Aposta de Pascal

Origem: Wikipédia, a enciclopédia livre.
Ir para: navegação, pesquisa
NoFonti.svg
Este artigo ou se(c)ção cita fontes fiáveis e independentes, mas que não cobrem todo o conteúdo (desde outubro de 2012). Por favor, adicione mais referências e insira-as corretamente no texto ou no rodapé. Material sem fontes poderá ser removido.
Encontre fontes: Google (notícias, livros e acadêmico)
Searchtool.svg
Esta página ou secção foi marcada para revisão, devido a inconsistências e/ou dados de confiabilidade duvidosa. Se tem algum conhecimento sobre o tema, por favor verifique e melhore a consistência e o rigor deste artigo. Pode encontrar ajuda no WikiProjeto Filosofia.

Se existir um WikiProjeto mais adequado, por favor corrija esta predefinição. Este artigo está para revisão desde outubro de 2012.

Blaise Pascal

A Aposta de Pascal é uma proposta argumentativa de filosofia apologética criada pelo filósofo, matemático e físico francês do século XVII Blaise Pascal. Ela postula que há mais a ser ganho pela suposição da existência de Deus do que pelo ateísmo, e que uma pessoa racional deveria pautar sua existência como se Deus existisse, mesmo que a veracidade da questão não possa ser conhecida de fato.

Pascal formulou a questão em um contexto cristão, e foi publicado na seção 233 do seu livro póstumo "Pensées" (Pensamentos). Historicamente, foi um trabalho pioneiro no campo da teoria das probabilidades, marcou o primeiro uso formal da teoria da decisão, e antecipou filosofias futuras como existencialismo, pragmatismo e voluntarismo.[1]

A aposta[editar | editar código-fonte]

Este argumento tem o formato que se segue:[2]

  • se você acredita em Deus e estiver certo, você terá um ganho infinito;
  • se você acredita em Deus e estiver errado, você terá uma perda finita;
  • se você não acredita em Deus e estiver certo, você terá um ganho finito;
  • se você não acredita em Deus e estiver errado, você terá uma perda infinita.

Incapacidade de acreditar[editar | editar código-fonte]

Pascal referenciou a dificuldade da razão posta para a crença genuína propondo que "agir como se acreditar" pudesse "curar da descrença":

Mas ao menos reconheça sua incapacidade de acreditar, já que a razão te trouxe a isto, e você não consegue acreditar. Esforce-se para convencer a si mesmo, não através de mais provas de Deus, mas pela redução de suas paixões. Você gostaria de ter fé, mas não sabe o caminho; você quer se curar da descrença, e pede um remédio para isto. Aprenda com aqueles que estiveram presos como você, e que agora apostam todas as suas posses. Existem pessoas que sabem o caminho que você vai seguir, e que se curaram de todas as doenças que você ainda será curado. Siga o caminho através do qual começamos; agindo como se acreditasse, recebendo a água benta, assistindo missas, etc. Até mesmo isto vai te fazer acreditar naturalmente, e acabar com sua resistência.

Pensées Secão III nota 233, página 40[2] , Tradução por Rafael S. T. Vieira

Pascal propõe que se siga um caminho que ele próprio já teria passado, e que é possível se ter autêntica com o exercício da mesma.

Análise através da teoria da decisão[editar | editar código-fonte]

As possibilidades definidas pela aposta de Pascal podem ser pensadas como uma escolha em indecisão com os valores da matriz de decisão seguinte:

Deus existe (G) Deus não existe (¬G)
Acreditar (B) +∞ (ganho infinito) −1 (perda finita — 1 vida)
Não acreditar (¬B) −∞ (perda infinita) +1 (ganho finito — 1 vida)

Assumindo estes valores, a opção de viver como se Deus existisse (B) domina a opção de viver como se Deus não existisse (¬B), enquanto alguém assumir a probabilidade positiva de que Deus exista. Em outras palavras, o valor esperado de se escolher B é maior ou igual àquele de escolher ¬B. A perspectiva do ganho infinito é suficiente para Pascal fazer seu ponto, como ele afirma:

...Mas existe aqui uma infinidade em uma vida infinitamente feliz a se ganhar, uma chance de ganho contra um número finito de chances de perda, e aquilo que você aposta é finito. Tudo é dividido; aonde quer que esteja o infinito, não existe um número infinito de chances de perda contra a chance de ganho, não há tempo para hesitar, você deve apostar tudo.

