Ataúlfo

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Ataúlfo
Rei visigótico
Ataúlfo, rei dos visigodos por Raimundo Madrazo, 1858. (Museu do Prado, Madri)
Reinado 410-415
Antecessor(a) Alarico I
Sucessor(a) Sigerico
Dinastia dos Baltos
Morte 14 de agosto de 415
  Barcelona
Cônjuge(s) Irmã de Alarico I
Gala Placídia
Filho(s) Crianças de nome desconhecido (esposa 1)
Teodósio (Gala Placídia)
Pai Alavivo ou Modares

Ataúlfo (em gótico: Aþawulfs, Athavulf[1] e Atawulf[2] , lit. "lobo nobre";[3] em latim: Ataulphus), também mencionado como Atavulfo (em latim: Atavulfus), Atiulfo (em latim: Atiulfus), Adaulfo (em latim: Adaulfus)[4] ou Adolfo (em latim: Adolphus)[5] foi rei visigótico entre 410 e 415. Membro dos Baltungos através do casamento de sua irmã de nome desconhecido com Alarico I (r. 395–410), com a morte de seu cunhado em 410 foi nomeado rei. Sob seu reinado, os visigodos deram continuidade à sua migração, partindo da Itália à Gália, onde se instalaram permanentemente e criariam o embrião do posterior Reino Visigótico.

Biografia[editar | editar código-fonte]

Família[editar | editar código-fonte]

Era possivelmente filho de Alateu,[6] um dos nobres góticos que participaram na Batalha de Adrianópolis de 378 na qual o imperador romano Valente pereceu,[7] ou Modares, outro nobre gótico que serviu os romanos durante a Guerra Gótica de 376–382. Segundo Garcia Moreno e Herwig Wolfram, era membro da dinastia dos Baltos através do casamento de Alarico I (r. 395–410) com uma irmã sua e também por nascimento, implicando que seu pai também fosse membro.[6][8] Em 1 de janeiro de 414, Ataúlfo casar-se-ia com Gala Placídia, irmã do imperador romano ocidental Honório (r. 395–423), que havia sido capturada pelos visigodos durante o Saque de Roma de 410. O casamento ocorreu em Narbo (atual Narbona) sob instigação de Candidiano[9] na residência de Ingênuo.[10] Eles tiveram um filho chamado Teodósio que morreu jovem em 415.[11][12]

Origens[editar | editar código-fonte]

Uma das primeiras menções nos textos históricos a Ataúlfo antes de sua coroação o situa na região da Panônia no comando de um exército misto de germânicos e hunos em 408; Thomas S. Burns acha que era um tribuno da gente (tribunus gentis) e prepósito do limite (praepositus limitis).[13] Em 409, cruzou os Alpes e atravessou a região do Vêneto com o objetivo de prestar apoio militar a Alarico, que à época estava negociando com o imperador Honório (r. 395–423) em Ravena (então capital do Império Romano do Ocidente);[14][15] é possível que sua travessia tenha sido acelerada com a nomeação de Generido como conde da Ilíria.[16] Na Itália dirigiu-se à Pisa, onde encontrou um exército de hunos comandado por Olímpio e foi derrotado e sofreu ca. 1 100 baixas.[12][13]

Apesar disso, seu contingente foi capaz de unir-se ao de Alarico.[15] No mesmo ano, após não conseguir acordar a paz com Honório, Alarico reuniu suas tropas e tentou tomar Roma pela segunda vez. O usurpador Prisco Átalo (r. 409–410), escolhido pelo senado após o ataque de Alarico e talvez sob sua instigação, nomeou Ataúlfo conde dos domésticos equestres,[17][18] posição que reteria até o ano seguinte. Ainda em 409, Ataúlfo e Alarico foram convidados pelo general Jóvio a participarem das discussões de paz presididas em Arímino e Ataúlfo liderou um grande exército contra seu inimigo pessoal Saro e seus 300 homens em Piceno;[12] Herwig Wolfram, considerando que Ataúlfo comandou hunos na Panônia, acha que essa rixa se originou no ataque de Saro à guarda huna de Estilicão em 408.[19]

Rei dos visigodos[editar | editar código-fonte]

Soldo de Honório (r. 395–423)
Soldo de Prisco Átalo (r. 409; 414—415)

