Ascetismo (filosofia)

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O ascetismo ou asceticismo é uma filosofia de vida na qual são refreados os prazeres mundanos, onde se propõem a austeridade.

Aquelas que praticam um estilo de vida austero definem suas praticas como virtuosa e perseguem o objetivo de adquirir uma grande espiritualidade. Muitos ascéticos acreditam que a purificação do corpo ajuda a purificação da alma, e de fato a obter a compreensão de uma divindade ou encontrar a paz interior. Isto também pode ser obtido com a automortificação, rituais, ou uma severa renúncia ao prazer. Entretanto, ascéticos defendem que essa restrições auto-impostas trazem grande liberdade em várias áreas de suas vidas, tais como aumento das habilidades para pensar limpidamente e para resistir a potenciais impulsos destrutivos.

Etimologia[editar | editar código-fonte]

O substantivo "ascetismo" deriva de um termo grego askesis (prática, treinamento ou exercício). Originalmente associado com qualquer forma de disciplina ou filosofia prática, o termo ascetismo significa alguém que pratica uma renúncia ao mundo com objetivo de adquirir um alto intelecto e espírito.

Muitos guerreiros e atletas, na sociedade Grega, utilizaram a disciplina askesis para conseguir uma melhor forma corporal e graça. A forma de vida, a doutrina, ou os princípios de alguém que se engaja no askesis são classificados como asceticismo.

"Ordinário" versus "extraordinário"[editar | editar código-fonte]

Max Weber fez uma distinção entre os asceticismo innerweltliche e ausserweltliche, que significam, respectivamente, "dentro do mundo" e "fora do mundo". E. Carvalho traduziu isto como "ordinário" e "extraordinário" (alguns tradutores usam "mundo interior", mas isto tem diferentes conotações no português e não é o que Weber tinha em mente).

O ascetismo "extraordinário" refere-se a pessoas que desistem do mundo para viver uma vida ascética (o que inclui os monges que vivem comunitariamente em monastérios, bem como os ermitões que vivem sozinhos). O asceticismo "Ordinário" refere-se a pessoas que vivem vidas ascéticas mas não se retiram do mundo.

Weber classificou esta distinção originalmente na Reforma Protestante, mais tarde tornou-se secularizado, assim o conceito pertence a ambos, religiosos e ascetas seculares.

David McClelland sugeriu que o asceticismo ordinário se restringe a agir contra alvos pré-identificados como prazeres que distraem pessoas de alguma inspiração divina, e podem aceitar prazeres que não sejam distracionistas. Como por exemplo, ele apontou que Quakers tem historicamente se objetado a usar roupas coloridas, apesar de que mesmo sem cores as roupas dos Quakers sejam feitas de matérias muito caras. A cores foram consideradas distracionistas, mas o material não. Amish usam critérios similares para tomarem decisões sobre que tecnologias modernas podem usar e quais devem evitar.

(McClelland, The Achieving Society, 1961)

Motivação religiosa[editar | editar código-fonte]

Asceticismo é muito associado com monges, yogis ou sacerdote, entretanto qualquer indivíduo pode escolher levar um vida ascética. Lao Zi, Gautama Buddha, Mahavir Swami, Santo Antonio, Francisco de Assis, Mahatma Gandhi e David Augustine Baker podem ser considerados ascetas. Muitos deles deixaram as suas famílias, possessões, e lares para viver uma vida mendicante, e nos olhos de seus seguidores demonstram grande espiritualidade, ou iluminação.

Hinduísmo[editar | editar código-fonte]

Na Índia antiga, havia uma tendência a abandonar o mundo convencional e entrar no ascetismo, que é uma vida de exclusão e renúncia, chamada tyaga ou samnyasa, estes movimentos começaram nos tempos das upanishads, refletindo um ideal, e acabaram se tornando um problema social. Em resposta, os legisladores Hindus inventaram os ideais de estágios da vida (ashrama). De acordo com este modelo, a pessoa primeiro termina o estágio de brahmacarin - estudante, passando para grihastha - cidadão ativo, e somente depois se retiraria do mundo.

Um exemplo extremo de grihastha são os Sadhus, homens santos, que praticam uma forma extrema de automortificação. Suas práticas incluem atos de extrema devoção para um deidade ou princípio. Tais votos nunca podem ser quebrados. Por exemplo, eles mantém um braço estendido no ar por um período de meses ou anos. Os tipos particulares de asceticismo variam de um para outro, e de homem santo para homem santo.

Budismo[editar | editar código-fonte]

O personagem histórico Gautama Buddha adotou uma vida extremamente ascética após deixar o palácio do seu pai, onde vivia em extremo luxo. Mas após experimentá-lo, Buddha rejeitou o asceticismo extremo como caminho para a libertação do sofrimento (nibbana), e escolheu em vez disso um caminho onde se encontra as necessidades do corpo sem cruzar os limites da luxúria e indulgência. Após abandonar o asceticismo extremo ele atingiu a iluminação. Este tipo de posicionamento se tornou conhecido como Caminho do Meio e se tornou a base dos princípios da filosofia Budista.

