Juan Pujol García

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Joan Pujol García (Barcelona, 14 de Fevereiro de 1912Caracas, 10 de Outubro de 1988) foi um agente-duplo que atuou durante a Segunda Guerra Mundial usando o codinome Garbo do lado aliado, e Arabal, Alaric ou V-319 do lado nazista.

Este catalão foi quem mais destacou-se no mérito de prover desinformação à Alemanha nazista: além de ter criado uma rede totalmente fictícia que chegou a ter 28 sub-agentes; desempenhou, juntamente com seu controlador do MI5, Thomas Harris, um papel fundamental na Operação Fortitude, fazendo com que os nazistas acreditassem que o iminente desembarque no continente europeu (Operação Overlord) se daria na região de Pas-de-Calais com um contingente ainda maior do que aquele que foi realmente utilizado no Dia D na Normandia.

Sua habilidade em consolidar uma reputação e confiança dos nazistas foi tamanha que, com Overlord já em andamento, convenceu-os de que, apesar da grande escala daquela operação, ela tinha caráter diversionista. A repercussão de sua mensagem (enviada no dia 8 de junho de 1944) fez com que a mesma chegasse ao próprio Hitler que, pessoalmente, ordenou que várias Divisões Panzer e de Infantaria que estavam se deslocando para reforçar a defesa da Normandia desviassem seu curso para Pas-de-Calais. Quatro semanas depois do início de Overlord, Calais somava 22 divisões à espera de uma ofensiva que nunca aconteceu.

O relatório que Eisenhower apresentou aos chefes de Estado-Maior no fim da guerra destaca que a carência de infantaria foi a causa mais importante da derrota do inimigo na Normandia, e que "a possibilidade de remediar esta fraqueza deve-se primordialmente ao sucesso do possível perigo de ataques aliados à região de Pas-de-Calais. Esta ameaça foi mantida mesmo depois do dia 6 de junho (Dia D), e serviu com grande eficácia para manter o 15º Exército alemão quieto". Continua em seu relatório: "Se o 15o. Exército alemão tivesse entrado em guerra em junho ou julho, possivelmente teria nos derrotado, unicamente pela força da sua quantidade de efetivos". Eisenhower também declarou, posteriormente, que o trabalho desempenhado por Garbo e Thomas Harris era provavelmente equivalente a toda uma Divisão de Exército, e que ambos salvaram muitas vidas com o seu desempenho.

Motivação para espionar[editar | editar código-fonte]

A experiência pela qual Juan Pujol Garcia passou durante a Guerra Civil Espanhola fez com que ele naturalmente desenvolvesse uma total aversão por regimes ditatoriais, principalmente pelo fascismo e pelo comunismo. Com o advento da Segunda Guerra Mundial e as proporções que tomara, bem como com a manutenção do regime ditatorial de Franco na Espanha; ele decidiu, em 1940, que deveria deixar o país e contribuir de alguma forma com o Reino Unido, naquele momento o único adversário remanescente dos nazistas e o único país na Europa com um regime de governo compatível com suas ideologias.

Em abril daquele mesmo ano casou-se com uma jovem galega de Lugo, Araceli González, a quem conheceu meses antes. Casualmente encontrou a oportunidade e os meios para conseguir seu passaporte e obter o visto de saída para viajar a Lisboa com o compromisso de regresso. Em janeiro de 1941 fez um primeiro contato com a embaixada britânica em Madrid a fim de oferecer seus serviços (existe uma versão de que foi Araceli quem fez esse primeiro contato), mas a proposta foi desconsiderada. Em função disso, teve a idéia de fazer a mesma proposta na embaixada alemã visando, atrair, posteriormente, maior interesse dos britânicos. Obviamente, interessava aos alemães aqueles que tinham ou pudessem obter autorização para entrar no Reino Unido. Com o visto de correspondente de imprensa também negado pela embaixada britânica, fez um acordo com os alemães, mesmo sem convicção, de que ele o conseguiria em Portugal, onde já havia estado.

