela venda de terras do Palomar, a partir da denúncia de uma venda de terrenos destinados à ampliação da base militar localizada nessa localidade da província de Buenos Aires. Esta operação foi realizada por um intermediário, a preço sobrevalorizado a fim de que os benefícios, uma vez pagos os verdadeiros proprietários, fossem repartidos entre funcionários do Ministério da Guerra. A soma havia sido aprovada no orçamento promulgado pelo Congresso para esse Ministério, prévio pagamento de somas de dinheiro a deputados radicais e ao presidente da Câmara de Deputados e da Comissão de Orçamento. Esta denúncia foi fomentada pelo senador conservador, Benjamín Villafañe, e descoberta pelo ex-governador da província de Buenos Aires, Manuel Fresco, que atuava movido pelo rancor como consequência da intervenção decretada por Ortiz a seu governo. A denúncia colocava em tela de juízo a política moralizadora de Ortiz, pois este havia assinado o decreto autorizando a concretizar a operação de compra das terras a pedido do Ministro da Guerra, o general Carlos Márquez.[3]
A Comissão investigadora esteve presidida por Alfredo Palacios, que determinou a participação dos deputados envolvidos e solicitou a formação de um juízo político ao Ministro da Guerra, evitando solicitar o julgamento a Ortiz, que se realizado provocaria uma grave situação institucional, devido à possibilidade real de um retrocesso na política de luta contra a fraude iniciada pelo presidente.[4]
Alguns dos subornos pagos incluíam a: Juan Káiser, presidente da Câmara de Deputados entre 1938 e 1939, Gregorio Godoy, Presidente da Comissão de Orçamento e Fazenda, Deputado Miguel Aguirrezabala, deputado Víctor Guillot (que se suicidaria como consequência do escândalo), deputado José Bertotto e Agustín Echevarrieta, secretário da Comissão de Orçamento e Fazenda, General Alonso Baldrich. Foram acusados de suborno e negociações incompatíveis com a função pública. A investigação buscou, sem sorte, os possuidores de cerca de 500 000 pesos em títulos públicos que nunca apareceram. Houve tentativas de juízo político contra o general Márquez que não prosperaram.[5]
Inesperadamente, o presidente Ortiz apresentou sua renúncia à Presidência da Nação, em 22 de agosto de 1940, como protesto pelo voto do Senado ao relatório apresentado pela Comissão Investigadora, questionando as suspeitas do relatório sobre seu Ministro da Guerra, o que era considerado por Ortiz como um ataque à sua pessoa. Esta decisão também foi uma estratégia política destinada a desativar o avanço da investigação parlamentar, encorajada pelos legisladores conservadores mais duros. A Assembleia Legislativa rejeitou a renúncia do presidente Ortiz em 24 de agosto daquele ano por 170 votos contra um, depois de uma campanha de apoio a seu favor realizada pela União Cívica Radical, o Partido Socialista e a Concordância, que consideraram Ortiz inocente da acusação de cumplicidade neste escândalo. Esta votação foi considerada por Ortiz como um "pronunciamento nacional" a seu favor, anunciando sua vontade de proceder a reassumir a presidência quando sua saúde melhorasse, projeto político que contava com o apoio da União Cívica Radical, até então presidida por Marcelo Torcuato de Alvear, a qual havia resultado favorecida com um grande número de cadeiras no Congresso nas eleições legislativas de 1940, graças à política de limpeza eleitoral impulsionada por Ortiz.[4]
Política internacional
[editar | editar código]A conferência de Lima
[editar | editar código]Em agosto de 1938 se reuniu em Lima a oitava conferência pan-americana. A delegação argentina foi presidida por José María Cantilo, ministro de relações exteriores. Os Estados Unidos propiciavam um pacto de segurança coletiva dos Estados americanos, em previsão do que poderia ocorrer dado o estado explosivo do mundo.
Rio Pilcomayo
[editar | editar código]Em junho de 1939 viajou a Buenos Aires o marechal Félix Estigarribia, presidente eleito do Paraguai, com o propósito de subscrever o protocolo relativo aos limites entre ambas as nações, fixados no rio Pilcomayo. Com esse motivo foi recebido oficialmente por Ortiz, sendo objeto de numerosas homenagens.
Visita de Baldomir
[editar | editar código]Em 1939 se recebeu a visita oficial do presidente da República Oriental do Uruguai; general Baldomir, para renovar os acordos de amizade e intercâmbio com a Argentina. Foi recebido por Ortiz e se lhe tributaram cordiais homenagens.
