Protestantismo clássico

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Protestantismo clássico, protestantismo histórico[1] ou protestantismo tradicional[2][3] são termos usados para designar grupos denominacionais protestantes que tiveram sua origem antes do movimento pentecostal e são assim designadas para serem diferenciadas destes.[4][5] Suas práticas contrastam com aquelas de denominações evangélicas, fundamentalistas e carismáticas (tais como pentecostais e neopentecostais). Estes últimos, por sua vez, são denominados de "neo-protestantes" por alguns autores.

Integram o protestantismo clássico as seguintes famílias denominacionais: luteranismo, calvinismo (presbiterianismo, congregacionalismo e Fé Reformada Continental), anglicanismo, metodismo e as igreja batistas e anabatistas. O adventismo, apesar de não se considerar protestante e também não ser reconhecido como tal pelas demais igrejas protestantes, também é comumente incluído entre os protestantes clássicos. Alguns movimentos que não são formalmente denominações podem ser identificados como protestantes históricos, tais como: pietismo, teologia dialética (neo-ortodoxia), puritanismo e movimento de santidade.[6] Embora constituam um grupo influente em vários países, os protestantes históricos têm perdido influencia desde meados do século XX, em especial nos Estados Unidos (onde eram 15% da população em 2014 contra 30% em 1970), na América Latina e na África Subsaariana.

As igrejas do protestantismo histórico compartilham uma posição social semelhante, o que faz com se organizem em grupos como o Conselho Nacional de Igrejas Cristãs (junto com a Igreja Católica) no Brasil, o Conselho Nacional de Igrejas nos Estados Unidos ou o Conselho Mundial de Igrejas a nível mundial. Devido ao seu compromisso com o movimento ecumênico, o protestantismo clássico por vezes é referido como "protestantismo ecumênico". Estas igrejas tiveram papel no movimento de libertação teológica dos anos 1960 e participam do movimento negro e das mulheres. Como um grupo, as igrejas protestantes clássicas defendem uma doutrina religiosa que enfatiza a salvação pessoal através da justiça social. Seus membros têm desempenhado papéis de liderança na política, nos negócios, na ciência, nas artes e na educação. Falando sobre o contexto americano, o historiador George Marsden escreveu que nos anos 1950 "os líderes protestantes históricos eram parte do mainstream cultural liberal-moderado e seus porta-vozes eram uma parte respeitada do debate nacional".

Etimologia[editar | editar código-fonte]

O termo protestante é derivado (via francês ou alemão[7]) do latim protestari.[8][9] Significa declaração pública/protesto, referindo-se à carta de protesto assinada por príncipes luteranos contra a decisão da Dieta de Speyer de 1529, que reafirmou o Édito de Worms de 1521, banindo as 95 teses de Martinho Lutero contra algumas crenças e práticas da Igreja Católica do século XVI. O termo protestante não foi inicialmente aplicado aos reformadores, mas foi usado posteriormente para descrever todos os grupos que protestavam contra a Igreja Católica. Desde aquele tempo, o termo protestante tem sido usado com diversos sentidos, muitas vezes como um termo geral para significar apenas os cristãos que não pertencem às igrejas Católica, Ortodoxa ou Ortodoxa Oriental.

Nos Estados Unidos, a decisão de separar os grupos protestantes em tradicionais e novos ocorreu na década de 1920 com o cisma entre modernistas e fundamentalistas. Naquele país, utiliza-se o termo mainline para se referir aos protestantes históricos. O termo tem origem no bairro Main Line da Filadélfia, um grupo de comunidades afluentes cujos membros decidiram não romper com as igrejas clássicas. No restante do mundo, utiliza-se os termos protestantismo histórico ou ecumênico para distinguir as denominações tradicionais do protestantismo tardio. Contudo, há quem defenda o fim do uso do termo protestantismo mainline nos Estados Unidos, por ser eurocentrista e elitista, uma vez que esteve sempre associado a pessoas brancas e afluentes desde sua origem.

