As Consequências Económicas da Paz

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The Economic Consequences of the Peace
Folha de rosto da edição americana de 1920
Autor(es) John Maynard Keynes
Idioma inglês
Género Economia, Diplomacia, Relações Internacionais

As Consequências Económicas da Paz (The Economic Consequences of the Peace) é uma obra de John Maynard Keynes escrita e publicada em 1919. Keynes participou da Conferência de Paz de Paris (1919) como representante do Tesouro britânico e foi defensor duma paz muito mais generosa. O livro teve um grande sucesso em todo o mundo e foi fundamental para criar a opinião geral de que o Tratado de Versalhes (1919) estabelecia condições rapaces para os derrotados.[1] Ajudou a consolidar a opinião pública americana contra o Tratado e o envolvimento na Sociedade das Nações. A percepção, por sua vez, por grande parte do público britânico de que a Alemanha tinha sido tratada injustamente foi um fator crucial no apoio público à política de apaziguamento de antes da II Guerra Mundial. O sucesso do livro estabeleceu a reputação de Keynes como um dos principais economistas especialmente à esquerda. Quando participou como elemento chave no estabelecimento do sistema de Bretton Woods em 1944, Keynes teve presente as lições de Versalhes, bem como as da Grande Depressão. O Plano Marshall após a II Guerra Mundial é um sistema semelhante ao proposto por Keynes em As Consequências Económicas da Paz.

Escrita do livro[editar | editar código-fonte]

Após sair da Universidade de Cambridge Keynes foi trabalhar no Tesouro britânico em 1915. Ele trabalhava diariamente no financiamento do esforço de guerra durante a I Guerra Mundial. Isto perturbava muitos dos membros pacifistas do Grupo de Bloomsbury de que Keynes fazia parte. Lytton Strachey enviou-lhe uma nota em 1916 perguntando a Keynes por que ainda estava a trabalhar no Tesouro.

Cemitério e ossário de Douaumont, na França, onde estão os restos mortais de mais de 130 mil soldados desconhecidos.

Keynes rapidamente ganhou reputação como um dos homens mais capazes do Tesouro tendo sido enviado à conferência de Versalhes como conselheiro ao Governo Britânico. Na preparação da conferência, ele argumentava que não deveria haver reparações de guerra, ou que, na pior das hipóteses, as reparações pelos alemães deveriam ser limitadas a £2.000 milhões. Ele considerava que deveria haver um perdão geral das dívidas de guerra, o que segundo ele beneficiaria a Grã-Bretanha. Por fim, Keynes queria que o governo dos EUA lançasse um vasto programa de crédito para relançar a Europa na prosperidade logo que possível.

A preocupação genérica de Keynes era que a Conferência de Versalhes deveria fixar as condições para a recuperação económica. No entanto, a conferência centrou-se sobre fronteiras e segurança nacional. As indemnizações foram fixadas num nível que Keynes percebeu que iriam arruinar a Europa. O presidente dos EUA Woodrow Wilson recusou-se a aprovar o perdão de dívidas de guerra e nem sequer permitiu que os representantes do Tesouro dos EUA analisassem o programa de crédito.

Durante a conferência a sua saúde deteriorou-se e Keynes foi forçado a renunciar com frustração à sua participação na Conferência em 26 de maio de 1919. Retirou-se para Cambridge onde escreveu As Consequências Económicas da Paz nos dois meses seguintes.

Conteúdo[editar | editar código-fonte]

A Conferência - Capítulo III[editar | editar código-fonte]

Keynes descreveu a conferência como um choque de valores e visões de mundo dos principais líderes intervenientes.[2]

Keynes descreve o Presidente Wilson como o guardião das esperanças dos homens de boa vontade de todos os países.