Isso, naturalmente, não aconteceu, apesar de suas fortes insistências, inclusive perante a embaixada espanhola. Todavia, Pujol logrou fazer uma grande amizade com um português chamado Jaime Sousa que, a certa altura, confidenciou-lhe que estava partindo em viagem para a Argentina em missão oficial do governo espanhol e, para provar, mostrou-lhe seu visto diplomático e um documento com o carimbo do Ministério de Assuntos Exteriores.

Aquele fato aguçou sua faceta de espião e, depois de muito bem conservar sua amizade, convidou Sousa a visitarem o Casino de Estoril como uma forma de despedida. Hospedaram-se no mesmo quarto no Hotel Monte-Estoril e, numa certa noite, enquanto jogavam, fingiu estar com uma forte dor de estômago. Voltou só ao hotel, entrou no quarto, fotografou todos os documentos oficiais do amigo, devolveu tudo a seus lugares e regressou ao cassino. De volta à Lisboa e apresentando-se como um funcionário da embaixada espanhola, conseguiu com que uma empresa que fazia estampas reproduzisse o escudo oficial da Espanha numa chapa metálica e com que uma empresa de tipografia imprimisse o documento estampado com o escudo e fabricasse um carimbo idêntico ao original, sob a alegação de que o havia perdido. Acrescentou, posteriormente, seu nome e fotografia e regressou a Madrid, logrando convencer os alemães a utilizarem seus serviços, com evidências de estar apto e com o compromisso de se instalar no Reino Unido.

Arabal vai a campo[editar | editar código-fonte]

Pujol sabia que sua viagem a Londres seria via Lisboa e não era parte de seus planos usar aquela papelada falsa para chegar ao seu destino. Devidamente treinado pelo Abwehr (Serviço de Informação e Defesa das Forças Armadas Alemãs) de Madrid, munido do código cifrado para troca de mensagens, tinta invisível e dinheiro; partiu, desta vez com Araceli, para seu primeiro destino onde se instalou e de onde começara a enviar seus relatórios simulando que estava em Londres. Buscando freneticamente obter informações em jornais estrangeiros ou quaisquer outras fontes que fossem úteis, com habilidade incomum para filtrá-las e com grande imaginação para inventar fatos, Pujol tentava sustentar a situação alegando que usava a ajuda de um piloto da KLM (que operava para a BOAC - British Overseas Airways Corporation) para enviar suas mensagens de Londres a Lisboa e que o mesmo, na capital portuguesa, as postava para Madrid. Foi assim que começaram a surgir os primeiros sub-agentes fictícios que Pujol criara, conscientes ou inconscientes da colaboração com os alemães, dando corpo à rede Arabal.

Nesse ínterim, Pujol tentou uma vez mais oferecer seus serviços à representação britânica, desta vez em Lisboa e com evidências de que estava a serviço dos nazistas. O codinome Arabal era desconhecido, Pujol não trazia nenhuma informação que chamasse realmente a atenção e, portanto, seus préstimos foram novamente recusados. Quando viajou a Madrid tentou mais uma vez na Embaixada daquela cidade; quando retornou à Lisboa mais negativas. Tomando a iniciativa, Araceli criou evidências que pudessem chamar a atenção do adido naval da Embaixada dos Estados Unidos em Lisboa, já que a opção inglesa estava descartada. Foi bem sucedida, mas era necessário um novo encontro com a participação de um oficial britânico. Com incredulidade e ceticismo, este tirou uma moeda de vinte escudos de seu bolso e ofereceu a Araceli como pagamento pelos seus serviços.

