Arco do Teles
Arco do Teles
| |
|---|---|
| Tipo | casa, ponte em arco |
| Inauguração | 1745 (281 anos) |
| Geografia | |
| Coordenadas | |
| Localização | Rio de Janeiro, Centro - Brasil |
| Patrimônio | bem tombado pelo IPHAN, Património de Influência Portuguesa (base de dados), patrimônio registrado pelo Inventário de Monumentos RJ |
O Arco do Teles (ou Arco do Telles) é um arco localizado na Praça XV de Novembro, no centro da cidade do Rio de Janeiro, Brasil. É um marco arquitetônico na história da cidade, tendo feito parte do Senado da Câmara Municipal e servido de palco para diversas lendas urbanas.
História
[editar | editar código]
Origens
[editar | editar código]Em 1738, a Casa dos Governadores (que depois viria a se tornar o Paço Imperial) começou a ser construída a mando do governador Gomes Freire de Andrade, Conde de Bobadela. Em 1743, a construção terminou e por conseguinte, a região do Largo do Paço começou a ser grandemente valorizada. Diante deste crescimento, o Juiz de Órfãos da cidade, Antônio Telles Barreto de Menezes, decidiu comprar terrenos na área e construir um conjunto de casas luxuosas a fim de alugar para membros da alta classe. Para a construção, contratou o arquiteto e militar português José Fernandes Pinto Alpoim, o mesmo responsável pela construção da Casa dos Governadores.[1]
As obras do casario se iniciaram por volta de 1745.[2] Durante a construção, Alpoim percebeu que as casas obstruiriam a passagem, muito usada por mercadores, entre a praça do Carmo (atual Praça XV) e a rua da Cruz (atual rua do Ouvidor). Para evitar este problema sem romper a continuidade dos pavimentos superiores do casario, decidiu construir um arco no meio de um dos prédios.[1] Quando a obra se concluiu, o interior do arco recebeu um pequeno oratório com a imagem de Nossa Senhora dos Prazeres, numa demonstração de devoção do proprietário.[1] Em sua referência, o arco tornou-se conhecido como Arco do Telles, e a passagem como Beco do Telles.
Senado da Câmara Municipal
[editar | editar código]Em 1750, parte dos sobrados do casario foi alugada pela Câmara Municipal, que transferiu para lá a Casa das Vereanças (pois sua própria sede passou a abrigar o recém-criado Tribunal da Relação). Em 1757, por decreto régio, a Câmara foi elevada à condição de Senado, e a sede inteira é transferida para as casas dos Telles.[3] Neste mesmo ano, faleceu Antônio Telles.[2]
Com a transferência da capital de Salvador para o Rio de Janeiro em 1763, a Praça XV se consolidou como grande centro da cidade e do país, e o arco tornou-se ainda mais frequentado e prestigiado.[4]
Incêndio de 1790
[editar | editar código]O prestígio do arco perdurou durante algumas décadas, até que na madrugada do dia 20 de julho de 1790, deflagrou-se um grande incêndio no casario, originado em uma das muitas lojas que funcionavam no térreo. A loja em questão pertencia ao adeleiro Francisco Xavier, que na tentativa de resgatar seus pertences, morreu no incêndio junto a um de seus criados. O fogo se alastrou pelo edifício e o reduziu a ruínas, queimando não apenas móveis e utensílios, como também quase todos os documentos do arquivo municipal da cidade.[1]
Segundo Haddock Lobo, o incêndio foi provocado intencionalmente por foreiros que buscavam eliminar os registros de medição e demarcação das propriedades da Câmara, e que portanto "por este meio julgavam poder libertar suas propriedades do senhorio direto da Câmara". A queima dos arquivos gerou "um perfeito caos" no que diz respeito aos aforamentos, mas posteriormente as propriedades da Câmara foram reavidas graças à sobrevivência de documentos específicos, que permitiram a reconstrução dos registros originais.[5]
Após o incêndio, o Senado foi transferido para a Rua do Ouvidor, e a reconstrução do edifício foi ordenada por Francisco Telles Barreto de Menezes, filho de Antônio Telles e Juiz de Órfãos da cidade desde 1756 (sucedendo seu pai).[1] A região, no entanto, não recuperou seu prestígio: a classe alta que ali residia foi embora e a área passou a ser habitada por pessoas à margem da sociedade, como ladrões e prostitutas, que se beneficiavam do abrigo oferecido pelo arco.[1][4] As cenas que ocorriam no beco eram tão "escandalosas" que um dos moradores da região removeu a imagem de Nossa Senhora dos Prazeres do oratório, levando-a para a Igreja de Santo Antônio dos Pobres, onde se encontra até hoje.[1]
