Chica da Silva

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Francisca da Silva de Oliveira, ou simplesmente Chica da Silva (Serro, ca. 1732 - 15 de fevereiro de 1796[1] ), foi uma escrava, posteriormente alforriada, que viveu no Arraial do Tijuco, atual Diamantina, Minas Gerais, durante a segunda metade do século XVIII.

Manteve durante mais de quinze anos uma união consensual estável com o rico contratador dos diamantes João Fernandes de Oliveira[2] tendo com ele treze filhos[1] . O fato de uma escrava alforriada ter atingido posição de destaque na sociedade local durante o apogeu da exploração de diamantes deu origem a diversos mitos.

Biografia[editar | editar código-fonte]

Origens e escravidão[editar | editar código-fonte]

Chica da Silva era filha de Antônio Caetano de Sá, homem branco, provavelmente nascido e batizado na Candelária, no Rio de Janeiro. Pouco se sabe sobre o pai de Chica a não ser que, em 1726, ocupava o posto de capitão das ordenanças de Bocaina, Três Cruzes e Itatiaia, distritos de Vila Rica. Isto indica que Antônio ocupava uma posição de distinção e honra na sociedade. Chica herdou a condição de escrava da sua mãe, Maria da Costa. Africana da Costa da Mina, onde hoje se situam o Benim e a Nigéria, Maria foi trazida para o Arraial do Milho Verde ainda criança, por volta de 1720. Era escrava de Domingos da Costa, homem negro e forro.[3] Chica foi registrada no Arraial do Milho Verde, no município de Serro Frio, atual Serro.[4]

Quando ainda era escrava, Chica da Silva era tratada nos documentos como "Francisca mulata" ou "Francisca parda", vez que os escravos não tinham sobrenome e normalmente eram diferenciados de acordo com seu grupo étnico ou cor da pele.[3] Contudo, em 1754, Chica já era identificada num documento como "Francisca da Silva, parda forra". O sobrenome Silva, bastante comum no mundo português, era adotado normalmente por pessoas sem procedência ou origem definida, fato que indica que Chica conquistou sua liberdade por conta própria, sem apadrinhamentos ou conexões. Com o nascimento da primeira filha, foi identificada no registro de batismo como "Francisca da Silva de Oliveira", denotando um pacto informal com seu companheiro, o contratador de diamantes João Fernandes de Oliveira.[3]

Na juventude, Chica foi escrava do sargento-mor português Manuel Pires Sardinha[5] , proprietário de lavras no Arraial do Tijuco. Nesta época, teve com ele um filho, Simão Pires Sardinha, nascido em 1751, que teve como padrinho de batismo o então Capitão dos Dragões do Distrito Diamantino, em homenagem ao qual recebeu o nome. O registro de batismo deste filho não declara a sua paternidade, mas Manuel Pires Sardinha deu-lhe alforria e nomeou-o como um de seus herdeiros no seu testamento, daí o uso do mesmo sobrenome. Simão foi educado em Portugal e veio a ocupar cargos importantes no governo da Corte.[3]

Alforria e família[editar | editar código-fonte]

Em 1754, João Fernandes de Oliveira chegou ao Arraial do Tijuco para assumir a função de contratador dos diamantes[6] , que vinha sendo exercida por seu pai homônimo desde 1740. Em 1754, Chica da Silva foi adquirida ou alforriada pelo novo explorador de diamantes, quando então passou a viver com o contratador, ainda que nunca tivessem se casado oficialmente.

Com João Fernandes ela teve treze filhos durante os quinze anos em que com ele conviveu: Francisca de Paula (1755); João Fernandes (1756); Rita (1757); Joaquim (1759); Antonio Caetano (1761); Ana (1762); Helena (1763); Luiza (1764); Antônia (1765); Maria (1766); Quitéria Rita (1767); Mariana (1769); José Agostinho Fernandes (1770). Todos foram registados no batismo como sendo filhos de João Fernandes, ato incomum na época quando os filhos bastardos de homens brancos e escravas eram registrados sem o nome do pai[1] .

Entre 1755 e 1770 João Fernandes e Chica da Silva habitaram a edificação existente no que hoje é a praça Lobo de Mesquita, no número 266, em Diamantina[7] [8] .