Pensées Secão III nota 233, página 39[2] , Tradução por Rafael S. T. Vieira

De fato, de acordo com teoria da decisão, o único valor que importa na matriz acima é o +∞ (infinito não negativo). Qualquer matriz do seguinte tipo (em que f1, f2, and f3 são todos números finitos positivos ou negativos) resultam em (B) ser a única escolha racional.[1] . Jeff Jordan argumenta que a aposta também pode ser reescrita como uma tabela de decisão sem considerar os valores infinitos,[3] e segundo Edward McClenen existem, na verdade, 4 versões diferentes para o argumento em Pensées[3] .

Deus existe (G) Deus não existe (¬G)
Crença (B) +∞ f1
Descrença (¬B) f2 f3

Crítica[editar | editar código-fonte]

Existem tanto autores que defendam o argumento de Pascal e considerem-no um argumento válido[4] [3] [5] , como existem autores que consideram-no inválido[1] . Alguns dos argumentos mais comuns usados contra a aposta de Pascal são:

Argumento do Apelo ao Medo[editar | editar código-fonte]

Alguns documentos na internet argumentam que é uma falácia do tipo Argumentum ad metum (ou Argumento pelo/do medo), uma vez que ela afirma que ao não se acreditar no Deus cristão, a perda infinita implicaria ser severamente punido após a morte.[6] Embora popular na internet, o argumento é sem fundamento, pois Pascal prevê que a decisão pela crença em Deus seja uma escolha baseada em chances e não motivada pelo medo. O argumento de Pascal não tem como objetivo provar que Deus existe ou não, mas convencer o descrente que é uma escolha razoável apostar na sua existência. De fato, o uso do argumento do Apelo ao Medo por críticos apenas reforça a aposta de Pascal, já que este afirma em Pensées:

Os homens desprezam a religião; eles a odeiam, e temem que ela seja verdade. Para remediar isto, nós devemos começar por mostrar que a religião não é contrária a razão; que é venerável, para inspirar respeito a ela; então devemos torná-la amável, para fazer com que bons homens esperem que seja verdade. Finalmente, devemos provar que é verdade.

Pensées Secão III nota 187 página 31[2] , Tradução por Rafael S. T. Vieira

Segundo Jeff Jordan[7] todo o argumento de Pascal se estrutura na forma de uma aposta, uma decisão tomada em um momento de indecisão. Ainda segundo ele, Pascal assumia que uma pessoa, apenas pela virtude de estar neste mundo, está em uma situação de aposta, e esta aposta envolve sua vida sobre a existência ou não de Deus em um mundo em que Deus pode existir ou não.

Argumento do Custo[editar | editar código-fonte]

Outro argumento popular na internet contra o argumento de Pascal, é do Custo. A aposta tentaria nos levar a acreditar em Deus, com o pressuposto que isto é muito vantajoso você estando certo e insignificante se estiver errado. E o preço a pagar por crer não é insignificante, pois a pessoa pode precisar seguir lideres religiosos, seguir dogmas e tradições, e contribuir financeiramente para manter a religião. E mesmo que uma pessoa não tenha religião, mas mantenha fé na existência de algum deus, esta fé poderá ter consequências. Pode ser citado como exemplo o caso de Steve Jobs, que era zen-budista e acreditava na ideia do pensamento mágico, e por isso, segundo seu biógrafo,[8] tomou uma decisão errada em relação ao tratamento do seu câncer que levou a sua morte.[9] (contudo, existe quem afirme que muitos boatos foram criados sobre sua morte, e que ele recebia tratamento para sua doença[10] ). Outro exemplo , é da filha do ex-jogador de futebol ,Pelé, chamada ,Sandra Regina Machado, que se negou a receber tratamento médico, para seu câncer , pois tinha que sua cura seria milagrosa. Seu médico afirmou que sua cura era garantida se ela mantivesse o tratamento, mas sua escolha por uma cura pela a levou a óbito .[11]

