Tradicionalismo

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O tradicionalismo é um sistema filosófico ou político que coloca a tradição como critério e regra de decisão, entendendo-a como o conjunto de hábitos e tendências que procuram manter uma sociedade no equilíbrio das forças que lhe deram origem.[1] Segundo os tradicionalistas, as sociedades não resultam de um acto de exclusiva vontade pessoal ou de uma imposição deliberada de um grupo. Consideram que a sociedade é uma criação e não uma construção ou um mecanismo. Sendo uma criação, a sua existência é condicionada por leis naturais[2] .

Mas ter atenção que atitude tradicionalista distingue-se da conservadora, alicerçada no conservadorismo, que apenas vê o tradicionalismo como apego às tradições sem que estas tenham a possibilidade de evolução, por este último não ser hostil às inovações políticas, sociais, individuais ou grupais. Enquanto o espírito conservador tem uma atitude que se caracteriza pela deliberação em manter a ordem social, política ou económica existente, o espírito tradicionalista é aberto à mudança e até pugna frequentemente pela mudança.

Foram tradicionalistas autores como Taine, Galéot, Paul Bourget, Joseph de Maistre, Louis de Bonald e Félicité de Lamennais.

Em Portugal, no século passado, distinguiram-se nesse campo autores como Camilo Castelo Branco e a generalidade dos integralistas como Luís de Almeida Braga, António Sardinha ou Hipólito Raposo, em que a tradição transformou-se na palavra-chave congregadora do Integralismo Lusitano.

Segundo Sardinha, tradição não é somente o passado; é antes a permanência no desenvolvimento. Assim como Almeida Braga que salienta que a tradição não é contrária ao progresso: o passado é força que nos arrasta, não é cadeia que nos prende. Toda a exata noção de Progresso está numa sã interpretação da Tradição, pois o verdadeiro tradicionalismo é, antes de tudo, uma interpretação crítica do Passado, quer dizer, uma atitude de razão. Nega-se assim a identificação da tradição com a inércia, o passadismo e a rotina[3] .

A tradição, elo que ata e harmoniza o passado com o presente, é o veículo que liga o passado ao futuro. - Camilo Castelo-Branco[4]

A mudança, porém, deve realizar-se sem romper com os antecedentes morais que são o fundamento de uma dada sociedade[5] . O tradicionalismo reage normalmente de forma negativa às revoluções, em especial aquelas que pretendem fazer tábua rasa do passado e do fundamento moral que constituiu uma dada sociedade. Opta antes pela contra-revolução. Para o tradicionalista, deve ser a História, e não as nossas predilecções doutrinárias, o melhor guia na determinação dos regimes políticos. Se uma dada instituição, como a Instituição Real por exemplo, foi derrubada, é decerto contraproducente tentar voltar atrás e reerguê-la tal como existia, mas deverá ser observado se a função que essa instituição desempenhava encontrou um substituto capaz.

Enquanto carácter filosófico-teológico católico, que se pode confundir com o ultramontanhismo, representa uma oposição do racionalismo extremado, característica principal do século XVIII. Os critérios para encontrar a sua verdade consistem, basicamente, em sua antiguidade, perpetuidade e universalidade. Deste modo, o tradicionalismo defende a submissão de toda ordem moral e social ao poder da Igreja, e a reinstauração da antiga monarquia (não constitucional) como o sistema de governo mais verdadeiro, partindo da aceitação de seu princípio divino[6] . No entanto, o Concílio Vaticano I condenou os erros de certos tradicionalistas filosóficos, aqueles que caíam noutro extremo, enquanto negavam capacidade à razão humana[7] .

Obviamente os partidários das ideias consideradas de esquerda são os adversários imediatos, pois defendem que é preciso superar a desigualdade social, o domínio de classes e opressões causadas por estruturas que permanecem imutáveis por muitos séculos. Ou seja, argumentam que manter as tradições é uma forma de perpetuar a exploração e antigas formas de preconceito[8] .

No início do século XX, o tradicionalismo recebeu um contributo insuspeito da ciência nas descobertas de René Quinton, com a «lei da constância do meio vital dos seres». Nessa lei, Quinton não negou a Evolução mas concretizou-lhe as possibilidades: "os organismos vivos, para se manterem, procuram sempre restabelecer a pureza do seu meio vital, isto é, procuram manter a inviolabilidade das circunstâncias especiais que os geraram e de cuja guarda e duração depende a sua existência". Os tradicionalistas viram aí uma estrondosa confirmação do princípio tradicionalista: "res eodem modo conservatur quo generantur" ("as coisas existem pelas mesmas razões porque se geram").

A renovação da biologia seguiu o seu próprio caminho, mas ajudando a destronar o rudimentar ideário do Progresso indefinido. Situado na órbita dos fenómenos sociais, o tradicionalismo continua a entender a política como uma realidade, ou uma experiência, garantida e comprovada pelo decurso da história. "As instituições do passado não são boas por serem antigas, mas são antigas por serem boas"[9] – é uma famosa máxima tradicionalista.

Referências

  1. Hilton Japiassú, Danilo Marcondes (1993). 'Dicionário básico de filosofia, Zahar. p. 270. ISBN 978-85-378-0341-7.
  2. Tradicionalismo, InfoEscola
  3. Tradicionalismo, Polipédia
  4. Repositório Aberto da Universidade do Porto
  5. os tradicionalistas se distinguem dos conservadores por não serem avessos às inovações sociais, políticas, grupais ou individuais. Enquanto o conservador deseja manter a ordem social, política e econômica existente, o tradicionalista é mais sensível a mudanças. No entanto, por serem tradicionalistas, esta mudança não pode ser completa e radical, ela deve acontecer sem rompimento com os antecedentes morais que supostamente fundamentam a sociedade. - Tradicionalismo, InfoEscola
  6. Tradicionalismo, Algosobre Vestibular
  7. Tradicionalismo, por Orlando Fedeli, Cartas aos Leitores, Monfort
  8. Tradicionalismo, InfoEscola
  9. Tradicionalismo, InfoEscola

Ligações externas[editar | editar código-fonte]

Ver também[editar | editar código-fonte]