Alaungpaya

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Alaungpaya
အလောင်းဘုရား
Rei da Birmânia
Estátua do rei Alaungpaya em frente à Academia de Serviços de Defesa, Pyin U Lwin, Myanmar
Reinado 29 de fevereiro de 1752 —
11 de maio de 1760
(8 anos e 51 dias)[1]
Consorte Yun San
7 rainhas no total
Coroação Abril de 1752
Antecessor(a) Mahadhammaraza Dipadi
Sucessor(a) Naungdawgyi
Casa Konbaung
Nascimento 24 de setembro de 1714
  Moksobo
Morte 11 de maio de 1760 (45 anos)
  Kinywa, Mottama
Enterro Maio de 1760
Shwebo
Filho(s) Naungdawgyi
Hsinbyushin
Bodawpaya
Pai Min Nyo San
Mãe Saw Nyein Oo

Alaungpaya (birmanês: အလောင်းဘုရား; também escrito Alaunghpaya; Moksobo, 24 de setembro de 1714 — Kinywa, Mottama, 11 de maio de 1760) foi rei da Birmânia (Mianmar) de 1752 a 1760, e o fundador da Dinastia Konbaung. Quando morreu em 1760, o ex-chefe de uma pequena vila na Alta Birmânia tinha reunificado toda a Birmânia, subjugou Manipur, recuperou Lanna, e expulsou os franceses e os ingleses, que tinham prestado ajuda ao Reino Restaurado de Hanthawaddy. Fundou também Yangon em 1755. Morreu de uma doença durante a sua campanha no Sião.

É considerado um dos três maiores reis da Birmânia, ao lado de Anawrahta e Bayinnaung, pela unificação do país pela terceira vez na história birmanesa.

Juventude[editar | editar código-fonte]

O futuro rei nasceu Aung Zeya (အောင်ဇေယျ, tradução literal: Vitória Vitoriosa) em Moksobo, uma aldeia de poucas centenas de famílias no vale do rio Mu localizado a cerca de 100 quilômetros a noroeste de Ava, em 24 de setembro de 1714. Era descendente de uma família da baixa nobreza que administrava o vale do Mu por gerações. Seu pai era um chefe hereditário de Moksobo, e seu tio, Kyawswa Htin (ကျော်စွာထင်), mais conhecido como Sitha Mingyi (စည်သာမင်းကြီး), era o senhor do distrito do vale do Mu.[2] Ele alegou descendência de um comandante de cavalaria do século XV, irmão do rei Mohnyin Thado e portanto, pertencente à linhagem real dos Pagan. Era de uma família numerosa, e tinha ligação pelo sangue e pelo casamento com muitas outras famílias da nobreza em todo o vale.[3] Em 1730, casou-se com Yun San (ယွန်းစံ), filha do chefe de uma aldeia vizinha, Siboktara (စည်ပုတ္တရာ). Eles tiveram seis filhos e três filhas. (A quarta filha morreu jovem.)[1]

Chefe de Moksobo e vice-chefe do vale do Mu[editar | editar código-fonte]

Estátua de Alaungpaya em frente ao Museu Nacional de Myanmar, Rangum.

Aung Zeya cresceu durante um período em que a autoridade da Dinastia Taungû estava em rápido declínio. O "palácio dos reis" em Ava foi incapaz de se defender contra as invasões dos manipuris, que vinham saqueando áreas da Alta Birmânia desde 1724. Ava não conseguiu recuperar Lanna (Chiang Mai), ao sul, que havia se revoltado em 1727, e nada fez para impedir a anexação dos Estados shan, ao norte, pela China na década de 1730. O vale do Mu ficava diretamente no caminho das invasões dos manipuris ano após ano. Embora a Birmânia fosse muito maior do que Manipur, Ava era incapaz de derrotar os ataques ou organizar uma expedição punitiva contra Manipur. As pessoas assistiam, impotentes, os invasores queimarem aldeias, saquearem pagodes, e serem levadas em cativeiro.[4]