"Quando o Presidente Wilson deixou Washington desfrutava de um prestígio e uma influência moral inigualável na história do mundo. As suas palavras vincadas e ponderadas chegavam aos povos da Europa acima e além das vozes dos seus próprios políticos. Os povos do inimigo confiaram nele para concretizar o pacto que tinha feito com eles; e os povos aliados reconheciam-no não como um vencedor apenas, mas quase como um profeta. Além desta influência moral, as realidades do poder estavam nas suas mãos. Os exércitos americanos estavam no auge da sua dimensão, disciplina e equipamento. A Europa estava na completa dependência do abastecimento de comida pelos EUA; e financeiramente, estava ainda mais nitidamente à sua mercê. A Europa não só já devia aos Estados Unidos mais do que poderia pagar; apenas com uma grande medida de assistência adicional poderia salvar-se da inanição e da falência. Nunca um filósofo tinha disposto de tais armas com que pudesse sujeitar os príncipes deste mundo. Como as multidões das capitais europeias tentavam chegar à carruagem do Presidente! Com essa curiosidade, ansiedade e esperança, procurámos um vislumbre das características e postura do homem do destino que, vindo do Oeste, iria trazer a cura para as feridas do fundador antigo da sua civilização e lançar para nós as bases do futuro."

O primeiro-ministro francês Georges Clemenceau foi o principal artífice do resultado da Conferência. Keynes descreve a sua visão do seguinte modo:

"[Clemenceau] considerava que a guerra civil europeia deve ser vista como um estado de coisas normal, ou pelo menos recorrente, no futuro, e que o tipo de conflitos entre Grandes Potências conluiadas que ocuparam a última centena de anos também irá envolvê-las no próximo. De acordo com esta visão do futuro, a história europeia irá ser sempre uma luta pelo espólio, tendo a França ganho esta rodada, mas da qual guerra esta rodada certamente não será a última. Era a partir da convicção essencial de que a velha ordem não muda, de que é baseada na natureza humana que é sempre a mesma, e de um consequente ceticismo desse tipo de doutrina que defende a Sociedade das Nações, que a política da França e de Clemenceau derivava logicamente. Pois que uma paz de magnanimidade, ou de tratamento justo e igual, com base numa 'ideologia' como a dos Catorze Pontos do Presidente Wilson, só poderia ter o efeito de encurtamento do intervalo de recuperação da Alemanha e apressar o dia em que ela mais uma vez iria lançar sobre a França os seus maiores contingentes e os seus superiores recursos e habilidade técnica."

O Tratado - Capitulo IV[editar | editar código-fonte]

O cerne do livro são as duas profundas críticas de Keynes ao Tratado. Em primeiro lugar, ele argumenta como economista que a Europa não poderia prosperar sem um sistema económico equitativo, eficaz e integrado, e os termos económicos do Tratado impediam esse resultado. Em segundo lugar, os Aliados tinham-se comprometido no Acordo de Armistício a princípios críticos sobre reparações, ajustes territoriais e imparcialidade em matéria económica, e esses termos foram materialmente violados pelo Tratado.[3]

Keynes analisa os fatos em que o Armistício foi baseado como a aceitação pelos Aliados e Alemanha dos Catorze Pontos de Wilson e doutros termos referidos na feitura do Armistício.

" Em 5 de outubro de 1918, o governo alemão dirigiu uma breve Nota ao Presidente a aceitar os Catorze Pontos e pedindo negociações de paz. Na resposta de 8 de outubro, o Presidente perguntou se deveria entender sem qualquer dúvida que o governo alemão aceitava 'os termos plasmados' nos Catorze Pontos e nos seus subsequentes discursos e 'que o objetivo de entrar em discussão seria apenas acordar sobre os aspetos práticos da sua aplicação.' Ele acrescentou que a evacuação do território invadido deve ser uma condição prévia de um armistício. Em 12 de outubro, o governo alemão respondeu concordando incondicionalmente a estas perguntas; 'o seu objetivo ao entrar em negociações seria apenas para acordar os aspetos práticos da aplicação desses termos'. … A natureza do contrato entre a Alemanha e os aliados resultante deste intercâmbio de documentos é simples e inequívoca. Os termos da paz deverão estar de acordo com as propostas do Presidente, e o propósito da conferência de paz é “discutir os detalhes da sua aplicação”. As circunstâncias do contrato foram de carácter excecionalmente solene e vinculativo; para uma das condições do mesmo, a Alemanha teria de concordar com os termos do armistício que estavam a ser tais que estavam a deixá-la desprotegida. Tendo-se a Alemanha rendido indefesa e confiando no contrato, a honra dos aliados estava peculiarmente envolvida no cumprimento da sua parte e, se houvesse ambiguidades, em não usar a sua posição para tirar proveito delas."