A união consensual estável de João Fernandes e Chica da Silva não foi um caso isolado na sociedade colonial brasileira de envolvimento de homens brancos com escravas. Distinguiu-se por ter sido pública, intensa e duradoura, além de envolver um dos homens mais ricos da região durante o apogeu econômico[5] .

Os companheiros separaram-se em 1770, quando João Fernandes de Oliveira precisou retornar a Portugal para receber os bens deixados em testamento pelo pai. Ao partir, João Fernandes levou consigo os seus quatro filhos homens. Em Portugal, os filhos homens de Chica da Silva receberam educação superior, ocuparam postos importantes na administração do Reino e até receberam títulos de nobreza[9] .

Chica da Silva ficou no Arraial do Tijuco com as filhas e a posse das propriedades deixadas por João Fernandes, o que lhe garantiu uma vida confortável[9] . Suas filhas receberam a melhor educação que se dava às moças da aristocracia local naquela época[5] , sendo enviadas para o Recolhimento de Macaúbas[10] , em Santa Luzia, onde aprenderam a fazer tricô, foram letradas, receberam intrução musical. Dali, só saíram em idade de se casar, embora algumas tenham seguido a vida religiosa.[3]

Apesar de ser uma concubina, Chica da Silva alcançou prestígio na sociedade local e usufruiu das regalias privativas das senhoras brancas. Na época, todas as pessoas se associavam a irmandades religiosas de acordo com a sua posição social. Chica da Silva pertencia às Irmandades de São Francisco e do Carmo, que eram exclusivas de brancos, mas também às irmandades das Mercês - composta por mulatos - e do Rosário - reservada aos negros. Portanto, Chica da Silva tinha renda para realizar doações a quatro irmandades diferentes, era aceita como parte da elite local composta quase que exclusivamente por brancos[9] , mas também mantinha laços sociais com mulatos e negros por meio de suas irmandades. Apesar disto, como era costume da época, logo que foi alforriada passou a ser dona de vários escravos que cuidavam das atividades domésticas de sua casa.[3]

Faleceu em 1796. Como era costume na época, Chica da Silva tinha o direito de ser sepultada dentro da igreja de qualquer uma das quatro irmandades a que pertencia. Foi sepultada dentro da igreja de São Francisco de Assis[5] pertencente a mais importante irmandade local, um privilégio quase que exclusivo dos brancos ricos, o que demonstra que mantinha a condição social mais alta mesmo vários anos após a partida de João Fernandes para Portugal.[3]

Descendência[editar | editar código-fonte]

Ao longo de sua vida, Chica da Silva teve quatorze filhos. O primogênito, Simão Pires Sardinha, era filho de seu antigo proprietário, Manuel Pires Sardinha e os outros treze do seu companheiro, João Fernandes de Oliveira. Chica e João Fernandes procuraram dar a melhor educação possível para seus filhos, de forma a garantir a sua inserção na sociedade. Os filhos homens se mudaram para Portugal junto com o pai em 1770 e todos lograram sucesso profissional: João Fernandes de Oliveira Grijó, o primogênito masculino, tornou-se o principal herdeiro do pai, porém a cor escura que herdara da mãe representou um problema para encontrar uma esposa, tanto que casou aos 28 anos com uma portuguesa humilde, filha de lavradores; José Agostinho recebeu a patente de capitão de milícias no Tejuco; Simão Pires Sardinha, que teve uma participação não esclarecida na Inconfidência Mineira, tornou-se nobre e amigo do príncipe regente D. João VI.[3]

As filhas ficaram em Minas Gerais sob os cuidados de Chica, tendo sido mandadas para o Recolhimento de Macaúbas, onde as filhas da elite mineira eram recolhidas. Chica preocupou-se em garantir bons casamentos para as suas filhas, pois na época o matrimônio ou o recolhimento religioso configuravam as duas únicas alternativas para as mulheres ditas "honradas". Apesar de serem mulatas, muitas das filhas de Chica casaram com homens portugueses, denotando que a herança que receberam do pai lhes garantiu um dote razoável, capaz de garantir casamento com consorte de melhor condição. [3]