Foi durante estes tempos conturbados de ausência da autoridade real, que homens como Aung Zeya surgiram. Ele assumiu as responsabilidades de seu pai como chefe de sua aldeia aos vinte anos de idade. Um homem alto para a época, (um metro e oitenta centímetros de altura, como descrito por um emissário inglês),[5] musculoso, bronzeado, Aung Zeya mostrou sua habilidade natural para conduzir os homens, e visto como um líder por seus pares da nobreza por todo o vale. Eles começaram a tomar iniciativas próprias mãos para se defenderem contra os ataques.[4]

O regime doentio em Ava estava vulnerável a todos os rivais em potencial. Em 1736, Toungoo Yaza, comandante-em-chefe do exército, convocou Aung Zeya para ir a Ava a fim de verificar se o chefe da aldeia era uma potencial ameaça ao regime. Convencido de que o jovem de vinte e dois anos não tinha projetos de ocupar o trono, Toungoo Yaza, em nome do rei, concedeu-lhe o título de Bala Nanda Kyaw.[1] Aung Zeya tornou-se auxiliar de seu tio, o senhor do vale do Mu, e diretor administrativo kyekaing (ကြေးကိုင်), responsável pela cobrança de impostos e pela preservação da ordem.[6]

Fundação da dinastia Konbaung[editar | editar código-fonte]

A autoridade de Ava continuou a declinar nos anos seguintes. Em 1740, os mons da Baixa Birmânia se separaram e fundaram o Reino Restaurado de Hanthawaddy, com a capital em Pegu (Bago). As tentativas tímidas de Ava para recuperar o domínio sobre o sul fracassaram. Os conflitos entre Ava e Pegu continuaram até o final de 1751, quando Pegu lançou sua ofensiva final, invadindo a Alta Birmânia. No início de 1752, as forças dos peguan, auxiliadas pelos fornecedores de armamentos franceses e por mercenários holandeses e portugueses, chegaram aos portões de Ava. O herdeiro aparente de Hanthawaddy, Upayaza, convocou todos os oficiais administrativos da Alta Birmânia para jurarem submissão a ele.[6] Alguns optaram por aceitar, mas outros como Aung Zeya preferiram resistir.

Aung Zeya convenceu 46 aldeias no vale do Mu a se juntarem a ele na resistência. Encontrou um público pronto em "um grupo extremamente orgulhoso de homens e mulheres" da Alta Birmânia, que desejava corrigir as numerosas humilhações que seu reino outrora orgulhoso havia sofrido.[4] Em 29 de fevereiro de 1752, como as forças de Hanthawaddy estavam prestes a derrubar as muralhas externas de Ava, Aung Zeya proclamou-se rei com o nome real de Alaungpaya (o Buda Embrião), e fundou a Dinastia Konbaung. Seu nome real completo era Thiri Pawara Wizaya Nanda Zahta Maha Dharma Yazadiyaza Alaung Mintayagyi.[1]

Porém, nem todos estavam convencidos. Depois que Ava caiu para as forças de Pegun em 23 de março de 1752, o próprio pai de Alaungpaya insistiu com ele para que aceitasse o novo governo. O pai destacou que, embora Alaungpaya tivesse consigo dezenas de homens entusiasmados, eles só tinham alguns mosquetes, e que suas poucas paliçadas não tinham chance contra o exército bem equipado de Pegun, que tinha acabado de conquistar a fortificada Ava. Alaungpaya não se intimidou, dizendo: "Quando se luta por seu país, pouco importa se há muitos ou poucos. O que realmente importa é que seus companheiros têm um coração verdadeiro e braços fortes". Ele preparou as defesas construindo paliçadas em sua aldeia, agora renomeada de Shwebo, e construiu um fosso em torno dela. Desmatou o terreno para além da paliçada, destruiu as lagoas próximas e armazenou água.[7]

Reunificação da Birmânia (1752–1759)[editar | editar código-fonte]

Ver artigo principal: Guerra Konbaung-Hanthawaddy

Alta Birmânia (1752–1754)[editar | editar código-fonte]

Konbaung foi apenas uma entre muitas outras forças de resistência que surgiram de forma independente em meio a uma Alta Birmânia em pânico. Felizmente para as forças de resistência, o comando de Hanthawaddy equivocadamente considerou a captura de Ava com a vitória definitiva sobre toda a Alta Birmânia, e ordenou a retirada de dois terços da força de invasão de volta a Pegu, deixando apenas um terço (menos de 10.000 homens).[8] No início, a estratégia parecia funcionar. As forças de Hanthawaddy construíram postos de defesa mais ao norte onde hoje fica a região de Sagaing, e encontrou aliados nos gwe shans de Madaya, no atual norte de Mandalay.