Brasil Imperial
[editar | editar código]Somente em 1808, com a vinda da família real portuguesa, a área voltou a ser valorizada. O antigo Paço Imperial retomou seu papel como centro do poder político e administrativo, e a Rua da Direita voltou a concentrar boa parte do comércio, se assemelhando às ruas de outras capitais europeias. Em 1835 foi construído, junto ao Arco do Teles, o Mercado do Peixe, projetado por Grandjean de Montigny. Com o passar do tempo e a modernização da cidade, houve a fuga do eixo de poder da área do Largo do Paço, e a região voltou a ser novamente menos valorizada.[4]
Atualidade
[editar | editar código]Nos tempos atuais, a região ao redor do arco é bastante conhecida por sua vida noturna e pelo chamado happy hour, pois possuí diversos bares, restaurantes e festas. No período diurno, a região é conhecida pelo turismo, graças à sua história e arquitetura únicas e pela presença de diversos movimentos culturais que ocorrem na região.[6][7]
Personagens ilustres
[editar | editar código]Bárbara dos Prazeres
[editar | editar código]Segundo a tradição popular, Bárbara Vicente de Urpia teria sido uma imigrante portuguesa, nascida por volta de 1770, que trabalhou como prostituta no Arco do Teles. Com o avanço da idade, teria deixado de atrair clientes e passado a praticar rituais de "magia negra" para rejuvenescer. Nessas narrativas, é acusada do desaparecimento de algumas crianças da época, supostamente utilizadas em tais rituais. Em muitas versões, é identificada como a "Bruxa do Arco do Teles", "Bárbara Onça" (em referência a sua ferocidade) ou "Bárbara dos Prazeres" (um jogo de palavras envolvendo o fato do arco ter previamente abrigado uma imagem de Nossa Senhora dos Prazeres).[8]
Filósofo do Cais
[editar | editar código]João Jacó Matias Schindler (1796-1855) foi um mendigo alemão que viveu na cidade durante a primeira metade do século XIX. Ficou conhecido como Filósofo do Cais por seus hábitos excêntricos, como reproduzir diálogos, escrever em cadernos e andar descalço. Por vezes, abrigava-se no Arco do Teles para dormir.[1][9]
Carmen Miranda
[editar | editar código]Em 1925, a família de Carmen Miranda mudou-se para o sobrado de n° 13 da Travessa do Comércio. O imóvel serviu tanto como residência da família quanto como pensão de refeições administrada por sua mãe, Dona Maria Emília de Miranda. A família viveu ali durante seis anos.[10] Em 2024 a casa desabou, após vários anos de abandono.[11]
Referências
- ↑ a b c d e f g h Coaracy, Vivaldo (1988). Memórias da cidade do Rio de Janeiro. São Paulo: Editora Itatiaia. pp. 56–57
- ↑ a b Telles Rudge, Raul (1983). As Sesmarias de Jacarepaguá. São Paulo: Editora Kosmos. pp. 92–93
- ↑ Lessa, Dalvio. «História | Institucional». www.camara.rio. Consultado em 27 de setembro de 2025. Cópia arquivada em 13 de maio de 2025
- ↑ a b c Colchete Filho, Antonio Ferreira (26 de novembro de 2007). Praça Xv - O Projeto Do Espaço Público. [S.l.]: 7 Letras. pp. 45–46, 49
- ↑ Lobo, Roberto Jorge Haddock (1863). «Tombo das terras municipaes que constituem parte do patrimonio da illustrissima Camara Municipal da cidade de S. Sebastião do Rio de Janeiro»: 39-41. Consultado em 27 de setembro de 2025
- ↑ Villela, Danielle (24 de setembro de 2015). «Pelo Arco do Teles, uma viagem ao passado do Rio com choro e samba». Estadão. Consultado em 27 de setembro de 2025
- ↑ Marcolini, Barbara (17 de março de 2015). «Atrações musicais agitam o Arco do Teles, onde também haverá espetáculos teatrais». O Globo. Consultado em 27 de setembro de 2025
- ↑ «A história de Bárbara dos Prazeres, a "Bruxa do Arco do Teles" | Daniel Sampaio». VEJA RIO. Consultado em 27 de setembro de 2025
- ↑ L. M. J. A. O Barão de Schindler, ou O filósofo do cais ressuscitado. Fiel narração da vida; aventuras maravilhosas deste personagem singular extraídas dos seus papéis póstumos. Porto Alegre: A. B. Streccius
- ↑ Leonardo Ladeira (2 de julho de 2010). «Travessa do Comércio - Um passeio pelo Rio Colonial». rioecultura - Programação Cultural do Rio de Janeiro. Arquivado do original em 3 de fevereiro de 2015
- ↑ «Casa no Arco do Teles onde viveu Carmem Miranda desaba no Centro do Rio - Diário do Rio de Janeiro». 25 de junho de 2024. Consultado em 27 de setembro de 2025