Segundo a historiadora Júnia Furtado, o que se depreende da história dos descendentes de Chica é a dualidade da inserção social dos descendentes de libertos na sociedade mineradora. Se, por um lado, a fortuna que herdaram e a importância social do pai e dos ascendentes paternos foram elementos facilitadores, a origem negra e escrava da mãe constituíam empecilhos. Enquanto algumas das filhas de Chica casaram na igreja com homens portugueses, outras tiveram filhos naturais, outras nunca legitimaram suas uniões ou só encontraram refúgio no recolhimento religioso. Já os filhos, embora todos tenham ascendido socialmente, tiveram maiores dificuldades em se notabilizar. Eles frequentemente tiveram que esconder ou camuflar a origem negra e escrava do lado materno nos processos de investigação familiar, pois naquela época o mulatismo era impedimento para ocupar cargos de prestígio. E, por fim, a trajetória da família de Chica revela uma tentativa de "branqueamento" pois, na sociedade preconceituosa do Brasil colonial, era uma forma de aumentar as chances de ascensão social, vez que havia fortes mecanismos de exclusão com base na cor, raça e na condição de nascimento do indivíduo.[3]

O mito[editar | editar código-fonte]

Após a sua morte, Chica da Silva tornou-se desconhecida do grande público. Contudo, na segunda metade do século XIX, Joaquim Felício dos Santos, nas Memórias do Distrito Diamantino, trouxe à tona a existência da ex-escrava. Posteriormente, a história de Chica foi revisitada por diversos autores em romances, peças de teatro, poemas e também no cinema e na televisão. A historiadora Júnia Ferreira Furtado, que escreveu a biografia de Chica em 2009, tece diversas críticas a esses trabalhos. Segundo ela, praticamente tudo o que se fez sobre Chica da Silva foi baseado tão-somente nas informações fornecidas por Joaquim Felício dos Santos, sem o devido aprofundamento histórico. Com isso, a história de Chica foi contada sem a devida preocupação com a construção da realidade, distanciando-se da real trajetória de vida dessa figura histórica e caindo na ficção.[3]

Em consequência, o que o grande público conhece de Chica da Silva é um mito no qual realidade e fantasia se misturam, a depender das intenções do autor. Júnia Ferreira Furtado faz uma crítica especial à telenovela Xica da Silva, responsável pela massificação do mito, asseverando que "os limites do erótico e do mau gosto foram ultrapassados, sem nenhum compromisso com a realidade do século XVIII, que tem sido revelada na sua multiplicidade e complexidade pela pesquisa histórica".[3]


Referências

  1. a b c Cardoso, Manuel da Silveira. O Desembargador João Fernandes de Oliveira. CoimbraUniversidade de Coimbra, 1979. p. 312. Página visitada em 27 de maio de 2012.
  2. Cardoso, Manuel da Silveira. O Desembargador João Fernandes de Oliveira. CoimbraUniversidade de Coimbra, 1979. p. 310. Página visitada em 27 de maio de 2012.
  3. a b c d e f g h i j k l Júnia Ferreira Furtado. Chica da Silva e o Contratador de Diamantes - O Outro Lado do Mito. [S.l.]: Companhia das Letras, 2009. 403– p.
  4. Chica da Silva. Netsaber. Página visitada em 14 de junho de 2011.
  5. a b c d Süssekind, Flora. Vozes Femininas. Rio de Janeiro: 7 Letras, 2003. p. 63-81. ISBN 85-7577-026-8 Página visitada em 28 de maio de 2012.
  6. Martins, Tarcísio. Quilombo do Campo Grande: A História de Minas de se desenvolve ao povo. Contagem: Santa Clara, 2008. p. 914. ISBN 978-85-87042-76-7 Página visitada em 27 de maio de 2012.
  7. Casa Chica da Silva. Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional. Página visitada em 20 de junho de 2012.
  8. Casa de Chica da Silva – Diamantina – MG. Explore O Street View (10/11/2010). Página visitada em 20 de junho de 2012.
  9. a b c Moura, Clóvis. Dicionário da Escravidão Negra no Brasil. São Paulo: EDUSP - Editora da Universidade de São Paulo, 2004. p. 98-99. ISBN 85-314-0812-1 Página visitada em 28 de maio de 2012.
  10. Grinberg, Almeida, Keila e Lúcia, Anita. Para Conhecer Chica da Silva. Rio de Janeiro: Zahar. p. 75. ISBN 978-85-7110-981-0 Página visitada em 28 de maio de 2012.

Bibliografia[editar | editar código-fonte]

Ligações externas[editar | editar código-fonte]