Caracterologia

Origem: Wikipédia, a enciclopédia livre.
Saltar para a navegação Saltar para a pesquisa
Question book-4.svg
Esta página ou secção cita fontes confiáveis e independentes, mas que não cobrem todo o conteúdo, o que compromete a verificabilidade (desde maio de 2011). Por favor, insira mais referências no texto. Material sem fontes poderá ser removido.
Encontre fontes: Google (notícias, livros e acadêmico)

Caracterologia significa literalmente estudo do caráter, e designava, originalmente, toda pesquisa ligada à personalidade. Atualmente a expressão só costuma ser usada em referência à teoria da personalidade de René Le Senne e Gaston Berger, segundo a qual há 8 caráteres (i.e., tipos psicológicos), definidos a partir de três características básicas ("propriedades") - "emotividade", "atividade" e "ressonância".[1]

Esta teoria foi desenvolvida a partir dos estudos dos psicólogos holandeses Gerardus Heymans e Enno Dirk Wiersma, que, procurando estudar a hereditariedade de vários traços psicológicos, elaboraram estatísticas desses traços para várias pessoas e, depois, através da análise fatorial, concluíram que estes poderiam ser agrupados em três grandes características.

Conceitos básicos[editar | editar código-fonte]

Para Le Senne, caráter designa o conjunto de disposições congênitas, ou seja, que o indivíduo possui desde seu nascimento e compõe, assim, o esqueleto mental do indivíduo; já personalidade, é definida por ele como o conjunto de disposições mais "externas", como que a "musculatura mental" - todos os elementos constitutivos do ser humano que foram adquiridos no correr da vida, incluindo todos os tipos de processo mental.

As propriedades constitutivas[editar | editar código-fonte]

Le Senne define três propriedades constitutivas do caráter:

Emotividade - a propensão de vivenciar os acontecimentos de maneira mais ou menos emotiva, podendo as pessoas ser "emotivas" ou "não-emotivas";[2]

Atividade - a inclinação e o gosto pela ação, havendo os "ativos" e os "não-ativos". A atividade, neste sentido, refere-se ao gosto pela acção em sim mesma; não deve ser confundida com situações em que a ação é apenas uma consequência da emotividade do indivíduo (ex. uma pessoa perseguida por uma fera é ativa, mas não pelo gosto da ação, mas pela emotividade (medo) da situação);[3]

Ressonância das representações mentais - toda experiência (ou melhor, a representação dessa experiência na mente da pessoa) provoca no indivíduo uma "ressonância", ou seja, efeitos mentais (pensamentos, emoções, etc.). Efeitos que se referem a evento que se estão realizando (i.e. presentes) fazem parte da função primária da representação; já efeitos ligados a fenômenos já passados fazem parte da função secundária. Ressonância indica, assim, a tendência do indivíduo de viver mais no presente ou, pelo contrário, no passado ou no futuro; assim, os indivíduos serão "primários" (se vivem para o presente) ou "secundários" (se vivem para o passado ou para o futuro).[4]

Além dessas três propriedades constitutivas dos tipos caracterológicos, Le Senne diferencia cinco propriedades complementares, que produzem diferenças entre as pessoas pertencentes a um mesmo tipo:

  1. Amplidão do campo de consciência - a tendência inata de poder expandir mais ou menos a percepção e a atenção;
  2. Inteligência analítica - sobretudo a capacidade de reflexão analítica, ainda em estádio nascente, a possibilidade de desenvolver a inteligência adulta;
  3. Egocentrismo ou alocentrismo - ou seja, a capacidade maior ou menor de o indivíduo ver o mundo e os acontecimentos do ponto de vista das outras pessoas;
  4. Outras tendências predominantes - preferências pessoais inatas;
  5. O modo de estrutura mental.

Os tipos caracterológicos[editar | editar código-fonte]

A partir da combinação das três propriedades constitutivas definem-se 8 tipos caracterológicos ou caráteres, que produzem assim diferentes personalidades[5]:

Emotivo - Activo - Primário: o "colérico". Indivíduos activos, impulsivos, generosos, sempre cheios de projectos, mas instáveis, saltando frequentemente de uma actividade para outra que lhes pareça mais entusiasmante e desafiadora (ex. Danton, Léon Gambetta, Jean Jaurès)[6]

Emotivo - Activo - Secundário: o "apaixonado". Indivíduos que têm um objectivo, sobretudo a longo prazo, e concentram todas as suas energias para esse fim (ex. Napoleão).[7]

Emotivo - não Activo - Primário: o "nervoso". Indivíduos imaginativos, com algum fascínio pelo "bizarro" e por tudo o que saia da monotonia; frequentemente com aptidão artística (ex. Edgar Allan Poe, Shelley, Byron)[8]

Emotivo - não Activo - Secundário: o "sentimental". Indivíduos introvertidos e tímidos, frequentemente com grandes sonhos e projetos, mas que pouco fazem para os realizar (ex. Kierkgaard, Robespierre, Rousseau, Thoreau)[9]

não Emotivo - Activo - Primário: o "sanguíneo". Indivíduos pragmáticos e "terra-a-terra" , que se adaptam facilmente a qualquer situação e com grande facilidade no relacionamento com outros, (ex. Metternich, Montesquieu, Talleyrand, Voltaire).[10]

não Emotivo - Activo - Secundário: o "fleumático". Indivíduos trabalhadores, regulares, calmos e pontuais (ex. Kant, James Mill, John Stuart Mill)[11]

não Emotivo - não Activo - Primário: o "amorfo". Indivíduos pouco activos, que se acomodam às situações, de bom humor (ex. Luís XV)[12]

não Emotivo - não Activo - Secundário: o "apático". Indivíduos tranquilos, pouco activos, gostando de uma vida rotineira (ex. Luís XVI)[13]

Os 2 últimos tipos caracterológicos (os "não Emotivos - não Activos") são, segundo o autor, muito raros.

Caracterologia em Portugal[editar | editar código-fonte]

Em Portugal Delfim Santos divulgou persistentemente a caracterologia de Heymans - Le Senne - Berger em muitas de suas obras sobre Psicopedagogia e escreveu as seguintes monografias:

Referências

  1. Le Senne 1963, p. 48
  2. Le Senne 1963, pp. 51-60
  3. Le Senne 1963, pp. 60-68
  4. Le Senne 1963, pp. 68-81
  5. Le Senne 1963, p. 100
  6. Le Senne 1963, pp. 217-258
  7. Le Senne 1963, pp. 259-307
  8. Le Senne 1963, pp. 104-157
  9. Le Senne 1963, pp. 158-216
  10. Le Senne 1963, pp. 308-345
  11. Le Senne 1963, pp. 346-384
  12. Le Senne 1963, pp. 385-389
  13. Le Senne 1963, pp. 390-396

Bibliografia[editar | editar código-fonte]

  • Gauquelin, Michel (1984). Conhecer os Outros. [S.l.]: Verbo. p. 146-155 
  • Gauquelin, Michel (1984). «Os temperamentos e os caracteres». Dicionário de Psicologia. Verbo. pp. 498–536 
  • Le Senne, René (1963) [1945]. Traité de caractérologie (em francês) 7ª ed. Paris: Presses universitaires de France. 660 páginas 

Ver também[editar | editar código-fonte]