Cabo Anselmo

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José Anselmo dos Santos, conhecido na história recente do Brasil como Cabo Anselmo (Itaporanga d'Ajuda, 13 de fevereiro de 1942), é um ex-militar brasileiro, líder durante a Revolta dos Marinheiros, que deu início à série de eventos que culminariam na derrubada do presidente eleito João Goulart pelo golpe de Estado de 1964, e na ditadura militar que governaria o Brasil nos vinte e um anos seguintes.

Agente infiltrado das forças de repressão do governo militar, Anselmo coletava e fornecia aos militares informações que lhes permitiram capturarem guerrilheiros e opositores da esquerda, incluindo sua noiva, que, mesmo grávida, foi brutalmente torturada e morreria em uma prisão militar.[1]

Ações durante a ditadura militar[editar | editar código-fonte]

Após o golpe de Estado de 1964, Anselmo foi julgado pelos militares por sua participação na Revolta dos Marinheiros, e expulso da Marinha pelo crime de motim e revolta. Chegou a ser preso, mas "fugiu",[2] exilando-se por último em Cuba e voltando ao Brasil somente em 1970, quando tornou-se membro atuante do movimento guerrilheiro brasileiro que combatia a ditadura. Acabou preso por Sérgio Paranhos Fleury e levado para o Dops.

Somente após esta prisão, Anselmo reconhece ter aceitado trabalhar para o Governo Militar, quando infiltrou-se em grupos de esquerda e movimentos sindicalistas. Porém, haviam suspeitas de que antes de 1964, Anselmo já fosse um agente infiltrado nesses movimentos, sendo sua função fornecer informações para os órgãos de repressão do governo. Tal suspeita tem base em depoimentos como o do policial Cecil Borer, ex-diretor do DOPS do Rio de Janeiro.[3] Cecil afirma que Cabo Anselmo já possuía treinamento específico para trabalhos de infiltração antes do golpe militar. Apesar de negativas de Cabo Anselmo e seus apoiadores, há evidências documentais das próprias forças armadas que ele realmente já fosse agente de infiltração, antes de 1964 e da revolta dos marinheiros. Teria se tornado militante radical de esquerda a partir de 1970, e depois, participou da morte dos próprios companheiros de esquerda, [4] [5] [6]

Mesmo considerada apenas sua atuação assumida como agente da repressão, Anselmo levantou com sucesso uma grande quantidade de dados sobre os movimentos dos guerrilheiros brasileiros, resultando na prisão, morte e tortura de vários de seus integrantes. Entre eles, estava a noiva de Anselmo, Soledad Barrett Viedma, grávida de quatro meses[7] . Mesmo assim, Anselmo a entregou para o delegado Sérgio Paranhos Fleury. Soledad não resistiu as torturas e morreu.[8] .

Após sua função de agente infiltrado ser descoberta pelos guerrilheiros, Anselmo desapareceu entre 1972 e 1973, época que foi dado oficialmente como morto, pelas forças de segurança do Governo Militar.

Volta após a redemocratização[editar | editar código-fonte]

A desconfiança a respeito de sua morte desapareceu a partir do momento em que o Cabo Anselmo foi entrevistado pelo jornalista Octavio Ribeiro, com sua publicação pela Revista Isto É, na edição de 28 de março de 1984.

Foi entrevistado pelo jornalista Percival de Souza, em 1999. Em 30 de agosto de 2009, Cabo Anselmo participa do programa Canal Livre, da Rede Bandeirantes de Televisão.[9]

Participou ainda do Programa Roda Viva da TV Cultura em 17 de outubro de 2011.

Aposentadoria[editar | editar código-fonte]

Cabo Anselmo pleiteia uma identidade formal, pois desde que foi cassado nunca mais conseguiu documentos que provassem ser ele José Anselmo dos Santos. Requereu junto ao governo de São Paulo o pagamento de indenização pago aos que foram presos e torturados no estado, durante a ditadura militar.

O ex-marinheiro reivindica ainda uma aposentadoria condizente com o posto que ocuparia hoje na Marinha, que seria o de suboficial aposentado. O argumento de Anselmo é que a indenização da Comissão de Anistia não deve beneficiar apenas os militantes de esquerda. Ele alega que todos que foram de alguma forma prejudicados ou cassados em seus postos em razão do golpe militar deveriam ser beneficiados.

O então ministro durante o Governo Lula, Paulo Vannuchi, afirmou em 2009 que é remota a possibilidade de Cabo Anselmo vir a receber qualquer tipo de indenização ou aposentadoria. Ele afirma que a reivindicação de Anselmo não procede porque desde o início da ditadura o ex-marinheiro teria sido um agente do Estado.[10] [11]

Referências

  1. «Soledad, a mulher do Cabo Anselmo». Carta Maior. Consultado em 2016-02-21. 
  2. v. na reportagem da "Folha de S.Paulo" de 21/12/2012, citada abaixo, detalhe referente ao depoimento de ex-secretária do General Lott, ao Centro de Inteligência da Aeronáutica em 1966
  3. Ação de Cabo Anselmo é pré-64, diz policial
  4. Matéria do jornal "A Folha de S.Paulo" de 21/12/2012 sobre documentos das forças armadas, ao lado de outras provas reunidas que contradizem Cabo Anselmo
  5. Elio Gaspari "A Ditadura Escancarada - Vol. 2" Cia das Letras, 2002 pág. 347"
  6. F.C. Leite Filho, Neiva Moreira "El caudillo Leonel Brizola: um perfil biográfico" Ed. Aquariana Ltda 2008 ISBN 9788572171120 páginas 265-66 visualização Google Livros
  7. Soledad, a mulher do cabo Anselmo
  8. Linha direta justiça
  9. Em entrevista ao Canal Livre, Cabo Anselmo diz não se considerar um traidor
  10. Para o ministro Vannuchi, Cabo Anselmo não será anistiado
  11. [1]

Ligações externas[editar | editar código-fonte]