História[editar | editar código-fonte]

O protestantismo histórico[editar | editar código-fonte]

Ver artigo principal: Reforma Protestante

Embora o termo só tenha aparecido no século XX, após um racha entre fundamentalistas e modernistas, o protestantismo histórico tem suas origens na Reforma Protestante do século XVI. Os reformadores eram pessoas de vasta cultura teológica e humanista: João Calvino estudou em Sorbonne; Martinho Lutero foi monge e professor universitário da Bíblia; Ulrico Zuínglio era sacerdote e humanista. De acordo com o programa dos humanistas, eles buscaram nas fontes da antiguidade cristã as bases para uma renovação religiosa. Lendo a Bíblia e retornando aos Pais da Igreja, descobriram uma nova visão da fé e uma doutrina bíblica cristocêntrica. A Igreja da Inglaterra, por sua vez, não se deixou influenciar num primeiro momento pelo protestantismo, mas depois de sua quebra com a Igreja de Roma começou uma aproximação com os ideais reformados. Atualmente a maior parte das Igrejas da Comunhão Anglicana declaram-se reformadas.

O protestantismo histórico apresenta alguns elementos em comum, apesar de sua grande diversidade. A Bíblia é considerada a única fonte de autoridade doutrinal e deve ser interpretada de acordo com regras históricas e linguísticas, observando-se seu significado dentro de um contexto histórico. A salvação é entendida como um dom gratuito (presente, graça) de Deus alcançado mediante a . As boas obras não salvam, sendo resultados da fé e não causa de salvação. O culto sempre é no idioma vernáculo e em sua grande maioria é simples, tendo como base as Escrituras Sagradas. O protestantismo histórico, conserva as crenças cristãs ortodoxas tais como a doutrina trinitária, a cristologia clássica, o credo niceno-constantinopolitano, entre outros. Os protestantes expressam suas posições doutrinais por meio de Confissões de Fé e breves documentos apologéticos, tais como a Confissão de Augsburgo, a Confissão de Fé de Westminster, os Trinta e Nove Artigos de Religião e a Declarações de Barmen.

O protestantismo histórico rejeita parte das doutrinas que caracterizam o catolicismo tais como: o purgatório, a supremacia papal, as orações pelos mortos, a intercessão dos santos, a Assunção de Maria e sua virgindade perpétua, a veneração dos santos, a transubstanciação, o sacrifício da missa, o culto às imagens etc. O protestantismo, em maior parte, segue a doutrina agostiniana da eleição. Estabelece que a salvação ocorre pela graça de Deus. Para os protestantes a autoridade da Igreja está vinculada à obediência da palavra de Deus e não à sucessão apostólica. Assim sendo, a Igreja cristã existe onde se escuta e obedece a palavra de Deus.

Iconoclastia protestante: o beeldenstorm durante a Reforma holandesa.

O protestantismo se disseminou principalmente nos meios urbanos e através da nobreza. A difusão das ideias protestantes foi facilitada pela invenção da imprensa, que tornou possível a divulgação e a tradução da Bíblia nas línguas vernáculas. Desde então, as doutrinas cristãs passaram a necessitar do aval bíblico. A Reforma Protestante alcançou êxito em muitas áreas da Europa. Em sua forma luterana, é predominante no norte da Alemanha e em toda a Escandinávia. Na Escócia surgiu a Igreja Presbiteriana. As Igrejas Reformadas também frutificaram nos Países Baixos, na Suíça e no oriente da Hungria. Com o desenvolvimento dos impérios europeus, principalmente o Império Britânico, no século XVII o protestantismo continuou a se expandir, se tornando uma fé de escala mundial. O trabalho missionário do século XIX levou à cooperação interdenominacional e consequentemente ao movimento ecumênico do qual surgiu o Conselho Mundial de Igrejas. [carece de fontes?] Atualmente mais de 600 milhões de pessoas professam alguma das diferentes manifestações do protestantismo no mundo.[carece de fontes?]

