Pablo Richard

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Pablo Richard nasceu no Chile em 1939. Entre 1961 e 1963, estudou Filosofia em Viena (Áustria). Em 1966, obteve licenciatura em teologia pela Universidade Católica do Chile. Em 1969, obteve licenciatura em Escrituras Sagradas pelo Instituto Bíblico de Roma. Entre 1969 e 1970, esteve na Escola Bíblica de Jerusalém. Em 1973, após o golpe militar de Pinochet, se exilou na França, onde viveu até 1978. Em 1977, obteve o Título de "doutor honoris causa" pela Faculdade Livre de Teologia Protestante de Paris. Em 1978, obteve doutorado em Sociologia da Religião pela Universidade de Sorbonne em Paris. Em 1978, mudou-se para a Costa Rica, onde passou a integrar a equipe do Departamento Ecumênico de Investigações (DEI), do qual foi diretor. Foi professor de teologia na Escola Ecumênica de Ciências da Religião da Universidade Nacional da Costa Rica e foi integrante da Comissão de Estudos de História da Igreja na América Latina (CEHILA). Participou de um programa de formação permanente de Agentes de Pastoral em toda a América Latina[1].

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É possível dividir a reflexão teológica de Pablo Richard em cinco etapas:

  1. Entre 1958 e 1970: formação teológica e bíblica, na qual foi influenciado por José Comblin, pelos jesuítas: Ignace de la Potterie e Luis Alonso Schökel e pelos dominicanos Roland de Vaux e Pierre Benôit;
  2. Entre 1970 e 1973: que teve como foco o processo de transição para o socialismo vivido no Chile, no qual foi um fundadores e um dos dos principais teóricos do movimento "Cristãos pelo Socialismo";
  3. Entre 1973 e 1978: na qual esteve exilado na França, foi um duro tempo de reflexão e de reconstrução interior, onde investigou sobre a morte das cristandades e sobre o nascimento da Igreja a partir das Comunidades Eclesiais de Base;
  4. Entre 1978 e 1989: que teve como foco a análise das relações entre cristã e prática política e na elaboração de uma eclesiologia a partir das comunidades eclesiais de base e da Igreja dos pobres;
  5. Entre 1989 e 2003: : que teve como focos os estudos exegéticos e a leitura popular da Bíblia.

A perspectiva teológica de Richard tem elementos fundamentais: a prática da libertação, a espiritualidade e a Igreja dos pobres.

Em seus primeiros estudos, Richard buscou uma racionalidade crítica como mediação para fazer uma teologia historicamente significativa e, desse modo, encontrou a racionalidade da práxis social, cuja expressão concreta seria a racionalidade socialista, onde o cristianismo encontraria seu horizonte libertador e a sua própria verificação.

Trata-se de uma perspectiva teológica que:

  1. prioriza a existência sobre a consciência e a história sobre os valores "eternos e transcendentais";
  2. seria politicamente comprometida, que não se limitaria a pensar e interpretar o mundo, sem buscar a sua transformação.

Em escritos posteriores seu horizonte teológico se enriqueceu com a valorização da espiritualidade.

Defendia uma eclesiologia forjada no interior da Igreja latino-americana da década de 1980 que pretendia ser a Igreja dos pobres.

Era um profundo conhecedor da Bíblia, que estudava com os métodos histórico-críticos desde a realidade latinoamericana. Merecem destaque seus estudos sobre o Livro dos "Atos dos Apóstolos" e sobre o Apocalipse[1] [2] [3].

Estudo sobre o Livro dos Atos dos Apóstolos[editar | editar código-fonte]

Na obra "El movimiento de Jesús antes de la Iglesia", Richard apresentou uma interpretação libertadora do Livro dos Atos dos Apóstolos, em que descrevia um movimento do Espírito Santo, missionário e estruturado em pequenas comunidades domésticas, onde se mantinha viva a memória de Jesus, transmitida pelos apóstolos e nas quais se vivia a koinonía (comunidade de bens), a diakonía (o serviço) e a eucaristia (ação de graças).

