Igreja de Santa Maria da Fonte

Origem: Wikipédia, a enciclopédia livre.
Saltar para a navegação Saltar para a pesquisa
Igreja de Santa Maria da Fonte
Ζωοδόχος Πηγή
Fachada
Início da construção 1833 (reconstrução)
Fim da construção 1835
Religião Ortodoxa Grega
Ano de consagração 559/560
Geografia
País Turquia
Região Istambul
Coordenadas

A Mosteiro da Mãe de Deus da Fonte (em grego medieval: Μονὴ τῆς Θεοτòκου τῆς Πηγῆς; transl.: Moni tis Theotóku tis Pigis; em turco: Balıklı Meryem Ana Rum Manastiri ) ou simplesmente Zoódoco Pegas (Ζωοδόχος Πηγή - "Fonte da Vida"), é um santuário ortodoxo em Istambul. A atual igreja, chamada de Igreja de Santa Maria da Fonte, de 1835, foi construída no mesmo local de um santuário que ali existia desde o final do século VI e também foi dedicado à Teótoco ("Mãe de Deus"). Depois de muitas reformas, o edifício foi destruído na primeira metade do século XV pelos otomanos. O complexo recebeu este nome por causa de uma fonte sagrada (Pēgē) próxima que os fieis acreditam ter propriedades curativas. Por quase 1500 anos, o local permanece como um dos mais importantes locais de peregrinação da ortodoxia grega.[1]

Localização[editar | editar código-fonte]

Mapa de Constantinopla. A Igreja de Santa Maria da Fonte está localizada à esquerda, o único edifício demarcado fora da muralha, em Pegas, perto da Porta Silistra. Ela aparece aqui com o nome Zoódoco Pegas ("Fonte da Vida")
Czar Simeão I manda incendiar a Igreja de Santa Maria da Fonte.
Iluminura da Crônica de Constantino Manasses

A igreja está localizada no distrito de Zeytinburnu, vizinhança de Balıklı, em Istambul, a apenas algumas centenas de metros fora da cidade murada, a 500m da Porta de Silivri (em turco: Silivri Kapısı'). O complexo é protegido por um muro alto e está numa grande área verde circundada pelos cemitérios ortodoxo e armênio.

História[editar | editar código-fonte]

De acordo com os historiadores Procópio de Cesareia e Jorge Cedreno, a igreja foi originalmente erigida pelos imperador romano Justiniano I nos anos finais de seu reinado (559-560), próxima a uma fonte sagrada (ἁγίασμα - hagiasma, de onde deriva em turco: ayazma ) situada fora das Muralhas de Teodósio perto da Porta de Silivri.[2] Conta-se que, durante uma caçada, o imperador notou uma pequena capela rodeada por muitas mulheres.[3] Ao perguntar o que significava aquilo e o que era aquele edifício, foi informado que tratava-se da "fonte dos milagres". Na mesma hora ele ordenou que uma magnífica igreja fosse construída ali com o material que havia sobrado da construção da Basílica de Santa Sofia.[3]

De acordo com uma lenda posterior, o santuário teria sido erigido por ordem do imperador Leão I, o Trácio, (r. 457–474) por causa de um milagre ocorrido ali quando ele era ainda um soldado. Antes de entrar na cidade, Leão encontrou um cego que pediu-lhe água. Uma voz feminina ordenou o imperador que umedecesse os olhos do cego com a água de um pântano próximo. A mesma voz acrescentou que ela havia escolhido aquele exato local para ser venerada e que ele um dia receberia a coroa imperial. Leão seguiu a ordem e, na hora, o cego recuperou a visão. Depois de sua ascensão ao trono, Leão mandou construir uma magnífica igreja no local.[3] Esta lenda é, possivelmente, uma invenção posterior dos monges do santuário. Contudo, é possível que, mesmo antes do edifício de Justiniano, já existisse no local um pequeno mosteiro.[3]

A construção por inúmeras reformas ao longo dos séculos, as maiores por conta de terremotos: em 790, no reinado da imperatriz Irene e em 869, no reinado de Basílio I, o Macedônio, (r. 867–886).[3] Em 7 de setembro de 924, o czar Simeão I da Bulgária incendiou o complexo, que foi imediatamente restaurado por Romano I Lecapeno (r. 920–944).[4] Três anos depois, o filho de Simeão, Pedro, casou-se ali com Irene (Maria) Lecapena, a sobrinha de Romano.[4][5]

Por estar fora da cidade, o mosteiro era frequentemente utilizado como local de exílio. Em 1078, Jorge Monômaco foi banido para lá.[5] Em 1084, o imperador Aleixo I Comneno confinou o filósofo João Ítalo no mosteiro por causa de suas teorias neoplatônicas.[5]