Em seu início, o protestantismo assumiu três formas básicas: a luterana, a reformada (calvinista) e a anglicana. O protestantismo não possui organização centralizada, porém suas igrejas estão organizadas em igrejas nacionais e em concílios internacionais tais como a Aliança Mundial de Igrejas Reformadas e a Federação Luterana Mundial. Fora desse protestantismo, que muitos estudiosos denominam "protestantismo magisterial", surgiu outro ramo que se distinguiu tanto do catolicismo quanto das igrejas protestantes de caráter histórico-nacional. Este ramo recebe o nome de Reforma Radical. O historiador George Williams distingue as seguintes correntes dentro desta reforma: espiritualista, racionalista e anabatista. Os anabatistas rechaçaram a união da igreja com o Estado e repudiaram o batismo infantil, constituindo-se em igrejas independentes ou segregadas. Defendem a liberdade religiosa pessoal e o exercício de um governo plenamente democrático em suas congregações.

Pós-Reforma[editar | editar código-fonte]

Evolução histórica do protestantismo. São considerados clássicos os movimentos que surgiram até 1800. Os demais movimentos são conhecidos como neo-protestantes ou tardios. Alguns autores também incluem o adventismo e o Movimento de Santidade nessa lista.

As maiores e mais influentes denominações protestantes nas Treze Colônias eram os anglicanos (chamados de episcopalianos após a Revolução Americana) e os puritanos (que mais tarde se tornariam congregacionalistas, unitários e universalistas). Mais tarde eles foram superados em tamanho e influência pelos batistas, presbiterianos e metodistas. Compartilhando uma herança comum, essas igrejas formariam o que ficou conhecido com as Sete Irmãs do protestantismo: a Igreja Metodista, a Igreja Evangélica Luterana, a Igreja Presbiteriana, a Igreja Episcopal, a Igreja Batista, a Igreja Unida de Cristo e a Igreja dos Discípulos de Cristo. Estas são as principais igrejas do protestantismo histórico nos Estados Unidos e também no resto do mundo, graças a suas inciativas missionárias.

Na década de 1730, um movimento conhecido como Grande Despertamento despertou controvérsia nas igrejas protestantes. Seus partidários, chamados de evangélicos,[nota 1] realizavam grandes sermões públicos que davam ao ouvinte um senso de revelação profunda sobre sua necessidade de ser salvo por Jesus Cristo. Afastando-se de rituais, cerimônias, sacramentos e hierarquia, tornou a experiência cristã imensamente pessoal para a pessoa média ao desenvolver nela um forte senso de convicção e redenção e também ao encorajar a introspecção e um novo nível de moralidade pessoal. Este processo de tomada de consciência foi chamado de avivamento. O movimento protestante logou encontrou-se dividido em duas vertentes, a nova e a antiga. O lado antigo, liderado por figuras como o ministro congregacionalista Charles Chauncy, se opunha ao movimento, enquanto o lado novo, liderado pelo ministro congregacionalista Jonathan Edwards, apoiava os avivamentos como parte importante da conversão de fé. Em 1800, os seguidores de Chauncy passaram a defender formas mais liberais da teologia cristã, fundando movimentos como o unitarismo, o universalismo e o transcendentalismo.

O Segundo Grande Despertamento inauguraria um período de dominância dos evangélicos no protestantismo estadunidense que duraria cerca de um século. Foi descrito como uma reação contra o ceticismo, o deísmo e o racionalismo, embora não se compreenda porque tais forças se tornaram tão fortes à época para gerar avivamentos. Esse movimento trouxe milhões de pessoas para as igrejas já existentes e fez com que surgissem novas denominações. O Segundo Grande Despertamento foi um catalisador para a reforma social; a melhoria dos direitos das mulheres, a reforma das prisões, o estabelecimento de escolas públicas, a proibição do álcool e a abolição da escravidão (no Norte) foram algumas das causas promovidas pelas igrejas protestantes. Após a Guerra de Secessão, no entanto, as tensões entre evangélicos e não-evangélicos emergiram novamente. Conforme a prática da leitura crítica da Bíblia se espalhava a partir da Alemanha, iniciou-se um conflito entre as igrejas protestantes. Os conservadores defendiam a inerrância dos textos bíblicos enquanto teólogos modernistas defendiam que era preciso ter uma postura crítica para melhor compreender a palavra divina.