A guerra civil espanhola
[editar | editar código]Artigo principal: Segunda Guerra Mundial
O governo de Roberto Marcelino Ortiz começou em um período complexo no panorama internacional, cujos fatos repercutiam na vida econômica e política interna do país. Em 1938, a guerra civil espanhola estava em pleno desenvolvimento, impactando na numerosa coletividade espanhola ao longo e largo do país. A divisão entre "nacionais" e "republicanos" espanhóis, teve seu capítulo na tomada de posições dos partidos políticos e setores sociais argentinos, convertendo a questão em um tema de disputa entre "democráticos" e "totalitários" ou também entre "fascistas" e "anti-fascistas".[6] Em 1938, o Governo argentino havia enviado os destróieres navais, ARA Tucumán (D-5), e ARA 25 de Mayo (C-2) aos portos espanhóis para realizar a evacuação humanitária dos refugiados de um ou outro lado da contenda, refugiados na Embaixada e nos consulados argentinos em Madri e Valência. Este grau de envolvimento da Argentina no conflito respondia aos profundos vínculos entre a população argentina, majoritariamente composta por imigrantes espanhóis.
Criação da Gendarmaria Nacional Argentina
[editar | editar código]Durante a presidência do Dr. Roberto M Ortiz, a Gendarmaria Nacional foi criada em 28 de julho do ano de 1938 pelo Congresso Nacional. As particularidades do território onde devia cumprir a missão e o caráter desta, determinaram que a Força nascesse como um Corpo com organização, formação militar e férrea disciplina, circunstância que até a data se mantém.
Essa é a gênese de sua criação e o espírito que os legisladores imprimiram no projeto que depois foi promulgado como Lei N.º 12 367: "contribuir decididamente para manter a identidade nacional em áreas limítrofes, para preservar o território nacional e a intangibilidade do limite internacional".
Seu pessoal foi sujeito a um regime disciplinar castrense, com estrutura, capacitação, doutrina militar e formação jurídica que lhe permitisse cumprir funções policiais em tempo de paz, e em tempo de guerra integrar o componente terrestre militar: Caso concreto, foi sua participação na Guerra das Malvinas no ano de 1982.
A instituição se encontra enquadrada dentro da Lei Orgânica N.º 19 349 que regula sua organização, missão, funções, jurisdição e competências, como o regime legal de seu pessoal.
A eclosão da Segunda Guerra Mundial
[editar | editar código]A eclosão da Segunda Guerra Mundial, em setembro de 1939, determinou que a Argentina se declarasse neutra no conflito, respondendo à opinião pública majoritária que considerava que o conflito era alheio ao país, sendo mais importante preservar o clima de harmonia entre as diferentes coletividades de imigrantes que compunham a sociedade argentina. Em 3 de setembro de 1939, os representantes diplomáticos do Grã-Bretanha e da França comunicaram que seus países se consideravam em estado de guerra com a Alemanha. Para fixar sua posição, em 4 de setembro o governo do presidente Roberto M. Ortiz, emitiu um decreto, declarando a neutralidade no estado de guerra entre França, Grã-Bretanha, Polônia e Alemanha.
Para resolver os problemas internos criados pela situação de guerra na Europa e a observância do decreto de neutralidade, o presidente Ortiz criou por decreto, em 14 de setembro, uma Comissão Interministerial. Esta estava constituída por um representante de cada departamento, com sede no Ministério de Relações Exteriores, e presidida pelo delegado do último. No entanto, à medida que o conflito internacional crescia e se expandia pelos cinco continentes, a opinião pública argentina tendeu a se dividir entre os bandos em pugna. A Queda da França em 1940, e o avanço das forças nazistas pelo resto da Europa gerou que diversos grupos políticos expressassem sua simpatia aos Aliados, iniciando um debate público através de organizações civis como "La Junta de la Victoria", ou a mais ativa em todo o país, a notória "Acción Argentina", cujo ideário era antifascista. Esta organização atuou de forma transversal aos partidos políticos e às organizações sociais promovendo a simpatia aos Aliados e a ruptura de relações diplomáticas com as Potências do Eixo.[7]
Batalha do Rio da Prata
[editar | editar código]Artigo principal: Batalha do Rio da Prata
A Batalha do Rio da Prata foi a primeira batalha naval entre navios ingleses e alemães durante a Segunda Guerra Mundial. Além disso, foi o único episódio da guerra desenvolvido na América do Sul, em águas territoriais uruguaias.
A Argentina não contraiu nenhum compromisso bélico ou de beligerância; no entanto, a luta armada alcançou as águas do Rio da Prata, quando em dezembro de 1939, o Cruzador de bolso Admiral Graf Spee travou uma batalha naval com navios britânicos nas águas do estuário. Encurralado e com o navio danificado, o capitão Hans Langsdorff ordenou o afundamento de sua própria nave, enquanto a tripulação foi internada na Argentina, em meio à comoção da opinião pública argentina e uruguaia, que se prolongou com o suicídio de Langsdorff no Hotel de Imigrantes de Buenos Aires.