Porém, as forças de Alaungpaya destruíram os dois primeiros destacamentos de Hanthawaddy enviados para garantir o seu domínio na região. Em seguida, sobreviveram ao cerco de um mês imposto pelo exército de Hanthawaddy liderado pelo general Talaban, e expulsaram os invasores.[8] A notícia se espalhou. Logo, Alaungpaya reuniu seu próprio exército formado por homens de todo o vale do Mu e das regiões próximas, utilizando-se da influência de sua família e nomeou seus líderes entre seus companheiros da nobreza como seus oficiais. O sucesso atraía cada vez mais novos recrutas todos os dias vindos das muitas regiões da Alta Birmânia. A maioria deles provenientes de outras forças de resistência, bem como pelos oficiais fugidos da ex-Guarda do Palácio trazendo consigo seus armamentos. Em outubro de 1752, Alaungpaya iniciou seu ataque contra as forças de ocupação, e expulsou todos os postos avançados de Hanthawaddy ao norte de Ava, bem como seus aliados, os gwe shans de Madaya. Uma dúzia de lendas surgiu em torno de seu nome. Os homens sentiam que, quando estavam sob seu comando, eles não podiam falhar.[7]

Apesar dos repetidos reveses, Pegu incrivelmente ainda não havia enviado reforços, mesmo quando Alaungpaya consolidou suas conquistas por toda a Alta Birmânia. Em 3 de janeiro de 1754, as forças de Konbaung retomaram Ava. Alaungpaya já recebia homenagens da região mais próxima de Shan, assim como das mais distantes ao norte, como Momeik. Em março de 1754, Hanthawaddy finalmente enviou todo o seu exército, cercando Ava e avançando até Kyaukmyaung a poucos quilômetros de Shwebo. Mas Alaungpaya liderou pessoalmente o contra-ataque, e expulsou os exércitos do sul em maio.[9]

Baixa Birmânia (1755–1757)[editar | editar código-fonte]

O conflito cada vez mais se transformou em uma disputa étnica entre o norte birmanês e o sul, do povo Mon. A liderança Hanthawaddy aumentou a política "autodestrutiva" de perseguir os birmanes no sul. Eles também executaram o rei cativo de Toungoo em outubro de 1754. Alaungpaya aproveitava para explorar a situação, encorajando as tropas restantes dos birmanes a acompanhá-lo. Muitos o fizeram.[10]

Alaungpaya aumentou também o número de seus soldados em seu exército com o recrutamento realizado por toda a Alta Birmânia, incluindo os shans, os kachins e os chins. Lançou uma invasão maciça na Baixa Birmânia em uma blitz em janeiro de 1755. Em maio, seus exércitos haviam conquistado todo o delta do Irrawaddy, e capturado Dagon (que ele renomeou de Yangon).[11] Mas, o avanço teve de fazer uma parada súbita na principal cidade portuária defendida por tropas francesas de Sirião (Thanlyin), que repeliu vários ataques Konbaung. Alaungpaya buscou uma aliança com os ingleses, e procurou se armar. Mas nenhuma aliança ou armas se materializou. As forças Konbaung finalmente tomaram a cidade após um cerco de 14 meses, em julho de 1756, encerrando com a intervenção francesa na guerra civil birmanesa.[12] As forças Konbaung em seguida, apesar do efetivo bem menor do que as defesas Hanthawaddy, saquearam a capital Pegu em maio 1757. O reino de 17 anos de duração, estava encerrado.

Depois, Chiang Mai e de outros estados no atual noroeste da Tailândia, que estavam em revolta desde 1727, imediatamente se juntaram ao novo conquistador. No sul também, os governadores de Martaban (Mottama), e Tavoy (Dawei) também se uniram a ele.[13]

Os Estados shan (1758–1759)[editar | editar código-fonte]

Em 1758, Alaungpaya enviou uma expedição ao norte, para os Estados shan (atual norte e leste de Kachin, norte do estado Shan, Xishuangbanna, Yunnan), que tinha sido anexada pela dinastia Qing da China, em meados da década de 1730. No começo de 1759, os birmaneses tinham restabeleceu com êxito a sua autoridade.[14] (A tentativa chinesa para reconquistar a região levaria à Guerra sino-birmanesa (1765-1769).)