Conforme os evangélicos do século XIX abraçavam o dispensacionalismo e se retraíam da sociedade face aos problemas causados pela industrialização, pela urbanização e pela imigração, os protestantes mais liberais abraçavam o evangelho social, que buscava a "regeneração da sociedade" ao invés da salvação individual. Foi neste contexto que teria ocorrido o Terceiro Grande Despertamento, embora os historiadores discutem se de fato ocorreu um movimento organizado de reavivamento da fé cristã. Enquanto os outros dois despertamentos estavam focados na salvação através de avivamentos, este teria defendido a crença pós-milenar de que a segunda vinda de Cristo ocorreria após a humanidade reformar toda a Terra. Influenciado pelo pietismo luterano, causou o surgimento de novos grupos como o Movimento de Santidade, a Igreja do Nazareno e a Ciência Cristã.

Em 1904, ocorreu um movimento conhecido como O Avivamento do País de Gales com grande impacto na população local. Dois anos mais tarde, na rua Azusa, em Los Angeles, surgiu o pentecostalismo. Inspirado pelos eventos ocorridos em Gales e com raízes no movimento metodista de John Wesley, o pregador afro-americano William J. Seymour liderou cultos de avivamentos acompanhados de testemunhos de curas miraculosas e glossolalia (o ato de falar em línguas). A missão, que continuou até 1915, foi criticada pela mídia secular e por teólogos cristãos, que consideravam o movimento ultrajante e pouco ortodoxo. A partir daí, sua experiência se espalhou por todo o mundo e levou à fundação da Assembleia de Deus em 1914 em Hot Springs, Arkansas. Essas manifestações alusivas a Pentecostes ocorreram nos dois primeiros avivamentos e deram luz aos movimentos pentecostais e carismático, sendo uma das maiores forças do cristianismo ocidental ainda hoje. Há quem propõe que a ascensão do pentecostalismo a partir da década de 1950, junto com o advento da teologia da prosperidade e a crise do protestantismo histórico, constitua um Quarto Despertamento, mas isto não é geralmente aceito pelos historiadores.

Na década seguinte, aprofundou-se a divisão entre os protestantes evangélicos e não-evangélicos dentro das Sete Irmãs. Os grupos lutavam para tomar o controle das denominações tradicionais. A chamada controvérsia fundamentalista–modernista terminou com a derrota dos evangélicos, que deixaram as igrejas para fundar seus próprios grupos, muitos dos quais adotando alguns princípios do pentecostalismo. Em países como os Estados Unidos e o Brasil, verifica-se um aumento no número dos protestantes evangélicos, em especial os pentecostais, e um declínio das igrejas tradicionais. Até a Segunda Guerra Mundial, o protestantismo liberal estava em ascensão nos Estados Unidos e um número considerável de seminários teológicos ensinavam a partir desta perspectiva. Após a Guerra, no entanto, a tendência começou a mudar a favor do campo conservador nos seminários e na vida religiosa. Durante as décadas de 1940 e 1950, as igrejas tradicionais abraçaram a teologia dialética de Karl Barth que, por sua vez, foi substituída pela teologia social – em especial a teologia da libertação de Gustavo Gutiérrez Merino – nos anos 1970.

Enquanto os neo-protestantes substituíram os protestantes tradicionais como maior grupo religioso nos Estados Unidos e a América Latina, tradicionalmente católica, vem experimentando um crescimento expressivo no número de evangélicos e pentecostais, o cenário na Europa Ocidental é bastante diverso. Lá tem ocorrido uma queda brusca no número de pessoas que se identificam como cristãs e as sociedades tornam-se cada vez mais seculares. Vários autores têm defendido que existe uma ligação entre o aumento do secularismo e a emergência do protestantismo, atribuindo-o ao amplo respeito às liberdades individuais presente nos países de maioria protestante. Este não parece, no entanto, ser o caso dos Estados Unidos, onde o secularismo cresce num ritmo menor do que o protestantismo tardio.

Teologia[editar | editar código-fonte]

As doutrinas das sete denominações históricas do protestantismo variam, mas todas incluem a justificação pela graça (Sola gratia), a salvação mediante a fé somente (Sola fide), o sacerdócio de todos os crentes, e a Bíblia como única regra em matéria de fé e ordem (Sola scriptura). Ao contrário de algumas denominações do protestantismo tardio, as igrejas clássicas são trinitárias e defendem que Jesus Cristo é o Senhor e o filho de Deus.