A paz entre visigodos e romanos não foi alcançada e Alarico liderou um último cerco a Roma que culminou, em 24 de agosto de 410, no saque da cidade durante três dias.[17] Inúmeras pessoas de prestígio foram capturadas, dentre elas Gala Placídia, irmã dos imperadores Honório e Arcádio (r. 395–408) e filha de Teodósio, o Grande (r. 378–395), que ficou sob custódia de Ataúlfo.[20] Após o saque, os godos se dirigiram para o sul através da Campânia com objetivo de invadir a Sicília, mas foram impedidos pelo naufrágio de sua frota. No caminho de volta, Alarico adoeceu e veio a falecer em Consência (atual Cosença), em Brútio.[21] Com sua morte sem descendentes varões, Ataúlfo foi nomeado como seu sucessor, porém provavelmente sob concorrências de outros pretendentes.[22]

Apesar dos poucos registros sobreviventes desse período se sabe que pelo tempo de sua nomeação, os visigodos ainda perambulavam pela Itália, sobretudo na Calábria, onde se dedicaram a arrasar a região.[22] Ataúlfo seguiu os planos de Alarico e tentou invadir a Sicília na tentativa de mover-se para a África proconsular, mas falhou. Isso forçou-o a continuar na Itália e, inevitavelmente, negociar com os romanos para manter e alimentar sue povo. Nesse contexto, Ataúlfo e os visigodos uniram-se às lutas de poder a favor e contra a corte de Honório, a presença habitual de usurpadores e as forças centrífugas dispersas em diversas cidades e regiões da Gália, Hispânia e Britânia.[14]

Em 412, em algum momento antes da lei imperial de 8 de maio de 413,[a] Ataúlfo organizou seu povo e marchou pela via Aurélia em direção aos Alpes de onde foi expulso para fora da Itália pelo general Constâncio;[23][24] outros autores sugerem que sua partida ocorreu após o rei conseguir um acordo com o general no qual enfrentaria os usurpadores romanos do sul da Gália em nome de Ravena.[25] Rumou à Gália para onde se deslocou com o usurpador Prisco Átalo e Gala Placídia, que permaneceu cativa até aceitar casar-se com ele em 414.[12] Lá, contactou o usurpador Jovino (r. 411–413) e ofereceu-lhe seus serviços, porém interrompeu as negociações quando seu rival Saro fez o mesmo. Aproveitando-se da situação, Jovino aclamou seu irmão Sebastiano (r. 412–413), o que incitou Ataúlfo a reabrir negociações com Honório;[23][26][27] os autores da PIRT realçam o papel do prefeito pretoriano da Gália Cláudio Póstumo Dardano nesses eventos.[12] As tropas lealistas prometeram em nome de Honório assentar os godos na Gália Aquitânia (talvez como federados) e supri-los com cereais.[28] Ataúlfo então sitiou e capturou Jovino em Valência Júlia (atual Valence) em 413.[23][29][30]

Soldo de Jovino (r. 411–413)
Síliqua de Sebastiano (r. 412–413)

Apesar de ter chegado a termos com Honório, sua relação com os romanos deteriorou na Gália e novos conflitos foram deflagados, pois a revolta de Heracliano na África impediu o imperador de cumprir sua promessa de enviar suprimentos.[31][32] Em 413, os visigodos capturaram as cidades de Narbona, Tolosa e Burdígala (atual Bordéus)[33][34] e no final desse ano Ataúlfo foi ferido durante um ataque romano liderado por Bonifácio em Marselha.[12] No começo de 414, Ataúlfo casou-se com Gala e Prisco Átalo fez um poema matrimonial (epitalâmio). No final do mesmo ano, o general Constâncio bloqueou os godos, levando Ataúlfo a nomear Átalo como augusto em retaliação. O bloqueio, contudo, foi eficiente e os visigodos foram obrigados a se deslocar para a Hispânia em 415.[23] Átalo foi preso nesse processo e Burns acha que sua captura foi fruto de um acordo entre Constâncio e Ataúlfo.[35]

Ataúlfo atravessou os Pirineus e instalou sua corte em Barcino (atual Barcelona), na Tarraconense, local onde nasceu seu filho com Gala e que foi nomeado em memória de seu avô Teodósio como um testemunho do interesse de vincular os visigodos na linhagem romana.[36][37] A criança, entretanto, faleceu alguns meses depois[33] e isto foi visto mais tarde como o cumprimento de uma profecia de Daniel que, segundo Idácio de Chaves, dizia: "a filha de um rei do Sul se juntou em casamento a um rei do Norte, e não resta nenhum filho de sua união."[38][39]