Depois da conquista latina em 1204, a igreja foi ocupada pelo clero latino e, de acordo com fontes bizantinas, o ultraje causou o fim do chamado "milagre habitual" (to synetés thauma).[5]

Em 1328, Andrônico III Paleólogo utilizou o mosteiro como base para atacar Constantinopla.[5] Dois anos mais tarde, já moribundo na cidade de Didimoteico, ele bebeu da água da fonte e se recuperou imediatamente.[5]

Durante o cerco otomano de 1422, o sultão Murade II acampou no santuário. Não se sabe se os bizantinos restauraram o edifício antes da queda da cidade em 1453.[6] Peregrinos russos do século XV não fazem menção à igreja, apenas à fonte. O acadêmico francês do século XVI, Pierre Gilles, escreveu que em 1547 a igreja já não existia mais, mas os enfermos continuavam a ir até a fonte em busca de cura.[6]

Em 1727, Nicodemo, metropolitano de Derco e Neocório, construiu uma pequena capela sobre a Hagiasma. Um ícone, descoberto nas fundações da antiga igreja, passou então a ser venerado ali. Os armênios tentaram se apoderar da fonte, mas diversos firmãs garantiram a posse dos gregos. O complexo era controlado por guardiões turcos, que coletavam dos peregrinos um imposto para a manutenção das prisões turcas. Posteriormente, o complexo passou para o controle do Patriarcado até que, em 1821, janízaros destruíram a capela e envenenaram a fonte. Em 1833, um firmã permitiu que o patriarca Constâncio I reconstruísse a igreja, que foi inaugurada em 1835.[6]

A igreja foi bastante danificada durante o Pogrom de Istambul em 6 de setembro de 1955, mas foi reformada depois.

Descrição[editar | editar código-fonte]

Devoção
Panagia Argokiliotissa - Ícone da Santa Maria da Fonte.
A Hagiasma (fonte sagrada)

De acordo com Nicéforo Calisto (escrevendo no século XIV), a igreja, na época, tinha um formato retangular típico de uma basílica, com uma proporção de 4:3 entre os lados, e estava parcialmente enterrada.[7] Ela era rodeada por dois exonárteces (a leste e a oeste) e mais dois exonárteces (sul e norte). A luz vinda de fora se concentrava na fonte, que podia ser alcançada descendo dois lances de escada com 25 degraus. Cada lance estava protegido por uma balaustrada de mármore e coberto por uma arcada, também de mármore. A água caía numa pia de mármore e um encanamento a distribuía pela igreja.[7] O edifício estava ainda decorado com afrescos e era encimado por uma cúpula que brilhava com ouro puro. À volta da igreja estavam três capelas, dedicadas respectivamente a Santo Eustrácio, a Teótoco e a Santa Ana.

A igreja atual, orientada num eixo leste-oeste, também é retangular, conta com três naves divididas por colunas e é precedida por um exonártex. No canto noroeste, ergue-se uma torre sineira de metal. O interior é ricamente decorado. Do lado direito perto do meio da nave está um púlpito e no fim, a iconóstase. À direita dela está um ícono que, segundo a tradição, teria sido pintado por São Lucas.[4] A fonte está numa cripta subterrânea fora da igreja,[4] alcançada por uma escada que desce paralela ao lado maior da igreja. Uma escada simétrica leva da cripta para o jardim da igreja. A decoração ali conta com ícones e pinturas; a cúpula traz uma representação de Cristo num céu estrelado. A água corre para uma pia de mármore onde nadam peixes, presentes ali já há muitos séculos, deram origem ao nome turco do complexo (balıklı significa "local onde há peixes").[4] De acordo com uma lenda tardia, no dia da conquista de Constantinopla, um monge estava fritando peixes numa frigideira perto da fonte. Quando um colega anunciou-lhe a queda da cidade, ele respondeu que apenas acreditaria em tal disparate se os peixes de sua frigideira voltassem à vida. Imediatamente, os peixes pularam na fonte e começaram a nadar.[4]

O jardim em frente à igreja é um cemitério com diversos túmulos de mármore - a maioria datando dos séculos XIX e XX - pertencentes aos mais ricos rûms ("romanos") da cidade e também a diversos patriarcas. Característico do local também são as diversas lápides com inscrições karamanli[8] que constituem, de longe, o maior grupo sobrevivente desta linguagem.[9] O complexo é também circundado por mais dois grandes cemitérios, um grego e outro armênio, cada um cercado por altos muros.