O custo, contudo, de viver-se acreditando em Deus já é considerado na aposta, pois o objeto de aposta é a sua vida. Quando Pascal fala em custo zero em sua aposta, ele se refere ao custo referente a felicidade (entre outros custos específicos que ele cita e lida) na nota 233: "E quanto a sua felicidade? Vamos pesar o ganho e perca em apostar que Deus existe. Vamos estimar essas possibilidades. Se você ganhar, você ganha tudo; se perder, você não perde nada" E ao final de seu discurso na nota 233 ainda afirma:

—Agora, que danos podem cair sobre você ao escolher seu lado?...eu argumentaria que você irá ganhar nesta vida, e que cada passo nesta estrada, você terá cada vez mais certeza do ganho, e muito mais ainda do vazio do que você aposta, que você irá ao menos reconhecer que você apostou por algo certo e infinito, pelo qual você não precisou entregar nada.

Pensées Seção III nota 233, página 40, Tradução por Rafael S. T. Vieira

O erro de Pascal neste argumento, é que não existe nenhum vestígio de que a intensidade da felicidade seja menor entre os que não acreditam na existência de Deus . Pode-se perceber que em sua aposta, supõe-se que o ganho infinito de apostar em Deus supera qualquer custo que possa existir em vida. Pascal ainda argumenta que quanto mais se dedica-se a crer em Deus, menos você enxerga valor nos objetos do mundo que são passageiros e portanto o custo se torna insignificante.

Argumento dos Vários Deuses[editar | editar código-fonte]

Um dos argumentos usados contra Pascal é a objeção dos Vários Deuses, e implica que o argumento de Pascal usa da falsa dicotomia, quando reconhece a existência de apenas duas opções, acreditar ou não no deus cristão — ignorando, porém, que existem milhares de outros sistemas de crenças a serem considerados como existentes ou não. A crença no deus errado, de acordo com a maioria das religiões, é punida da pior maneira possível, segundo as escrituras religiosas. Outro fato que se considera, é a existência de "deuses não-documentados" com propriedades bem diferentes do que as estipuladas pelas Escrituras, tambem: onipresença, onisciência, onipotência, benevolência etc. Portanto, as chances de acertar, acreditando no Deus judaico-cristão como sendo o verdadeiro, são muito menores do que o estipulado por Blaise Pascal, que é de 50%. Se devidamente calculado a probabilidade fica próximo a 0%.

Em seu Pensée #226[12] , Pascal não se aprofundou no assunto, dizendo que aqueles que argumentam sobre este ponto são céticos que se recusam a buscar a verdade e se contentam em ficar de olhos fechados. Jeff Jordan vai além, defendendo que não há como formular a objeção dos Vários Deuses de forma a realmente refutar o argumento de Pascal[13] . Robert Peterson argui que esta objeção quando colocada no contexto da Aposta de Pascal se torna vazia, pois considera apenas 5 páginas de Pensées (com a aposta) e esquece o restante das quase 300 páginas do livro (o número de páginas varia de acordo com a tradução/edição), em que Pascal defende apenas o Deus cristão e dedica um capítulo exclusivo para falar da falsidade de outras religiões. Jeff Jordan ainda arguiu que ao se atribuir uma probabilidade quase nula a todos os outros Deuses, a probabilidade de existência de Deus continua sendo 50% e cita o caso do lançamento de uma moeda[13] :

...Quando alguém lança uma moeda considerada justa, é possível que ela aterrise em seu meio, continue suspensa no ar, desapareça, ou qualquer outro evento bizarro aconteça. Ainda assim, como não há nenhuma razão para acreditar que esses eventos são plausíveis, nós negligenciamos todas essas possibilidades e consideramos apenas a chance da moeda aterrisar sobre o lado da cara ou o lado da coroa

Jordan, Jeff. “The Many-Gods Objection” in Gambling On God, Tradução por Rafael S. T. Vieira

Apesar de plausível e lógico, este argumento ignora o fato de que a aposta não trata de um fenômeno observável e mensurável, como o lançamento de uma moeda. Todos os deuses e sistemas de crenças diferentes são, por sua natureza sobrenatural, inverificáveis, tornando desonesta esta comparação. Outro aspecto importante que deve ser notado durante a leitura dos Pensées sobre as falsas religiões de Pascal é que ele não submete o cristianismo ao mesmo grau de escrutínio e ceticismo com qual trata as demais religiões.