Sediados em Barcino, os visigodos deram prosseguimento a seu conflito com os vândalos da Hispânia que havia sido iniciado em 413. Burns sugere que a última campanha chefiada por Ataúlfo, provavelmente sob acordo com os romanos, foi contra os vândalos asdingos, mais tarde assentados na Galécia, onde, segundo a Gética do escritor bizantino do século VI Jordanes, Ataúlfo repeliu os vândalos.[40] Apesar disso, a situação no território hispânico não melhorou, pelo contrário, os visigodos continuaram encurralados e os portos de Tarraconense foram bloqueados pela marinha romana, impedindo o abastecimento dos godos.[15]

Morte[editar | editar código-fonte]

Ataúlfo, rei godo por Vicente Carducho, 1634-1635 (Museu do Prado, Madri)
Retrato de Ataúlfo segundo o livro de 1782 Retratos dos Reis de Espanha desde Atanarico até nosso monarca católico Dom Carlos III

Vários notáveis aconselharam o rei a atravessar o estreito de Gibraltar à África, mas Ataúlfo declinou enfatizando seu plano para chegar a um acordo com Honório; a insistência do rei piorou o mal-estar patente que existia entre a nobreza goda contrária a negociar ou cooperar com os romanos.[15] Seguindo sua política de cooperação e aproximação com os romanos, Ataúlfo foi assassinado em 14 de agosto de 415 (ou 416 segundo Isidoro de Sevilha[41]) nos estábulos do palácio de Barcino, durante uma inspeção aos cavalos, vítima de uma conspiração provavelmente arquitetada por Sigerico.[42][43] Sua morte foi anunciada em Constantinopla em 24 de setembro.[44][45]

Talvez foi assassinado por uma pessoa de seu próprio séquito chamado Dúbio ou Eberulfo que havia sido ridicularizado pelo monarca, mas não obstante este fato uma razão mais provável teria sido uma revanche pelo assassinato de Saro, possível irmão de Sigerico;[46] para Isidoro o destino de Ataúlfo foi decidido pela acusação de colaborar e buscar a paz com os romanos.[41] Na verdade, Sigerico foi chefe do partido gótico anti-romano e era inimigo do monarca, bem como opositor da dinastia dos Baltos a qual Alarico e Ataúlfo pertenciam.[42][47]

Parece que Ataúlfo não morreu no local do atentado e em seu leito de morte nomeou seu irmão mais novo como sucessor,[15] mas Sigerico conseguiu sucedê-lo mesmo assim. Apesar disso, seu reinado durou apenas uma semana, o suficiente para ordenar matar os seis filhos do primeiro matrimônio de Ataúlfo e molestar a viúva Gala,[42][48] que foi obrigada a caminhar 19 quilômetros à pé com outros prisioneiros.[49]

Legado[editar | editar código-fonte]

E. A. Thompson considera que a morte de Alarico e a subsequente sucessão por Ataúlfo reviveu antigos conflitos no seio da aristocracia visigótica que já haviam sido notados desde ao menos o período de Fritigerno. Segundo o que se sabe, Ataúlfo criou um séquito composto sobretudo por romanos e repetidamente teria dito a eles, como alega Paulo Orósio, que pretendia destruir pela força militar o Império Romano (România), criar um Império Gótico (Gótia) e se tornar aquilo que Augusto havia sido.[50] Porém, mais adiante, Ataúlfo mudou seus planos e decidiu "restaurar e estender o Império Romano pela glória dos godos [...] e ser lembrado pela posteridade como o autor da renovação de Roma".[51][b]

Outrossim, segundo outra passagem de Orósio, Ataúlfo via as leis como pré-requisitos para a civilização e a estadualidade e preocupava-se com a desobediência dos godos às leis devido a sua "barbaridade desenfreada".[52] Concordando com os temores do monarca, E. A. Thompson frisa que em sociedades tribais não havia "leis" como concebidas pelos romanos, pois o líder militar da confederação tribal era apenas o agente do conselho confederado e não o governante autocrático que podia agir como fonte da lei.[50] Desse modo, Ataúlfo formou seu plano para fortalecer sua própria posição contra a de seus apoiantes, pois não poderia impor o governo das leis sob o antigo sistema da vila e dos conselhos confederados e dos chefes com influência em vez de poder;[53] ele não estava contente com a posição de outros líderes visigóticos anteriores como Atanarico e talvez seu plano fosse o único caminho possível de ser seguido pelos godos após entrarem no Império Romano.[54] Para Ataúlfo as leis não deviam ser banidas de um Estado (res publica), pois não havia Estado sem lei;[55][56] John Matthews vê o Breviário de Alarico como a execução desse projeto.[57]

