Véu
Véu é um tecido ou peça de vestuário, utilizado quase exclusivamente por mulheres de diferentes culturas, usado para cobrir totalmente ou em parte a cabeça e a face.
Uma visão é a de que se trata de um item religioso, usado para honrar um local ou objeto de culto. As funções socioculturais, psicológicas e sociosexuais do véu, entretanto, não foram extensamente estudadas, mas provavelmente também incluem a manutenção de uma distance social, a comunicação de status social e identidade cultural 1 2 . Em sociedades islâmicas, várias formas de véus foram adotadas da cultura árabe onde o Islã nasceu.[carece de fontes].
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Etimologia [editar]
A palavra "véu" é derivada do latim vēlum, que também era usada para denominar as vela das embarcações. Há duas teorias sobre a origem do termo vēlum:
- da raiz indo-europeia *wel-, significando "cobrir";
- da raiz indo-europeia *wegh-, que significa "carregar um veículo".
História [editar]
O primeiro uso conhecido do véu para mulheres é reportado em um texto legislativo assírio do século 13 a.C., que restringia seu uso a mulheres da aristocracia e proibia prostitutas e mulheres comuns de o adotarem [carece de fontes]. O termo em Grego micênico a-pu-ko-wo-ko, significando "artesão de véus para cavalos", também é atestado dese cerca de 1300 a.C. na escrita silábica Linear B3 4 . Textos gregos antigos também citam o uso do véu e a isolamento de mulheres praticada pela elite persa [carece de fontes]. Estátuas em Persépolis retratam mulheres usando véus[carece de fontes].
Estátuas gregas dos períodos clássico e helênico por vezes retratam mulheres gregas com a cabeça e face cobertas por véus. Ambos Caroline Galt e Lloyd Llewellyn-Joves argumentaram com base nessas representações e referências literárias que era comum entre as mulheres gregas desse período (ou pelo menos das mulheres de alto status social) o uso do véu em público[carece de fontes].
Por muitos séculos, até por volta de 1175, mulheres anglo-saxãs e anglo-normandas, excetuando as jovens solteiras, usavam véus que cobriam totalmente os cabelos e, por vezes, o pescoço e o queixo. Apenas no período Tudor(1485), quando o uso de capuzes se tornou popular, véus desse tipo começaram a ser menos comuns [carece de fontes].
O uso do véu entre mulheres europeias também é atestado em situações de luto e em substituto às máscaras como método de ocultação da identidade de uma mulher. De maneira mais pragmática, o véu também era usado para proteger a pele do sol, da mesma forma que o keffiyeh é usado hoje em dia [carece de fontes].
Uso religioso do véu [editar]
No judaísmo, cristianismo e islã, o ato de cobrir a cabeça está associado a modéstia e recato. A maioria dos retratos tradicionais da Virgem Maria a mostram com a cabeça velada. Durante a Idade Média, a maioria das mulheres europeias e bizantinas casadas cobriam suas cabeças com uma variedade de tipos diferentes de véus. Cobrir os cabelos era prática comum entre mulheres ao frequentar igrejas até a década de 19605 , tipicamente usando véus de renda. Um tipo de véu de renda que cobrem a face ainda é usada por mulheres européias e de diversas denominações cristãs em funerais.
No Brasil denominações cristãs como a Congregação Cristã no Brasil6 , dentre outras, ainda adotam o uso de véus durante serviços religiosos e orações. Os Menonitas e outras religiões americanas 7 8 também adotam o uso do véu nessas situações.
No norte da Índia, mulheres hindu frequentemente se cobrem com véus em regiões rurais, particularmente em Gujarat e no Rajastão quando em situações tradicionais e diante de homens mais velhos. Este véu é denominado Ghoonghat ou Laaj. Seu propósito é demonstrar humildade e submissão aos anciãos.
Apesar da religião ser comumente indicada como a razão para o uso do véu, essa prática também reflete situações políticas e também serve como meio para a exposição pública das convicções ideológicas da pessoa que o usa9 .