Assinatura do Tratado de Versalhes no Palácio de Versalhes, por William Orpen.

Keynes sintetiza os aspetos mais importantes dos Catorze Pontos e outras propostas de Wilson que faziam parte do acordo de Armistício.

"Os Catorze Pontos – (3) "A remoção, tanto quanto possível, de todas as barreiras económicas e o estabelecimento de uma igualdade das condições de comércio entre todos os países que acordam a paz e se associam para a sua manutenção." (4) "Dar e receber garantias adequadas de que os armamentos nacionais serão reduzidos ao mínimo compatível com a segurança nacional." (5) "Um ajustamento livre, de espírito aberto e absolutamente imparcial de todas as reivindicações coloniais", atendendo aos interesses das populações em causa. (6), (7), (8) e (11) A evacuação e a 'restauração' de todo o território invadido, especialmente da Bélgica. A isto deve juntar-se a exigência dos aliados da indemnização de todos os danos causados a civis e aos seus bens por terra, mar e ar (citado na íntegra acima). (8) A retificação do "mal feito à França pela Prússia em 1871, na questão da Alsácia-Lorena". (13) Uma Polónia independente, incluindo "os territórios habitados por populações indiscutivelmente polacas" e "assegurado um acesso livre e seguro para o mar". (14) A Sociedade das Nações."

" Antes do Congresso, 11 de fevereiro – 'Não deve existir qualquer anexação, nenhumas contribuições, nenhuns danos punitivos… A autodeterminação não é uma simples frase. É um princípio imperativo da ação que se os estadistas doravante ignorarem será por sua conta e risco... Todos os ajustamentos territoriais envolvidos nesta guerra devem ser feitos no interesse e em benefício das populações em causa, e não como parte de qualquer mero ajustamento ou solução de exigências entre Estados rivais..' "

" Nova Iorque, 27 de setembro – (1) 'A justiça imparcial a implantar não deve envolver discriminação alguma entre aqueles a quem queremos ser justos e aqueles a quem não queremos ser justos'. (2) 'Nenhum interesse especial ou separado de qualquer país isolado ou qualquer grupo de países pode sevir de base de qualquer parte do acordo que não seja consistente com o interesse comum de todos' (3) 'Não pode haver ligas ou alianças ou convénios especiais e entendimentos no seio da família geral e comum da Sociedade das Nações.' (4) 'Não pode haver quaisquer combinações económicas egoístas especiais dentro da Sociedade e nem o emprego de qualquer forma de boicote económico ou exclusão, exceto como o poder de sanção económica ou exclusão, exceto o poder de penalização económica pela exclusão dos mercados do mundo exercido pela própria Sociedade das Nações como meio de disciplina e controle.' (5) 'Todos os acordos e tratados internacionais de todo o tipo devem ser dados a conhecer na sua totalidade ao resto do mundo.'"

Keynes aponta a violação material dos termos sobre reparações, ajustes territoriais e ajustamento económico equitativo como uma mancha na honra dos aliados ocidentais e a principal causa de uma guerra futura. Tendo em conta que ele escreveu em 1919, a previsão de Keynes de que a próxima guerra começaria dentro de vinte anos, teve uma precisão incrível.