Os graus de moderação sugeridos neste caminho do meio variam dependendo da interpretação do Budismo. Algumas tradições enfatizam a vida ascética mais do que outras.

O estilo de vida básico de um praticante budista (bhikkhu, monge, ou bhikkhuni, freira) como descrito no Vinaya Pitaka foi interpretado como nem excessivamente austero nem hedonista. O Monge e a freira são orientados a manterem requisitos básicos da vida (particularmente comida, medicina, roupas e moradia) seguros e saudáveis, sem nunca terem problemas com a doença ou a fraqueza. Enquanto a vida descrita por Vinaya possa parecer difícil, ela deveria ser descrita como Espartana mais do que ascética. Privações para a própria santificação não são louvadas. Realmente, isto pode parecer um sinal de vínculo do que uma real renúncia. O objetivo da vida monástica era evitar as preocupações com as circunstâncias materiais da vida e introduzir ao monge ou freira a habilidade de se engajar na prática religiosa. Para este fim, ter poucas posses é mais aconselhável do que não ter nenhuma.

Inicialmente, o Buddha rejeitou um número de práticas especificas de ascetismo que alguns monges queriam seguir. Estas práticas — tais como dormir no chão de cremação ou em um cemitério, usar apenas trapos, etc. — foram consideradas inicialmente como muito extremas, sendo responsáveis a um indispor aos valores sociais que permeavam a comunidade, ou como aconteceu criando uma divisão entre os Sangha para encorajar os monges para competir na austeridade. A despeito da proibição, há registros no Pali Canon, destas práticas (conhecidas como práticas de Dhutanga, ou Thai como thudong) eventualmente tornam aceitáveis na comunidade monástica. Elas foram registradas por Buddhaghosa em seu Visuddhimagga e mais tarde se tornaram importantes nas práticas da Tradição Thai Florestal.

As tradições Mahayana do Budismo receberam um singular código de disciplina que era usado em diversos setores do Theravada. De fato, combinando significativamente com as variações culturais regionais, tendo como resultado diferentes atitudes em relação ao asceticismo em diferentes áreas dos Mahayana pelo mundo. Particularmente notável é a regra em relação ao vegetarianismo empregado na Ásia Ocidental, e particularmente na China e Japão. Enquanto os monges Theravada são compelidos a comer tudo que lhes possa dar sustentação, incluindo carne, os monges Mahayana na Ásia Oriental são frequentemente vegetarianos. Isso é atribuído a inúmeros fatores, incluindo os ensinamentos específicos de Mahayana em relação ao vegetarianismo, (a cultura oriental asiática tem as raízes de seu vegetarianismo no Confucianismo), e as divergentes formas que os monges conseguem a sobrevivência na Ásia ocidental. Enquanto tendência no sudeste da Ásia e no Sri Lanka monges geralmente fazem trabalhos diários esmolando e comendo carne, monges na Asia Ocidental recebem suprimentos alimentares de doadores (ou dos fundos recebidos por eles) e são alimentados em uma cozinha localizada no local do templo ou monastério.

Similarmente, há divergência entre as diferentes escrituras e tendências culturais como a forte ênfase ao asceticismo de algumas práticas Mahayana. O Sutra de Lotus, por sua vez, contêm uma história de um bodhisattva que se queimou como uma oferenda à reunião de todos os Buddhas no mundo. Esta tornou-se uma história símbolo do auto-sacrifício no mundo Mahayana, provavelmente causando a inspiração da espectacular auto-cremação de monges Vietcongs Thich Quang Duc durante os idos de 1960, bem como vários outros incidentes.

Judaísmo[editar | editar código-fonte]

O asceticismo é completamente rejeitado pelo Judaismo; isto é considerado contrário ao desejo de Deus para o mundo. Segundo a crença judaica, a intenção de Deus é que o mundo seja agradável, nos contextos permitidos.[1] O Talmud diz: "se uma pessoa têm a oportunidade de apreciar uma nova fruta e se recusa, ele prestará contas disto no próximo mundo".

Esta é uma das principais diferenças entre Judaísmo e Cristianismo. Alguns setores do Cristianismo, influenciados pelo gnosticismo pagão, defendem a tese que o mundo é basicamente mau (visão dualista) e deve ser evitado. Em contraste com o Judaísmo que defende que somente vivendo no mundo e apreciando-o é que o ser ascenderá espiritualmente.

Os escritos principais para o judaismo estão na Torá.

Referências

Ver também[editar | editar código-fonte]

Leituras externas[editar | editar código-fonte]

Ascetismo sexual[editar | editar código-fonte]