A partir do trabalho do teólogo luterano Ferdinand Christian Baur, as denominações protestantes tradicionais defendem a leitura crítica ao invés da leitura literal da Bíblia. Elas usam uma abordagem que visa separar os escritos originais da Bíblia de adições e distorções posteriores. Essas igrejas ensinam que, embora a Bíblia seja a palavra de Deus, ela deve ser interpretada sob a ótica da cultura em que foi escrita através da graça divina da razão. Um estudo conduzido em 2008 pelo Pew Research Center nos Estados Unidos descobriu que apenas 22% dos protestantes históricos entrevistados achavam que a Bíblia era a palavra de Deus e que ela deveria ser interpretada de maneira literal, palavra por palavra. Para 38%, a Bíblia é a palavra de Deus, mas não deve ser interpretada de maneira literal e outros 28% diziam que ela não era a palavra de Deus, mas sim uma obra de origem humana.

Nas igrejas clássicas, o texto bíblico não costuma ser interpretado no sentido de excluir as pessoas da experiência cristã. Segundo Richard Hutcheson, Jr., chefe do escritório de revisão e avaliação da Igreja Presbiteriana dos Estados Unidos, candidatos ao clérigo são mais rejeitados por fazerem uma interpretação literal da Bíblia do que por violar regras litúrgicas.[10] Os grupos ligados ao protestantismo histórico geralmente aceitam membros de outras fés e crenças, assim como ordenam mulheres e até mesmo homossexuais e transsexuais. Isto tem gerado a insatisfação de alguns fiéis, o que tem levado à criação de movimentos de renovação carismática, de tom mais conservador, como é o caso da Igreja Anglicana na América do Norte (uma dissidência da Igreja Episcopal). Dessa forma, embora tenha se originado de um ramo histórico do protestantismo, essa igreja não é considerada protestante clássica devido a sua adesão a um movimento tardio de renovação do protestantismo.

Teologia social[editar | editar código-fonte]

As igrejas clássicas são ativas nas questões sociais. Elas enfatizam o conceito bíblico da justiça, enfatizando a necessidade dos cristãos de lutar pelo bem comum, o que geralmente significa uma abordagem de esquerda para os problemas socioeconômicos. Quase todas essas igrejas ordenam mulheres. Elas têm tido posições diferentes em relação à sexualidade humana, mas todas tendem a ser mais liberais do que a Igreja Católica ou as igrejas neo-protestantes. Politicamente, as igrejas tradicionais também são ativas. Embora não apoiem oficialmente um partido político, elas deixam claro sua posição política. Nos Estados Unidos, elas têm manifestado sua posição contrária às propostas do governo Trump,[11] enquanto no Brasil o Conselho Nacional de Igrejas Cristãs manifestou-se contrário ao impeachment de Dilma Rousseff[12] e às reformas do governo Temer.[13] As igrejas históricas também são pacifistas, embora, inspiradas por teólogos antifascistas como Reinhold Niebuhr, elas tenham apoiado a luta contra o nazifascismo durante a Segunda Guerra Mundial tendo, inclusive, produzido alguns mártires como o pastor luterano Dietrich Bonhoeffer.

Demografia[editar | editar código-fonte]

Brasil[editar | editar código-fonte]

Percentual de Protestante Históricos por Estado em 2010

No Brasil, segundo o Censo de 2010, realizado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, cerca de 4,02% da população brasileira identifica-se como "evangélico de missão",[14] termo utilizado por este órgão para se referir aos protestantes clássicos. O grupo aumentou seu percentual na população entre 2000 e 2010 nas regiões Norte e Nordeste do Brasil, mas declinou no Sudeste, Sul e Centro-Oeste, onde eram historicamente mais numerosos. No geral, sua participação na população geral do país apresentou um pequeno declínio de 0,1% no período.[14] A idade média dos protestantes de missão foi de 29 anos, a mesma média nacional. Embora 51% da população brasileira seja feminina e 49% seja masculina, há desproporcionalmente mais evangélicos de missão mulheres do que homens; segundo o censo, 55,65% são mulheres e 44,35% homens. Também há desproporcionalmente mais brancos entre o grupo do que na população em geral (que corresponde a 47% do total). Cerca de 52% dos protestantes históricos são bancos, 40% pardos, 7% negros, 1% asiáticos e 1% indígenas. Assim sendo, o protestantismo histórico é o segundo grupo religioso mais branco do país, atrás apenas dos espíritas. Isto é explicado, em parte, pelo fato de que seus primeiros praticantes no país foram imigrantes de origem europeia, sobretudo alemã.

