Revolta de Janeiro

Origem: Wikipédia, a enciclopédia livre.
Ir para: navegação, pesquisa
Brasão de armas da Revolta de Janeiro
Exército russo em Varsóvia durante a lei marcial de 1861

A Revolta de Janeiro foi a mais longa insurreição polonesa contra a Rússia tsarista: começou em 22 de janeiro de 1863, e os últimos insurgentes não foram capturados até 1865. Começou com um protesto espontâneo por jovens poloneses contra o alistamento no Exército russo. A revolta foi logo apoiada por vários políticos e oficiais de alta patente polonesa do exército tsarista. Os revoltosos, logo cresceram em número e sem qualquer ajuda externa, foram forçados a recorrer à táticas de guerrilha. Os insurretos não conseguiram qualquer vitória militar importante e nem no decorrer da campanha, qualquer grande cidade ou fortificação foi recapturada na Polônia ocupada. A revolta conseguiu, contudo, sucesso em neutralizar o efeito da abolição pelo Tsar da servidão na partição russa, que tinha sido planejada para convencer os camponeses poloneses a não serem mais o suporte do restante da nação. As severas represálias contra os poloneses devido à revolta, tais como execuções públicas ou deportações para a Sibéria, levaram muitos poloneses a abandonar a luta armada e a retornar à ideia de "trabalho orgânico" - o auto-aperfeiçoamento econômico e cultural.

História[editar | editar código-fonte]

Após uma série de tumultos patrióticos, o regente russo do Tsar Alexandre II introduziu a lei marcial na Polônia em 14 de outubro de 1861. A revolta eclodiu no momento em que havia uma calma generalizada na Europa e na Rússia e quando o Partido Revolucionário não tinha suficientes meios para armar e equipar os grupos de jovens que estavam escondidos nas florestas para fugir à ordem de Alexander Wielopolski para que se alistassem no exército russo. Ao todo cerca de 10.000 homens reuniram-se em torno da bandeira revolucionária; eles foram recrutados principalmente das classes trabalhadoras da cidade e funcionários da administração, embora houvesse também uma considerável participação dos filhos mais jovens da szlachta mais pobre e um número de padres do baixo clero.

Para lidar com esses mal armados grupos o governo tinha a sua disposição, na Polônia, um exército bem treinado de 90.000 homens sob o comando do General Ramsay, 60.000 tropas na Lituânia e 45.000 em Volhynia. Parecia que a rebelião seria esmagada em um curto tempo. A sorte foi lançada e o governo provisório se dedicou à grande tarefa com dedicação. Ele publicou um manifesto no qual declarava "todos os filhos da Polônia livres e cidadãos iguais sem distinção de credo, condições e classe social." Declarou que a terra cultivada pelos camponeses, seja na base de arrendamento ou serviço, doravante se transformariam em suas incondicionais propriedades, e em compensação por isso seriam distribuídos aos senhores de terras os fundos gerais do Estado. O governo revolucionário fez o melhor possível para prover e abastecer os desarmados e espalhou guerrilhas, durante o mês de fevereiro, foram oitenta encontros sangrentos com os russos. Enquanto isso, enviou um apelo às nações do oeste europeu, que foi recebido em toda a parte com uma resposta sincera e comovida, desde a Noruega até Portugal. O Papa Pio IX pediu uma prece especial para o sucesso das forças polonesas, e foi muito ativo em provocar a simpatia para o sofrimento da nação.

"Zuavos da Morte" (żuawi śmierci), uma unidade de revoltosos organizada por François Rochebrune em 1863. Desenho (publicado em 1909) por K. Sariusz-Wolski, a partir de uma fotografia. Da esquerda para a direira: Conde Wojciech Komorowski, Coronel François Rochebrune, Tenente Bella.

O governo provisório contava com uma revolta revolucionária na Rússia, onde o descontentamento com o regime autocrático parecia na ocasião ser muito predominante. Também contou com um ativo apoio de Napoleão III, particularmente depois que a Prússia, prevendo um inevitável conflito armado com a França, fez propostas amigáveis para a Rússia e ofereceu sua assistência para suprimir a revolta polonesa. No dia 14 de fevereiro os acordos já tinham sido completados, e o Embaixador britânico em Berlim informou a seu governo que um enviado militar prussiano "tinha concluído um acordo com o Governo russo, onde os dois governos concordavam em fornecer facilidades um para o outro para a supressão dos movimentos de revolta que estavam acontecendo na Polônia. As ferrovias prussianas estariam também disponíveis às autoridades russas para o transporte das tropas através do território prussiano de uma parte a outra do Reino da Polônia." Este gesto de Otto von Bismarck causou protestos por parte de vários governos e motivou a nação polonesa. O resultado foi a transformação de uma insignificante revolta em uma outra guerra nacional contra a Rússia. Encorajada pelas promessas feitas por Napoleão III, toda a nação, influenciada pelos conselhos de Wladyslaw Czartoryski, filho do Príncipe Adam, pegou em armas. Demonstrando sua solidariedade para com a nação, todos os poloneses que mantinham cargos sob o Governo russo, incluindo o Arcebispo de Varsóvia, renunciaram a suas posições e apresentaram-se ao recém constituído Governo polonês, que era composto de cinco dos seus mais proeminentes representantes.

Esta transformação da revolta em uma guerra mudou todo o aspecto da situação. Um exército de 30.000 homens foi logo organizado e novos acréscimos foram feitos. As pessoas ricas das cidades e por todo o país doaram grandes somas em dinheiro. A nobreza da Galícia e do Ducado de Poznań sustentaram a guerra com dinheiro, suprimentos e homens. A Lituânia surgiu sob o comando de Konstanty Kalinowski e logo a chama da guerra se espalhou pela Samogítia, Livônia, Bielorrússia, Volhynia, Podolia e mesmo em alguns lugares da Ucrânia.

