Operação Bandeirante

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A Operação Bandeirante (OBAN) foi um centro de informações e investigações montado pelo Exército do Brasil em 1969, que a coordenava e integrava as ações dos órgãos de combate às organizações armadas de esquerda durante a ditadura militar.

A entidade foi financiada em 1971 por alguns empresários, como Henning Albert Boilesen, da Ultragás, que foi assassinado em São Paulo sob a acusação de ter sido um dos financiadores da OBAN.

Seu membro mais famoso foi o major Carlos Alberto Brilhante Ustra.

História[editar | editar código-fonte]

Rua Tomás Carvalhal, 1030, fundos da 36ª Delegacia de Polícia, onde funcionava a Oban.

A OBAN foi lançada oficialmente em junho de 1969. Teriam participado do ato de lançamento da OBAN, no dia 1º de julho de 1969, em São Paulo, o governador da época, Roberto Costa de Abreu Sodré, o secretário de Segurança Pública, Hely Lopes Meireles, o general José Canavarro Pereira, comandante do II Exército, e os comandantes do VI Distrito Naval e da 3ª Zona Aérea.[nota 1]

As ordens para a montagem de um organismo que reunisse elementos das Forças Armadas, da Polícia Estadual - civil e militar - e da Polícia Federal para o trabalho específico de combate à subversão, foram dadas ao final de 1968 pelo Ministro da Justiça, professor Luís Antônio da Gama e Silva, numa reunião dos secretários de Segurança em Brasília, e pelo general Carlos de Meira Matos, que estava na chefia da Inspetoria Geral das Polícias Militares. A reunião, chamada "Seminário de Segurança Interna", discutiu toda uma estratégia de combate aos opositores do regime.

Sua sede foi instalada no número 1030 da rua Tomás Carvalhal, nos fundos do 36° distrito policial, na capital paulista.

Seu primeiro comandante foi o tenente-coronel do Exército Waldyr Coelho Pode-se dizer que a partir daí o Exército entrou de corpo inteiro no combate às forças de esquerda e principalmente, naquele momento, às que se dispunham a desenvolver a luta armada. Mas não apenas estas: professores universitários eram vigiados e frequentemente abordados por agentes da organização.

Sem vínculos formais, ou legais, a OBAN era em essência uma formação paramilitar de ação direta e violenta à margem da lei, o que lhe dava agilidade e brutal eficácia.

Entre os episódios mais brutais de tortura cometidos pela OBAN se encontra o tristemente célebre ocorrido em fevereiro de 1970 no Presídio Tiradentes, com o Frei Dominicano, Tito de Alencar Lima, Frei Tito, à época com apenas 24 anos.[2] Frei Tito identificaria entre seus torturadores na OBAN, o Tenente-coronel, reformado do Exército, Mauricio Lopes Lima. Em seu depoimento Frei Tito relata ter ouvido a seguinte frase do Tenente-Coronel: “você agora vai conhecer a sucursal do inferno”.[3] As feridas espirituais da tortura sofrida por Frei Tito jamais se cicatrizariam. Em virtude destas, Tito viria a se enforcar mais tarde na França onde conseguiu uma breve acolhida da ordem dos Dominicanos.

Mauricio Lopes Lima foi também reconhecido, em relato no projeto Brasil: Nunca Mais, pela Presidente Dilma Rousseff, como um dos seus torturadores.[4]

A OBAN foi financiada por diversos doadores privados como o Grupo Ultra, Ford, GM, Grupo Camargo Corrêa, Grupo Objetivo, Grupo Folha, Amador Aguiar (Bradesco), entre outros, e pelos bens tomados de suas vítimas. Entre os doadores, havia os que apoiavam com entusiasmo a repressão e outros que contribuíam a contragosto, sob pressão.

Entre esses doadores, destaca-se a figura de Henning Albert Boilesen, dinamarquês naturalizado brasileiro, diretor do Grupo Ultra. Segundo versões, contestadas por sua família e nunca apuradas oficialmente, chegou a participar de sessões de tortura e teria inventado uma ferramenta de tortura que levou seu nome: a Pianola de Boilesen, uma espécie de teclado que emitia choques elétricos em quem o premesse. Também há a suposição de o empresário era colaborador da CIA, mas nenhum dos fatos fora devidamente comprovado até hoje.

Em 15 de abril de 1971, Boilesen foi morto na capital paulista por militantes da ação libertadora nacional (ALN), sob o comando de Carlos Eugênio, o "Clemente".

Em 1970, a OBAN, embora ainda conhecida como tal, já está mais legalizada. Está enquadrada pelo Destacamento de Operações Internas/Centro de Operações de Defesa Interna (DOI-CODI). Funciona ainda como OBAN, mas ao colocá-la sob a jurisdição do DOI-CODI, pretendia-se diminuir a sua autonomia, o que na prática não acontecerá. Em 1970, quem comanda a OBAN – oficialmente o DOI-CODI – é Carlos Alberto Brilhante Ustra, major de artilharia do Exército, conhecido também, nas rodas da tortura, pelos codinomes de Major, Doutor Silva e Doutor Tibiriçá. [nota 2]

A ação da OBAN, como dos demais órgãos de repressão aos grupos de esquerda, só começou a arrefecer para enfim cessar a partir da abertura lenta e gradual promovida pelo presidente Ernesto Geisel.

Parte desta história começou a ser revelada no início dos anos 90 com a descoberta da vala clandestina do cemitério de Perus e as investigações da Comissão Parlamentar de Inquérito da Câmara Municipal. Corpos de indigentes, vítimas do esquadrão da morte e presos políticos, mostravam que a vala foi depósito de todo tipo de violência do regime militar

Referências

  1. GASPARI, Elio. A ditadura escancarada. São Paulo: Cia. das Letras, 2002, p. 61.
  2. Frei Tito (fevereiro de 1970). «Relato da tortura de Frei Tito». Consultado em 11 de dezembro de 2012. 
  3. [1]
  4. [2]
  5. Rompendo o Silêncio

Notas

  1. O ex-governador Abreu Sodré negou qualquer envolvimento com a OBAN. O prefeito da capital paulista à época, Paulo Maluf, também refutou as versões de que teria dado apoio à iniciativa. Nada foi apurado oficialmente contra esse dois políticos. É sabido, porém, que tanto o governo de Sodré quanto a prefeitura de Maluf forneceram apoio, inclusive material e financeiro, para o adequado funcionamento da Oban. Segundo Élio Gaspari, "o prefeito da cidade, Paulo Maluf, asfaltou a área do quartel, trocou-lhe a rede elétrica e iluminou-o com lâmpadas de mercúrio. O governador Roberto de Abreu Sodré cedeu-lhe espaço numa delegacia na esquina das ruas Tomás Carvalhal e Tutóia, a cinco minutos do QG do Ibirapuera, para que nela fosse instalada a Oban."[1] Tal apoio era necessário porque o Major Waldyer Coelho, que organizou a Operação Bandeirante, precisava de mais estrutura do que a cúpula do Exército estava disposta a lhe dar àquela altura
  2. Carlos Brilhante Ustra procura se defender das acusações de tortura em seu livro "Rompendo o Silêncio"[5]

Ligações externas[editar | editar código-fonte]