Assim como ocorre nos Estados Unidos, os protestantes históricos têm renda média e formação escolar superior à média nacional. Cerca de 12% do protestantes históricos com mais de 15 anos tem nível superior completo, acima da média nacional de 9,3%, e da média dos católicos romanos, pentecostais, evangélicos sem denominação e pessoas sem religião.[14] Também é o terceiro grupo com o maior percentual de pessoas alfabetizadas, atrás apenas dos espíritas e umbandistas/candomblecistas. Além disso, 3,12% dos protestantes históricos tem renda superior a 10 salários mínimos, número superior à média nacional de 3% e à média de católicos romanos, pentecostais e evangélicos sem denominação.

Estados Unidos[editar | editar código-fonte]

Nos Estados Unidos, os protestantes históricos correspondem a cerca de 15% da população geral segundo uma pesquisa de 2015 do Pew Research Center.[15] Isso corresponderia a cerca de 36 milhões de pessoas.[16] Um outro estudo, porém, conduzido pela ARDA, indica um número bem menor de fiéis: 22.568.258 ou 7,3 da população.[17] Essa diferença nos números ocorre devido à metodologia aplicada por cada pesquisa: diferentes igrejas de uma mesma denominação podem ser consideradas tanto tradicionais (mainline) quanto neo-protestantes (evangelical). Por exemplo, enquanto a Associação Nacional de Igrejas Cristãs Congregadas é considerada neo-protestante pelo Pew,[18] a ARDA a considera como uma igreja protestante tradicional. Existe também uma controvérsia relacionada a qual grupo pertencem as igrejas historicamente negras.

Outro empecilho que impede-se de chegar ao número exato de protestantes tradicionais é que, ao contrário do que ocorre no Brasil, o recenseamento demográfico não pergunta sobre religião naquele país. Apesar disto, é bastante perceptível que desde meados do século passado tem ocorrido um decréscimo no número de protestantes tradicionais nos Estados Unidos, com estudos corroborando que muitos fiéis dessas congregações estão migrando para denominações pentecostais.[19] Estima-se que o número de protestantes tradicionais caiu mais de um quarto desde 1958, quando correspondia a mais de 50 milhões de fiéis.[20] Este número caiu para 31 milhões em 1965 e depois para 25 milhões em 1988,[21][22] antes de chegar às estimativas atuais, que variam de 20 a 36 milhões de fiéis.

Os protestantes clássicos têm o maior percentual de pessoas com ensino superior entre os grupos religiosos dos Estados Unidos. Enquanto 50% da população possui um diploma de faculdade, esse número chega a 76% entre os episcopais, a 64% entre os presbiterianos, a 56% entre os metodistas e a 53% entre os luteranos.[23] Episcopais, presbiterianos, metodistas e luteranos também tendem a ser mais ricos do que a média da população estadunidense. A maioria deles também é branca, embora o número de não-brancos entre os protestantes clássicos tenha subido de 9% para 14% entre 2007 e 2014 segundo o Pew.[15] Assim como ocorre no Brasil, isso deve-se ao fato de que essas religiões foram trazidas ao país por imigrantes europeus, sobretudo das Ilhas Britânicas, da Alemanha e da Escandinávia, e praticadas por seus descentes.