Pujol trabalhava em ritmo alucinado, mas cada vez mais angustiado e desiludido. Pensou em desistir e em novembro de 1941 deu início aos trâmites no consulado brasileiro em Lisboa para emigrar com sua família (seu primeiro filho já tinha nascido). Não podia deixar de enviar relatórios a seu controlador em Madrid de codinome Federico, cujo nome real era Friedrich Knappe Raley, um hispano-alemão nascido em Madrid. Sabia que na posição em que estava era uma questão de tempo para que sua farsa fosse descoberta, seja por um erro que cometesse, seja por uma confirmação de informações que passara, ou ainda por algum outro motivo que não queria imaginar. Pujol de fato cometeu alguns erros, mas nenhum que levantasse suspeitas de Madrid. A habilidade de inventar fatos de forma genérica e de chegar aos detalhes somente quando realmente os conhecia, a natureza do trabalho que desenvolvia (que estava sujeito à obtenção de desinformação) e uma certa displicência de Madrid contribuíram para que sua situação em Lisboa se sustentasse por 8 meses. Na verdade, sua credibilidade aumentou gradualmente e seus relatórios ficaram cada vez melhores, a ponto de surtir efeitos visíveis: o maior deles foi o fato de a Alemanha ter deslocado uma frota de submarinos e navios de guerra para afundar uma inexistente esquadra que deixara o porto de Liverpool com destino a Malta, via Gibraltar e com provável escala em Lisboa. Como essa esquadra nunca chegou, o erro foi atribuído à ineficácia da aviação italiana que não foi capaz de localizá-la.

Pujol nunca suspeitara que o maior motivo do seu sucesso foi o fato de o serviço secreto britânico ter desmantelado várias redes de espionagem alemãs no país, deixando-o imune a possíveis confirmações de suas mensagens e tornando-se, sob o ponto de vista alemão, uma das raras fontes efetivas de informação. Suspeitara menos ainda que pelo menos parte da correspondência assinada por Arabal era interceptada pelo MI6 em Madrid e que a influência que exercia não passaria despercebida. Com o advento do episódio Malta, o serviço secreto britânico expediu um alerta sobre a possível presença de um espião em território britânico que, mais que uma ameaça para a segurança do país, representava um sério perigo para a rede de agentes-duplos que já operava a favor do Reino Unido sem desconfianças de Berlim. Localizar Arabal passou a ser prioridade da espionagem britânica e tanto o serviço secreto quanto a Scotland Yard foram mobilizados para encontrá-lo. Não existia um elo visível de ligação entre Pujol e Arabal, pois nas suas tentativas de contato com as Embaixadas de países aliados, não identificara seu codinome.

Surge Garbo[editar | editar código-fonte]

Não seria difícil estabelecer que tratava-se da mesma pessoa, principalmente depois de um novo encontro com o adido naval estadunidense, desta vez com a presença do próprio Pujol. O MI6 achava que deviam vigiá-lo mas se opunha a uma maior aproximação pois estavam convencidos que Arabal era um agente alemão criando meios para se infiltrar nas estruturas da espionagem britânica. O MI5, por outro lado, confiava nas expectativas que o caso Arabal podia trazer à sua rede de agentes-duplos. Depois de muita discussão dentro do serviço secreto, foi escolhida, por fim, a estratégia deste último; sendo designado o agente Desmond Bristow para coordenar a operação com o auxílio de um outro, Thomas Harris. Essa decisão teve a intervenção de uma pessoa de muita influência dentro do próprio MI6 chamada Kim Philby, um agente nascido em 1912 na Índia de administração britânica e que, somente nos anos 60, descobriu-se que ele trabalhava para os soviéticos infiltrado no serviço secreto inglês. Philby adquirira a ideologia comunista quando estudava em Cambridge no início da década de 1930.