Negrais (1759)[editar | editar código-fonte]

Alaungpaya então voltou sua atenção para a colônia inglesa em Negrais na ponta sudoeste do delta do Irrawaddy. Os ingleses, preocupados com o sucesso dos franceses frente aos Hanthawaddy, haviam retomado a ilha em 1753. Durante a guerra contra os Hanthawaddy, Alaungpaya se ofereceu para ceder a ilha à Inglaterra em troca de ajuda militar. Ele até mesmo ignorou o fato do navio da Companhia Britânica das Índias Orientais, o Arcot, ter de forma oportunista, vendido armas para as forças Hanthawaddy, e de ter disparado sobre as suas tropas em 1755 durante a batalha de Sirião. (Uma carta escrita em ouro puro, medindo 55 por 12 cm e incrustada com 24 rubis enviada por Alaungpaya para Jorge II da Grã-Bretanha em 1756, foi descoberta recentemente em Hanôver, Alemanha.[15][16] Nesta carta confiada a Ensign John Dyer, Alaungpaya deu reconhecimento formal ao povoado da Companhia das Índias Orientais em seu país, mas apenas por uma ordem real dirigida ao rei da Inglaterra).

Mas nenhuma ajuda militar se materializou. Os ingleses alegaram que não poderiam ceder nenhuma arma, porque eles também estavam envolvidos em sua própria e amarga Guerra dos Sete Anos contra os franceses.[17] Em 1758, Alaungpaya recebeu a notícia de que os agentes da Companhia Britânica das Índias Orientais venderam armas e munições (500 mosquetes) aos rebeldes mons. (O historiador britânico GE Harvey afirma que a notícia foi uma invenção dos conselheiros armênios de Alaungpaya, e que as armas fornecidas foram cinco mosquetes, e não 500.)[18] Em 6 de outubro de 1759, um batalhão de 2000 Konbaung invadiu o forte inglês, encerrando com o primeiro assentamento colonial britânico na Birmânia.[18][19]

Guerras externas[editar | editar código-fonte]

Manipur (1756, 1758)[editar | editar código-fonte]

Um cavaleiro manipuri cassay a serviço do exército Konbaung.

Alaungpaya, que cresceu assistindo as incursões manipuris vasculhando sua região natal, ano após ano, estava determinado a retribuir o favor, logo que fosse capaz. Enquanto a maioria de suas forças sitiavam Sirião, ele enviou uma expedição para Manipur para "incutir o respeito". No início de 1756, o exército birmanês derrotou o exército manipuri, e saqueou todo o país, acontecimento a que os manipuris chamaram de a Primeira Devastação.[20][21] Após a Baixa Birmânia ter sido derrotada, o próprio Alaungpaya liderou outra expedição em novembro de 1758, desta vez para colocar no trono de Manipuri um seu nomeado birmanês. Seus exércitos invadiram via Khumbat, no vale Mainpur, e superaram a resistência feroz dos manipuris em Palel, em sua marcha para Imphal, a capital manipuri. Depois de Palel, os birmaneses entraram em Imphal sem dispararem um tiro. Os exércitos Konbaung, de acordo com os manipuris, cometeram "crimes indescritíveis" contra a população, causando "um dos piores desastres de sua história".[22] Porém, o historiador GE Harvey escreve: Alaungpaya "estava apenas retribuindo o que eles tinham feito com o seu povo".[23] Alaungpaya instalou o seu escolhido no trono de Manipuri, e voltou com seu exército. Trouxe também consigo muitos integrantes da cavalaria manipuri, que se tornaram o corpo de elite da cavalaria (conhecido como "Cavalo Cassay") do exército birmanês. (Este foi o início do longo envolvimento da dinastia Konbaung com Manipur. O pequeno reino se tornaria um súdito problemático, produzindo regularmente rebeliões como as de 1764, 1768-1770, e 1775-1782. O envolvimento da Birmânia cessou após 1782, até que retornou em 1812-1813.)

