Hérnia

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Hérnia
Hérnia inguinal unilateral
Especialidade Cirurgia geral
Classificação e recursos externos
CID-10 K40-K46
CID-9 550-553
MedlinePlus 000960
eMedicine emerg/251 ped/2559
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Hérnia é um tumor mole formado pela saída anormal de parte do tecido de um órgão através de uma rotura da membrana da cavidade que o envolve.[1] Existem diferentes tipos de hérnias.[2] A maior parte situa-se no abdómen, particularmente na virilha.[2] As hérnias da virilha mais comuns são inguinais, embora também possam ser femorais.[1] Entre outros tipos de hérnias estão hérnias umbilicais, do hiato esofágico e incisionais.[2] Cerca de 66% das pessoas com hérnias da virilha manifestam sintomas.[1] Os sintomas incluem dor ou desconforto que se agravam ao tossir, ao praticar exercício físico ou durante uma ida à casa de banho.[1] Em muitos casos a dor vai-se agravando ao longo do dia e melhora ao deitar.[1] Em alguns casos forma-se uma área saliente vai aumentando de tamanho.[1] As hérnias da virilha ocorrem com maior frequência do lado direito.[1] O principal risco de complicações de uma hérnia é a estrangulação do intestino, em que a corrente sanguínea para parte do intestino é bloqueada.[1] Esta situação geralmente causa dor intensa e sensibilidade na região.[1] As hérnias do hiato causam em muitos casos azia, embora possam também causar dor no peito ou dor durante as refeições.[3]

Entre os fatores de risco de desenvolvimento de uma hérnia estão: fumar, doença pulmonar obstrutiva crónica, obesidade, gravidez, diálise peritoneal, conectivopatia e ter realizado uma apendicectomia, entre outros.[1][3][4] As hérnias são de origem parcialmente genética e ocorrem com maior frequência entre determinadas famílias.[1] Não é claro se as hérnias da virilha estão associadas com o levantamento de pesos.[1] Em muitos casos, as hérnias podem ser diagnosticadas com base nos sinais e sintomas.[1] Por vezes, pode ser necessária imagiologia médica para confirmar o diagnóstico e excluir outras possíveis causas.[1] O diagnóstico de hérnias do hiato é muitas vezes feito com endoscopia.[3]

Em homens, geralmente não é necessário tratar hérnias da virilha que não causem sintomas.[1] No entanto, em mulheres o tratamento é geralmente recomendado devido à maior incidência de hérnias femorais, as quais causam maior número de complicações.[1] Quando ocorre estrangulamento, pode ser necessária uma intervenção cirúrgica de emergência.[1] A intervenção pode ser realizada com cirurgia aberta ou laparoscopia.[1] A cirurgia aberta tem a vantagem de poder ser realizada apenas com anestesia local.[1] No entanto, a laparoscopia geralmente causa menos dores após a cirurgia.[1] Uma hérnia do hiato pode ser tratada com alterações no estilo de vida, como subir a cabeceira da cama, perder peso ou ajustar os hábitos alimentares.[3] Em alguns casos pode ser necessários medicamentos como bloqueadores H2 ou inibidores da bomba de protões.[3] Quando os sintomas das hérnias do hiato não aliviam com medicamentos, existe a possibilidade de realizar uma intervenção cirúrgica denominada fundoplicação de Nissen.[3]

Em 2015, cerca de 18,5 milhões de pessoas em todo o mundo apresentavam uma hérnia inguinal, femoral ou abdominal, as quais resultaram em 59 800 mortes.[5][6] Cerca de 27% dos homens e 3% das mulheres desenvolvem uma hérnia da virilha em algum momento da vida.[1] As hérnias da virilha ocorrem com maior frequência antes do primeiro ano de idade e após os 50 anos de idade.[4] Desconhece-se a incidência exata das hérnias do hiato, havendo estimativas que variam entre 10 e 80%.[3] A primeira descrição conhecida de uma hérnia encontra-se no Papiro Ebers, datado de 1550 a.C..[7]

Tipos[editar | editar código-fonte]

As hérnias podem ser classificadas de acordo com a sua localização e origem.