Batalha de Węgrów 1863

A intervenção diplomática das Forças a favor da Polônia, mais atrapalhou do que ajudou. Alienou a Áustria que até então tinha mantido uma amigável neutralidade com relação à Polônia e não tinha interferido nas atividades polonesas na Galícia. Prejudicou a opinião pública entre os grupos radicais na Rússia que, até aquele tempo, tinha sido amigável porque eles consideravam a revolta algo social ao invés de um caráter nacional e provocou no Governo russo uma reação mais enérgica a fim de apressar a supressão das hostilidades que estavam crescendo em tamanho e determinação.

Além disso, para os milhares que cairam nas batalhas, 128 homens foram enforcados pessoalmente por Mikhail Muravyov ('Muravyov, o Carrasco'), e 9.423 homens e mulheres foram exilados na Sibéria (2.500 homens segundo dados mais baixos do Governo russo, Norman Davies dá o número de 8.000 sendo esta a maior deportação da história da Rússia). Aldeias e cidades inteiras foram destruídas e queimadas; todas as atividades foram suspensas e a szlachta arruinada pelo confisco e impostos exorbitantes. Tal foi a brutalidade das tropas russas que suas ações foram condenadas em toda a Europa, até mesmo na própria Rússia Muravyov foi condenado. O Conde Berg, recém indicado Governador-Geral da Polônia, seguiu os passos de Muravyov, empregando medidas desumanamente severas contra o país. Os membros do Partido vermelho criticaram o governo Conservador por sua política reacionária em relação aos camponeses mas, se enganaram em suas esperanças em Napoleão III, o Governo contava com o apoio francês e persistiu neste ponto. Foi somente após o altamente respeitado e sábio Romuald Traugutt tomar o caso em suas mãos que o aspecto da situação se tornou mais claro. Ele reverteu à política do primeiro governo provisório e procurou trazer a massa de camponeses para a participação ativa garantindo a eles as terras em que trabalham e insentivando todas as classes a cresceram. A resposta foi generosa mas não total. A política inteligente foi adotada muito tarde. O Governo russo já vinha trabalhando entre os camponeses na maneira acima descrita e dado a eles pedaços de terras através de simples solicitações. Eles estavam completamente satisfeitos e achavam que não deveriam se envolver muito com os revolucionários, tornando-se indiferentes a eles. A luta continuou intermitente por vários meses. Entre os generais o Conde Józef Hauke-Bosak foi o que mais se destacou como comandante das forças revolucionárias e tomou várias cidades do infinitivamente superior exército russo. Quando Romuald Traugutt e quatro outros membros do Governo polonês foram presos pelas tropas russas e executados na cidadela de Varsóvia, a guerra no curso da qual foram lutadas seiscentas e cinquenta batalhas e escaramuças, vinte e cinco mil poloneses mortos, chegou a um rápido fim na última metade de 1864, tendo durado durante dezoito meses. É interessante notar que ela persistiu em Zmudz e Podlasie, onde a população Uniate, maltratada e perseguida por suas convicções religiosas, levantou por muito tempo a bandeira revolucionária. A revolta foi finalmente esmagada pela Rússia em 1864.

Uma capela em Vilnius em comemoração à Revolta de Janeiro de 1863.

Depois do fracasso da revolta, seguiram-se severas represálias. Segundo informações oficiais russas, 396 pessoas foram executadas e 18.672 foram exiladas na Sibéria. Grande número de homens e mulheres foram mandados para o interior da Rússia e para o Cáucaso, Urais e outras regiões. Ao todo cerca de 70.000 pessoas foram aprisionadas e posteriormente enviadas para fora da Polônia e colocadas nas remotas regiões da Rússia. O governo confiscou 1.660 na Polônia e 1.794 na Lituânia. Um imposto de renda de 10% foi exigido a todas as propriedades como indenização de guerra. Somente em 1869 foi esta taxa reduzida para 5% de todas as receitas. Além da garantia da terra aos camponeses, o Governo russo deu-lhes também florestas, pastos e outros privilégios (conhecidos pelo nome de servitudes) que tem provado ser uma fonte de incessante irritação entre os donos de terras e camponeses, e de sérias dificuldades para um desenvolvimento econômico racional. O governo confiscou todas as propriedades e fundos da igreja, fechou monastérios e conventos. Com exceção das instruções religiosas, todos os outros estudos nas escolas foram efetuados no idioma russo. O russo também tornou-se a língua oficial do país, usado exclusivamente em todos cargos do governo local e geral. Todos os vestígios da antiga autonomia polonesa foram removidos e o reinado foi dividido em dez províncias, cada uma com um governador militar russo designado e todas sob o completo controle do Governador-Geral de Varsóvia. Todos os antigos funcionários do governo foram destituídos de suas posições.

Insurgentes famosos[editar | editar código-fonte]

  • Stanisław Brzóska (1832-1865) foi um padre polonês e comandante até o fim da revolta
  • Władysław Niegolewski (1819-1885) foi um político liberal polonês e membro do parlamento, um insurgente nas revoltas polonesas de 1846, 1848 e na de janeiro de 1863. Foi o co-fundador em (1861) da Sociedade Central Econômica e em (1880) da Sociedade de Bibliotecas das Pessoas.
  • São Raphael Kalinowski, nasceu Joseph Kalinowski na Lituânia, deixou de ser capitão do exército russo para tornar-se Ministro da Guerra dos insurgentes poloneses. Ele foi preso e sentenciado à morte por um pelotão de fuzilamento, mas a sentença foi depois mudada para 10 anos na Sibéria, incluindo uma extenuante jornada de nove meses até chegar lá.

Trivia[editar | editar código-fonte]