Os protestantes históricos eram desproporcionalmente representados nos quadros mais altos dos negócios, do sistema judiciário e da política estadunidense até pelo menos o começo da década de 1960.[24] Eles sempre tiveram pelo menos uma cadeira na Suprema Corte dos Estados Unidos até agosto de 2010, quando o juiz John Paul Stevens se aposentou. Até 8 de abril de 2017, quando o episcopaliano Neil Gorsuch assumiu uma cadeira, não havia nenhum juiz protestante naquela corte. O surgimento da elite no país esteve intimamente ligada ao protestantismo clássico. Universidades como Harvard,[25] Princeton[26] e Duke[27] foram fundadas por protestantes e famílias afluentes como os Vanderbilts, os Astors, os Rockefellers, os Du Pont, os Roosevelts, os Forbes, os Whitneys e os Morgans são protestantes históricos.[28] Politicamente, os protestantes clássicos identificam-se um pouco mais com o Partido Republicano (30%) do que com o Partido Democrata (26%).[29]

Críticas[editar | editar código-fonte]

A distinção entre os protestantes clássicos e os neo-protestantes é tanto teológica quanto sociopolítica. Críticos teologicamente conservadores acusam as denominações tradicionais do protestantismo de "substituir o evangelho de Cristo por ação social esquerdista" e de favorecer o "desaparecimento da teologia bíblica" na sociedade. Para o comentarista neoconservador Joseph Bottum, "todas as igrejas históricas se tornaram basicamente a mesma igreja: suas histórias, suas teologias e até mesmo suas práticas foram perdidas para uma visão uniforme do progresso social".[30] As igrejas tradicionais ensinam que a Bíblia é a palavra incarnada de Deus que está aberta a novas ideias e mudanças sociais. Muitas dessas igrejas estão abertas à ordenação de mulheres e pessoas transgênero, à aceitação da homossexualidade e ao matrimônio entre pessoas do mesmo sexo, o que tem atraído a oposição de grupos religiosos fundamentalistas.

Ver também[editar | editar código-fonte]

Notas

  1. Evangélicos são cristãos que acreditam na centralidade da conversão ou do renascimento no recebimento da salvação; eles acreditam na autoridade da Bíblia como palavra revelada de Deus para a humanidade e possuem um forte compromisso com a evangelização, ou seja, a partilha da mensagem de Cristo.

Referências

  1. «Protestantismo Histórico». Consultado em 06 Dez. 2016.  Verifique data em: |acessodata= (ajuda)
  2. «Infoescola: Protestantismo Tradicional». Consultado em 06 Dez. 2016.  Verifique data em: |acessodata= (ajuda)
  3. «Protestantismo Histórico». Consultado em 06 Dez. 2016.  Verifique data em: |acessodata= (ajuda)
  4. «Brasil Escola:História do Protestantismo». Consultado em 06 Dez. 2016.  Verifique data em: |acessodata= (ajuda)
  5. «PUC Minas:Protestantismo Histórico e Pentecostais». Consultado em 06 Dez. 2016.  Verifique data em: |acessodata= (ajuda)
  6. http://books.google.com.br/books?id=swvCVm-0OWcC&pg=PA621&lpg=PA621&dq=protestantismo+classico&source=bl&ots=EPSz_20zb0&sig=EBjucsAjsax2E8rdtB2Fjv1K1cg&hl=pt-BR&sa=X&ei=m3qZUe-pKojm9ATm4YC4Cg&ved=0CC0Q6AEwAA#v=onepage&q=protestantismo%20classico&f=false
  7. «Online Etymology Dictionary». Etymonline.com. Consultado em 19 de novembro de 2010. 
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  11. [2]
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  20. Report Examines the State of Mainline Protestant Churches. Arquivado do Report Examines the State of Mainline Protestant Churches original em 6 de novembro de 2011. The Barna Group. 7 de dezembro de 2009.
  21. Linder, Ellen W., ed. (2009). Yearbook of American & Canadian Churches 2009. Nashville, Tennessee: Abingdon Press. ISBN 978-0-687-65880-0. ISSN 0195-9034.
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  23. Leonhardt, David. "Faith, Education and Income". Economix. The New York Times. 13 de maio de 2011.
  24. Hacker, Andrew (1957). "Liberal Democracy and Social Control". American Political Science Review. 51 (4): 1009–1026. doi:10.2307/1952449. JSTOR 1952449.
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