A Europa após o Tratado - Capítulo VI[editar | editar código-fonte]

Keynes delineou as causas da inflação elevada e da estagnação económica na Europa do pós I Guerra Mundial em As Consequências Económicas da Paz:[4]

"Diz-se que Lenine terá declarado que a melhor forma de destruir o Sistema Capitalista era corromper a moeda. Por um processo contínuo de inflação, os governos podem confiscar, de modo secreto e não observado, uma parte importante da riqueza dos seus cidadãos. Por esse método, não só confiscam, como confisquem de forma arbitrária; e, enquanto o processo empobrece muitos, de facto enriquece alguns... Lenine tinha certamente razão. Não há meio mais sutil e mais seguro de destruição da base existente da sociedade do que corromper a sua moeda. O processo põe em ação todas as forças ocultas das leis económicas no sentido da destruição e faz isso de uma forma que nem um homem em 1 milhão é capaz de descortinar."

Keynes explicitamente apontou para a relação entre a impressão de papel moeda pelos governos e a inflação:

"O inflacionismo dos sistemas monetários da Europa atingiu níveis extraordinários. Os vários Governos beligerantes, incapazes, ou muito tímidos ou muito míopes, de obter de empréstimo ou por impostos os recursos de que necessitavam, imprimiram notas para equilíbrio das contas."

Keynes também revelou como os controles de preços pelo governo desencorajam a produção:

"A imprudência de um valor falsificado para a moeda, por força de lei expressa na regulação de preços, contém em si, contudo, as sementes da decadência económica final e rapidamente seca no limite as fontes da oferta. Se uma pessoa é obrigada a trocar os frutos do seu trabalho por papel que, como a experiência em breve o ensinará, não pode usar para comprar o que ele necessita a um preço comparável ao que ele recebeu pelos seus próprios produtos, ele irá ficar com a sua produção para si mesmo, ou oferecê-la aos seus amigos e vizinhos como um favor, ou reduzirá os seus esforços a produzi-la. Um sistema que obriga a troca de mercadorias por aquilo que não é o seu valor relativo real, não só reduz a produção, como conduz finalmente ao desperdício e à ineficiência da troca directa."

Keynes esclareceu a relação entre os défices do estado alemão e a inflação:

"Na Alemanha o total das despesas do Império, dos Estados federais e dos municípios em 1919-20 é estimado em 25 mil milhões de marcos, dos quais não mais de 10 mil milhões estão cobertos por impostos fixados anteriormente. Isto sem considerar qualquer pagamento de indemnizações. Na Rússia, Polónia, Hungria ou Áustria não poderia considerar-se seriamente a possibilidade de existir um tal orçamento."

"Assim, a ameaça de inflacionismo descrita acima não é meramente um produto da guerra, que a paz começa a curar. É um fenómeno contínuo, cujo fim ainda não se vislumbra."

Keynes termina com este aviso sinistro:

"Mas quem pode dizer até que ponto será suportável, ou que direção os homens tomarão finalmente para escapar às suas desgraças?"

Sucesso[editar | editar código-fonte]

O livro foi lançado no Reino Unido no final de 1919 e nos EUA em 1920 tendo tido um grande sucesso de imediato nos dois lados do Atlântico. Os retratos contundentes de Wilson, Lloyd George e Georges Clemenceau tornaram-se muito populares e a obra consolidou a reputação pública de Keynes como um economista de vanguarda. Em seis meses, o livro vendeu 100.000 cópias e teve traduções em 12 línguas. Restaurou a reputação de Keynes junto do grupo de Bloomsbury, que tinha sido manchada pelo seu trabalho para o Tesouro durante a guerra. Keynes retornou a Cambridge para trabalhar como economista, onde era considerado o principal aluno de Alfred Marshall.

