Revolta dos Muckers

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Conflitos na História do Brasil
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Ronco da Abelha: 1851-1852
Questão Christie: 1863
Guerra contra Aguirre: 1864
Guerra do Paraguai: 1864-1870
Questão Religiosa: 1872-1875
Revolta dos Muckers: 1874
Revolta do Quebra-Quilos: 1874-1875
Questão Militar: década de 1880

A Revolta dos Muckers foi um conflito entre representantes do poder estadual e integrantes de uma seita religiosa liderada pelo casal Jacobina Mentz Maurer e João Jorge Maurer, travado entre 1873-74, em São Leopoldo (atualmente Sapiranga), no Rio Grande do Sul. O cenário da revolta foi a linha Ferrabraz, tendo envolvido as localidades atuais de Campo Bom, Lomba Grande e Novo Hamburgo.

Antecedentes[editar | editar código-fonte]

Os muckers eram uma pequena comunidade religiosa situada ao pé do morro Ferrabrás, no até então município São Leopoldo. A região era ocupada por imigrantes alemães, que haviam chegado ao Rio Grande do Sul a partir de 1824.

O grupo religioso liderado por Jacobina Mentz Maurer, que se julgava uma reencarnação de Cristo e que prometia construir a "cidade de Deus" para seus discípulos. Desde criança, Jacobina passava por supostos "transes", de modo que, neste estado, diagnosticava doenças.

A família de Jacobina já tinha um histórico de envolvimento em contendas religiosas na Alemanha. Os avós imigraram para o Brasil fugindo de perseguições religiosas (ambos deixaram a igreja evangélica e a escola e estabeleceram uma comunidade religiosa independente com mais seis ou sete famílias, o que culminou na sua perseguição). Quando chegaram ao Brasil em 1824, os primeiros imigrantes alemães, dentre os quais os avós de Jacobina, foram recebidos pelo imperador Dom Pedro I e pela imperatriz Leopoldina. Em seu encontro com a imperatriz, Libório Mentz, o avô de Jacobina, confidenciou-lhe que viera para o Brasil fugindo da repressão religiosa na Alemanha, e a imperatriz lhe garantiu que no Brasil eles teriam garantida a liberdade de culto.[1]

Em 1866, após se casar com João Maurer, sua fama começou a crescer. Na casa do casal se reunia um grupo de adeptos cada vez maior, até que com o crescimento do número de seguidores, Jacobina foi proclamada "Cristo", tendo escolhido seus apóstolos. Com o auxílio de plantas João Jorge Maurer curava pessoas, e como o médico mais próximo se encontrava a três horas, a casa do casal passou a ser usada como um pequeno hospital.[2]

Os seguidores do casal seguiam regras rígidas, tais como: não fumar, não beber e não ir às festas. Além disso, eles começaram a tirar seus filhos das escolas comunitárias. Desta forma, a resistência dos demais colonos aos seguidores do casal foi intensificada. Os seguidores do casal Maurer chamavam os demais colonos de "spotter" (debochadores), enquanto os colonos os apelidaram de "mucker" (falso religioso).[3]

O estopim[editar | editar código-fonte]

A relação entre os dois grupos se deteriorava cada vez mais, o que levou o chefe da polícia local a prender Jacobina e João Maurer, mas por falta de provas, o presidente da província do Rio Grande do Sul ordenou que o casal fosse liberado.

Em seguida, a casa de Martinho Kassel, um ex-seguidor do casal foi incendiada, tendo seus filhos e sua mulher morrido no desastre. Após esse incidente, a casa de Carlos Brenner, um comerciante local, foi também incendiada, e seus filhos faleceram. E ainda, posteriormente, houve a execução de um tio de João Maurer que não queria fazer parte da seita. De maneira que todos os crimes foram atribuídos aos muckers.

O perfil dos muckers[editar | editar código-fonte]

A historiografia conseguiu identificar 249 membros do movimento mucker e é bem provável que o número total de muckers, entre identificados e não identificados, fosse de 700 a 1.000 pessoas. As crianças até 13 anos de idade representavam 30% dos adeptos; os adultos entre 33 e 47 anos eram 26% e formavam a liderença do grupo. 70% dos muckers adultos eram casados e 9% eram idosos com mais de 58 anos. Todos os muckers eram de origem alemã, mas 64% já eram nascidos no Brasil e 94% destes eram descendentes de famílias antigas, que chegaram antes de 1830. Entre os 36% nascidos na Alemanha, mais da metade chegou ao Brasil quando ainda eram crianças.[1]

A maioria dos muckers só sabiam falar alemão; 57,3% eram analfabetos e 23,5% semi-analfabetos (a própria Jacobina era semi-analfabeta). Apenas 42,5% dos muckers eram proprietários dos seus próprios lotes e a maioria trabalhava em terras de parentes ou de terceiros. Quanto à profissão, 69% dos homens adultos eram lavradores, 13% eram artesões-lavradores e 11% eram artesões. No que concerne à religião, 85% dos muckers eram protestantes, sendo que 55% da população de São Leopoldo pertencia a essa religião.[1]

Desenvolvimento da Revolta dos Muckers[editar | editar código-fonte]

Ao escurecer de 28 de junho de 1874, o coronel Genuíno ordenou um ataque sobre a casa dos Maurer esperando obter sua prisão. Mas o coronel Genuíno teve uma surpresa. Os muckers entrincheirados em troncos de árvores e depressões de terreno que conheciam muito bem, reagiram violentamente ao custo de 4 mortos e 30 feridos. Sendo noite, o coronel Genuíno ordenou um retraimento para 10km á retaguarda, em Campo Bom atual.