Sião (1759–1760)[editar | editar código-fonte]

A principal rota da batalha na campanha siamesa 1759–1760.

Após o período chuvoso de 1759, Alaungpaya e seus exércitos voltaram para o sul para lidar com a instável Baixa Birmânia. No ano anterior, eclodiu uma importante rebelião do povo Mon, e temporariamente expulsaram o governador Konbaung de Pegu. Embora a rebelião tivesse sido controlada, a resistência mon ainda estava ocorrendo no litoral norte de Tenasserim. (Atual estado Mon), onde o controle Konbaung era ainda amplamente nominal.[24] Os siameses davam abrigo aos líderes rebeldes e às tropas de sua resistência. Alaungpaya buscou garantias do rei do Sião, de que ele não iria intervir nos assuntos birmaneses, e que lhe entregasse os líderes rebeldes. Mas os siameses recusaram o pedido birmanês, e se prepararam para a guerra.[25]

Em dezembro de 1759, 40.000 homens armados do exército birmanês deixaram Martaban para invadir o Sião via Tennasserim. O segundo filho de Alaungpaya, Hsinbyushin, era seu auxiliar. Os birmaneses ocuparam a cidade de Tenasserim, deslocaram-se para leste pelos Montes Tenasserim até atingirem o litoral do golfo do Sião, viraram em direção ao norte e capturaram as cidades costeiras, Kuwi, Pranburi e Phetchaburi. A resistência siamesa aumentou à medida que os birmaneses se aproximaram da capital Ayutthaya, porém, mesmo assim tiveram que recuar, sofrendo pesadas baixas em homens, armas e munições.[13][24] Os exércitos birmaneses chegaram a Ayutthaya em abril de 1760. Entretanto, após cinco dias de cerco da capital, o rei da Birmânia ficou repentinamente doente.[24] (As fontes siamesas dizem que ele foi ferido pela explosão de uma bala de canhão, enquanto inspecionava o corpo de canhoneiros na frente de batalha.)[26] Mas fontes birmanesas afirmam claramente que ele adoeceu. Não havia nenhuma razão para que as crônicas birmanesas escondessem a verdade uma vez que é mais glorioso para um rei birmanês morrer em decorrência de ferimentos recebidos no campo de batalha, do que morrer de uma doença comum.[25] Sua doença foi declarada como sendo "disenteria" ou "escrófula"[27]

Após sua morte as forças birmanesas recuaram. Apenas 6.000 homens e 500 cavaleiros cassay do general Minkhaung Nawrahta permaneceram como a retaguarda, e com sucesso rechaçaram ataques siameses ao longo da rota de retirada.[13]

Embora os birmaneses não tenham alcançado o objetivo final de derrubar o reino de Ayutthaya, eles formalmente anexaram a costa norte de Tenasserim, e deslocaram a fronteira ao longo da costa, pelo menos, até o corredor Tavoy-Mergui. (Os siameses retomaram o litoral inferior até Mergui em 1761.)[28]

Morte[editar | editar código-fonte]

Alaungpaya morreu no domingo, 11 de maio de 1760 no alvorecer, em Kinywa, perto de Martaban, depois de ser retirado da frente de combate por seus homens. Desejava rever os locais e puvir os sons da casa, Shwebo pela última vez, mas não foi possível. Sua morte tornou-se pública em Yangon, e seu corpo foi levado rio acima em uma barca. No desembarcadouro em Kyaukmyaung, perto de Shwebo, a corte inteira saiu ao seu encontro, e entrou solenemente com ele pelo Portal Hlaingtha de Shwebo. Alaungpaya foi sepultado com o ritual dos reis no palácio da cidade, em meio ao luto de todo um povo. Reinou apenas oito anos, e tinha quarenta e seis anos quando morreu. O historiador Harvey escreve que "os homens são lembrados pelos anos que usam, e não pelos anos que duram".[13]

Alaungpaya foi sucedido por seu filho mais velho, Naungdawgyi, apesar da tentativa de seu segundo filho Hsinbyushin em assumir o trono.

