Epimênides

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Epimenides

Epimênides (português brasileiro) ou Epiménides (português europeu) (Epimenidēs) foi um poeta, filósofo e místico grego, e profeta que viveu em meados dos anos 600 a.C. de acordo com o apóstolo Paulo em Tito 1:12, que cita sua obra "Cretica".

Biografia[editar | editar código-fonte]

Epimênides nasceu em Cnossos, na ilha de Creta (segundo Estrabão, ele era natural de Festo, Creta[1]). Diz-se que esteve em Atenas no tempo de Sólon, onde os achados históricos, conforme descrito por Diógenes Laertius, lhe atribuem ter limpado a cidade de uma praga que a assolava. Diz-se também que já visitara a cidade dez anos antes das guerras com os persas, sendo que as duas visitas estão separadas por mais de cem anos. Várias autoridades, todavia, relataram que ele viveu entre 154 e 299 anos.

Dito como "homem estranho" pelo seu povo, Epimênides era um dos poucos da sua época e região que criam em apenas um Deus. Segundo conta Diógenes Laertius, quando houve a praga em Atenas muitos holocaustos foram feitos para "apaziguar a fúria dos deuses", que passavam de 30 000, ou seja, havia mais deuses em estátuas nas ruas do que pessoas vivendo em Atenas. Foram até chamados sacerdotes egípcios e babilônicos para tentar resolver aquela praga, mas sem sucesso algum. Quando então lembraram do Deus único de Epimênides, e o chamaram. Ele lhes mostrou o erro de adorarem deuses que não poderiam ajudá-los em nada e mandou que colocassem ovelhas no alto do areópago que estas iriam lhes mostrar o local onde esse Deus queria ser adorado. Então, num ato "místico", as ovelhas desceram do areópago e andaram até um local onde não havia nenhum tipo de idolatria. E ali os artífices construíram um altar. Como não sabiam o "nome" desse Deus, a mando de Epimênides tacharam-no como "o Deus Desconhecido" (assim como descrito em Atos 17:23) e assim conseguiram resolver o problema da praga.

Obras[editar | editar código-fonte]

Várias obras de prosa e poesia, agora perdidas, foram atribuídas a Epimênides, incluindo uma teogonia, um poema épico sobre a expedição argonáutica, obras de prosa sobre purificações e sacrifícios, uma cosmogonia, oráculos, uma obra sobre as leis de Creta e um tratado sobre Minos e Radimanto. É-lhe atribuído a noção de reencarnação em alusões precursoras ao sistema órfico-pitagórico.[2][3]

A Crética (Κρητικά) de Epimenides é citada duas vezes no Novo Testamento. Sua única fonte é um comentário siríaco do século IX de Isho'dad de Merv sobre os Atos dos Apóstolos, descoberto, editado e traduzido (em grego) pelo Prof. J. Rendel Harris em uma série de artigos.[4][5][6]

No poema, Minos se dirige a Zeus assim:

Texto hipotético em grego de J. Rendel Harris[5]:

Τύμβον ἐτεκτήναντο σέθεν, κύδιστε μέγιστε,

Κρῆτες, ἀεὶ ψευδεῖς, κακὰ θηρία, γαστέρες ἀργαί.

Ἀλλὰ σὺ γ᾽ οὐ θνῇσκεις, ἕστηκας γὰρ ζοὸς αίεί,

Ἐν γὰρ σοὶ ζῶμεν καὶ κινύμεθ᾽ ἠδὲ καὶ ἐσμέν.

Tradução:

Fizeram um túmulo para Ti, Santo e Altíssimo,

Cretenses, sempre mentirosos, bestas más, ventres ociosos.

Mas Tu não estás morto: vives e permaneces para sempre,

Pois em Ti vivemos, nos movemos e temos nosso ser.

A "mentira" considerada dos cretenses é de que Zeus seria mortal; Epimênides considerou Zeus imortal. "Os cretenses, sempre mentirosos", com a mesma intenção teológica de Epimênides, também aparece no Hino a Zeus de Calímaco. Considera-se também que a frase teria sido na verdade oracular e não uma opinião exclamada pelo próprio Epimênides. A quarta linha é citada (com referência a um de "seus próprios poetas") em Atos dos Apóstolos, capítulo 17, versículo 28.

A segunda linha é citada, com uma atribuição velada ("um profeta próprio"), na Epístola a Tito, capítulo 1, versículo 12, para alertar Tito sobre os cretenses. O "profeta" em Tito 1:12 é identificado por Clemente de Alexandria como Epimênides (Stromata, i. 14). Nesta passagem, Clemente menciona que "alguns dizem" Epimênides deva ser contado entre os sete filósofos mais sábios.

Crisóstomo (Homilia 3 sobre Tito) fornece um fragmento alternativo:

Até mesmo uma tumba, Rei, de Ti
Eles fizeram, que nunca morrestes, mas sempre serás.

Paradoxo de Epimênides[editar | editar código-fonte]

Não está claro quando Epimênides se tornou associado ao paradoxo de Epimênides, uma variação do paradoxo do mentiroso. O próprio Epimênides não parece ter pretendido nenhuma ironia ou paradoxo em sua afirmação "Cretenses, sempre mentirosos". Na epístola a Tito, há um aviso de que "um deles, mesmo um profeta, disse que os cretenses são sempre mentirosos, bestas más, barrigas lentas". Na Idade Média, muitas formas do paradoxo do mentiroso foram estudadas sob o título de insolubilia, mas estas não estavam associadas a Epimênides.

Ver também[editar | editar código-fonte]

Notas e referências

  1. Estrabão, Geografia, Livro X, Capítulo 4, 14
  2. Lebedev, Andrei V. (2015). «The Theogony of Epimenides of Crete and the origin of the Orphic-Pythagorean doctrine of reincarnation». Indo-European Linguistics and Classical Philology. 19 
  3. Vassallo, Christian (8 de outubro de 2019). Presocratics and Papyrological Tradition: A Philosophical Reappraisal of the Sources. Proceedings of the International Workshop held at the University of Trier (22-24 September 2016) (em inglês). [S.l.]: Walter de Gruyter GmbH & Co KG 
  4. Harris, J. Rendel (outubro de 1906). «The Cretans always liars». The Expositor, Seventh series. 2: 305–17 
  5. a b Harris, J. Rendel (abril de 1907). «A further note on the Cretans». The Expositor, Seventh series. 3: 332–337 
  6. Harris, J. Rendel (abril de 1912). «St. Paul and Epimenides». The Expositor, Eighth series. 4: 348–353 

Este artigo incorpora texto (em inglês) da Encyclopædia Britannica (11.ª edição), publicação em domínio público.

Bibliografia[editar | editar código-fonte]

O Commons possui uma categoria contendo imagens e outros ficheiros sobre Epimênides
  • Bowder, Diana - "Quem foi quem na Grécia Antiga", São Paulo, Art Editora/Círculo do Livro S/A, s/d
  • Livros de Diógenes Laertius, romano, ateu que escreveu sobre o gregos.
  • Richardson, Don - "O Fator Melquisedeque", Cap. 1