Costumes e devoção[editar | editar código-fonte]

O santuário é dirigido por um bispo titular e é um dos mais populares entre os templos ortodoxos de Istambul, visitado principalmente na sexta-feira depois da Páscoa[4] e no dia 14 de setembro, dias nos quais uma grande festa, tão profana quanto religiosa, é realizada.[6] Celebram-se ali também os funerais de pessoas que serão enterradas nos cemitérios vizinhos.

Na época bizantina, o santuário era um dos mais importantes de Constantinopla. No dia da Ascensão, o imperador chegava de barco e atracava num pequeno porto na Porta Dourada. Ele então cavalgava até o santuário, onde era aclamado pelas facções rivais do Hipódromo, que lhe ofereciam uma cruz e guirlandas de flores. Mais tarde, ele vestiu seu robe cerimonial em seus aposentos e, depois de receber o patriarca, os dois entravam na igreja de mãos dadas.[5] Depois da celebração, o imperador então convidava o patriarca para o jantar.[5] Cada futura imperatriz que chegava à Constantinopla para seu casamento era recebido pelo futuro marido no Mosteiro da Fonte.[6]

A festa de dedicação da igreja foi realizada em 9 de julho. Além disso, a Ascensão, as Bodas de Caná (8 de janeiro) e o aniversário do milagre de Leão I (16 de agosto) eram também celebrados ali.[6]

A fonte da vida deu origem a muitas igrejas e mosteiros de mesmo nome no mundo grego, mas a maior parte foi erigida depois que o Império Bizantino já havia terminado.[10]

O ícone que representa a Virgem da Fonte mostra a Virgem abençoando e abraçando o Menino. Ela está rodeada por dois anjos e geralmente está sentado na mais alta de duas pias que estão suportadas por um jato de água que jorra de uma pia de mármore maior com uma cruz. À direita estão o imperador e sua guarda e, à esquerda, o patriarca e seus bispos. No fundo, aparece Leão I com o cego junto às muralhas da cidade. Sob a pia, um paralítico e um louco estão sendo curados pelas águas da fonte.[10]

Galeria[editar | editar código-fonte]


Referências

  1. Janin (1953), p. 232.
  2. Depois da construção do santuário, a Porta foi rebatizada pelos bizantinos como "Porta da Fonte" ou Porta Pegas (Πύλη τῆς Πηγῆς). Müller-Wiener (1977), p. 416
  3. a b c d e Janin (1953), p. 233
  4. a b c d e f g Mamboury (1953), p. 208 Erro de citação: Código <ref> inválido; o nome "ma208" é definido mais de uma vez com conteúdos diferentes
  5. a b c d e f g h Janin (1953), p. 234
  6. a b c d e f Janin (1953), p. 235 Erro de citação: Código <ref> inválido; o nome "ja235" é definido mais de uma vez com conteúdos diferentes
  7. a b Janin (1953), p. 236.
  8. Eyice (1955), p. 123.
  9. Blackwell (1978), p. 62.
  10. a b Janin (1953), p. 237

Bibliografia[editar | editar código-fonte]

O Commons possui uma categoria contendo imagens e outros ficheiros sobre Igreja de Santa Maria da Fonte
  • Mamboury, Ernest (1953). The Tourists' Istanbul. Istanbul: Çituri Biraderler Basımevi 
  • Janin, Raymond (1953). La Géographie ecclésiastique de l'Empire byzantin. 1. Part: Le Siège de Constantinople et le Patriarcat Oecuménique. 3rd Vol. : Les Églises et les Monastères (em francês). Paris: Institut Français d'Etudes Byzantines 
  • Eyice, Semavi (1955). Istanbul. Petite Guide a travers les Monuments Byzantins et Turcs (em francês). Istanbul: Istanbul Matbaası 
  • Müller-Wiener, Wolfgang (1977). Bildlexikon zur Topographie Istanbuls: Byzantion, Konstantinupolis, Istanbul bis zum Beginn d. 17 Jh. (em alemão). Tübingen: Wasmuth. ISBN 978-3-8030-1022-3 
  • Majeska, George P. (1984). «The Monastery of the Virgin at Pege». Russian Travelers to Constantinople in the Fourteenth and Fifteenth Centuries. [S.l.]: Dumbarton Oaks. pp. 325–326. ISBN 978-0-88402-101-8 
  • Blackwell, Basil (1996) [1978]. «Some karamanlidika inscriptions from the monastery of the Zoodokos Pigi, Balikli, Istanbul». In: Clogg, Richard. Anatolica - Studies in the Greek East in the 18th and 19th Centuries. Aldershot, Hampshire: VARIORUM. ISBN 0-86078-543-2