Impacto na participação americana na Sociedade das Nações[editar | editar código-fonte]

Além de ter tido grande sucesso em termos de vendas, verificou-se que o livro teve grande influência na opinião pública nos EUA. O livro foi lançado pouco antes do Senado dos EUA apreciar o Tratado de Versalhes e confirmou as teses dos senadores ditos "irreconciliáveis" de que a participação americana na Sociedade das Nações não era aconselhável. O livro também aumentou as dúvidas dos "reservacionistas", liderados por Henry Cabot Lodge, sobre os termos do Tratado e gerou dúvidas nas mentes dos apoiantes de Wilson. Lodge, o líder republicano do Senado, compartilhava as preocupações de Keynes sobre a severidade do Tratado para com a Alemanha e estava convicto que teria de ser renegociado no futuro. As Consequências Económicas da Paz jogou um papel crítico no virar da opinião pública americana contra o Tratado de Versalhes e a Sociedade das Nações, embora fosse a má gestão por Wilson da questão, devido a um grave problema de saúde, que acabaria por levar a que os EUA não participassem na Sociedade das Nações.

Impacto na opinião pública britânica face ao Tratado de Versalhes[editar | editar código-fonte]

O retrato por Keynes do Tratado de Versalhes como uma 'paz imposta a Cartago' rapidamente se tornou na ortodoxia dos círculos acadêmicos e era opinião corrente no público britânico. Acreditava-se amplamente, na Grã-Bretanha, que os termos do Tratado de Versalhes foram injustos. Isto, por sua vez, influenciou o delinear da resposta às tentativas de Adolfo Hitler para anular o Tratado de Versalhes, especialmente no período que levou ao Acordo de Munique. Na Alemanha, o trabalho de Keynes confirmou o que a esmagadora maioria do povo já pensava: ou seja, que o Tratado de Versalhes foi injusto. A França estava relutante em usar as forças armadas para impor o Tratado de Versalhes sem o apoio do governo britânico. Antes do final de 1938, a dimensão da oposição pública à perspectiva de envolvimento noutra guerra tornava impensável o apoio britânico à posição francesa.

Neville Chamberlain, 1º ministro britânico, na chegada a Londres após a assinatura com Hitler do Acordo de Munique

Étienne Mantoux criticou o impacto do livro de Keynes no seu livro A Paz Cartaginesa, ou as Consequências Económicas do Sr. Keynes (The Carthaginian Peace, or the Economic Consequences of Mr. Keynes), dizendo que este fez mais do que qualquer outro escritor para desacreditar o Tratado de Versalhes. Mantoux comparou The Economic Consequences of the Peace à obra Reflections on the Revolution in France (Reflexões sobre a Revolução em França) de Edmund Burke por causa da influência imediata na opinião pública. No seu livro, Mantoux procurou desacreditar as previsões de Keynes do que seriam as consequências do Tratado. Por exemplo, Keynes acreditava que a produção de ferro na Europa diminuiria, mas em 1929 a produção de ferro na Europa foi superior em 10% à de 1913. Keynes previu que a produção de ferro e de aço na Alemanha diminuiria, mas em 1927 a produção de aço aumentou 30% e a de ferro 38% relativamente a 1913 (dentro das fronteiras de antes da guerra). Keynes também argumentou que a eficiência de mineração de carvão alemão diminuiria, mas a eficiência do trabalho em 1929 tinha aumentado 30% relativamente a 1913. Keynes afirmava que a Alemanha seria incapaz de exportar carvão imediatamente após o Tratado, mas as exportações líquidas de carvão pelos alemães foram de 15 milhões de toneladas passado um ano e em 1926 a tonelagem exportada atingiu 35 milhões. Ele também anteviu que a poupança nacional alemã nos anos posteriores ao Tratado seria inferiores a 2 mil milhões de marcos: no entanto, em 1925 o montante da poupança nacional alemã foi estimado em 6,4 mil milhões de marcos e em 1927 de 7,6 mil milhões de marcos. Keynes também pensava que a Alemanha seria incapaz de pagar os 2 mil milhões de marcos adicionais em reparações nos próximos 30 anos, mas Mantoux contestou referindo que a despesa alemã com rearmamento foi anualmente sete vezes esse montante entre 1933 e 1939.[5]