A aposta acaba por favorecer o deus com o maior contraste entre o prêmio pela observância e a punição pela mera descrença. O Deus cristão é favorecido em comparação com um Deus alternativo, "não ciumento", para quem não seja importante que as pessoas creiam nele, e sim que façam o bem e se privem de fazer o mal às outras pessoas; ou em comparação com outro "mais justo", que não dê prêmios ou punições infinitas, mas proporcionais ao bem e ao mal que se faça. Por outro lado, se alguém vier a postular uma variante do Deus cristão que, por exemplo, estenda o prêmio e/ou a punição também a pelo menos um descendente do indivíduo avaliado, independentemente do desempenho deste, este será o Deus a escolher de acordo com a lógica da aposta [carece de fontes?].

Argumento da Crença Desonesta[editar | editar código-fonte]

Alguns críticos argumentam que a aposta de Pascal pode ser um argumento para a Crença Desonesta. Além disso, seria absurdo pensar que um Deus, justo e onisciente, não seria capaz de ver atrás da estratégia da parte do "crente", portanto anulando os benefícios da aposta.[14]

Já que essas críticas não estão preocupadas com a validade da aposta em si, mas com o possível resultado — uma pessoa que foi convencida pelo argumento e que ainda não consiga acreditar sinceramente —, elas são consideradas tangenciais ao argumento. Aquilo que estes críticos estão questionando é tratado posteriormente por Pascal que oferece um conselho para o descrente que concluiu que o único método racional é apostar na existência de Deus, já que apostar não o torna um crente.

Outros críticos arguem que Pascal ignorou que o tipo de caráter epistêmico de Deus certamente valorizaria mais criaturas racionais se ele existisse. Mais especificamente, Richard Carrier apontou uma definição alternativa de Deus que prefere que suas criaturas sejam pesquisadoras honestas e reprova os métodos da Crença Desonesta:

Suponha que exista um Deus que está nos observando e escolhendo que almas dos mortos deve trazer para o céu, e este Deus quer que apenas aqueles que são moralmente bons habitem no céu. Ele provavelmente vai selecionar somente aqueles que fizeram um esforço significante e responsável para descobrir a verdade...Portanto, apenas estas pessoas podem ser suficientemente morais e sinceras para merecer um lugar no paraíso — ao não ser, que Deus deseje preencher o céu com os moralmente preguiçosos, irresponsáveis ou desonestos.

The End of Pascal's Wager: Only Nontheists Go to Heaven[15]

Como já foi exibido acima, em nenhum ponto da aposta Pascal reforça a crença desonesta; Deus, sendo onisciente, não sucumbiria para um truque e inocentemente recompensaria o enganador. Ao invés disso, depois de estabelecer sua aposta, Pascal refere-se a uma pessoa hipotética que já pesou racionalmente a crença em Deus através da aposta e está convencido da possibilidade, mas ainda não conseguiu acreditar. De novo, como notado acima, Pascal oferece uma maneira de escapar do sentimento que o compele a não crer em Deus depois que a validade da aposta tenha sido firmada. Este caminho é através da disciplina espiritual, estudo e comunidade.

Em termos práticos, portanto, o cenário alternativo em que Deus valoriza apenas a crença racional e dúvida honesta que é proposta por Carrier e outros críticos não é realmente diferente do argumento de Pascal. Na verdade, Pascal é bastante incisivo em sua crítica contra pessoas que são apáticas sobre considerar o problema da existência de Deus. Na nota 194, ele afirma: "Esta despreocupação em um assunto que diz respeito a eles mesmos, sua eternidade, seu tudo, causa-me mais raiva do que piedade; Impressiona-me e surpreende-me; é para mim monstruoso." Longe de aprovar a crença cega, um dos principais argumentos de Pascal em Pensées era mover as pessoas fora da sua apatia complacente para que elas pudessem pensar racionalmente sobre esse problema crucial da existência segundo ele. Pascal afirma na nota 225: "O ateísmo demonstra força intelectual, mas apenas até um certo ponto." Descrentes que persistentemente começam um esforço racional e honesto de procura pela verdade são elogiados por Pascal, excluindo aqueles que são enganosos.

Bibliografia[editar | editar código-fonte]

Referências

Portal A Wikipédia possui o:
Portal de Filosofia