O Véu no Judaísmo [editar]
O uso do véu entre mulheres judias casadas é, segundo formas mais estritas do Judaísmo ortodoxo, uma expressão da devoção e amor exclusivos de uma mulher pelo seu marido. Dessa forma, o Tichel e outras formas de cobertura para os cabelos, considerado uma parte sensual do corpo, são recomendados a mulheres judias de tradições mais ortodoxas como um ato de modéstia.
O uso de cobertura para o cabelo é referido na Torah (Números 5:18), onde a cerimônia de punição a mulheres acusadas de adultério se inicia pela remoção dessa cobertura por um sacerdote. A Mishna(Ketuboth 7:6) e o Talmud (Ketuboth 72) também se referem à cobertura dos cabelos como uma obrigação feminina. Tanto a Torah (Cântico dos Cânticos 4:1) como o Talmud (Berakhot 24a) se referem aos cabelos como objeto de erotismo e sexualidade (ervah).
Véus bordados também são usados de forma simbólica como coberturas para a arca que contém os rolos da Torah nas sinagogas. Essa cortina ou véu chamado parochet, é uma herança do véu do tabernáculo e dos véus que originalmente cobriam a Arca da Aliança e o Santo dos Santos (Kodesh Hakodashim) no Templo de Jerusalém. Esses véus separam fisicamente aqueles espaços considerados particularmente sagrado de outros espaços, e limitam o acesso a esses espaços.
O Véu no Cristianismo [editar]
Véus litúrgicos [editar]
Dentre as igrejas cristãs que possuem tradições litúrgicas, diferentes tipos de véus são usados. Muitos desses véus estão associados ao véu do Tabernáculo do deserto e ao véu do Santo dos Santos do Templo de Salomão. O propósito desses véus é, em geral, proteger os objetos mais sacros, em particular a Eucaristia:
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- o Véu do Tabernáculo, usado para cobrir o Sacrário, usado particularmente na liturgia Católica Romana, mas também em outras tradições, é usado quando a Eucaristia está dentro do sacrário;
- o Cibório ou Âmbula, o cálice onde as hóstias são armazenadas na tradição Católica, é protegido por um véu quando as hóstias que armazena foram consagradas; antes parte obrigatória da liturgia, hoje são considerados opcionais;
- o cálice e patena contendo o vinho e o pão eucarísticos são também cobertos com um véu para evitar que os materiais sejam contaminados ou derramados. Na tradição católica um único véu é usado para ambos os materiais; nas igrejas orientais três véus são usados: um para o cálice, outro para o diskos (patena) e um terceiro, o Aër, para cobrir os dois anteriores;
- o Véu umeral é uma veste litúrgica utilizada no Rito romano, bem como em algumas igrejas Anglicana e Luterana durante a exposição do Santíssimo Sacramento;
- durante a quaresma, muitas igrejas velam seus crucifixos com véus de cor roxa, vermelha ou preta, a depender da tradição litúrgica, para demonstrar luto pela morte de Cristo.
Véu feminino [editar]
Tradicionalmente no cristianismo, as mulheres eram encorajadas a cobrir suas cabeças dentro das igrejas, bem como era (e ainda é, em muitos lugares) costume entre os homens descobrir as cabeças em sinal de respeito. Essa prática é baseada no texto bíblico da primeira epístola aos Coríntios atribuída a Paulo de Tarso:
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Todo homem que ora ou profetiza com a cabeça coberta desonra a sua cabeça; e toda mulher que ora ou profetiza com a cabeça descoberta desonra a sua cabeça; pois é como se a tivesse rapada. Se a mulher não cobre a cabeça, deve também cortar o cabelo; se, porém, é vergonhoso para a mulher ter o cabelo cortado ou rapado, ela deve cobrir a cabeça. O homem não deve cobrir a cabeça, visto que ele é imagem e glória de Deus; mas a mulher é glória do homem. Pois o homem não se originou da mulher, mas a mulher do homem; além disso, o homem não foi criado por causa da mulher, mas a mulher por causa do homem. Por essa razão e por causa dos anjos, a mulher deve ter sobre a cabeça um sinal de autoridade. No Senhor, todavia, a mulher não é independente do homem, nem o homem independente da mulher. Pois, assim como a mulher proveio do homem, também o homem nasce da mulher. Mas tudo provém de Deus. Julguem entre vocês mesmos: é apropriado a uma mulher orar a Deus com a cabeça descoberta? A própria natureza das coisas não lhes ensina que é uma desonra para o homem ter cabelo comprido, e que o cabelo comprido é uma glória para a mulher? Pois o cabelo comprido foi lhe dado como manto. Mas se alguém quiser fazer polêmica a esse respeito, nós não temos esse costume, nem as igrejas de Deus. (1 Coríntios 11:4-16, tradução Nova Versão Internacional)
Enquanto a autoria dessa carta é quase unanimemente atribuída a Paulo de Tarso, o trecho acima entretanto é considerado por diversos estudiosos bíblicos como uma adição posterior, contemporânea das epístolas pastorais, por ter estilo e doutrina em geral divergentes do defendido em outros trechos atribuídos a Paulo 10 .