Desta vez foram os britânicos que procuraram Pujol: os primeiros contatos foram feitos num clima de suspeitas mútuas e com todos os cuidados para que não chamassem a atenção dos agentes do Abwehr que infestavam Lisboa. Uma nova relação de confiança teria que ser construída, com o agravante de que Pujol tinha suas conexões com o lado inimigo. Com a promessa de que Araceli e seu filho seguiriam posteriormente para o Reino Unido, Pujol foge de Lisboa em direção a Gibraltar, de onde finalmente seguiria para Londres. Ainda em Gibraltar foi inicialmente batizado com o codinome Bovril. Chegando à Inglaterra, submeteram-no a diversos interrogatórios e pediram para que redigisse uma mensagem semelhante às que enviava a Madrid. Um exame detalhado de comparação entre essa mensagem e aquelas de Arabal que foram anteriormente interceptadas não deixou mais dúvidas: Pujol foi incorporado à rede de agentes-duplos do MI5 em abril de 1942. Não tinha acesso à sede central do serviço secreto, não tinha contato com outros agentes-duplos, não conhecia a identidade verdadeira da maioria dos agentes do MI5 que conheceu. Trabalhava sob a fachada de tradutor para a BBC num pequeno escritório em companhia de Thomas Harris e de uma secretária que, como Harris, tinha perfeito domínio do idioma espanhol. Somente a partir daí é que Pujol começou a freqüentar aulas para aprender inglês.

Thomas Harris reportava-se a Cyril Mills na ligação das atividades do escritório com o serviço secreto. Mills era admirador confesso de Greta Garbo e considerou que a atuação de Pujol, até então, era digna de um ator do nível da diva sueca. Outra versão, menos verossímil, dá conta de que o codinome Garbo tenha surgido da união das primeiras sílabas de seu sobrenome, Garcia, e do codinome anterior, Bovril.

Até sua saída de Lisboa, a rede fictícia de Arabal contava com um colaborador inconsciente (o piloto da KLM) e três agentes conscientes, ou seja, aqueles que passavam informação sabendo que seu último destino era Berlim. A estratégia de Garbo e Harris era agregar, progressivamente, novos agentes, não apenas para aumentar a eficácia da rede, mas também para diminuir a necessidade do Abwehr de enviar espiões próprios. Sob a tutela dos britânicos houve uma sensível melhoria na qualidade e na frequência das informações enviadas a Madrid. Paralelamente, Pujol criava o perfil e identidade de futuros colaboradores usando sua imaginação intuitiva. Em dezembro de 1942 já era sensível o aumento no número e na importância de agentes e colaboradores incorporados. A rede Arabal atingiu seu auge em janeiro de 1944, época em que se planejava Fortitude.

Garbo em ação[editar | editar código-fonte]

Em desenvolvimento

Curiosidades[editar | editar código-fonte]

  • No dia 1 de junho de 1943, um Junker 88 da Luftwaffe derrubou o vôo 777 da BOAC na linha Londres-Lisboa matando toda a tripulação e seus 17 passageiros, entre eles o ator inglês Leslie Howard, colaborador do serviço de inteligência britânico. Arabal enviou uma veemente reclamação aos nazistas alegando que esses ataques poderiam interferir na sua comunicação já que, na rede fictícia que criara, usava um dos pilotos dessa linha. Desde então, nenhuma outra agressão às rotas aéreas entre Portugal e o Reino Unido foi registrada.
  • Durante muitos anos do pós-guerra, diversos pesquisadores acreditaram que Garbo era a identidade secreta de Felipe Fernández Armesto, alguém que, por mérito próprio, adquiriu um lugar de honra entre os espanhóis mais significativos na luta clandestina contra o nazismo e cuja história tem um paralelismo com a de Pujol.

Referências[editar | editar código-fonte]

  • JUÁREZ, Javier. Garbo - O Espião que Derrotou Hitler. Rio de Janeiro: Relume Dumará, 2005
  • HARRIS, Tomás. Garbo The Spy Who Saved D-Day. Londres: Public Record Office, 2000

Ligações externas[editar | editar código-fonte]

Entrevista a Joan Pujol (em catalão)