Judeus na Argentina
[editar | editar código]Em 1920, aproximadamente 150 000 judeus viviam na Argentina. A partir de 1928, ondas de imigrantes judeus chegaram da Alemanha e do resto da Europa, fugindo das políticas antissemitas, especialmente durante a progressiva ascensão do Nacional-Socialismo no início dos anos 1930 e finalmente, o estabelecimento do III Reich com a tomada do poder de Adolf Hitler.
Apesar de certas restrições, a Argentina foi o país latino-americano que incorporou mais refugiados judeus entre 1933 e 1948. Desde 1928 o país recebeu cerca de 45 000 judeus europeus, dos quais provavelmente a metade ingressou de maneira ilegal. Nos três anos posteriores à Segunda Guerra, fechando a corrente imigratória judaica, chegaram à Argentina cerca de 8 000 sobreviventes da Shoá.[8]
Uma das medidas mais controversas do mandato de Ortiz com relação ao conflito, foi a circular secreta antissemita assinada em 1938 pelo chanceler também radical José María Cantilo, que ordenou "a cônsules argentinos na Europa negar vistos a 'indesejáveis ou expulsos', em alusão a cidadãos judeus desse continente".[9]
O oftalmologista que Roosevelt enviou
[editar | editar código]O presidente dos Estados Unidos conhece pessoalmente Ortiz desde dezembro de 1936, quando visitou Buenos Aires. Depois do ataque japonês a Pearl Harbor em dezembro de 1941, os Estados Unidos já são um protagonista principal na guerra e pressionam sem sutilezas os países hispano-americanos para que se voltem para o seu lado. A Argentina, no entanto, mantém uma neutralidade que levanta suspeitas de proximidade com as Potências do Eixo.
Roosevelt precisa que Ortiz volte à presidência, posto que este era mais apoiado pelos setores Pró-Aliados, pelo contrário, o vice-presidente Castillo era mais apoiado pelos setores Pró-nazistas, e para isso precisa encontrar a forma de devolver a visão ao presidente. Assim, decide pedir que viaje a Buenos Aires o melhor oftalmologista dos Estados Unidos, com a consigna de que faça tudo o que estiver ao seu alcance.
Na tarde de segunda-feira, 11 de maio de 1942, foram recebidos em Buenos Aires o oftalmologista espanhol radicado nos Estados Unidos Ramón Castroviejo e sua secretária, Gertrude Henchel. Finalmente, em uma tensa junta médica realizada na residência da rua Suipacha em 18 de junho, encabeçada por Castroviejo, se decidiu definitivamente que nada podia ser feito para tentar aliviar a situação de Ortiz.
Roosevelt fez uma última tentativa de ajudar Ortiz, talvez por cortesia ou por simples razões humanitárias: em 22 de junho lhe enviou um telegrama a seu colega argentino no qual o convidou a viajar aos Estados Unidos para receber tratamento médico. No entanto, Ortiz já era consciente de que não havia mais nada a fazer.
Renúncia
[editar | editar código]A saúde do Presidente Ortiz piorou progressivamente, ficando cego completamente. Finalmente em 27 de junho de 1942 decide apresentar sua renúncia pronunciando as seguintes palavras: Citação: Se conservei minha investidura durante estes dois longos anos foi porque tinha o convencimento de que não estavam esgotados os recursos para aliviar meu organismo, quebrantado por uma longa doença [...] Deus não o quis e acato sua vontade.
Apesar de ter chegado ao poder em uma eleição fraudulenta, durante seu curto governo Ortiz havia avançado, em distintas eleições provinciais, no combate às práticas criminosas com as quais se sustentava no poder a Concordância, a coalizão de radicais antipersonalistas e conservadores que ele representava. Seu máximo gesto, nesse sentido, havia sido a intervenção em 1940 à província de Buenos Aires que governava o conservador Manuel Fresco.
Ortiz deixou nesse mesmo dia o palácio presidencial da rua Suipacha para voltar a seu apartamento de Callao entre Córdoba e Paraguay. Com a ascensão de Castillo ao poder, a fraude como elemento da vida política nacional, havia voltado em toda a sua dimensão.
Falecimento
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Finalmente em 15 de julho de 1942, apenas 18 dias depois de sua renúncia, Roberto Marcelino Ortiz foi trasladado novamente à residência presidencial, da rua Suipacha n.º 1032, falecendo por uma complicação pulmonar. Posteriormente, a residência se converteria na atual sede da Conferência Episcopal Argentina, localizada no centro histórico da Cidade de Buenos Aires.
