Sepé Tiaraju

Origem: Wikipédia, a enciclopédia livre.
Ir para: navegação, pesquisa
Sepé Tiaraju
Nascimento 1723
São Luiz Gonzaga
Morte 7 de fevereiro de 1756
São Gabriel
Cidadania Brasil
Sepé Tiaraju em mural de Danúbio Gonçalves no Memorial da Epopeia Riograndense, em Porto Alegre.

Sepé Tiaraju (Redução de São Luís Gonzaga, circa 1723[1]São Gabriel, 7 de fevereiro de 1756) foi um guerreiro indígena brasileiro, considerado santo popular e declarado "herói guarani missioneiro rio-grandense" por lei.[2][3] Chefe indígena dos Sete Povos das Missões, liderou uma rebelião contra o Tratado de Madri.[4]

Etimologia[editar | editar código-fonte]

Acredita-se que o nome verdadeiro de Sepé Tiaraju fosse Djekupé A Djú, que significava "Guardião de Cabelo Amarelo".[5] "Guardião" por ele ter escolhido ser guerreiro ao invés de pajé e "cabelo amarelo" porque tinha o cabelo castanho, um pouco mais claro que os demais indígenas.[5] Sepé Tiaraju foi a maneira como os padres das missões entenderam e escreveram seu nome.[5] Sepé era também chamado de Karaí Djekupé ("Senhor Guardião") pelos guaranis[5] e de José, seu nome cristão, pelos brancos.[4]

Biografia[editar | editar código-fonte]

Muito do que se sabe sobre Sepé Tiaraju veio de índios centenários do Sul do país, que preservam sua história de maneira oral, passando-a de geração para geração.[5] Supõem que Sepé Tiaraju nasceu em uma aldeia indígena que foi supostamente atacada por forças espanholas quando ele tinha dois anos de idade, o que o deixou órfão.[5] Os índios guaranis descobriram o menino no local e o levaram para uma aldeia perto de Sete Povos das Missões, onde Sepé foi adotado por um casal.[5] Segundo o pesquisador indígena Leonardo Werá Tupã, não é possível precisar a tribo de Sepé.[5] Apesar de ter se tornado líder dos guaranis, Sepé era de outra etnia: "Ele foi adotado pelos guaranis e criado como um dos nossos".[5]

Seu avô adotivo era um pajé muito poderoso e adorado.[5] Quando Sepé começou a crescer, foi preparado para ser um pajé.[5] Mas acabou se tornando um guerreiro, devido à sensação de revolta que tinha em relação aos homens brancos por eles terem dizimado sua aldeia.[5] Sepé não foi criado pelos jesuítas, mas frequentava as missões, onde aprendeu a falar espanhol.[5] Segundo Werá Tupã, Sepé foi treinado pelo grande exército guarani, os "kereymba".[5] Outras fontes indicam que ele havia sido alferes do exército espanhol.[4]

Sepé era habituado ao convívio com os homens brancos,[4] ao contrário dos demais guerreiros guaranis.[5] Prezava pelo convívio pacífico entre índios e brancos, uma vez que se preocupava com a jornada espiritual na qual seu avô deveria embarcar.[5] Werá Tupã duvida que Sepé tenha se convertido ao cristianismo, uma vez que era comum os índios aceitarem ser batizados para não desagradarem aos missionários jesuítas.[5] Ainda hoje, os guaranis utilizam essa estratégia com missionários cristãos.[5]

Guerra Guaranítica[editar | editar código-fonte]

Sepé liderou os guaranis contra as forças espanholas na chamada Guerra Guaranítica, que durou de 1753 a 1756. Letrado e treinado para o combate, ele exercia grande influência sobre seus comandados.

O conflito teve início com a assinatura do Tratado de Madri por Portugal e Espanha. Ficou acordado que Portugal cederia a Colônia do Sacramento (fundada pelos portugueses onde hoje é o Uruguai) à Espanha em troca da região dos Sete Povos. Para que o acordo fosse concretizado, os povos indígenas — grupo composto por cerca de 30 a 50 mil pessoas — deveriam abandonar o local e seguir para a região controlada pela Espanha. Contrariando as ordens da Companhia de Jesus, os indígenas não aceitaram o tratado e pegaram em armas para defender suas terras, dando início à guerra. Espanhóis e portugueses lutaram lado a lado para expulsar os indígenas das Missões. O interesse luso-brasileiro por esta extensa região deveu-se ao gigantesco rebanho de gado, o maior das Américas, mantido pelos indígenas.

Os guaranis conseguiram muitas vitórias, mas, no final de 1755, sofreram duas derrotas. Em 7 de fevereiro de 1756, após uma série de derrotas, cerca de 1 500 guaranis foram dizimados na batalha de Caiboaté, na entrada da cidade de São Gabriel. Sepé Tiaraju morreu no combate, provavelmente numa emboscada. A partir desse momento, história e lenda se confundem. Como o corpo do bravo guerreiro não foi encontrado no campo de batalha, espalhou-se a crença de que ele subira aos céus. Surgiu, assim, a veneração a São Sepé, um santo não reconhecido pela Igreja Católica.