Decorrido 21 dias, em 19 de julho de 1874, o coronel Genuíno com reforços recebidos, inclusive 150 colonos alemães voluntários, atacou novamente o reduto mucker na casa do casal Maurer. O ataque e reação foram violentos, sendo que morreram 12 homens e 8 mulheres muckers. Foram presos 6 homens e 36 mulheres e poucos conseguiram fugir.

Cerca de 17 muckers se retiraram para outro reduto. Eles constituíam parte das lideranças mais expressivas. Para o coronel Genuíno pareceu que a vitória tinha sido completa.

Ao amanhecer de 20 de julho de 1874, o acampamento legal foi atingindo por tiros de tocaia, disparados de mato próximo. E teve lugar cerrado tiroteio. O coronel Genuíno teve cortada com um tiro uma artéria da coxa, vindo a perecer, após esvair-se, em sangue , sem o socorro do médico que se deslocava-se para São Leopoldo com os feridos.

A tropa do Exército, após combater no dia 21, retraiu novamente para Campo Bom Assumiu o comando o coronel César Augusto.

O Tenente-Coronel Genuíno Olympio de Sampaio.

Em 21 de setembro de 1874, um novo ataque ao reduto dos muckers foi repelido, com 5 mortos e 6 feridos do Exército. Quatro dias depois, no dia 25, a força civil composta de colonos de Sapiranga, Taquara, Dois Irmãos e outra picadas, tentaram, sem êxito, um ataque ao reduto mucker. Foi aí que o capitão Francisco Clementino Santiago Dantas, que participara dos ataques iniciais ao lado do coronel Genuíno, se ofereceu ao Presidente da Província para comandar o ataque final.

E em 2 de agosto de 1874, decorrido 35 dias do início das operações contra os muckers, o capitão Santiago Dantas atacou o último reduto dos fanáticos. No renhido combate pereceram 17 muckers, dos quais 13 homem e 4 mulheres.

Os muckers, presos antes e durante a luta, após processo em que foram condenados, apelaram e foram liberados em 1883. Os muckers sobreviventes, para fugir às perseguições dos habitantes do lugar, mudaram-se para a Terra dos Bastos, em Lageado. Lá, no Natal de 1898, foram atacados e chacinados por colonos da picada de Maio, por acreditarem terem sido os assassinos bárbaros da senhora Shoreder, vitima, em verdade, de seu marido, que a matara para casar com outra. Verdade que só veio à luz depois do linchamento dos muckers remanescentes inocentes.

Participaram do combate aos muckers os mais tarde coronéis Carlos Teles, que será sitiado por 46 dias em Bagé, e João Cezar Sampaio, que o libertou em 8 de janeiro de 1894, à frente da Divisão do Sul .

O último era genro do indigitado coronel Genuíno, morto no Ferrabraz. Ambos, Carlos Teles e Sampaio, destacar-se-iam por feitos heróicos em Canudos. Nesse tempo, as tropas do Exército da guarnição do Rio Grande do Sul sentiam os maléficos efeitos do Regulamento de Ensino do Exército de 1874, de cunho bacharelesco.

No episódio do Ferrabraz, tropas do exército, sem disporem de um desejável sistema de informações, foram lançadas numa operação sangrenta, fruto da inabilidade das autoridades de São Leopoldo e da Província. Em Canudos, isso se repetirá em maiores proporções. A lição deste episódio foi ignorada em Canudos.

A resistência dos muckers contou com o concurso de colonos veteranos da Guerra do Paraguai. Os muckers foram colonos que ocuparam o Ferrabraz no centro do triângulo balizado por Novo Hamburgo, Taquara e Gramado, povoado por imigrantes alemães agricultores. Estes colonos sem assistência médica, religiosa e educacional entraram num processo de decadência social e de empobrecimento.

Nesse quadro de abandono despontaram as lideranças de João Maurer, um curandeiro a quem os colonos confiavam sua saúde. A par disso, sua esposa Jacobina, na falta de padres e pastores, passou a interpretar a Bíblia e assim a desfrutar grande credibilidade que aumentou com seus ataques epilépticos, atribuídos e explorados como encontros com Deus.

Jorge Maurer, cuidando do corpo, e sua esposa, do espírito de um povo abandonado nas matas e grotas, facilmente exerceram liderança que resultou no triste episódio de revolta que tantas vidas imolou.

Os colonos vindos para povoar a região citada eram originários da região de Hunsrück, no Sudoeste da Alemanha, onde, na época, havia grande miséria decorrente do arrasamento sofrido pelas tropas de Napoleão.

Filmografia[editar | editar código-fonte]

Bibliografia[editar | editar código-fonte]

  • PETRY, Leopoldo. Episódio do Ferrabraz - Os Muckers. São Leopoldo: Ed. Rotermund. 1957.
  • DOMINGUES, Moacyr, cel. Av. A Nova face dos Muckers. São Leopoldo: Ed. Rotermund, 1977.

Referências