Ciência forense

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Crânios em uma praia.

A ciência forense é compreendida como o conjunto de todos os conhecimentos científicos e técnicas que são utilizados para desvendar crimes. Ela é considerada uma área interdisciplinar pois envolve física, química, biologia, entre outras. Tem como objetivo principal o suporte a investigações referentes a justiça civil e criminal.[1]

Em investigações criminais o foco principal dos profissionais na área é tanto confirmar a autoria dos crimes, quanto descartar o envolvimento do(s) suspeito(s). Em casos de homicídio são utilizados diversos recursos como, por exemplo, fio de cabelo, sangue e impressão digital deixados no local do crime e que são úteis na identificação dos suspeitos. É possível também descobrir a hora, a data, causa da morte, quem matou e o que levou ao homicídio. Peritos de diversas especialidades são os profissionais que realizam os testes forenses dentro de instituições policiais, associadas ao governo, ou em consultorias independentes.

Para o sucesso do trabalho forense se faz necessário o uso de algumas técnicas. Uma delas é dermatoglifia que estuda os padrões das cristas dérmicas. Outra bastante utilizada é a técnica do pó, no qual são depositados pós em superfícies lisas que facilite o decalque das impressões digitais.[1]

Etimologia[editar | editar código-fonte]

A palavra forense vem do latim forensis, que significa "de antes do fórum."[2] A história do termo provém da época romana, onde uma acusação criminal significava apresentar o caso perante um grupo de indivíduos públicos no fórum e, tanto o acusado do crime quanto o acusador dariam discursos com base em suas perspectivas da história. O caso seria decidido em favor do indivíduo com o melhor argumento entregue. Esta origem é a fonte dos dois usos modernos da palavra forense - como uma forma de prova legal e como uma categoria de apresentação pública. No uso moderno, somente o termo forense no lugar de ciência forense pode ser considerada correta, pois o termo forense é efetivamente um sinônimo para legal ou relacionado aos tribunais. No entanto, devido o termo ser tão associado com o campo científico, muitos dicionários incluem um significado que equivale para a palavra forense e ciência forense.

História[editar | editar código-fonte]

Métodos iniciais[editar | editar código-fonte]

No mundo antigo não existiam práticas forenses padronizadas, resultando em muitos casos que não tiveram resolução. Investigações criminais e julgamentos eram fortemente baseados em confissões e testemunhos. No entanto, há fontes antigas que contêm vários relatos de técnicas que indicam o início dos conceitos da ciência forense que foram desenvolvidas séculos mais tarde.[3]

Arquimedes (287-212 a.C.), por exemplo, inventou um método para a determinação do volume de um objeto com forma irregular. De acordo com Vitrúvio, uma coroa votiva de um templo havia sido feita para o rei Hiero II, que havia fornecido ouro puro para ser usado em sua fabricação e, a partir disto, Arquimedes foi solicitado para determinar se alguma prata havia sido colocada na coroa durante sua produção pelo ourives.[4] Arquimedes não podia danificar a coroa e, para resolver o problema, pode ter se utilizado de seu princípio da flutuabilidade, onde é possível observar o deslocamento dos corpos a partir da imersão na água.

O primeiro relato escrito do uso de medicamentos e da entomologia para resolver casos criminais é atribuído ao livro Xi Yuan Lu (traduzido em inglês como Washing Away of Wrongs),[5] escrito no ano 1248 na China por Song Ci (宋慈, 1186–1249), durante a dinastia Sung. Em um dos relatos do livro, há o caso de uma pessoa assassinada com uma foice que foi resolvido por um investigador que instruiu todos os moradores próximos do local do crime a trazerem suas foices para uma determinada localidade, pois tinha percebido qual arma foi utilizada testando várias lâminas em uma carcaça de animal e comparando as feridas. A partir disto, moscas atraídas pelo cheiro de sangue eventualmente se reuniram em uma única foice, o assassino confessou logo após o ocorrido.[6]

O livro também oferece informações sobre como distinguir um afogamento (água nos pulmões) de um estrangulamento, juntamente com outras evidencias que podem ser analisadas para examinar cadáveres e determinar se a morte foi causada por homicídio, suicídio ou acidente.[6]