Em muitas Igrejas Ortodoxas Orientais, e em algumas igrejas Protestantes bastante conservadoras, o costume de cobrir a cabeça nas igrejas, ou mesmo em orações privadas em casa, ainda é mantido. Na Igreja Católica, era costumeiro na maioria das localidades a cobertura da cabeça por véus, capas, estolas, echarpes e barretes, até a década de 1960. O costume, apesar de não mais obrigatório, continua em locais onde é considerado um prática de etiqueta, cortesia ou elegância. tradicionalistas católicos porém ainda mantém a prática. O uso de cobertura para a cabeça foi pela primeira vez tornado obrigatório e universal no Rito Latino pelo Código de Direito Canônico de 191711 que foi revogado pelo atual Código de Direito Canônico de 1983. 12 apesar de muitos tradicionalistas católicos disputarem a respeito da legalidade da revogação.
Um véu sobre o cabelo faz parte do vestuário e hábito da maioria das ordens de freiras e irmãs religiosas na Igreja Católica e em algumas ordens religiosas femininas Anglicanas. Na era medieval, mulheres casadas normalmente cobriam a cabeça com véus, depois copiados pelo vestuário das freiras, indicando sua posição como "noivas de Cristo". Em muitas ordens um véu branco, o véu da provação, é usado durante o noviciado e um véu preto, o véu da profissão, depois que os votos são tomados. As cores no entanto variam entre as diferentes ordens. No Rito Oriental da Igreja Católica e em Igrejas Ortodoxas Orientais, um véu chamado epanokameloukion é usado por religiosos de ambos os sexos (monges e freiras), cobrindo um chapéu denominado kalimavkion.
O Véu no Islã [editar]
Uma variedade de peças de vestuário para a cabeça são usados por mulheres e meninas muçulmanos de acordo com o hijab (o princípio da modéstia no vestuário), normalmente sendo referidos no ocidente como véus. O principal objetivo do véu muçulmano é ocultar aquilo que poderia ser considerado sexualmente atraente para os homens. Muitas dessas peças de vestuário cobrem os cabelos, orelhas e garganta, mas não a face. O khimar é uma espécie de lenço para a cabeça. O niqab e a burqa são véus que cobre toda a face, exceto uma pequena fresta para os olhos. A burqa afegã cobre o corpo todo, ocultando totalente a face, exceto por uma rede que permite que a mulher que a está usando possa enxergar. A boshiya é um véu que pode ser usado como um lenço sobre a cabeça, que cobre toda a face com um tecido translúcido [carece de fontes]. É sugerido que a prática do uso do véu, incomum entre os árabes antes do surgimento do Islã, se originou no Império Bizantino e se espalhou posteriormente na região. 13 14 .
O uso de véus e coberturas para a face por mulheres muçulmanos levantou questões políticas em países do ocidente, especialmente em Quebec, na França e no Reino Unido. Há também um acalorado debate na Turquia, país secular de maioria islâmica, onde os véus foram banidos em universidades e prédios do governo por serem considerados um símbolo de militância política de grupos Islamistas.