Durante a década iniciada em 1930, Keynes foi dos primeiros defensores do rearmamento para conter o que ele referia como “as forças salteadoras” (brigand powers) da Alemanha, do Japão e da Itália. Em julho de 1936, Keynes enviou uma carta ao editor do New Statesman dizendo que "o estado inadequado de armamento da nossa parte apenas pode incentivar as forças salteadoras que não conhecem outro argumento que não o da força, e que serão trunfos, a longo prazo, nas mãos de quem gostaria que aquiescêssemos por inação com o que esses poderes fizessem, conforme lhes agradasse, no mundo".

Concretização das ideias no pós II Guerra Mundial[editar | editar código-fonte]

Keynes continuou a ser um conselheiro do governo britânico altamente influente durante a II Guerra Mundial. Ele foi o chefe da equipa negocial britânica que negociou o Acordo de Bretton Woods, em 1944, ainda decorria a II Guerra Mundial. Em geral, o Acordo de Bretton Woods estabeleceu um sistema monetário semelhante ao proposto por Keynes em As Consequências Económicas da Paz.

A política seguida pelas potências vencedoras na II Guerra Mundial teve em conta as lições do que se seguiu à anterior guerra, designadamente as ideias de Keynes quanto a indeminizações pelos vencidos e a política de reconstrução na Alemanha e dos países vencedores através do financiamento pelos EUA com o Plano Marshall.

O sistema criado no pós II Guerra Mundial conduziu a um dos maiores crescimentos da prosperidade na história da humanidade. No período de 1948 a 1971, o comércio mundial aumentou a uma taxa anual média de 7,2% e a produção industrial cresceu a uma média de 5,6% ao ano. O que contrasta com o período entre as duas guerras mundiais em que o comércio mundial diminuiu de facto na década de 1930 e a produção industrial mundial cresceu com oscilações na década de 1920 e depois foi atingida pela depressão.

Notas[editar | editar código-fonte]

  1. Condições gravosas comparáveis às fixadas por Roma a Cartago no final da Batalha de Zama com que terminou a Segunda Guerra Púnica
  2. The Economic Consequences of the Peace, 1920, Harcourt Brace, Capitulo III, http://www.gutenberg.org/files/15776/15776-h/15776-h.htm
  3. The Economic Consequences of the Peace, Capitulo IV
  4. The Economic Consequences of the Peace, Capitulo VI
  5. Heilperin, Michael A., The Carthaginian Peace, or the Economic Consequences of Mr. Keynes by Étienne Mantoux, The American Economic Review, 36 (5): 930-934 (Dez. 1946), http://www.jstor.org/stable/1801820 .

Referências[editar | editar código-fonte]

  • Keynes, John Maynard (1920). The Economic Consequences of the Peace. New York: Harcourt Brace | http://www.gutenberg.org/files/15776/15776-h/15776-h.htm
  • Harrod, Roy Forbes (1951). The Life of John Maynard Keynes. [S.l.]: Macmillan 
  • Johnson, Paul (1991). A History of the Modern World: From 1917 to the 1990s. London: George Weidenfeld & Nicolson Ltd 
  • Mantoux, Étienne (1946). The Carthaginian Peace: Or the Economic Consequences of Mr Keynes. [S.l.]: Oxford University Press 
  • Skidelsky, Robert (1994). John Maynard Keynes: Hopes Betrayed 1883–1920. [S.l.]: Penguin 
  • Skidelsky, Robert (2002). John Maynard Keynes: Fighting for Freedom 1937–1946. [S.l.]: Penguin 

Ligações externas[editar | editar código-fonte]

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Nota[editar | editar código-fonte]