Hérnias abdominais[editar | editar código-fonte]

Chamam-se de hérnias abdominais aquelas cujos conteúdos se herniam através da parede abdominal, por exemplo para a cavidade torácica. Elas geralmente aparecem quando o portador tenta levantar um objeto muito pesado, sofre um golpe físico ou por causa de algumas doenças.[8]

Hérnia inguinal[editar | editar código-fonte]

Ver artigo principal: Hérnia inguinal
Diagrama representando uma hérnia inguinal indireta

As hérnias inguinais são aquelas que ocorrem na região da virilha, e correspondem a 75% de todas as hérnias abdominais. Este tipo de hérnia é 25 vezes mais comum em homens do que em mulheres. São divididas em diretas e indiretas (mais comuns). As hérnias inguinais diretas são as decorrentes da fraqueza da parede do canal inguinal, e são mais comuns em pessoas mais velhas e que se submetem a um grande esforço abdominal (profissionais, esporte, tosse crônica, constipação, obesidade). As hérnias inguinais indiretas ocorrem devido a uma falha congênita da região inguinal, e por isso são mais comuns em crianças e adultos jovens.

O paciente com hérnia inguinal se queixa de abaulamento nesta região, com dor discreta associada, que piora com o esforço abdominal (tosse, evacuação, exercício, levantar objetos pesados). Ao exame, o médico percebe o abaulamento da região inguinal, que fica mais evidente quando o paciente aumenta a pressão abdominal por solicitação do médico. A diferenciação do tipo de hérnia inguinal, direta ou indireta, não tem importância no momento da consulta, porque o tratamento é semelhante para os dois tipos.

O tratamento das hérnias inguinais em alguns casos é cirúrgico. Quando a técnica usada é reparo com tensão existe 15% de chance delas voltarem a ocorrer. Técnicas mais modernas, sem tensão, têm menor índice de recorrência.[9]

Hérnia de hiato esofágico[editar | editar código-fonte]

Hiatus hernia.PNG
Ver artigo principal: Hérnia de hiato

Na hérnia de hiato uma porção do estômago vai para dentro do tórax, através da entrada do esófago no diafragma (hiato esofágico). Estas hérnias causam refluxo do ácido estomacal para o esôfago (refluxo gastroesofágico), o que pode levar a azia, dor e erosão do esôfago. Muitas pessoas com essa hérnia não tem sintomas perceptíveis e não precisam de tratamento.[9] A cirurgia para reparar este tipo de hérnia pode ser feita por laparoscopia ou por procedimentos minimamente invasivos, que geram menos cicatrizes, menor risco de infecção e proporcionam recuperação mais rápida. A recuperação leva um ou dois dias, mas o paciente deve evitar carregar peso por duas semanas.[10]

Hérnia umbilical[editar | editar código-fonte]

Ver artigo principal: Hérnia umbilical

A hérnia umbilical é causada por um defeito no fechamento da cicatriz umbilical, que pode ser congênito ou adquirido durante a vida. Nas crianças, em geral a hérnia umbilical se fecha até os dois anos, mas caso persista até os cinco anos, será necessário o tratamento cirúrgico. O exame abdominal revela a presença de abaulamento umbilical, principalmente quando o paciente faz força com o abdome. O tratamento é simples, e consiste na sutura do defeito umbilical.

Hérnia epigástrica[editar | editar código-fonte]

Ver artigo principal: Hérnia epigástrica

As hérnias epigástricas são as que acometem a linha mediana do abdome, tanto acima (mais comum) quanto abaixo da cicatriz umbilical. Também se caracterizam por abaulamento da região abdominal, e são tratadas com sutura do orifício herniário. São mais comuns em homens do que em mulheres.

As hérnias umbilicais e epigástricas apresentam baixo índice de recidiva.

Hérnia incisional[editar | editar código-fonte]

Ver artigo principal: Hérnia incisional

As hérnias incisionais ocorrem em locais do abdômen que já foram submetidos a uma incisão cirúrgica, e são resultantes da cicatrização inadequada dessas incisões. Este tipo de hérnia tem como característica apresentar altos índices de recidiva e de complicações. Os principais fatores que levam ao desenvolvimento de hérnias incisionais são: infecção da ferida cirúrgica no pós-operatório, obesidade, tratamento com corticoides e quimioterapia, complicações respiratórias (tosse) no pós-operatório, má nutrição e idade avançada.

Nas hérnias incisionais pequenas, o tratamento pode ser realizado apenas com a sutura simples do defeito da parede abdominal (herniorrafia). No entanto, nos casos de grandes hérnias incisionais, há necessidade de colocação de uma rede própria, que é reabsorvida e serve para reforço da aponeurose. Nos pacientes obesos, a colocação da rede por via laparoscópica (por dentro do abdômen) pode apresentar vantagens. Quando a técnica utilizada é reparo com tensão a chance de novos casos é de 50%.[9]

Hérnia de disco intervertebral[editar | editar código-fonte]

Ver artigo principal: Hérnia de disco
Raio X de uma hérnia de disco.