Outros aspectos do estudo de Richard sobre Livro dos Atos dos Apóstolos são a participação das mulheres em tal movimento, a inculturação do Evangelho nas diferentes culturas e a dimensão política que contrapõe o cristianismo ao Império Romano[1].

Estudo sobre o Livro do Apocalipse[editar | editar código-fonte]

Na obra "Apocalipsis", Richard apresentou o "Livro do Apocalipse" como um livro histórico e libertador que se orientaria para a reconstrução da esperança e da consciência da comunidade cristã em tempos de perseguição e em situação de caos, exclusão e opressão. Portanto, o "Livro do Apocalipse" seria um livro utópico que teria a função de transmitir aos cristãos perseguidos uma espiritualidade de resistência frente à helenização do cristianismo e à sua institucionalização autoritária e patriarcal que permitiria a construção de um mundo sem opressão e sem morte indigna. Trata-se de uma utopia que se expressaria por meio de uma rica variedade de mitos e símbolos, que teriam como objetivo mobilizar as energias da comunidade, reconstruir a consciência coletiva e a práxis social. Trata-se de uma interpretação bastante distinta das leituras fundamentalista, e neo-conservadora[1].

Leitura Comunitária da Bíblia[editar | editar código-fonte]

Richard trabalhou com a formação bíblica dos Agentes de Pastoral em toda a América Latina por meio da leitura comunitária da Bíblia, que tem os seguintes princípios teóricos:

  1. os espaços hermenêuticos são os seguintes: a liturgia, que foi revalorizada pelo Concílio Vaticano II; as ciências bíblicas, que tiveram um grande desenvolvimento desde o Concílio Vaticano II; e o povo de Deus;
  2. o intérprete da Palavra de Deus é qualquer crente guiado pelo Espírito Santo orientado pela defesa da vida, com a ajuda das ciências bíblicas;
  3. os pobres são o sujeito coletivo privilegiado da Palavra de Deus, nesse conceito de pobre estão também incluídos: os povos nativos, os afro-americanos, as mulheres, os camponeses, a juventude, os defensores do meio ambiente;
  4. valorização do sentido ético, espiritual, eclesial e pastoral do texto bíblico, sem desprezar o sentido literal e o histórico;
  5. a tradição e o Magistério eclesiástico estão a serviço da Palavra de Deus e não o contrário;
  6. a Palavra de Deus deve ser libertada de toda opressão autoritária e fundamentalista, que se manifesta por meio do autoritarismo magisterial, que tende a sustituir a Bíblia pelas definições dogmáticas e o Catecismo; do fundamentalismo exegético, que ocorre quando o sentido literal mata o sentido espiritual; o reducionismo canônico, que limita o cânon bíblico a partir de um critério único e absoluto;
  7. a Palavra de Deus é fonte de vida e esperança na transformação global da sociedade[1].

Força ética e espiritual da teologia da libertação[editar | editar código-fonte]

Richard tentou ativar a força ética e espiritual da teologia da libertação diante do contexto de exclusão social das maiorias populares provocada pela globalização neoliberal. Trata-se de uma força ética e espiritual libertadora, que se caracteriza pela defesa da vida como valor absoluto e pela relativização da lei e das instituições. O critério de eticidade é o serviço da vida, que abrange elementos como direitos à terra para o cultivo, ao trabalho, à assistência médica, à educação, à paz, à justiça, à participação política, ao gozo e ao desfrute da vida, etc.

Trata-se de uma espiritualidade que nasce do encontro com o Deus dos pobres, da esperança e da vida, que enfrenta a idolatria do mercado.