Administração[editar | editar código-fonte]

Governo[editar | editar código-fonte]

Alaungpaya passou a maior parte de seu reinado nas campanhas militares. Para a administração de seus territórios recém-adquiridos, deu continuidade em grande parte às políticas dos reis do Restaurado Toungoo. Sendo o aspecto mais importante delas a redução do número de vice-reis hereditários. Consciente de que os vice-reinados hereditários eram uma causa constante de instabilidade, o rei nomeou governadores na maioria dos seus territórios recém-conquistados ao longo do vale do Irrawaddy. No geral, ele renomeou os governadores existentes, desde que estes se submetessem a ele sem qualquer luta. De fato, a maioria dos governadores de etnia mon, do sul, mantiveram os seus cargos. Alaungpaya nomeou apenas três vice-reis: um nos distritos das Sete Colinas (atual região de Magwe centrada em torno de Mindon), outro em Toungoo e outro em Pegu, e nenhum deles era hereditário. Fez deles vice-reis só por causa de sua especial relação pessoal com esses homens. (Por exemplo, o vice-rei de Toungoo era o seu irmão mais novo. Após a morte dos incumbentes, os cargos automaticamente tornavam-se governamentais.)[29] De acordo com a política do Toungoo, ele permitiu a existência de vice-reis hereditários apenas nas regiões periféricas, como nos estados de Shan e Lanna. (Mais tarde, os reis da dinastia Konbaung gradualmente reduziriam o número de vice-reis hereditários até mesmo nos estados de Shan.)[30]

Uma mudança importante da política iniciada por Alaungpaya, e continuada pelos últimos reis Konbaung, foi a criação de colônias militares e civis no na Baixa Birmânia. Esta política se mostraria fundamental na absorção da civilização Mon no início do século XIX.[31]

Infraestrutura[editar | editar código-fonte]

Yangon atualmente.

A maioria dos trabalhos não militares, Alaungpaya mandava realizar durante os breves períodos de tempo entre as campanhas. Em 1752, designou Shwebo para ser a capital do seu reino, e ampliou o que antes era uma vila de tamanho médio em uma cidade de tamanho considerável. Construiu um palácio baseado no modelo daqueles erguidos pelos antigos reis. Em 1758, construiu o lago Mahananda para abastecer Shwebo com água. Construiu também canais de irrigação para a agricultura através do represamento do rio Mu, mas o trabalho não seguiu adiante após sua morte.[23]

Sua obra mais significativa e duradoura foi a fundação de Yangon. Depois de ter conquistado uma vila pagode de Dagon em 1755, adicionou assentamentos com pessoas de sua região natal. (Nomes de locais no vale do rio Mu como Ahlon e Kyaukmyaung ainda permaneceu até hoje em Yangon). Na véspera da Primeira guerra anglo-birmanesa, Yangon tinha substituído Sirião (Thanlyin) como a principal cidade porto do reino.

Judiciário[editar | editar código-fonte]

Para tratar do Direito agrário, Alaungpaya adotou em 1755, o Manu Kye dhammathat (Livro de Direito Manu Kye), uma compilação das leis e costumes existentes, e das decisões preservadas em livros de Direito anteriores. Embora o livro de Direito fosse mal organizado e oferecesse poucas explicações sobre passagens contraditórias, alcançou enorme popularidade, devido à sua natureza enciclopédica e por ser escrito em simples birmanês e com pouco de páli.[23]

Liderança[editar | editar código-fonte]

Alaungpaya era um militar carismático "líder de primeira qualidade", que inspirou profundamente o seu povo a fazer coisas maiores. Foi pródigo em seus elogios e recompensas, mas também punia impiedosamente os erros. De acordo com GE Harvey, "os homens sentiam que quando ele os comandava, eles não podiam falhar", e "ser chamado para uma de suas investiduras era a ambição de vida dos homens."[32]

Legado[editar | editar código-fonte]

Criação da Dinastia Konbaung[editar | editar código-fonte]

O legado mais importante de Alaungpaya foi a restauração do governo central na Birmânia, pela primeira vez em quatro décadas, e a criação da dinastia Konbaung. Alaungpaya, de acordo com o historiador birmanês Htin Aung, conduziu um povo "dividido e quebrado, humilhado e envergonhado" e "deixou para seus sucessores um povo unido e confiante, com a cabeça erguida novamente pelo orgulho e pela glória". Mas Htin Aung também adverte que Alaungpaya "levou o seu povo para a guerra, mas sua liderança ainda era extremamente necessária para travar uma paz. Ele tinha despertado seu povo para o calor da febre da nacionalismo, embora o tempo tenha lhe negado a oportunidade de acalmá-los pela tolerância e contenção". De fato, os autoconfiantes reis Konbaung que se seguiram a ele entrariam em guerra com todos os vizinhos nas próximas sete décadas contribuindo para a fundação do segundo maior império birmanês, até se depararem com os britânicos no atual nordeste da Índia.