Na hérnia de disco, o disco cartilaginoso entre duas vértebras se rompe e o núcleo pulposo derrama sobre os nervos próximos podendo comprimi-los, resultando em dor, fraqueza e dormência. É mais comum em pessoas mais velhas, por golpe no local ou após carregar muito peso em posição inadequada. Pessoas obesas e trabalhadores braçais têm maior risco.[11]

Hérnia muscular[editar | editar código-fonte]

Ver artigo principal: Hérnia femoral

Ocorre quando fibras musculares atravessam partes danificadas das fáscias (tecido fibroso) que os revestem. São mais comuns na perna (hérnia femoral) e após ferimentos e/ou cirurgias no local. Podem ser consequência também de vulnerabilidades genéticas, má-formação da fáscia ou de treino muito pesado, especialmente com a hipertrofia muscular e o uso de anabolizantes.[12]

Outros[editar | editar código-fonte]

  • Hérnia de Bochdaleck ou Diafragmática: falha de fechamento do diafragma. Geralmente ocorre do lado esquerdo do diafragma, comprometendo o funcionamento do pulmão;
  • Hérnia de Petit ou Lombar inferior: tem como principal queixa a percepção de um tumor de consistência firme no dorso, que pode estar acompanhada de sensação de ardência ou dor. Ocorre nas costas perto da pélvis, acima da crista ilíaca;
  • Hérnia de Grynfelt ou Lombar superior: similar a de Petit, mas abaixo da última costela;
  • Hérnias cerebrais ou cranianas: caracterizadas pelo avanço do tecido encefálico para outras cavidades cranianas, para o exterior da caixa craniana (acompanhadas de traumatismos cranianos) ou invadindo o foramen magnum.

Complicações[editar | editar código-fonte]

As maiores complicações das hérnias abdominais são o encarceramento e o estrangulamento. O encarceramento é a manutenção de partes do conteúdo abdominal no saco herniário, ou seja, fora da cavidade abdominal, sem retorno deste conteúdo para o seu lugar correto. No estrangulamento, além do encarceramento, há o sofrimento do intestino ou de qualquer outra estrutura dentro do saco herniário, devido à compressão dos vasos sanguíneos, com consequente redução ou impedimento à circulação sanguínea.

O estrangulamento é uma urgência e a cirurgia para o tratamento da hérnia deve ser realizada o mais rápido possível, pois a parte do órgão que não recebe sangue e oxigênio eventualmente sofre isquemia e necrose (apodrecimento). Depois a parte afetada se rompe e ocorre a perfuração do intestino, liberando seu conteúdo diretamente na cavidade abdominal, espalhando a flora intestinal em locais sem defesa adequada e a necrose pode espalhar coágulos pelo sangue. Após alguns dias o paciente pode morrer de infecção generalizada (septicemia).

Outras complicações incluem hemorragia interna, desencadeamento de problemas auto-imunes, inflamação e hidrocele (acúmulo de fluídos no saco herniado).

Referências

  1. a b c d e f g h i j k l m n o p q r s t u Fitzgibbons RJ, Jr; Forse, RA (19 de fevereiro de 2015). «Clinical practice. Groin hernias in adults.». The New England Journal of Medicine. 372 (8): 756–63. PMID 25693015. doi:10.1056/NEJMcp1404068 
  2. a b c «Hernia». https://www.nlm.nih.gov/. 9 de agosto de 2014. Consultado em 12 de março de 2015. Cópia arquivada em 16 de março de 2015 
  3. a b c d e f g Roman, S; Kahrilas, PJ (23 de outubro de 2014). «The diagnosis and management of hiatus hernia.». BMJ (Clinical research ed.). 349: g6154. PMID 25341679. doi:10.1136/bmj.g6154 
  4. a b Domino, Frank J. (2014). The 5-minute clinical consult 2014 22nd ed. Philadelphia, Pa.: Wolters Kluwer Health/Lippincott Williams & Wilkins. p. 562. ISBN 9781451188509. Cópia arquivada em 22 de agosto de 2017 
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  6. Erro de citação: Código <ref> inválido; não foi fornecido texto para as refs de nome GBD2015De
  7. Nigam, VK (2009). Essentials of Abdominal Wall Hernias. [S.l.]: I. K. International Pvt Ltd. p. 6. ISBN 9788189866938. Cópia arquivada em 8 de setembro de 2017 
  8. http://www.mayoclinic.com/health/inguinal-hernia/DS00364/DSECTION=symptoms Página em inglês.
  9. a b c http://www.herniasolutions.com/about-hernias/types-of-hernias
  10. http://www.webmd.com/digestive-disorders/hiatal-hernia?page=2
  11. http://www.mayoclinic.com/health/herniated-disk/
  12. http://www.multiesportes.com.br/?p=3318