Diante de uma globalização neoliberal que produz empobrecimento, incrementa o número de pobres, cria um abismo cada vez maior entre ricos e pobres e gera exclusão em diversos níveis (étnico, político, cívico, etc.), Richard propôs a reformulação da "opção pelos pobres", para que essa passasse a ser entendida como:

  1. opção com os pobres, contra a pobreza e por uma sociedade sem pobres e sem pobreza onde todos vivam em harmonia com a natureza;
  2. reconstrução da esperança e espaço para propor alternativas, os protestos contra a situação de exclusão são necessário, mas insuficientes, é necessário apresentar propostas as alternativas ao neoliberalismo, como as que sugiram no Fórum Mundial das Alternativas e no Fórum Social Mundial, como base no lema: "Outro mundo é possível".

Richard afirmava que a utopia teria um papel fundamental na construção de alternativas e que as utopias não estariam em contradição com o caráter escatológico da esperança cristã, pois acreditava que a escatologia seria um chamado para entrar em ação contra o poder da morte e da opressão do sistema, isso porque a Bíblia falaria de uma terra sem males, de um novo céu e uma nova terra, de um mundo onde não haveria pranto nem morte, de uma sociedade sem idólatras nem criminosos, de um banquete onde os pobres são convidados em primeiro lugar, o amor conjugal, etc.

Richard também defendia:

  1. a renovação da Igreja que se passaria a ser uma comunidade cristã que afirmasse a opção preferencial pelos pobres e oprimidos;
  2. o fortalecimento das comunidades eclesiais de base;
  3. a renovação da Vida Religiosa;
  4. a reformulação da Teologia da Libertação;
  5. a criação de uma Espiritualidade da Vida e da Libertação;
  6. a Leitura Pastoral da Bíblia.
  7. a redefinição da economia e sua inserção na sociedade;
  8. a deslegitimação da globalização neoliberal;
  9. a globalização da esperança e da solidariedade desde los excluidos en convergencia con los movimientos de resistencia
  10. a denúncia do caráter idolátrico do mercado;
  11. a luta contra o comércio de armas, de drogas e de vidas humanas;
  12. o fortalecimento da sociedade civil e a reconstrução da política a partir de tal sociedade.
  13. o diálogo interreligioso, não para debater dogmas e as leis de cada religião, mas os grandes desafios da humanidade como a obtenção da paz, a preservação do meio ambiente, a superação da pobreza, o combate ao terrorismo, ao fundamentalismo e à idolatria;
  14. recuperação da identidade originária do cristianismo a partir dos pobres do Terceiro Mundo, tendo em vista as suas origens anti-imperiais e antimilitares[1].

Obras[editar | editar código-fonte]

  • "Cristianos por el socialismo. Historia y documentos" (Sígueme, Salamanca, 1976);
  • "La Biblia y la memoria de los pobres" (México, 1978);
  • "Morte das Cristiandades e nascimento da Igreja. Análise histórica e interpretaçâo teológica da Igreja na América Latina" (Paulinas, São Paulo, 1984, 2ª ed.);
  • "La Iglesia latinoamericana entre el temor y la esperanza. Apuntes teológicos para la década de los 80" (DEI, San José de Costa Rica, 1980);
  • "Religión y política en América Central" (em co-autoria com Diego Irarrazaval) (DEI, San José de Costa Rica, 1981);
  • "Materiales para una historia de la teología en América Latina" (editor) (DEI, San José de Costa Rica, 1981);
  • "La Iglesia de los pobres en América Central" (em co-autoria com Guillermo Meléndez) (DEI, San José, 1982);
  • "La fuerza espiritual de la Iglesia de los pobres" (DEI, San José de Costa Rica, 1988);
  • "Apocalipsis. Reconstrucción de la esperanza" (DEI, San José de Costa Rica, 1994);
  • "El movimiento de Jesús antes de la Iglesia. Una interpretación liberadora de los Hechos de los Apóstoles" (DEI, San José de Costa Rica, 1998);
  • "Diez palabras clave sobre la Iglesia en América Latina" (editor) (Verbo Divino, Estella, Navarra, 2003);
  • "Fuerza ética y espiritual de la teología de la liberación en el contexto de la globalización" (DEI, San José de Costa Rica, 2004)[1].

Referências