Aposta de Pascal
A Aposta de Pascal, criada por Blaise Pascal, longamente apresentada no livro "Penseés", não é um argumento direto da existência de Deus. É um argumento que poderá ser considerado calculista, a favor de um comportamento humano de acordo com a existência de Deus, seguindo a "razão do coração". Este argumento tem mais ou menos o conteúdo que se segue:
- Se você acredita em Deus e nas Escrituras e estiver certo, será beneficiado com a ida ao paraíso.
- Se você acredita em Deus e nas Escrituras e estiver errado, não terá perdido nada.
- Se você não acredita em Deus e nas Escrituras e estiver certo, não terá perdido nada.
- Se você não acredita em Deus e nas Escrituras e estiver errado, você irá para o fogo eterno.
[editar] Análise
Este argumento apresenta-se como uma maneira falaciosa para se tentar convencer as pessoas da possibilidade da existência de Deus. Se analisado, constata-se que é uma falácia do tipo Argumentum ad baculum ou Apelo à Força, uma vez que ela afirma que "se deve acreditar no Deus judaico-cristão sob pena de ser severamente punido após a morte". O perigo e a crueldade desta forma de argumento foi denunciado pela filósofa Hipátia de Alexandria, por volta do ano 400dC, com o seguinte comentário, sobre o Cristianismo que crescia na epoca;
- Governar acorrentando a mente, através do medo de punição em outro mundo, é tão baixo quanto usar a força.[1]
A Aposta de Pascal também incorre na falácia do tipo falsa dicotomia, quando reconhece a existência de apenas duas opções, acreditar ou não no deus judaico-cristão -- ignorando, porém, que existem milhares de outros sistemas de crenças, cada um com seu(s) respectivo(s) deus(es), a serem considerados como existentes ou não. A crença no "deus errado", de acordo com a maioria das religiões, é punida da pior maneira possível. Outra coisa a se considerar, é o fato de existirem "deuses não-documentados" com propriedades bem diferentes do que as estipuladas pelas Escrituras: onipresença, onisciência, onipotência, benevolência etc. Portanto, as chances de acertar, acreditando no Deus judaico-cristão como sendo o verdadeiro, são muito menores do que o estipulado por Blaise Pascal, que é de 50%. Se devidamente calculado a probabilidade fica próximo a 0%.
Todas as religiões afirmam que seus deuses são, “a representação da perfeição”. Supondo isso verdade, então tais deuses não recorreriam a falácias. Pois uma falácia é a argumentação de uma inteligência imperfeita. Se, hipoteticamente, o Deus judaico-cristão fosse o verdadeiro, então ele não poderá condenar ao inferno e nem negar o paraíso, a um hinduísta, ou a um mulçumano, ou a um ateu, ou a qualquer pessoa que não acredite nele, ou nas suas escrituras, pois isso o qualificaria como imperfeito.
Esta "aposta" tenta nos levar a acreditar em algum deus, com o pressuposto que isto é muito vantajoso você estando certo e insignificante se estiver errado. Mas esta vantagem é ilusória, pois nunca foi provado que alguem recebeu tal benefício. E o preço a pagar por crer não é insignificante, pois a pessoa precisa prestar obediência a lideres religiosos, seguir dogmas e tradições sem questionar, e contribuir financeiramente para manter a religião.
A Aposta de Pascal também pode ser usada para tentar-se provar que outras religiões estejam certas, como trocar as Escrituras pelos Evangelhos, ou pelo Corão, por exemplo. No entanto, o resultado, se devidamente analisado, mostrará que as possibilidades de se crer no deus estipulado são mínimas. A conclusão sobre o assunto é variável de acordo com as crenças de cada um. A Aposta, no entanto, independentemente das controvérsias religiosas, é um interessante jogo de argumentação, que mostra como levar as pessoas a um raciocínio errado.
É de Blaise Pascal a frase "O coração tem razões que a própria razão desconhece".