Origens da ciência forense[editar | editar código-fonte]

Na Europa, durante o século 16, médicos militares e universitários começaram a reunir informações sobre a causa e circunstâncias da morte, como Ambroise Paré, um cirurgião do exército francês que estudou sistematicamente os efeitos da morte violenta em órgãos internos[7][8] e dois cirurgiões italianos, Fortunato Fidelis e Paolo Zacchia, que lançaram as bases da patologia moderna estudando as mudanças ocorridas na estrutura do corpo como resultado de enfermidades.[9] No final do século 18, os estudos sobre o tema ficaram em evidencia devido a obras como "Um Tratado sobre Medicina Forense e Saúde Pública" pelo médico francês Francois Immanuele Fodéré[10] e "O Sistema Completo de Medicina da Polícia" pelo médico perito alemão Johann Peter Frank.[11]

Como os valores racionais da época do Iluminismo estavam cada vez mais permeado a sociedade do século 18, a investigação criminal tornou-se um procedimento mais baseado em evidências, racional - o uso de tortura para forçar confissões foi reduzido e a crença em bruxaria e poderes ocultos deixaram de influenciar as decisões de tribunais.

Áreas científicas relacionadas[editar | editar código-fonte]

Agentes do CID, Estados Unidos, numa investigação de um crime.

Cultura popular[editar | editar código-fonte]

Uma das primeiras séries de televisão que se focaram na premissa de análise científica de evidencias foi Quincy, M.E. (baseado em uma série canadense intitulada Wojeck), onde o personagem principal é um médico legista que trabalha em Los Angeles resolvendo crimes através de um estudo cuidadoso das provas. A abertura de cada episódio se inicia com o personagem principal, interpretado por Jack Klugman, dizendo em uma palestra para policiais "Senhores, vocês estão prestes a entrar na esfera mais fascinante do trabalho policial, o mundo da medicina forense." Posteriormente surgiram séries com premissas semelhantes, como Dexter, The Mentalist, CSI, Hawaii Five-0, Cold Case, Bones, Law & Order, Body of Proof, NCIS, Criminal Minds, Silent Witness, Detective Conan, Midsomer Murders e Waking the Dead, onde retratam versões glamourizadas das atividades dos cientistas forenses do século 21.

Referências

  1. a b Chemello, Emiliano (2006). «A Ciência Forense: Impressões digitais» (PDF). Química Virtual. Consultado em junho de 2016. 
  2. Shorter Oxford English Dictionary (em inglês) 6ª ed. Oxford University Press [S.l.] 2007. 
  3. Schafer, Elizabeth D. (2008). Ancient Science and Forensics (em inglês) Salem Press [S.l.] ISBN 9781587654237. 
  4. Vitruvius, Marcus (2007). de Architectura, Book IX (University of Chicago [s.n.]). 
  5. «Forensics Timeline». CBS News. Consultado em junho de 2016. 
  6. a b Ci, Song (1981). The Washing Away of Wrongs: Forensic Medicine in Thirteenth-Century China (Science, Medicine, and Technology in East Asia) (em inglês) (Center for Chinese Studies: University of Michigan). ISBN 9780892648009. 
  7. Kelly, Jack (2009). Gunpowder: Alchemy, Bombards, and Pyrotechnics: The History of the Explosive That Changed the World (em inglês) Basic Books [S.l.] p. 79. ISBN 9780786739004. 
  8. Park, Katharine; Daston, Lorraine (2003). The Cambridge History of Science: Volume 3, Early Modern Science (em inglês) Cambridge University Press [S.l.] ISBN 9780521572446. 
  9. Suter, Patricia; D. Earnest, Russell; P. Earnest, Corinne (2010). The Hanging of Susanna Cox: The True Story of Pennsylvania's Most Notorious Infanticide & the Legend That's Kept it Alive (em inglês) Stackpole Books [S.l.] p. 20. ISBN 9780811705608. 
  10. Madea, Burkhard (2014). Handbook of Forensic Medicine (em inglês) Wiley [S.l.] p. 10. ISBN 9781118570630. 
  11. Lindemann, Mary (1999). Medicine and Society in Early Modern Europe (em inglês) Cambridge University Press [S.l.] p. 135. ISBN 9780521423540. 
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