Legado[editar | editar código-fonte]

Placa comemorativa à inscrição de Sepé Tiaraju no Livro dos Heróis da Pátria

Sepé Tiaraju criou táticas militares inovadoras para sua época, priorizando a guerrilha e evitando grande batalhas.[5] Além disso, idealizou e construiu quatro peças de artilharia, confeccionadas com cana brava.[5]

Sepé Tiaraju virou um herói popular no Rio Grande do Sul.[4] É atribuída a ele a exclamação épica "Esta terra tem dono!".[4] Sua memória ficou registrada na literatura por Basílio da Gama no poema O Uraguay (1769) e por Érico Veríssimo no romance O Tempo e o Vento.[6] Apesar da devoção popular e da existência de um município chamado São Sepé,[6] o líder guarani não é considerado santo pela Igreja Católica. Está, no entanto, presente no calendário de santos da Igreja Episcopal Anglicana do Brasil, sendo comemorado no dia 7 de fevereiro.[7]


Em 21 de setembro de 2009 foi publicada a Lei Federal 12.032/09, que determina que "Em comemoração aos 250 (duzentos e cinquenta) anos da morte de Sepé Tiaraju, será inscrito no Livro dos Heróis da Pátria, que se encontra no Panteão da Liberdade e da Democracia, o nome de José Tiaraju, o Sepé Tiaraju, herói guarani missioneiro rio-grandense".[8][6]

Adaptações[editar | editar código-fonte]

Literatura

Em 1975, Alcy Cheuiche publicou o romance Sepé Tiarajú – Romance dos Sete Povos das Missões.[9]

Histórias em quadrinhos
  • Em 1962, Flavio Colin adaptou a história de Sepé para a (Cooperativa e Editora de Trabalho de Porto Alegre), uma iniciativa do governo do Rio Grande do Sul.[10] Em 1979, Colin adaptou novamente a história de Sepé para a editora Grafipar de Curitiba, com roteiros de Luis Rettamozzo.[11]
  • Em 2010, a Câmara dos Deputados do Brasil lançou a revista Sepé Tiaraju - O índio, o homem, o herói, roteirizada por Luiz Gatto, desenhos de Plínio Quartim, cores de Mateus Zanone arte-final com Bruno Primo e Pedro Ernesto, a publicação foi distribuída para escolas públicas e bibliotecas de todo o Brasil e disponibilizada gratuitamente no formato pdf.[12]

Ver também[editar | editar código-fonte]

Notas

  1. Alves, Luís. "Sepé Tiaraju, líder da República Comunista Guarani". A Verdade. 24 de fevereiro de 2012. Página visitada em 22 de julho de 2015.
  2. Lei Federal n. 12.032/09 e pela Lei do Estado do Rio Grande do Sul nº 12.366
  3. Assembléia declara Sepé Tiaraju herói oficial do Estado
  4. a b c d e f Sepé Tiaraju. Britannica Escola Online. Enciclopédia Escolar Britannica, 2015. Página visitada em 21 de julho de 2015.
  5. a b c d e f g h i j k l m n o p q r s t Bond, Rosana. "Guaranis desmentem livros e revelam nova história". A Nova Democracia. Ano VI, nº 40, fevereiro de 2008. Página visitada em 22 de julho de 2015.
  6. a b c "258 anos da morte de Sepé Tiaraju". Pousada das Missões. 7 de fevereiro de 2014. Página visitada em 22 de julho de 2015.
  7. "Normas para o Ano Cristão". Igreja Episcopal Anglicana do Brasil. 27 de novembro 2014. Disponível em: [1]. Página visitada em 20 de julho de 2015.
  8. Guerra, Pedro. 7 lendas gaúchas. RBS. Página visitada em 22 de julho de 2015.
  9. [http://www.cultura.rs.gov.br/v2/2015/05/20536/ Alcy Cheuiche lança edição bilíngue de “Sepé Tiaraju – Romance dos Sete Povos das Missões” com fotos de Leonid Streliaev]
  10. Ota e Francisco Ucha (janeiro de 2011). "A Cronologia dos Quadrinhos - Parte 2". Jornal da ABI (362)
  11. Ivan Carlo, Andrade de Oliveir (setembro de 2007). «Sepé Tiaraju: uma análise semiótica dos quadrinhos de Flávio Colin». História imagem e narrativas (5). ISSN 1808-9895 
  12. Sepé Tiaraju em álbum lançado pela Câmara dos Deputados

Bibliografia[editar | editar código-fonte]

  • ROSSI JUNG, Roberto - Esta Terra Tem Dono, Esta Terra é Nossa: a saga do índio missioneiro Sepé Tiaraju. Porto Alegre: Editora Martins Livreiro, 2005.
  • BRUM, Ceres Karum - Sepé Tiaraju Missioneiro: um mito gaúcho. Santa Maria e Porto Alegre: Editora Pallotti, 2006.
  • SUSIN, Luis Carlos - Sepé Tiaraju e a Identidade Gaúcha. Porto Alegre: Escola Superior de Teologia, 2006.
    • Literatura de ficção histórica
  • ORNELAS, Manuelito de - Tiaraju. Porto Alegre: Ed. Livraria do Globo, 1945.

Ligações externas[editar | editar código-fonte]