Um dos principais objetivos de Ataúlfo era assentar permanentemente seu povo, feito que não conseguiu realizar em vida. Apesar disso, ele deixou os visigodos numa situação na qual seu sucessor Vália (r. 215–218) pôde restabelecer a paz com os romanos e acordar a transferência dos godos à Aquitânia Segunda. A transferência foi iniciada por 418, mas devido sua morte nesse ano ela foi concluída por seu sucessor Teodorico I (r. 418–451).[58] Além disso, como lembrado pela historiadora Marjorie Lightman, Ataúlfo havia solicitado a seu irmão em seu leito de morte que sua esposa Gala Placídia fosse devolvida à corte romana. Vália realizou isso e em troca da devolução de Gala e de ações militares contra os invasores vândalos, alanos e suevos na Hispânia, os godos receberam um suprimento de 600 000 medidas de cereais.[49]

Interior do Templo de Valhala. A placa de Ataúlfo é a terceira da direita para a esquerda na fileira superior
Estátuas de Ataúlfo e Eurico (r. 466–484) por Felipe de Castro, 1750-1753. Praça do Oriente, Madri

Quando o romantismo nacional alemão floresceu no século XIX, Ataúlfo foi um dos germânicos glorificados no pomposo Templo de Valhala erguido pelo rei da Baviera Luís I (r. 1825–1848) próximo de Ratisbona. Sua placa memorial (na qual aparece em alemão como Athaulf) é a nona dum total de 64.[59] Ataúlfo também foi lembrado em gravuras, esculturas e impressões feitas ao longo dos séculos, bem como alguns quadros expostos nos museus europeus. Dentre os exemplares existentes estão a gravura feita em 1684 por Giovanni Giacomo de Rossi em Roma,[60] o retrato de 1685 feito em Roma por Ciro Ferri[61] e a gravura feita em Valência em 1739 por Rafael Ximeno y Planes e Benito Monfort.[62]

Avaliação[editar | editar código-fonte]

Peter Heather lembra que Ataúlfo conseguiu através de suas ações angariar considerável apoio das elites latifundiárias locais,[63] bem como que seu envolvimento nos assuntos imperiais tinha como propósito obter o prestígio advindo disso.[64] Ian N. Wood, por sua vez, comenta que a união de Ataúlfo e Gala Placídia e a do rei franco Teodeberto I (r. 533–548) e a galo-romana Deotéria são exemplos da união entre as famílias aristocráticas provinciais romanas e as germânicas numa realidade onde os interesses em comum eram suficientes para facilitar o entendimento mútuo através de casamentos e outras uniões.[65]

Guy Halsall considerou que Ataúlfo foi o primeiro líder dos visigodos a utilizar regularmente o título de rei, enquanto Alarico utilizou-o esporadicamente.[66] Thomas S. Burns avalia que Ataúlfo teve que definir-se como rei o que, aos olhos dos romanos, o fez um fora da lei e um usurpador. Por conta disso, constantemente pretendeu ceder sua posição em troca do reconhecimento imperial, mas a corte de Honório não lhe deu ouvidos.[67] Além disso, Burns vê a nomeação de Átalo como imperador na Gália uma chance de Ataúlfo se reintegrar na hierarquia imperial com a confirmação de um ofício militar, talvez mestre dos dois exércitos (magister utriusque militiae), e para presidir seu casamento com Gala.[68]

Notas[editar | editar código-fonte]

[a] ^ A lei imperial de 8 de maio de 413 reduziu os impostos da Campânia, Toscana, Piceno, Sâmnio, Apúlia, Calábria, Lucânia e Brútio.[28]
[b] ^ A. D. Lee sugeriu que essa mudança de atitude com relação ao Império Romano se deveu à influência de Gala Placídia.[51] Tal posicionamento é contrariado por E. A. Thompson que considera que ele já havia organizado seu plano de incorporar os visigodos ao império antes do casamento e que ela talvez somente o apoiou.[69] Jonathan J. Arnold, por sua vez, sugeriu que seria mais plausível deduzir que Gala poderia ter agido no sentido oposto, ou seja, tentando convencer Ataúlfo a abandonar seus planos de emular Augusto.[70]

Ver também[editar | editar código-fonte]

Precedido por
Alarico I
Rei visigótico
410415
Sucedido por
Sigerico

Referências

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