As acusações sobre o nacionalismo birmanês[editar | editar código-fonte]

Alaungpaya é também chamado de o primeiro rei birmane por manipular conscientemente a identidade étnica como um meio de dominação militar e política. Até hoje, os nacionalistas Mon reponsabilizam-no pela destruição total do país Mon, e pelo fim de séculos de dominação Mon da Baixa Birmânia. Segundo o historiador nacionalista Mon, Tun Thein, "a opressão racial praticada por Alaungpaya foi pior do que a dos reis anteriores. Ele acabou com a autonomia cultural adotada pelos governantes birmaneses do período Pagan, e pelos reis Tabinshwehti e Bayinnaung, e colonizou o Estado Mon".[33]

As acusações precisam ser equilibradas com o fato de Alaungpaya apenas reagiu ao que o historiador Victor Lieberman chama de política "tristemente autodestrutiva" de polarização étnica da Restaurada Hanthawaddy. Foi o auto-proclamado reino Mon que primeiro atacou sua terra natal em 1752, e deu início às perseguições e pogroms contra a etnia birmane no sul a partir de 1740. (O novo reino do sul tinha se proclamado "como um reino essencialmente Mon, ordenado por profecia, onde a língua mon e os símbolos culturais iriam desfrutar de um lugar de destaque, e o norte birmanês se tornaria um vassalo". Cerca de 8.000 birmaneses foram massacrados apenas em 1740. Depois de executar um grande número de cativos Avan em 1754, a liderança Hanthawaddy obrigou todos os birmaneses a usarem um brinco com o carimbo do herdeiro aparente de Pegu e a cortarem os cabelos na moda Mon como um sinal de lealdade para com o reino do sul".)[34] Além do mais, enquanto Alaungpaya era impiedoso em seus saques a Sirião e Pegu, onde os fossos "ficaram vermelhos de sangue",[33] ele renomeou governadores mon em lugares, onde estes prometeram-lhe lealdade.

Ao todo, o governo de Alaungpaya na Baixa Birmânia durou menos de dois anos, a maioria dos quais ele passou em outro lugar guerreando. Na verdade, foram os últimos reis da dinastia Konbaung que cada vez mais suprimiram a cultura Mon a cada rebelião destes em 1762, 1774, 1783, 1792 e 1824-1826.[10]

Homenagens[editar | editar código-fonte]

Alaungpaya, como o fundador do Terceiro Império Birmanês,[35] é considerado um dos três maiores reis birmaneses, juntamente com Anawrahta e Bayinnaung, os fundadores do Primeiro e do Segundo Império Birmanês, respectivamente.

Família[editar | editar código-fonte]

Consortes[editar | editar código-fonte]

  1. Me Yun San, rainha consorte
  2. Shin Pyei
  3. Shin Min Du
  4. Thida Mahay
  5. Shin Kla
  6. Shin Shwe Kho Gyi
  7. Shin Shwe Kho Gale

Filhos[editar | editar código-fonte]

  1. Naungdawgyi, 1734–1763
  2. Hsinbyushin, 1736–1776
  3. Amyint Mintha, 1743–1777
  4. Bodawpaya, 1745–1819
  5. Pakhan Mintha, 1749–1802
  6. Sitha Mintha, 1753–1782
  7. Pindale Mintha, 1754–1785
  8. Myingun Mintha, morto em 1804
  9. Kodaw-gyi, morreu jovem
  10. Myawaddy Mintha, morto em 1792

Filhas[editar | editar código-fonte]

  1. Khin Myat Hla, morreu jovem
  2. Me Tha, Sri Maha Mangala Devi, princesa de Kanni, Kalewa, nascida em 1738
  3. Me Myat Hla, 1745–1788
  4. Me Sin, princesa de Pegu, 1747–1767
  5. Me Minkhaung, princesa de Pandaung
  6. Min Shwe Hmya, princesa de Zindaw, nascida em 1754
  7. Me Nyo Mya, princesa de Pin

