Música sacra

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A música sacra, em sentido restrito (e mais usado), é a música erudita própria da tradição religiosa judaico-cristã. Em sentido mais amplo é usado como sinônimo de música religiosa, que é a música nos cultos de quaisquer tradições religiosas.

Histórico[editar | editar código-fonte]

A expressão foi cunhada pela primeira vez durante a Idade Média, quando se decidiu que deveria haver uma teoria musical distinta para a música das missas e a música do culto, e tem em sua forma mais antiga o canto gregoriano. A música sacra foi desenvolvida em todas as épocas da história da música ocidental, desde o Renascimento (Arcadelt, Des Près, Palestrina), passando pelo Barroco (Vivaldi, Bach, Haendel), pelo Classicismo (Haydn, Mozart, Nunes Garcia), pelo Romantismo (Bruckner, Gounod, César Franck, Saint-Saëns) e finalmente o Modernismo (Penderecki, Amaral Vieira).

Música no cristianismo primitivo[editar | editar código-fonte]

O cristianismo começou como uma pequena e perseguida seita judaica. A princípio, não houve ruptura com a fé judaica e os cristãos ainda iam às sinagogas e ao Templo de Jerusalém, assim como Cristo tinha feito, e, presumivelmente, ainda mantinham as mesmas tradições musicais em seus encontros privativos. O único registro de música comunal nos Evangelhos é no último encontro entre os discípulos antes da crucificação de Jesus.[1] Fora dos Evangelhos, há uma referência a São Paulo encorajando os efésios e os colossenses a usarem salmos, hinos e músicas espirituais.[2]

Posteriormente, há uma referência em Plínio, que escreve para o imperador Trajano (r. 61-113) pedindo conselhos sobre o que fazer com os cristãos da Bitínia e descreve a prática que eles tinham de se encontrar antes do nascer-do-sol e repetir, antifonalmente "um hino para Cristo, como se fosse para Deus". A salmódia antifonal é a música cantada ou tocada de forma alternada por grupos distintos. A estrutura simétrica dos salmos hebreus torna possível que este método antifonal tenha se originado os serviços litúrgicos dos antigos israelenses. De acordo com o historiador Sócrates Escolástico, a introdução deste tipo de canto no culto cristão se deu por causa de Inácio de Antioquia (m. 107) que, numa visão, havia visto os anjos cantando em coros alternados.[3]

O uso de instrumentos na música do cristianismo primitivo parece não ter tido boa recepção. No final do século IV e início do V, São Jerônimo escreveu que uma donzela cristã não deveria sequer saber como se parecem um lira ou uma flauta, ou pra que servem.

Tradicionalmente, acredita-se que a introdução do órgão se deu no tempo do papa Vitaliano, no século VII.

Formas de música sacra[editar | editar código-fonte]

Algumas formas que se enquadram dentro da música sacra são os motetes, que são peças baseadas em textos religiosos - quase sempre em latim, os salmos, que são uma forma particular de motetes baseadas no Livro dos Salmos, a missa, oriunda da liturgia católica e geralmente dividida em seis partes básicas (Kyrie, Gloria, Credo, Sanctus, Benedictus e Agnus Dei) e o réquiem, ou missa dos mortos, que inclui as partes básicas da missa e mais outras (Dies Irae, Confutatis, Lacrimosa, etc.).

Motete[editar | editar código-fonte]

Magnificat - O Cântico de Maria
Interpretação ao vivo de Silvia Suss e Coro Vox Pop, ao violão André Egg, em Curitiba, em 2001 - arranjo vocal e regência: Jayme Amatnecks.

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Alguns textos musicados em motete, por vários compositores, são:

Natureza da música sacra[editar | editar código-fonte]

Argumenta-se que não há uma distinção precisa entre a música que expressa os sentimentos de natureza sagrada ou religiosa e que expressa os demais. As obras sagradas de Bach são musicalmente similares às seculares.[4] Mozart se utilizou de partes de suas composições religiosas em cantatas seculares e trechos de suas óperas para fins eclesiásticos. Uma missa também pode ser compilada somente a partir das composições seculares de Haydn.[5]

Por outro lado, Santo Agostinho afirma que "Cantar uma vez é rezar duas" (em latim: Qui cantat, bis orat),[6] sugerindo que há sim pensamentos e sensações que podem ser expressados pela música nos quais uma oração se oferece, separada das palavras da própria oração.

Música, ao contrário da arte ou da arquitetura, não representa objetos físicos e, ao contrário da poesia, é independente do pensamento proposicional. Assim, ela pode levar as emoções humanas a lugares que outras obras de arte não conseguem, uma prospecto de fuga da existência mundana.[4] Música também é apropriada para o caráter de sacrifício do culto, particularmente na tradição cristã, sendo uma oferenda a Deus. A música é uma maneira de permitir que um grande número de fiéis formem uma efetiva comunhão, expressando sua fé e sua oferenda juntos, em público. Finalmente, a música também tem um papel evangélico de atrair aqueles cujo entusiasmo pelos assuntos religiosos não é suficiente por si só.[4]

Ver também[editar | editar código-fonte]

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Referências

  1. Mateus 26:30
  2. Efésios 5:19 e Colossenses 3:16
  3. Schaff and Wace, book VI, chapter VIII, vol 2, p 144
  4. a b c Oxford Companion to Music, article 'Church Music'
  5. Catholic Encyclopedia
  6. Augustine of Hippo Sermons 336, 1 PL 38, 1472