Usos não-religiosos do véu [editar]
Chapéus [editar]
Véus como parte de chapéus sobreviveram às mudanças na moda européia ao longo dos séculos e ainda são usados eventualmente em ocasiões formais. Esse tipo de véu é normalmente feito de redes, não objetivando esconder o rosto totalmente.
Véus de noiva [editar]
Véus também são parte integrante do vestuário das noivas em grande parte das culturas ocidentais. Véus compridos, cobrindo o cabelo e a face, substituíram o uso do cabelo longo e solto como símbolo da virgindade da noiva. O véu que cobria a face era normalmente removido ao apresentar a noiva ao noivo, ato que nos casamentos modernos é ignorado. Na tradição judaica a noiva era desvelada apenas antes da consumação do casamento.
Não é claro que o uso do véu no casamento é um uso não-religioso, uma vez que na tradição ocidental casamentos quase sempre acontecem em situações religiosas. Entretanto, o uso do véu no casamento predata a associação da cerimônia do casamento com a religião cristã. Noivas romanas usavam véus coloridos para espantar maus espíritos e posteriormente esse véu foi adotado nas cerimônias cristãs. O véu, uma vez tornado símbolo de virgindade, passou a ser adotado também por mulheres cristãs que consagravam sua virgindade a Cristo.
Véus masculinos [editar]
Entre certos grupos de povos Tuaregues, Songhai, Hauçás, Fulas e Mouros, mulheres não usam véus tradicionalmente, mas os homens sim. O uso dos véus masculinos está associado à proteção contra maus espíritos, mas muito provavelmente tem origem em usos mais pragmáticos, como proteger a face das condições rigorosas do deserto. Os homens passam a usar aos 25 anos de idade um tipo de véu que cobre toda a face, exceto os olhos, e não o removem mesmo junto aos membros de sua família.
Referências
- ↑ Murphy, R.F.. (1964). "Social Distance and the Veil.". American Anthropologist, New Series 66 (6): 1257-1274.
- ↑ Brenner, S.. (1996). "Reconstructing Self and Society: Javanese Muslim Women and "The Veil".". American Ethnologist 23 (4): 673-697.
- ↑ Palaeolexicon. Word study tool of ancient languages.
- ↑ Jose L. Melena. Index of Mycenaean words.
- ↑ Enciclopédia brasileira Mérito. [S.l.: s.n.]. 318 p. 20 vol.
- ↑ Regina Novaes. Os Escolhidos de Deus. [S.l.: s.n.], 1985. 60-61 p.
- ↑ Frank Spencer Mead. Handbook of denominations in the United States. [S.l.: s.n.], 1961. 57 p.
- ↑ Wenger, John C. and Elmer S. Yoder. (1989). Prayer Veil. Global Anabaptist Mennonite Encyclopedia Online. Página visitada em 27 de Março de 2012.
- ↑ Secor, A.. (2002). "The Veil and Urban Space in Istanbul: Women’s Dress, Mobility and Islamic Knowledge.". Gender, Place and Culture 9 (1): 5-22.
- ↑ John Barton; John Muddiman. The Oxford Bible Commentary. New York: Oxford University Press Inc., 2001. 1125 p. ISBN 978-0-19-875500-5 ("It is full of awkward argumentation, so awkward that a few scholars even consider it a later addition to the letter by another hand.")
- ↑ 1917 Codex Iuris Canonici. Canon 1262, Section 2.
- ↑ Canon 6 §1 of the Code of Canon Law.
- ↑ Review of Herrin book and Michael Angold. [S.l.]: Cambridge University Press. 426–7 & ff;1995 p. ISBN 0521269865
- ↑ John Esposito. Islam: The Straight Path. 3rd ed. [S.l.]: Oxford University Press, 2005. 98 p.
Ver também [editar]
Ligações externas [editar]
- Why Does a Bride Wear a Veil? - The Veil in Judaism
- Curtain article from the Jewish Encyclopedia
- Hijab - The Muslim Veil