Notas

  1. a b c d Buyers, Alaungpaya
  2. Hmannan, Vol. 3, p. 391
  3. Myint-U, p. 90
  4. a b c Myint-U, pp. 88–91
  5. Harvey, p. 243
  6. a b Phayre, pp. 149–150
  7. a b Harvey, pp. 220–221
  8. a b Phayre, pp. 150–152
  9. Harvey, pp. 222–224
  10. a b Lieberman, p. 202–206
  11. Phayre, p. 156
  12. Myint-U, pp. 94–95
  13. a b c d Harvey, p. 241
  14. Myint-U, pp. 100–101
  15. «Ancient Burmese golden letter deciphered in Germany». Earth Times. 30 de dezembro de 2010 
  16. «Burmese letter to King George II deciphered after more than 250 years». The Daily Telegraph. 14 de janeiro de 2011 
  17. Myint-U, pp. 92–93
  18. a b Harvey, p. 240
  19. Phayre, p. 168
  20. Harvey, p. 228
  21. Hall, Chapter X, p. 20
  22. Hall, Chapter X, p. 24
  23. a b c Harvey, pp. 238–239
  24. a b c Phayre, pp. 168–170
  25. a b Htin Aung, pp. 168–170
  26. Kyaw Thet, p. 290
  27. James, ed. Ooi, Chapter: Burma–Siam Wars, p. 302
  28. James, pp. 1318–1319
  29. Htin Aung, pp. 172–173
  30. Lieberman, pp. 184–187
  31. Lieberman, p. 205
  32. Harvey, pp. 236–237
  33. a b South, p. 80
  34. Lieberman, pp. 204–205
  35. Htin Aung, Chapter: Alaungpaya and the Third Burmese Empire, pp. 157–172

Referências

  • Este artigo incorpora texto da Encyclopædia Britannica (11ª edição), publicação em domínio público.
  • Wikisource-logo.svg Vários autores (1911). «Alompra, Aloung P'houra». In: Chisholm, Hugh. Encyclopædia Britannica. A Dictionary of Arts, Sciences, Literature, and General information (em inglês) 11.ª ed. Encyclopædia Britannica, Inc. (atualmente em domínio público) 
  • Hmannan Yazawin (em birmanês). 3 2003 ed. Yangon: Ministry of Information, Myanmar. 1829 
  • Christopher Buyers. «The Royal Ark: Burma -- Konbaung Dynasty» 
  • D.G.E. Hall (1960). Burma 3ª edição ed. [S.l.]: Hutchinson University Library. isbn 978-1406735031 
  • G. E. Harvey (1925). History of Burma: From the Earliest Times to 10 March 1824. Londres: Frank Cass & Co. Ltd 
  • Maung Htin Aung (1967). A History of Burma. Nova York e Londres: Cambridge University Press 
  • Helen James (2004). «Burma–Siam Wars». In: Keat Gin Ooi. Southeast Asia: a historical encyclopedia, from Angkor Wat to East Timor, Volume 2. [S.l.]: ABC-CLIO. isbn 1576077705 
  • Kyaw Thet (1962). History of Union of Burma (em birmanês). Yangon: Yangon University Press 
  • Thant Myint-U (2006). The River of Lost Footsteps--Histories of Burma. [S.l.]: Farrar, Straus and Giroux. isbn 978-0-374-16342-6, 0-374-16342-1 
  • Lt. Gen. Sir Arthur P. Phayre (1883). History of Burma 1967 ed. Londres: Susil Gupta 
  • Ashley South (2003). Mon Nationalism and Civil War in Burma: the Golden Sheldrake. [S.l.]: Psychology Press. isbn 0700716092 

Ligações externas[editar | editar código-fonte]


Alaungpaya
Nascimento: 24 de setembro de 1714 Morte: 11 de maio de 1760
Títulos reais
Precedido por:
Mahadhammaraza Dipadi
Rei da Birmânia
29 de fevereiro de 1752 – 11 de maio de 1760
Sucedido por:
Naungdawgyi