Gabinete
[editar | editar código]| Ministérios do Governo de
Roberto M. Ortiz | ||
|---|---|---|
| Pasta | Titular | Período |
| Ministério do Interior | Diógenes Taboada | 20 de fevereiro de 1938 – 2 de setembro de 1940
2 de setembro de 1940 - 27 de junho de 1942 |
| Ministério de Relações | José María Cantilo
Julio Argentino Roca (filho) Guillermo Rothe Enrique Ruiz Guiñazú |
20 de fevereiro de 1938 – 2 de setembro de 1940
2 de setembro de 1940 - 28 de janeiro de 1941 28 de janeiro de 1941 - 13 de junho de 1941 19 de junho de 1941 - 27 de junho de 1942 |
| Ministério da Fazenda | Pedro Groppo | 20 de fevereiro de 1938 – 2 de setembro de 1940
2 de setembro de 1940 – 13 de março de 1941 17 de março de 1941 – 27 de junho de 1942 |
| Ministério da Justiça | Jorge Eduardo Coll | 20 de fevereiro de 1938 – 2 de setembro de 1940
2 de setembro de 1940 - 27 de junho de 1942 |
| Ministério da Agricultura | José Padilla | 20 de fevereiro de 1938 – 8 de março de 1940
8 de março de 1940 – 2 de setembro de 1940 2 de setembro de 1940 - 27 de junho de 1942 |
| Ministério de Obras Públicas | Manuel Ramón Alvarado | 20 de fevereiro de 1938 – 8 de março de 1940
8 de março de 1940 – 2 de setembro de 1940 2 de setembro de 1940 - 27 de junho de 1942 |
| Ministério da Guerra | Carlos Márquez | 20 de fevereiro de 1938 – 2 de setembro de 1940
2 de setembro de 1940 - 27 de junho de 1942 |
| Ministério da Marinha | León Scasso | 20 de fevereiro de 1938 – 2 de setembro de 1940
2 de setembro de 1940 - 27 de junho de 1942 |
Distinções e Condecorações
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:
Colar da Ordem de Isabel a Católica ( 15 de fevereiro de 1940 )
:
Grã-Cruz com Colar da Ordem da Rosa Branca ( 1940 )
Ver também
[editar | editar código]Referências
- 1 2 3 4 5 6 «Roberto Ortiz, una llama que se apagó en la década infame» (em inglês). Consultado em 6 de novembro de 2020. Cópia arquivada em 12 de agosto de 2025
- 1 2 Dardanelli, Tomás Estanislao. «Un Ortiz Basualdo en el Sillón de Rivadavia». Boletín N°297 del Instituto Argentino de Ciencias Genealógicas. Consultado em 5 de julho de 2021. Arquivado do original em 3 de agosto de 2018
- ↑ Luna, Félix.(1985). "Roberto Marcelino Ortiz, reportaje a la Argentina opulenta". Buenos Aires: ed. Sudamericana.
- 1 2 Luna, Félix.(1985). "Roberto Marcelino Ortiz, reportaje a la Argentina opulenta". Buenos Aires: ed. Sudamericana.
- ↑ Pignatelli, Adrián (8 de dezembro de 2022). «Sobreprecios y venta de tierras en El Palomar: el caso de corrupción que casi hizo caer a un presidente argentino» (em espanhol). Consultado em 12 de dezembro de 2022
- ↑ Romero Luis Alberto. 2011. "La Guerra Civil Española y la polarización ideológica-política. La Argentina 1936-1946. Anuario Colombiano de Historia Social, Vol. 38, N° 2
- ↑ Bisso Andrés. 2010. "Acción Argentina. Un antifascismo nacional en tiempos de guerra". Buenos Aires. Ed. Prometeo.
- ↑ «Inmigración Judía a la Argentina». AMIA. 22 de fevereiro de 2019. Cópia arquivada em 14 de fevereiro de 2026
- ↑ «Argentina: Grietas nazis en pasado encubierto, por Marcela Valente, 2005». Consultado em 6 de abril de 2012. Cópia arquivada em 4 de novembro de 2014
Bibliografia
[editar | editar código]- Luna, Félix (1979). Ortiz: reportaje a la Argentina Opulenta. Buenos Aires: Sudamericana. ISBN 9789500739627
- López, Ignacio A. (2011). "El desmantelamiento del "fraude patriótico": las intervenciones federales durante la presidencia de Roberto M. Ortiz (1938-1940)", Anuario del Centro de Estudios Históricos "Prof. Carlos S. A. Segreti", Córdoba (Argentina), año 11, n.° 11, 2011, pp. 107-127. ISSN 1666-6836.
- López, Ignacio A. (2018). La república del fraude y su crisis. Política y poder en tiempos de Roberto M. Ortiz y Ramón S. Castillo (Argentina, 1938-1943). Rosario: Prohistoria.
Ligações externas
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| Precedido por Agustín Pedro Justo |
Presidente da Argentina 1938 — 1942 |
Sucedido por Ramón S. Castillo |
